​O Salão de Cristal da Fundação Lâfrer estava transformado. Cortinas de veludo roxo e luzes de neon lilás criavam uma atmosfera de mistério. O Baile de Máscaras anual era a única noite em que as patentes eram deixadas na porta e a elite militar se misturava sob o disfarce de sedas e rendas.

​Hadjha entrou no salão usando uma máscara metálica minimalista, que cobria apenas a metade superior de seu rosto, realçando o fogo de seus cabelos ruivos. Ela não queria estar ali, mas precisava de uma última resposta.

​Do outro lado do salão, uma figura em um vestido de seda azul-profundo chamou sua atenção. A máscara de porcelana branca, adornada com detalhes em prata, era delicada, mas os olhos azuis por trás dela eram inconfundíveis. Mellysa Valentine tentava passar despercebida, mas sua elegância a denunciava.

​A música clássica, remixada com batidas eletrônicas, preenchia o ambiente. Hadjha caminhou calmamente, cortando a multidão como um torpedo silencioso, até parar atrás da mulher de azul.

​— Dizem que as máscaras servem para esconder quem somos — Hadjha sussurrou no ouvido de Mellysa, a voz rouca enviando um arrepio visível pela espinha da médica. — Mas eu acho que elas nos dão coragem para mostrar o que realmente sentimos.

​Mellysa não se virou de imediato. Seus ombros ficaram tensos.

— Você não deveria estar aqui, Hadjha. Nós temos um acordo de distância profissional.

​— No modo de segurança, talvez. Mas hoje não há patentes. Não há uma Lâfrer e uma Valentine. Há apenas duas pessoas em um salão — Hadjha estendeu a mão, enluvada em couro fino. — Me concede esta dança, ou vai fugir de novo como fez no jardim?

​Mellysa hesitou. Ela olhou para a mão de Hadjha e depois para os olhos cinzas que brilhavam através do metal. Contra todos os seus princípios, contra cada fibra de sua "bússola moral", ela colocou a mão sobre a de Hadjha.

​Elas se moveram para o centro da pista. No início, a dança era mecânica, mantendo a distância necessária. Mas a gravidade entre as duas era forte demais. Hadjha puxou Mellysa para mais perto, as mãos firmes em sua cintura, enquanto Mellysa apoiava as mãos nos ombros da ruiva.

​— Por que você luta tanto contra isso? — Hadjha perguntou, as vozes abafadas pela música ao redor.

​— Porque eu tenho uma vida planejada, Hadjha! — Mellysa respondeu, a voz carregada de uma angústia contida por trás da porcelana. — Eu vim de uma família que espera que eu seja a médica perfeita, que se case com um homem de boa família, que siga as regras. O que eu sinto quando você me toca... isso destrói todos os pilares que me sustentam. É errado para eles. É errado para o que eu aprendi.

​— O que é errado, Mellysa? Salvar vidas juntas? Sentir o coração disparar quando a outra entra na sala? — Hadjha aproximou o rosto, as máscaras quase se tocando. — Você prefere viver uma mentira perfeita ou uma verdade complicada?

​Mellysa fechou os olhos, a respiração ficando errática.

— Eu prefiro... não ter que escolher.

​— Tarde demais. Você já escolheu no momento em que não soltou a minha mão — Hadjha deslizou a mão pela nuca de Mellysa, os dedos roçando a pele exposta.

​Nesse momento, uma luz forte de busca varreu o salão, e a música parou abruptamente. No palco, Dhorwack Lâfrer, sem máscara e com uma expressão sombria, tomou o microfone.

​— Peço a atenção de todos. O baile acabou. Recebemos um relatório de inteligência. A sabotagem no transporte de Elowen não foi apenas externa. Tivemos um vazador de dados dentro da enfermaria.

​O salão explodiu em murmúrios. Hadjha sentiu o corpo de Mellysa enrijecer por completo. Mellysa deu um passo atrás, o pânico voltando a dominar seus olhos azuis.

​— Alguém usou as credenciais da Dra. Valentine para enviar as coordenadas do voo para os rebeldes — Dhorwack continuou, seus olhos escaneando a multidão até pararem na figura em azul.

​A máscara de Mellysa parecia estar prestes a rachar. Ela olhou para Hadjha, e depois para Dhorwack. O momento de romance havia sido esmagado pela realidade brutal da Fundação.