O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
9 CAPÍTULO 9: Frequência Cardíaca
O silêncio hostil da enfermaria foi estraçalhado pelo som agudo do monitor cardíaco de Elowen. O bipe rítmico e calmo subitamente se transformou em um grito contínuo e estridente.
— Elowen! — Mellysa largou os frascos que organizava e correu para o leito da tenente.
Hadjha, que já estava na porta para sair, girou nos calcanhares. O instinto de proteção Lâfrer falou mais alto que o orgulho ferido. Ela viu Mellysa empalidecer enquanto checava as pupilas de Elowen.
— Ela está tendo uma embolia gasosa? Não... o sistema de suporte de vida travou! — Mellysa gritou, as mãos tremendo enquanto tentava resetar o console manual. — Hadjha, o sistema não responde aos meus comandos! A pressão intracraniana dela está subindo, eu preciso drenar, mas a maca automática não inclina!
Hadjha saltou sobre a bancada, conectando seu visor tático diretamente à entrada de dados da UTI.
— O software de suporte foi infectado por um resquício do vírus dos drones, Mellysa! Ele bloqueou os comandos médicos. Eu não consigo destravar por fora!
— Eu não tenho tempo para software! — Mellysa gritou, e por um segundo, a frieza profissional desapareceu, revelando o desespero. — Se eu não fizer o procedimento nos próximos sessenta segundos, ela vai ter um dano cerebral irreversível! Hadjha, me ajuda!
Hadjha olhou para o console travado e depois para Mellysa. A médica estava em frangalhos, o suor brotando na testa, lutando contra os próprios princípios para pedir ajuda à mulher que ela estava tentando deletar da mente.
— Afasta! — Hadjha comandou. Ela arrancou a placa de metal do console, expondo os fios. — Mellysa, eu vou fazer um bypass manual nos servomotores da maca. Quando eu der o sinal, você faz a drenagem. Esquece o sistema, foca na paciente!
Hadjha mergulhou as mãos nos circuitos, ignorando as faíscas que saltavam. Seus dedos voavam, fazendo conexões diretas.
— AGORA!
Mellysa não hesitou. Com a maca finalmente inclinada pela força bruta da engenharia de Hadjha, ela inseriu a agulha de alívio com uma precisão que desafiava o próprio pânico. O bipe do monitor começou a desacelerar, voltando ao ritmo normal.
O silêncio retornou à sala, pesado e denso. Mellysa desabou em um banco ao lado da cama de Elowen, as mãos ainda sujas de antisséptico, cobrindo o rosto. Hadjha continuou de pé junto ao console destruído, a respiração ofegante, as pontas dos dedos chamuscadas pela eletricidade.
— Você salvou a vida dela. De novo — Hadjha disse, a voz rouca.
Mellysa tirou as mãos do rosto. Ela olhou para Hadjha, e por um breve momento, a frieza tentou voltar, mas seus olhos estavam úmidos. O conflito interno estava estampado em sua face: a gratidão lutando contra o medo de seus próprios sentimentos.
— Nós salvamos — Mellysa corrigiu, a voz minúscula. Ela se levantou, cruzando os braços como se estivesse protegendo a si mesma. — Mas isso não muda nada, Hadjha. O que aconteceu no jardim... o que eu sinto quando você chega perto... isso não está certo. Eu fui criada para ser uma coisa, para seguir um caminho. Eu não posso deixar você bagunçar a minha bússola moral.
Hadjha deu um passo à frente, mas parou quando viu o recuo físico de Mellysa.
— Sua bússola está apontando para o Norte errado, Mellysa. Você prefere uma ordem mentirosa a uma verdade que te assusta.
— Talvez — Mellysa respondeu, recuperando a postura gélida, embora seus lábios ainda tremessem levemente. — Mas é a única ordem que eu conheço. Por favor... saia daqui. Preciso monitorar a Elowen. A sós.
Hadjha saiu, mas desta vez ela não sentia apenas raiva. Ela sentia que, cada vez que o "aço" e o "vidro" se tocavam em uma emergência, a resistência de Mellysa ficava um pouco mais frágil.
MAIS TARDE...
Elowen abriu os olhos lentamente. Ela viu Mellysa sentada ao seu lado e depois olhou para o console destruído. Um sorriso fraco surgiu em seus lábios pálidos.
— Vocês duas... — Elowen sussurrou. — Fazem um estrago enorme quando tentam se salvar.
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