O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
3 CAPÍTULO 3: Fissuras na Armadura
A brisa da noite no Setor 9 era gélida, mas a temperatura na varanda do Salão Principal parecia ainda mais baixa. Hadjha Lâfrer apertava as mãos no corrimão de aço, os nós dos dedos brancos. A imagem de Mellysa, com os olhos azuis cheios de uma fúria justa e magoada, estava gravada atrás de suas pálpebras. Covarde. Mimada. Autodestrutiva.
— Eu sabia que te encontraria aqui. Fugindo do cerco, como sempre.
Hadjha congelou. Era a voz dela. Mais calma agora, mas despida de qualquer calor. Mellysa Valentine parou a alguns metros de distância, a silhueta emoldurada pela luz fraca da lua. Ela não usava o vestido de gala, apenas seus scrubs navy, como se o jantar oficial fosse apenas mais um turno de trabalho para o qual ela não tinha energia emocional.
— Eu não estou fugindo — Hadjha disse, sem se virar. — Estou recalibrando meus pensamentos.
Mellysa soltou uma risada seca, um som que quebrou o silêncio da noite.
— "Recalibrando". Claro. Mais códigos. — Mellysa deu dois passos à frente, parando ao lado de Hadjha, mas olhando para o horizonte negro da Fundação. — A avó Hadassa me disse para vir te "acalmar". Ela acha que eu tenho jeito com animais ariscos.
Hadjha finalmente virou o rosto. O orgulho Lâfrer, o "ferro" que a sustentava, tentou subir, mas as barreiras que Mellysa havia destruído no laboratório ainda estavam caídas. Seu rosto, geralmente uma máscara de indiferença, exibia fissuras.
— Eu... — A voz de Hadjha falhou, algo que raramente acontecia. Ela respirou fundo, forçando as palavras para fora, como se estivesse processando um algoritmo pesado. — Eu não queria fritar seus sensores. Eu só precisava ter certeza de que o canhão estava pronto.
Mellysa virou-se para ela. Seus olhos azuis, que geralmente transmitiam empatia, estavam agora emoldurados por olheiras e uma rigidez defensiva. O "vidro" da Mellysa estava de pé, endurecido e perigoso.
— O canhão está pronto, Hadjha. Mas você não. Você ignora ordens médicas, coloca sua saúde em risco e depois cospe na única pessoa que foi contratada para te manter viva. Seus pedidos de desculpas técnicos não me servem de nada.
— Eu não estou pedindo desculpas técnicas — Hadjha disse, sua voz ganhando uma urgência incomum. — Eu estou dizendo que... o que você disse no laboratório...
— Eu disse a verdade — Mellysa interrompeu, a voz gelada. — E a verdade é que eu não tenho tempo para o seu ego, Lâfrer. Eu não vim aqui para me tornar sua amiga, ou sua inimiga, ou sua psicóloga. Eu vim para fazer meu trabalho. Se você não me respeita, me deixe fazer meu trabalho longe de você.
Hadjha paralisou. Mellysa não estava dando espaço. Não havia o conforto do perdão ou a suavidade da reconciliação. A médica estava demarcando território, devolvendo a hostilidade em forma de profissionalismo impiedoso.
Pela primeira vez em anos, Hadjha sentiu que o silêncio estava gritando dentro dela. Ela olhou para Mellysa, para a rigidez de sua postura, para a barreira emocional que a médica havia construído. Hadjha percebeu, com um choque de realidade, que não era a única que sabia como construir fortalezas.
— Eu... eu aceito — Hadjha sussurrou, a voz quase inaudível.
Mellysa deu um sorriso sem humor.
— Você "aceita"? Isso não é um contrato de fornecimento de peças, Hadjha. É respeito básico.
Mellysa deu as costas, o scrubs navy misturando-se com a escuridão. Hadjha ficou sozinha, os olhos cinzas cheios de um entendimento doloroso. Ela havia tentado consertar as coisas com as ferramentas antigas, mas o "vidro" da Mellysa Valentine havia se quebrado e, ao quebrar, revelado bordas afiadas demais para serem manuseadas com grosseria.
No Setor 9, a brisa continuava gelada, e a "Filha do Aço" finalmente entendeu que o aço pode até resistir a explosões, mas às vezes, a menor das fissuras é o suficiente para quebrar a estrutura inteira.
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