O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
1 CAPÍTULO 1: O Pior Dia e a Primeira Impressão A Fundação L
não perdoava erros. Naquela manhã, um exercício tático no Setor 7 havia custado a Hadacsa um de seus drones de reconhecimento mais avançados. O drone, carinhosamente apelidado de "Sombra", foi abatido por uma falha de script que Hadacsa — em um momento raro de distração — esqueceu de revisar. O sermão de seu bisavô, Richard, ecoou pelo hangar por horas.
Hadjha Lâfrer estava em seu pior dia. A dor de cabeça era uma martelada rítmica atrás de seus olhos. Seus dedos voavam sobre o teclado holográfico, o visor tático enviando avisos de sobrecarga de dados. Ela parecia uma Deusa do Aço, mas por dentro, era apenas uma garota exausta.
Foi nesse exato momento que a porta do centro de controle se abriu, e Mellysa Valentine, impecável em seus scrubs navy, entrou, guiada por Maya.
— Mellysa Valentine, esta é a Hadjha — Maya anunciou, com um sorriso de que quem estava prestes a jogar um balde de água fria em um vulcão. — Hadjha, a Mellysa é a nossa nova médica residente. O Lucas está em uma missão na Sibéria e ela ficará responsável pela saúde tática da sua equipe.
Hadjha parou de digitar, mas não tirou os olhos da tela.
— Você está brincando, mãe. Eu tenho uma ressonância do Sombra para rodar, uma depuração de código de dez milhões de linhas e uma dor de cabeça que está me matando. Eu não tenho tempo para babás médicas.
Maya suspirou, um som mecânico e humano ao mesmo tempo.
— Hadjha, os protocolos da fundação exigem um oficial médico presente. É isso ou você fica no hangar limpando rastro de tanque analógico. Elowen mandou avisar que se você não aceitar, ela mesma te prende na sala médica.
Hadjha finalmente virou a cadeira. O visor tático estava descarregado, e Mellysa viu, pela primeira vez, os olhos cinzas dela de perto. Estavam injetados, a base do crânio pálida onde os filamentos neurais se conectavam. A beleza dela era inegável, mas a aura era de pura hostilidade.
Mellysa, que havia passado os últimos três anos lidando com pacientes de trauma em zonas de guerra, não se intimidou. Ela deu um passo à frente, com a mão estendida.
— Prazer, Hadjha. Eu sou a Dra. Valentine. Se a sua dor de cabeça é o que eu acho que é, eu posso...
— "Doutora"? — Hadjha soltou uma risada que era mais um escárnio. Ela ignorou a mão estendida e olhou para Maya. — Mãe, ela é uma criança. Ela acabou de sair da faculdade. Eu não quero uma residente mexendo no meu sistema nervoso central. O Sombra caiu por causa de uma falha de código. Eu preciso de engenheiros, não de uma "médica-modelo" com cheiro de antisséptico.
Mellysa recuou a mão, o rosto queimando, mas a postura firme.
— Minhas credenciais estão...
— Eu não quero saber das suas credenciais! — Hadjha gritou, a frustração finalmente explodindo. — Eu quero que você saia do meu centro de controle! Eu não preciso de cura! Eu preciso de silêncio e eficiência, e você não me oferece nenhum dos dois. Vai achar alguém que precise de vacina, Dra. Valentine. Eu tenho trabalho de verdade para fazer.
Maya colocou a mão no ombro de Hadjha, mas já era tarde. Mellysa Valentine, com o orgulho ferido e a dignidade intacta, virou-se e saiu da sala sem dizer mais nada.
Hadjha virou-se para a tela, mas as letras estavam embaçadas pela raiva. Ela havia cometido um erro profissional e agora, em sua fúria, havia cometido um erro pessoal. Mas a "teimosia Lâfrer" era um código difícil de quebrar.
DUAS HORAS DEPOIS...
O jantar na Fundação Lâfrer era uma tradição que Hadjha odiava. A mesa de carvalho maciço era enorme, mas as conversas pareciam um cerco tático. Richard, Thomas, a avó Hadassa e, claro, Dhorwack Lâfrer, que já estava sentado, com o braço mecânico descansando sobre a mesa, impecável.
No momento em que o celebrante (Richard) ia falar, a porta se abriu e Elowen Styles, a loira militar, a noiva de Dhorwack, entrou. Ela trazia consigo uma aura de autoridade e perigo. Dhorwack sorriu — um sorriso que raramente dava — e levantou-se para puxar a cadeira para ela.
— Desculpem o atraso — Elowen disse, a voz como um tiro certeiro. — Estava terminando o relatório de danos do Setor 7. Parece que perdemos um Sombra hoje.
O silêncio caiu sobre a mesa. Hadjha apertou o garfo com tanta força que o aço rangeu.
— Um Sombra? — Thomas perguntou, a voz de pai decepcionado. — Hadjha, o que aconteceu?
— Um erro de script — Hadjha respondeu, a voz oca. — Eu já estou depurando.
Richard deu uma risada rouca da ponta da mesa.
— Depurando? O que você precisa é de um médico, minha neta. Você está com a cara de quem foi hackeada.
— Ela está com cara de quem precisa de um namorado, Richard! — a avó Hadassa exclamou, com uma alegria que fazia Hadjha querer grudar os dentes.
— Sim! Quando será que a Hadjha Lâfrer vai arrumar alguém? — Thomas provocou, o sorriso de pai que adora ver a filha brava. — Dhorwack já garantiu o legado com a Elowen. E você? O próximo Sombra vai ser abatido pelo quê? Pelo Cupido?
Dhorwack deu uma risada abafada ao lado de Elowen. Elowen olhou para Hadjha e deu um sorriso de canto, como quem diz: "Eles têm razão".
Hadjha sentiu o sangue ferver. A raiva profissional se misturou com a raiva pessoal. Ela olhou para a mesa, para os rostos de Richard, Thomas e Hadassa, todos rindo. E para Dhorwack, que agora estava com o braço mecânico sobre os ombros de Elowen.
A "Filha do Aço" se levantou, o garfo caindo no prato com um som metálico que quebrou a risada.
— Com licença — ela disse, a voz baixa, gelada e perigosa.
Ela se virou e saiu do salão de jantar, com as passadas rápidas e firmes de um soldado prestes a começar uma guerra. Ela não ia namorar. Ela não ia arrumar ninguém. E ela ia provar que não precisava de ninguém — muito menos de uma Dra. Mellysa Valentine — para consertar o que estava quebrado.
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