O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
2 CAPÍTULO 2: O Limite da Paciência
Mellysa Valentine não era de perder a compostura. Ela havia sido treinada para manter o batimento cardíaco estável enquanto costurava feridas sob fogo de artilharia. Mas Hadjha Lâfrer não era uma zona de guerra; ela era um buraco negro que sugava toda a cortesia e profissionalismo de Mellysa.
Naquela tarde, Hadjha havia cruzado uma linha perigosa. Ela ignorou as ordens médicas de repouso após a sobrecarga neural e tentou recalibrar um canhão de pulso pesado sozinha. O resultado? Uma descarga de energia que não a feriu gravemente, mas fritou os sensores médicos que Mellysa havia instalado com tanto cuidado.
Mellysa entrou no laboratório como um furacão. Hadjha estava sentada no chão, limpando fuligem do braço, com aquela expressão de tédio que fazia os dentes de Mellysa rangerem.
— Você tem ideia do que acabou de fazer? — Mellysa começou, a voz perigosamente baixa.
Hadjha nem se deu ao trabalho de olhar para cima.
— Eu salvei o capacitor, Dra. Valentine. De nada. O sensor que você colocou era lixo tecnológico, ele estava atrasando meus reflexos em 0.4 milissegundos.
Hadjha se levantou, limpando a calça militar e passando por Mellysa como se ela fosse um móvel.
— Agora, se me der licença, eu tenho um jantar oficial para aguentar e não tenho tempo para suas palestras sobre "autocuidado". Vá cuidar do meu irmão e da noiva perfeita dele. Eles adoram seguir regras.
Foi o estalo. Mellysa largou o tablet médico na bancada com um estrondo que ecoou por todo o hangar. Ela bloqueou a saída de Hadjha, plantando-se na frente da herdeira ruiva.
— CHEGA! — O grito de Mellysa fez os soldados na porta pararem. — Você vai me ouvir agora, sua garota mimada e autodestrutiva!
Hadjha paralisou, o choque de ser interrompida finalmente fazendo-a focar nos olhos azuis de Mellysa, que agora brilhavam com uma fúria gélida.
— Você acha que é a única que sofre pressão aqui? Você acha que é "especial" porque se esconde atrás de códigos e grosseria? — Mellysa deu um passo à frente, forçando Hadjha a recuar. — Você trata todo mundo como se fosse descartável, como se fôssemos apenas bugs no seu sistema perfeito. Mas quer saber a verdade? Você não é uma deusa do aço. Você é uma covarde!
— Como você ousa... — Hadjha tentou rosnar, mas Mellysa não parou.
— Eu ouso porque sou a única que não tem medo de você! Você maltrata a mim, maltrata sua mãe e ignora sua família porque é mais fácil ser odiada do que admitir que está morrendo de medo de não ser tão boa quanto as lendas que vieram antes de você! — Mellysa apontou para o peito de Hadjha. — Você se entope de trabalho para não ter que lidar com o vazio que sente quando as máquinas desligam. Você é patética, Hadjha. Grita com o mundo para que ninguém perceba que você está gritando por socorro por dentro!
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Hadjha estava estática, a respiração pesada, os punhos cerrados. Pela primeira vez, ela não tinha uma resposta ácida. As palavras de Mellysa haviam atravessado o firewall.
— Eu não sou sua babá e não sou seu saco de pancadas — Mellysa finalizou, pegando suas coisas. — Se você quer se destruir, faça isso longe da minha vista. Eu vim aqui para salvar vidas, não para alimentar o ego de uma herdeira que se recusa a crescer.
Mellysa saiu do laboratório sem olhar para trás, deixando Hadjha sozinha com o zumbido das máquinas e o peso esmagador daquelas verdades.
MAIS TARDE, NO SALÃO PRINCIPAL...
O clima para o jantar oficial estava tenso. Dhorwack e Elowen Styles estavam em um canto, conversando com generais. Elowen estava deslumbrante em um vestido de gala que parecia uma armadura de seda, e Dhorwack exibia sua postura impecável.
Quando Hadjha entrou no salão, ela estava diferente. Mais silenciosa. Seus olhos procuraram Mellysa no fundo da sala, mas a médica estava conversando com a avó Hadassa, ignorando completamente a presença da ruiva.
Thomas se aproximou de Hadjha, rindo.
— Então, Hadjha? O próximo Sombra vai ser abatido por um namorado ou vamos ter que contratar um guarda-costas para te carregar até o altar?
Hadjha olhou para o pai, depois para Dhorwack e Elowen, que a observavam com sorrisos de "perfeição". Ela sentiu a raiva subir, mas desta vez, as palavras de Mellysa ecoaram: "Você grita com o mundo para que ninguém perceba que está gritando por socorro."
Pela primeira vez em anos, Hadjha Lâfrer não respondeu. Ela apenas virou as costas para o pai e caminhou em direção à varanda, deixando a família confusa e o "perfeito" Dhorwack trocando olhares intrigados com sua noiva.
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