​Mellysa Valentine não era de perder a compostura. Ela havia sido treinada para manter o batimento cardíaco estável enquanto costurava feridas sob fogo de artilharia. Mas Hadjha Lâfrer não era uma zona de guerra; ela era um buraco negro que sugava toda a cortesia e profissionalismo de Mellysa.

​Naquela tarde, Hadjha havia cruzado uma linha perigosa. Ela ignorou as ordens médicas de repouso após a sobrecarga neural e tentou recalibrar um canhão de pulso pesado sozinha. O resultado? Uma descarga de energia que não a feriu gravemente, mas fritou os sensores médicos que Mellysa havia instalado com tanto cuidado.

​Mellysa entrou no laboratório como um furacão. Hadjha estava sentada no chão, limpando fuligem do braço, com aquela expressão de tédio que fazia os dentes de Mellysa rangerem.

​— Você tem ideia do que acabou de fazer? — Mellysa começou, a voz perigosamente baixa.

​Hadjha nem se deu ao trabalho de olhar para cima.

— Eu salvei o capacitor, Dra. Valentine. De nada. O sensor que você colocou era lixo tecnológico, ele estava atrasando meus reflexos em 0.4 milissegundos.

​Hadjha se levantou, limpando a calça militar e passando por Mellysa como se ela fosse um móvel.

— Agora, se me der licença, eu tenho um jantar oficial para aguentar e não tenho tempo para suas palestras sobre "autocuidado". Vá cuidar do meu irmão e da noiva perfeita dele. Eles adoram seguir regras.

​Foi o estalo. Mellysa largou o tablet médico na bancada com um estrondo que ecoou por todo o hangar. Ela bloqueou a saída de Hadjha, plantando-se na frente da herdeira ruiva.

​— CHEGA! — O grito de Mellysa fez os soldados na porta pararem. — Você vai me ouvir agora, sua garota mimada e autodestrutiva!

​Hadjha paralisou, o choque de ser interrompida finalmente fazendo-a focar nos olhos azuis de Mellysa, que agora brilhavam com uma fúria gélida.

​— Você acha que é a única que sofre pressão aqui? Você acha que é "especial" porque se esconde atrás de códigos e grosseria? — Mellysa deu um passo à frente, forçando Hadjha a recuar. — Você trata todo mundo como se fosse descartável, como se fôssemos apenas bugs no seu sistema perfeito. Mas quer saber a verdade? Você não é uma deusa do aço. Você é uma covarde!

​— Como você ousa... — Hadjha tentou rosnar, mas Mellysa não parou.

​— Eu ouso porque sou a única que não tem medo de você! Você maltrata a mim, maltrata sua mãe e ignora sua família porque é mais fácil ser odiada do que admitir que está morrendo de medo de não ser tão boa quanto as lendas que vieram antes de você! — Mellysa apontou para o peito de Hadjha. — Você se entope de trabalho para não ter que lidar com o vazio que sente quando as máquinas desligam. Você é patética, Hadjha. Grita com o mundo para que ninguém perceba que você está gritando por socorro por dentro!

​O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Hadjha estava estática, a respiração pesada, os punhos cerrados. Pela primeira vez, ela não tinha uma resposta ácida. As palavras de Mellysa haviam atravessado o firewall.

​— Eu não sou sua babá e não sou seu saco de pancadas — Mellysa finalizou, pegando suas coisas. — Se você quer se destruir, faça isso longe da minha vista. Eu vim aqui para salvar vidas, não para alimentar o ego de uma herdeira que se recusa a crescer.

​Mellysa saiu do laboratório sem olhar para trás, deixando Hadjha sozinha com o zumbido das máquinas e o peso esmagador daquelas verdades.

​MAIS TARDE, NO SALÃO PRINCIPAL...

​O clima para o jantar oficial estava tenso. Dhorwack e Elowen Styles estavam em um canto, conversando com generais. Elowen estava deslumbrante em um vestido de gala que parecia uma armadura de seda, e Dhorwack exibia sua postura impecável.

​Quando Hadjha entrou no salão, ela estava diferente. Mais silenciosa. Seus olhos procuraram Mellysa no fundo da sala, mas a médica estava conversando com a avó Hadassa, ignorando completamente a presença da ruiva.

​Thomas se aproximou de Hadjha, rindo.

— Então, Hadjha? O próximo Sombra vai ser abatido por um namorado ou vamos ter que contratar um guarda-costas para te carregar até o altar?

​Hadjha olhou para o pai, depois para Dhorwack e Elowen, que a observavam com sorrisos de "perfeição". Ela sentiu a raiva subir, mas desta vez, as palavras de Mellysa ecoaram: "Você grita com o mundo para que ninguém perceba que está gritando por socorro."

​Pela primeira vez em anos, Hadjha Lâfrer não respondeu. Ela apenas virou as costas para o pai e caminhou em direção à varanda, deixando a família confusa e o "perfeito" Dhorwack trocando olhares intrigados com sua noiva.