O Céu de Calebe
4 Caçado
Mais um novo dia se seguiu. Segunda todas as crianças iam para a escola, mas eu ficava lá apenas por duas horas e depois, no intervalo, vagava sem rumo para a campina pensativo, longe dos olhares acusatórios das crianças que viviam me perseguindo. Nunca havia me sentindo tão lisonjeado por ser odiado daquela forma, claro que estou sendo sarcástico. Ainda mais eu, que na época, o que mais queria era ter amigos.
— Vejam! — falou uma das pestes que me seguiram até a campina. — O animal está mostrando suas origens, tá mostrando o que percorre no seu sangue...! — e uma das meninas começou a rir junto dos outros que riam, menos uma. A "boa samaritana" me olhava com pena e encarava seu líder com raiva, mas o que ela poderia fazer?
— Ei... Túlio! — chamou uma criança, o capanga dele. — Falando em "sangue" que cor será a cor dessa raça?
Túlio me olhou com um pouco de cinismo e malignidade. Já entendi que era uma boa hora pra correr. Mas aguardei o que ou como fariam aquilo comigo.
— Verdade, Charlie. — falou fingindo refletir, ele era um palhaço naquelas roupas em que ele usava. — Como será? Quem quer descobrir?! — perguntou erguendo uma lâmina que havia tirado do seu cinto, quando é que crianças podiam carregar armas?!
Mundo louco em que vim parar...
Eu me levantei e fui indo cauteloso para trás. De repente Charlie sorri diabolicamente e pega uma pedra do chão. E taca em mim, na hora eu consegui desviar, mas não pela outra que ele jogou. Rasgou o canto do meu olho. Limpei o sangue na hora e não deu tempo de verem a cor. Só sei que quando Túlio gritou: "Atacar!" — eu saí correndo como um javali quando vê o predador se aproximando. Pude sentir as pedras encontrando minhas vértebras e pernas.
Eles corriam atrás de mim como se eu fosse um coelho ou um sapo, pronto pra ser aberto e descobrirem meus membros. O que é engraçado já que meu corpo e o deles são iguais. O sangue é mais escuro porque, de acordo com minha mãe, carrega coisas boas para que fiquemos forte e protegidos do frio do Inverno, como da neve. Posso mergulhar hoje num lago quase congelado que meu corpo não teria nenhum colapso, posso escalar uma montanha usando apenas pele de lobo ou de carneiro pra me aquecerem que não morreria de frio. Diferente, muito diferente, daqueles que convivem comigo.
Outra coisa engraçada que pensei naquele momento: Não era pra eu caça-los? Por que estou correndo, fugindo feito um louco ou como uma presa pra longe deles?
Simples, porque minha mãe havia me feito prometer pra nunca, jamais, na minha vida causar problemas pra nossa família. Ela pediu também pra Yamar prometer e prometemos. E eu, naquela hora, estava fazendo o máximo de esforço pra conseguir aquilo.
Até que não deu mais...
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