O Brilho da Honra
22 Vis estratagemas
Notas iniciais

Com expressão aparvalhada, Derrick mirava pausadamente cada um dos homens que haviam invadido sua casa ao fim daquela que fora a melhor noite de sua vida. Um sorriso nervoso, ainda que sutilmente pronunciado, nasceu com a pertinente pergunta que ousou fazer:
— O que estão dizendo? Que querem raptar o Cavaleiro de Ouro, a quem chamam de “Herói do Gelo”? Para que nem me interessa saber, o que eu gostaria de saber é por que acham que EU posso ser útil nessa empreitada. Como acham que vou ajudá-los nisso? O cara tem PODERES!
— Assim como o teu AMANTE, meu caro – cortou Kulaita, seco e direto.
O rapaz mordeu o lábio inferior, aflito. Não lhe agradavam aquelas menções a Surtr.
— O teu amante é como o Mago do Gelo, um guerreiro que luta por um deus poderoso, e que dele recebe dons incomuns, inacessíveis a homens simples como eu e você. Ele pode te ajudar. Ambos serão como príncipes em nosso país se nos ajudarem a pôr as mãos no Cavaleiro.
— Acontece que... – malgrado seu esforço em manter-se firme diante dos criminosos, a voz de Sirham tremeu – o meu... “amante”... é amigo do Cavaleiro. Mais do que isso, ele... ele GOSTA MUITO do Mago do Gelo. Não tem como ele colaborar com isso.
— Nem mesmo por poder e glória inimagináveis? – seu tio tentou não parecer tão autoritário então, optando até por parecer mais amistoso.
— Eu creio que não – reafirmou o recepcionista, com sinceridade – como posso propor a ele que colabore com o sequestro do homem que ama? Mesmo que Camus tenha rejeitado Surtr, eu duvido que ele vá querer que o cretino se machuque ou...
— E quem disse que queremos machucar o Cavaleiro? – interveio um dos intrusos, gesticulando com um copo de vodca na mão.
Agora Derrick ficou realmente confuso.
— Não querem? Mas… então...
— Não temos a menor intenção de ferir o rapaz, muito pelo contrário – volveu Kulaita – precisamos dele vivo e BEM.
O jovem piscou seguidas vezes; nem todas conjecturas possíveis de permear seu bom raciocínio dariam conta do porquê de uma organização terrorista e separatista — que lograra até formar sua própria nação! – queriam o Santo de Aquário. E ele tampouco queria perguntar.
— Vocês não têm que trazer o guerreiro amarradinho e dominado para nós. Basta que facilitem nosso trabalho de alguma forma. Ele é muito poderoso e nunca, nem com todo nosso armamento, seremos capazes de pegá-lo. Mas você é íntimo de um homem igualmente poderoso, que por sua vez é íntimo do homem que queremos – Kulaita esclarecia, sorvendo lentamente o excelente uísque doze anos servido pelo sobrinho.
— Eu não diria que Surtr é “íntimo” de Camus... sei que foram amigos na infância, mas... – ponderava, ele mesmo se servindo de uma generosa dose para domar os nervos.
— Bom, se há uma ponte entre NÓS e Aquário... essa ponte são vocês dois, meu sobrinho.
Derrick virou a bebida mais rápido do que tencionara. Considerava o que ouvia, mais calmo agora.
— Você disse que Surtr e eu teríamos “poder e glória inimagináveis” se os ajudássemos nisso. O que exatamente isso quer dizer? – indagou, encarando o tio de frente.
Kulaita sorriu sinistramente. Respondeu:
—Sobrinho… Shamallah, no atual, e se os deuses permitirem, permanente estado, é o maior produtor mundial de diamantes. A nação que estamos construindo caminha para o topo da comunidade internacional porque, em nossas mãos, suas riquezas NÃO se escoarão pelos dutos rumo aos bolsos dos corruptos gananciosos. Aniquilamos os porcos exploradores, e nosso povo... nosso país... vai ascender. Precisará de aparato humano e inteligência. Precisará de LÍDERES que os governem – brandiu o copo brilhante na direção de Derrick – É aí que podem entrar VOCÊ e seu amigo Surtr...
Aquelas palavras orbitaram em sua mente, moldada a acreditar que algo grandioso o esperava no futuro.
“Poderia ter o mundo a seus pés”, quantas vezes não lhe disseram essas palavras?
Acostumara-se àquela doce crença.
Voltou-se para o tio, aparentando serenidade.
— Eu preciso falar com Surtr. Terá que me dar um tempo.
— Naturalmente, meu sobrinho! – desta vez, deu-lhe cordiais tapinhas nas costas, terminando por abraçá-lo. Derrick lembrou-se da “gravata” e estremeceu involuntariamente – Uma empreitada tão audaciosa como essa não será efetuada de um dia para o outro. Entretanto, não tenho como dar mais que uma semana a vocês, afinal, a Conferência da ONU acabará em 10 dias, e nosso alvo voltará para o Santuário na Grécia.
— Eu entendo – respondeu o jovem, assentindo com a cabeça.
— Eu espero que tenhamos um acordo, então.
— Não me surpreenderia se eu não tivesse direito a isso, mas... posso saber por que querem tanto o Santo de Ouro?
— Derrick, Derrick... tudo a seu tempo – ele caminhou na direção dos companheiros, que se puseram de pé – quando aceitar seu destino como um dos “príncipes” de Shamallah, saberá... por ora, garanto que nosso interesse nele é por um ideal nobre e justo. A integridade física do rapaz do gelo está completamente garantida... também ele será um “príncipe”.
— Um... príncipe?
— O Príncipe do Gelo – disse um deles, quase reverente. Os demais balançaram a cabeça em concordância.
Ainda atônito, Sirham viu os homens depositarem na mesa de centro os copos vazios, e se dirigirem para a porta, enquanto recolocavam suas toucas. Kulaita virou para ele, antes de cobrir seus cabelos muito pretos com a touca de igual cor.
— Pense bem, meu sobrinho. Seu pai teria orgulho de você. Ele estaria aqui, se não fosse por uma emboscada propiciada por um traidor em nosso meio. Foi quando tentamos derrubar o governo sujo de Angdar pela primeira vez, há 24 anos. Eu tinha apenas 13 anos, consegui escapar... mas seu pai foi feito prisioneiro dos porcos. Torturaram-no como um animal. Perdeu o braço porque gangrenou... e então foi exilado. Quando enfim conseguimos derrubar o governo de lá, Banta já havia se acostumado com a vida miserável nesta terra de colonizados e não quis mais voltar.
— Vocês... tiveram alguma coisa a ver com a morte dele?
— E se tivéssemos? Isso interferiria na sua decisão?
Derrick lembrou, em flashes, de seu pai agredindo sua mãe... batendo nele e em seus irmãos... molestando suas irmãs... Deus, as próprias filhas!
Não.
Não mesmo.
Ele balançou a cabeça, em uma negativa sucinta. Kulaita sorriu, satisfeito.
— Será bom tê-lo em meio a nossa “família”... Derrick. Isso vai garantir conforto e fartura a sua mãe e irmãos também, bem mais do que o que você tem proporcionado através de... desses seus métodos escusos. Depois poderemos até trazê-los conosco, se quiser.
Por fim, deixaram a casa após de despedirem.
Expelindo longamente o ar em um profundo alívio, Derrick deixou-se cair sobre o sofá.
O alívio logo deu lugar a um enorme peso no coração.
Como diria aquilo tudo a Surtr? O ruivo jamais concordaria com aquela loucura! Nem que passasse a odiar Camus, o que não parecia nada possível de acontecer, o entregaria de bandeja àqueles facínoras!
“Surtr vai é me ODIAR se eu propuser isso a ele!”, este pensamento provocou frio em seu estômago.
Não, logo agora que estava se entendendo com o asgardiano!
Logo agora que entendia que, sim, o amava! E que dele parecia estar obtendo algum sentimento...
“Não devo contar nada ainda. Depois de amanhã é quando executaremos o plano de separar Milo e Camus... quem sabe dê certo e Surtr, enfim, se acertará com o cara? Sim, devo esperar.”, pensava, torcendo as mãos suadas.
O plano.
De alguma forma, sabia que o desfecho de tudo dependeria do resultado daquele vil estratagema. E então... viria mais um vil estratagema.
*************
O chilrear tímido dos pássaros foi a única razão para Camus acreditar que a noite findava, pois que ainda estava escuro. Teve vontade de se espreguiçar, mas o desejo de continuar envolvido pelos braços morenos do namorado foi maior.
De costas para ele, as mechas de seus longos cabelos separavam-se na nuca, de forma que ali sentia a cálida respiração do amado. Milo ressonava suavemente. Sorrindo de leve, Camus tocou-lhe a mão sobre seu peito, acariciando-a com delicadeza. Cerrou os olhos sob total relaxamento. O calor do corpo atrás de si... oh, se pudesse, jamais, jamais se separaria dele.
Jamais.
Ouviu o grego gemer baixinho. Parecia estar acordando.
— Hum...
Parou de acariciar a mão sobre seu peito, ressentido por tê-lo despertado.
— Milo! Acordei você, não foi?
— Hum... uhn.
O escorpiano afundou seu rosto nos cabelos do amante, enviando a ele uma onda de arrepios.
— Desculpe – sussurrou o aquariano, sempre polido, voltando a fazer a carícia no namorado.
— Camus?
— Sim?...
— CAMUS? – o tom não fora manhoso como seria naquela situação, e sim surpreso. O francês estranhou um pouco aquilo.
— Sim, o que foi?
— O que está fazendo aqui? – indagou, áspero.
— Hein?
Milo afastou-se dele. Parecia... zangado.
Sem entender, Camus achou que o escorpiano pensava ter perdido a hora.
— Ainda é cedo, Milo, podemos dormir mais um...
— Saia de perto de mim, AGORA.
— O quê...?
— Você ouviu. Não acredito que teve a CORAGEM de vir deitar na minha cama!
— Milo? Do que está fa...
Sua fala foi cortada pela dor em seus braços, agarrados rudemente pelo grego, cujos olhos faiscavam de ódio.
— Ahhh! M-Milo, o que está fazendo? F-ficou louco?
— Louco ficou VOCÊ, pra se aproximar de mim assim DEPOIS DO QUE ME FEZ! – e o empurrou com violência. O francês caiu com força no chão.
— VAI EMBORA! SAI DAQUI!!!
Camus ergueu para Milo o rosto atônito. Milo ergueu-se da cama; os olhos claros cravaram-se nele, duros, repletos de desprezo.
— Não quero machucar você, Camus. Na verdade... eu QUERO, sabe? Mas não posso, sou o seu “guarda-costas”, no final das contas...
— Mi... Milo... – o aquariano se ergueu, sem compreender o que se passava.
— Vou falar só mais uma vez, Camus: SAIA DAQUI. AGORA. Ou eu não respondo por mim.
— O que foi que eu fiz? – perguntou, indo na direção do outro. Este gritou:
— Não encosta em mim!!!
Quase em choque, Camus deteve-se.
— Se encostar em mim – rosnou Milo, ameaçador – eu NÃO vou me segurar. Fodam-se as consequências. Saga... Atena até.
Por temer que o amante tivesse um ataque devido àquele nervosismo, mais que por sua própria integridade, o jovem aproximou-se mais, erguendo para ele sua mão. Então sua face foi brutalmente atingida por uma explosão de pura dor.
Sequer entendeu se fora um tapa ou um soco.
Apenas abriu a boca para deixar fluir o sangue que se avolumara em seu interior.
Tocou os próprios lábios, abismado com o que ocorrera.
Milo permaneceu impassível, nem uma réstia de culpa pelo que fizera. Fuzilava-o com o olhar frio e cortante.
— Eu avisei – limitou-se a dizer, num murmúrio raivoso.
Franzindo o cenho e balançando a cabeça incrédulo, Camus deu as costas para ele e se dirigiu para a porta do quarto. Estava nu porque haviam feito amor no dormitório de Milo. Pegaria uma roupa em seu quarto e sairia imediatamente daquele apartamento.
Ao abrir a porta exclamou, assustado.
Um homem negro, de meia idade, cabelos grisalhos, estava BEM ALI, de frente para ele, no corredor de seu flat!
— QUEM É VOCÊ? – vociferou, pelo susto.
Um par de olhos escuros como a noite, e profundos como ela.
— C-como entrou aqui...?
O homem sorriu, e algo naquele sorriso congelou a alma do guerreiro que justamente controlava o frio.
De repente, inúmeras mãos negras saíram de trás do misterioso ancião, esticando-se como sombras porém sólidas como carne. Eram quentes e ávidas; agarraram os braços, pulsos, e em seguida, os tornozelos do aquariano mudo de estupor.
— Nosso Brilho... nossa Honra... Camus de Aquário – disse o homem, a voz metálica ecoando dolorosamente nos ouvidos do Santo.
— NÃO! O que... – calou-se pelo amplexo de uma das mãos em seu pescoço, a ponto de sufocá-lo. E outra, e mais outra...
Por que Milo não o ajudava?
— Mi... Milo... – Camus fez força tanto para chamá-lo quanto para virar seu rosto na direção do amado...
... imóvel.
Insensível.
Impassível.
Não sorria. Contudo... não se importava.
Aquele semblante indiferente ao seu sofrimento dou-lhe mais que a bofetada, doeu mais que a queda no chão, os gritos de fúria, as mãos que magoavam-lhe a pele, apertando-o, puxando-o, puxando-o...
— MILO! – ao ver-se tragado para a porta, tentou mais uma vez chamar o homem que amava.
Em vão.
— Milo! Por quê?!?
Milo já ficava distante.
Não era mais dele.
Agora... Camus...
— Milo... MILO!!!
— POR ATENA, CAMUS!
— MILOOOO!!!
— ACORDA, CAMUS! ACORDA, meu amor!!!
Ele abriu os olhos, sufocado, e viu que o que o apertava mais os braços não eram mais as mãos negras, e sim as vigorosas de Milo. O grego tinha uma expressão de desespero que assustou Camus, trazendo-o de vez para a realidade.
— Milo?
— Camus… por Atena! Tá tudo bem, querido! – abraçou-o, amoroso.
— O que... o que... – balbuciou o aquariano, confuso.
— Você tava tendo um pesadelo, meu anjo. Mas não acordava... e eu não conseguia te acordar... parecia horrível!
— Milo... – e abraçou-o de volta, sentindo a garganta em chamas – eu... eu gritei?
— E COMO! Saga e Aioria só não brotaram aqui porque devem ter achando que a gente tava fodendo – riu, ainda sob certo pânico em ter visto o namorado em tamanha agonia.
Sem nada dizer, respirando pesadamente, o francês deixou-se apoiar no peito amplo do escorpiano. Este pôs-se a acariciar-lhe as costas nuas, no afã de acalmá-lo mais. Respeitou-lhe o silêncio, até que não se aguentou e perguntou-lhe, baixinho:
— Com o que você tava sonhando, amor? Parecia... um sonho bem ruim.
— Eu não lembro.
Milo sabia que era mentira.
— Você gritava por mim.
— Verdade? Acho que sim... – tentou parecer não dar maior importância mais – não me lembro...
— Camus...
Recebeu um beijo suave nos lábios que o calou prontamente.
— Foi só um sonho. Deixa isso pra lá. Desculpe por ter te acordado.
— Pelos deuses, você não tem que me pedir desculpa por isso – retrucou o grego, um tanto magoado pelo namorado se recusar a contar com o que sonhara. O francês levantou-se, como se nada tivesse acontecido.
— Vou tomar um banho, Milo.
— OK – respondeu simplesmente, sem nem ao menos tentar ir junto, como seria de se esperar.
Intrigado, Milo cobriu-se novamente com os lençóis, disposto a dormir mais um pouco. Ainda era muito cedo, o dia nem clareara...
Obviamente falhara em seu intento.
*************
Ao descerem as escadas no início do hall, Milo e Camus logo se depararam com a expressão sisuda de Saga, na área externa. A seu lado, um sorridente Aioria.
— Ai... sabia que isso aconteceria – o escorpiano revirou os olhos. E virou-se para o namorado – deixa comigo, tá? Não se estressa.
— Não estou estressado.
Milo abriu os braços, efusivo.
— Que dia bonito, né não? E aí, passaram bem a noite?
— Não tão BEM QUANTO VOCÊS – riu o leonino.
— Ei...
— Milo, Camus, por acaso vocês querem ser EXPULSOS do hotel? – o mais velho cruzou os braços, franzindo o cenho.
O francês apenas encarou-o, em silêncio. Despreocupado, o escorpiano gesticulou, ao falar:
— Olha, eu sei que vocês devem ter ouvido uns barulhos, mas...
— UNS BARULHOS? – retrucou o geminiano – Você não tem VERGONHA, Milo? Como Santo de Atena, essa atitude indecorosa mancha nossa reputação!
— O que deve estar manchada mesmo é a roupa de cama daquele quarto – gargalhou Aioria – coitada da camareira, deveria ganhar em dobro pra limpar lá!
Esquivou-se de um cascudo do escorpiano, que não desistiu; Aioria, muito esperto, escondeu-se atrás de Saga. Aquilo era covardia!...
Camus limitou-se a suspirar, abaixando a cabeça. A fala do leonino fez com que ele se lembrasse da destruição que os dois fizeram no quarto e no banheiro. Nem ligou para a cara feia do geminiano naquele momento; ela haveria de ficar BEM MAIS FEIA depois que o hotel cobrasse por aquilo, e de tudo ficasse sabendo…
— Milo, estou falando sério! – insistiu Saga, o ar severo causando sorrisinhos marotos que o cunhado nem mais tentava esconder.
— EU TAMBÉM! – rebateu o escorpiano, aproximando-se dele, quase falando-lhe ao pé do ouvido – Olha, o que você ouviu agora ao amanhecer não era o que você tá pensando... não era a gente fazendo... bom, Camus tava tendo um pesadelo.
— E quem disse que foi SÓ agora de manhã que deu pra ouvir os GRITOS de vocês?
— Hein?
Aioria estava prestes a explodir com aquela gargalhada presa. Saga virou-se para ele:
— Aioria, isso NÃO é engraçado!
— Pffff... hehe... huh, até parece... rs...
— Quer saber, Saga, você tá precisando dar uns gritos TAMBÉM, com o Aioros – provocou Milo, com aquele sorriso característico.
O leonino parou de rir e ficou irado com o que o amigo acabara de dizer:
— EI! NÃO METE MEU IRMÃO NISSO NÃO, HEIN!
— Disse que Camus estava tendo pesadelos?
Os dois mais novos calaram-se ao ouvir a pergunta do geminiano. Milo viu o amante à distância, entretido com as plantas do jardim.
— Estava sim – respondeu, sério.
— Devia ser O pesadelo, né?
— Aioria, eu nunca o vi daquele jeito. Estava em pânico... foi muito difícil acordá-lo. Ele simplesmente não parava de gritar de se debater.
Saga olhou para o aquariano, pensativo.
— Bom, foi assustador... mas foi só um sonho – disse Milo, querendo convencer mais a si mesmo do que aos companheiros.
— Ah, olha lá, os Guerreiros Deuses chegando.
— Aioria, você contou ao Saga o que vimos ontem à noite?
— O que vimos ontem à noite? – o leonino coçou a cabeça, tentando se lembrar.
— O cabeça de abóbora, seu bocó! Entrando no carro de um ricaço!
— Ih, esqueci... na verdade, eu apaguei logo depois que chegamos do jantar.
— Do que vocês estão falando? – quis saber o mais velho.
Ao perceber que os três asgardianos se aproximavam, Milo respondeu:
— Hum... mais tarde a gente te conta.
Eles se cumprimentaram, e em seguida, se puseram a caminho de onde estava o transporte para a Cúpula.
Milo notou o semblante diferente de Surtr: de aparência mais fresca, renovada, trazia nos lábios um sorriso que não deixava de perturbá-lo. O ruivo cumprimentara Camus com um brilho orgulhoso no olhar estreito. O aquariano poderia até não dar maior importância, mas não ELE... havia algo ali. Algo de que não se agradava.
— Gosta do que vê? – perguntou Surtr a Milo, cinicamente.
— Hum?
— Não para de olhar meu rosto...
— Bom, é melhor do que ser cego.
— Lamento, mas você não faz o meu tipo, Escorpião – provocou o ruivo, jogando uma mecha de cabelo para o lado.
— Não se preocupe, eu só estava olhando para o nada. Não tenho culpa de você e o nada serem a mesma coisa.
Pigarreando de leve, Camus chamou a atenção do namorado. Este, ao vê-lo tão perto, logo segurou sua mão, possessivamente. O aquariano teve um discreto sobressalto. Desde que se reconciliaram, não tinham voltado a andar de mãos dadas. A bem dizer, não apreciava muito esse hábito, nem mesmo nas “antigas épocas felizes”. Ao ver o despeito na cara de Surtr e o sorriso triunfante na de Milo, porém, logo entendeu o que acontecia ali. Revirou os olhos, suspirando... não tirou a mão dali, entretanto.
O asgardiano, cerrando os punhos, viu os dois embarcarem. Certo, Camus se erguera em franca revolta contra ele, já havia entendido!
“Esperem só até depois de amanhã... aproveitem bem seus dois ÚLTIMOS dias juntos”, pensou, a inveja e o ciúme toldando de tal forma suas feições que o observador Saga não pôde deixar de notar. O geminiano vinha atrás dos três, conversando com Frodi e Sigmund, mas não perdia o trio problemático de vista. Absorto em seus planos perversos, Surtr sequer se dava conta de que era observado pelo Santo.
Saga tentava se convencer de que tudo que havia diante de si era um pobre coitado com orgulho e coração feridos. Mas tinha vasta experiência para saber o que o pleno afloramento do lado maligno, inerente a todos, era capaz de causar.
MATARA AIOROS.
Mandara executar o homem que amava!
“Alguém que deixe seu lado maligno dominar pode, fatalmente, querer prejudicar até mesmo seu maior objeto de amor.”
— Saga? – o chamado de Aioria, já na escada do ônibus da ONU, tirou-o de seus pensamentos – Vamos?
— Oh, sim, vamos.
Com o veículo em movimento, Milo inclinou-se para dar um beijo no rosto de Camus. Este esquivou-se, evitando aquele contato.
— Que foi? — fez o grego, confuso.
— Não precisa fazer isso, não estamos no campo de visão de Surtr.
O grego pôs-se boquiaberto.
— Acha que queria te dar um beijo só pro Surtr ver?!
— Você pegou na minha mão pelo mesmo motivo – respondeu o francês, frio.
— Não foi por isso!
— Não?
— Bom... – fez um muxoxo – não foi “só” por isso...
Camus não pôde deixar de achar aquela expressão muito fofa... não fosse um homem extremamente discreto, daria um beijo bem na ponta daquele nariz.
— Camus.
— Hum?
— Não quer mesmo me dizer com o que sonhou?
— Outra vez isso?
— O que que custa? Por que quer esconder de mim?
O aquariano suspirou de um jeito condescendente antes de responder:
— Eu já disse que não me lembro, Milo. Como vou te contar um sonho do qual não me lembro?
— Tudo bem, tudo bem – o grego pôs os fones de ouvido e começou a ouvir uma de suas queridas bandas de metal que estavam no celular, consciente de que não conseguiria arrancar nada mesmo do namorado turrão.
E depois diziam que o teimoso era ele!
O fleumático e ponderado Santo de Aquário não ficava nada atrás dele, nadinha!
Só queria saber por que Camus lhe escondia algo tão trivial quanto... quanto um mero sonho.
Por sua vez, o aquariano deixou o olhar vagar pelas montanhas, jurando ver nos reflexos móveis da janela o rosto que vira em seu sonho.
O rosto do homem que estava à porta do quarto de Milo. O homem de cujas costas brotaram aqueles braços escuros e compridos. Pensou, cismado, sem que isso transparecesse:
“Aquele homem... era o homem que me abordou na saída do hospital.”
*************
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