O Brilho da Honra
23 Amarga despedida
Notas iniciais

— Camus, você TEM CERTEZA de que é uma boa ideia?
— Milo, você já me perguntou isso dez vezes.
— Eu aposto que você está fazendo isso só porque o Saga DISSE pra fazer!!!
— Não nego que o argumento de Saga me incentivou a pôr um ponto final em tudo isso de uma vez. (* ver capítulo 19, “Desígnios”)
— “Pôr um ponto final”? – o escorpiano dava voltas pela sala, nitidamente agitado – Você fala como se REALMENTE tivesse tido “alguma coisa” com esse babaca!
O francês mirou o namorado, crispando os lábios, buscando controlar o desconforto que a ansiedade do outro começava a lhe transmitir. Levantou-se do sofá, ajeitando os punhos da camisa branca com discretas linhas verticais marinhas.
— Não diga besteiras, Milo. O que Saga alegou não está longe da verdade. Se eu tivesse conversado com Surtr de uma vez por todas, ele não estaria causando todos estes problemas...
— Que legal, agora VOCÊ é o culpado do cara ser um completo cuzão. Se a missão de Asgard for comprometida, a culpa é SUA também, vai acreditar nisso?
— Saga NÃO disse isso – o aquariano firmou o tom de voz. O grego não se deu por vencido:
— Não disse? Não fode, Camus, para de botar panos quentes no que o “Grande Mestre”, perdão, Dohko!, disse no restaurante... que os problemas entre NÓS TRÊS estão atrapalhando as coisas por aqui.
— E não estão? – retrucou, pacientemente – Ou você quer que piorem ainda mais? O clima já não está suficientemente desfavorável para você? Vocês dois estão a ponto de se agredir, EU já o agredi, Surtr tem arrumado problemas no hotel. Deixou o posto na missão...
— OK, e você acha que tudo vai se resolver ficando A SÓS com esse poço de confusões – questionou o grego, cruzando os braços e dando à fala um tom de ironia.
Camus caminhou até ele, a expressão indiferente desanuviando levemente, como a tentar passar segurança ao amante.
— Milo. Surtr disse que quer conversar a sós comigo. Não devo mais fugir. Preciso ouvir o que ele tem a dizer, e expor os MEUS termos – ergueu a mão para o rosto do amado, acariciando-o – dizer que eu já tenho o homem que amo. Que ele nos deixe em paz. Que já resolvi minhas pendências com ele. Findar todo e qualquer assunto não resolvido ou mal interpretado.
Mordendo o lábio inferior, o escorpiano segurou os dedos gelados que tocavam-lhe a face. Encarou-o, ainda aflito:
—Mas por que tem que ser A SÓS? Eu sei que disse que poderia deixá-los a sós para conversarem... mas daí você ir justamente ao quarto dele...
Afastando-se dele, Camus replicou, um pouco ofendido:
— Por acaso não confia em mim, Milo?
— Eu não confio NELE, Camus. E você deveria fazer o mesmo. Esse cara já provou ser um calhorda. Por Atena...
— O que ele pode fazer contra mim? E mesmo que PUDESSE fazer algo, por que iria se arriscar como um traidor de Asgard, ao romper o acordo de trégua entre asgardianos e nós?
O grego ponderou aquelas palavras, encontrando nelas uma pertinência capaz de convencê-lo, mas não de tranquilizá-lo. Assentiu, entretanto, disposto a ceder.
— Está certo. Quanto tempo acha que demora lá? – perguntou, em um sussurro, deslizando o dedo pelos contornos bem feitos do rosto do francês.
— Não mais que uma hora, presumo.
— Depois vai se juntar à gente no cassino?
— Você e Aioria vão tentar a sorte no jogo? – Camus indagou, dando um meio sorriso.
— Só pra dar uma relaxada. Saga, Frodi e Sigmund devem ir também, depois podemos dar uma volta...
— E se você perder tudo no jogo, até as roupas?
— Não se preocupe, meu pequeno agourento – deu um beijo no canto dos lábios do aquariano – minhas roupas só você tira...
— Hum, assim espero – respondeu, correspondendo ao carinho. Trocaram um beijo terno, sem que se estendessem muito. Só de se encostarem, aqueles dois já ficavam em ponto de ebulição... e agora, era hora do desagradável compromisso de Camus.
No dia anterior, quando retornaram ao hotel, após um dia tranquilo na Cúpula, Surtr aproximou-se, ainda no saguão do hotel, para falar com Aquário. Foi quando pediu aquele momento a sós, para que conversassem. O aquariano prontamente lembrou-se dos dizeres de Saga à mesa, associando o comportamento problemático do asgardiano a “questões não resolvidas com Camus”. Acordaram o horário de 21:00 de sexta-feira. Recém-chegados da Conferência, jantaram, tomaram seus banhos, trocaram de roupa, e assim se iniciaria a noite. Camus iria falar com Surtr, e os demais iriam se encontrar no cassino do hotel. Com sorte, em uma hora, no máximo, tudo estaria resolvido, e ele se juntaria a seu namorado e aos amigos para desfrutar de um pouco de lazer após uma semana tão cansativa.
— Até mais – despediu-se o francês, abrindo a porta; Milo o seguiu.
— Vou descer também. Esteja lá no cassino em UMA hora, Camus, ou eu vou te buscar.
— Milo! Por favor, isso NÃO é necessário – rebateu, enérgico.
— Tô nem aí. Eu VOU assim mesmo. Se não quiser passar a vergonha, que saia de lá antes disso – disse, sorrindo, malicioso.
Camus limitou-se a balançar a cabeça, em reprovação.
Certo, teria que ser breve MESMO. SABIA que Milo REALMENTE faria aquilo, até mesmo em MENOS de uma hora. Ele ficou no quarto andar, e o grego seguiu até o térreo.
Caminhou até o número 402, já antevendo aborrecimentos. Bom, que se livrasse logo daquilo. Sua parte estaria fazendo! E, enfim, poderia amenizar de vez sua consciência... tocou a campainha. Surtr atendeu, bem rápido, como previa.
— Olá, Surtr – cumprimentou, impessoal.
— Oi, entra, Camus, que bom que veio, tive medo que não viesse.
— E por que não viria, se havia combinado? – replicou o Santo, adentrando a aprazível sala do flat.
O ruivo deu de ombros, rindo:
— Bom, Milo poderia ter te impedido e...
— Milo não faria isso – cortou, seco. Realmente irritava-o ouvir falando do grego – deve se lembrar que ELE mesmo sugeriu que ficássemos a sós para conversar... quando você foi até o NOSSO quarto.
— Não precisa frisar. Achei que Saga estava dividindo o apartamento com você, não o seu namorado, não era minha intenção confrontá-lo.
— Certo – murmurou o francês; aquilo já não estava começando muito bem.
Não obstante, Surtr abriu um sorriso despreocupado e convidou-o a sentar em uma poltrona branca, em frente a uma mesinha de centro. Camus assim o fez. Olhou para o anfitrião, que permaneceu em pé. Ante seu olhar interrogativo, o asgardiano dirigiu-se ao telefone, tirando-o do gancho. Anunciou:
—Bem, vou pedir uma bebida, o que deseja beber?
— Não se incomode comigo, não vou demorar.
— Eu sei disso – um acento de frustração escapou entre a risada baixa – bem, pedirei algo assim mesmo. As bebidas que tem aqui no bar do flat são horríveis.
Camus não se importou em prolongar aquela conversa, por isso nada disse.
— Serei, a partir de agora, tão digno do seu desprezo que você não pode nem tomar um vinho comigo? – insistiu o ruivo, um tanto dramático.
— Eu não quero beber, Surtr – respondeu o aquariano, friamente.
— Sabe, não há motivo para você ficar tão arredio assim. Não vou incomodar mais, nem a você nem ao Escorpião. Bem, um suco, talvez... um coquetel, um...
— O que você quiser, mas vamos logo a isso.
Camus primava pela paciência, pela fleuma, pela insensibilidade frente aos arroubos alheios. E ele para sempre consideraria aquilo seu grande trunfo nesta vida, pois ter cedido ao cansaço ante aquela desagradável insistência do outro foi o seu maior erro.
— Perfeitamente – o asgardiano sorriu e digitou um número – Alô, que vinhos tintos vocês têm aí? Porque aqui no bar do meu apartamento só tem essas porcarias locais.
O Santo revirou os olhos. Surtr e sua costumeira “gentileza”!...
— Espere, Saint Emilion Chatêau? Pode trazer esse para o 402, por favor?
“Bom, pelo menos ele conseguiu dizer um ‘por favor’ ", pensou o francês, em um meio sorriso de sarcasmo interno.
— Tem noção do que é isso? Só tem vinho vagabundo neste flat, e ainda dizem que esta pocilga é de luxo! – veio resmungando Surtr, antes de se sentar no sofá, de frente para a mesa de centro e a poltrona ocupada pelo Santo.
— Eu gostaria realmente que você me dissesse logo o que quer. Milo está me esperando – Camus ignorou a tentativa do Guerreiro Deus em enveredar por qualquer outro assunto.
— Claro! Eu entendo. Uma noite de sexta-feira, vocês dois provavelmente têm planos, não é? Só tem uns... seis dias que se acertaram…
Os olhos azul marinhos, quase mortiços, permaneceram fitos nos púrpuras. Nenhuma resposta veio.
— Certo – começou o ruivo, como a buscar o que falar – Bem, eu gostaria de pedir desculpas pelas minhas últimas ações. Desde que nos reencontramos, tenho tomado atitudes que apenas te afastaram mais de mim, quando minha intenção era tão somente restabelecer nossa amizade...
— Não agiu como meu amigo, me assediando e provocando Milo.
O tom e o teor da réplica foram como um soco bem dado no rosto álacre do asgardiano. Este sorriu sem jeito, esforçando-se para não parecer atingido por aquilo:
— Reconheço que fui inconveniente em alguns momentos. Mas Camus... há de convir que você também não foi muito direto comigo. Quando te reencontrei, vocês dois estavam separados, não se pode dizer que eu provoquei o Escorpião, exatamente porque ele não estava tendo nenhum relacionamento com você. Tudo bem que ele estava louco para reatar, mas se era covarde para fazer isso, não era minha obrigação esperar que ele criasse coragem para querer voltar... uma vez que eu também te amava...
— Não o chame de covarde novamente – interrompeu, deixando transparecer desagrado com o que ouvia – Sabe muito bem o que fiz a ele.
— Desculpe. Não me expressei bem... o que estou tentando fazer é explicar por que agi de determinada forma. Acho que não estou sendo muito eficiente.
— O que estou estranhando muito. Sempre teve facilidade em argumentar o que quer que fosse.
— Não sei se você diz isso como um elogio ou como uma crítica.
— Digo como uma verdade, Surtr. Encare como quiser.
Quase que um assobio saiu pelos lábios comprimidos do ruivo. Uniu as mãos e deixou o olhar grudar no chão ao perguntar, tanto para ganhar tempo como para sanar uma genuína curiosidade:
— Camus. Me responda com sinceridade. Nós ainda somos amigos?
O aquariano tentou não deixar transparecer que aquela indagação o pegara de surpresa. Ainda assim, a demora em responder fez Surtr deixar escapar um riso nervo, e reformular a questão:
— Certo... deixe-me perguntar de outra forma: você ainda se considera meu amigo? Ou... ainda me vê como um amigo?
— Surtr. Aconteceram muitas coisas. Eu errei com Milo. E de certa forma, com você também.
— De “certa forma” – repetiu, amargo – Você realmente SÓ considera o Escorpião...
— Deixe-me terminar. Se eu percebesse que você de fato me quisesse como amigo, eu lhe retribuiria como no passado. Mas está claro para mim, e penso que para todos, que não é minha amizade que deseja.
— E por isso deve ser hostil comigo...
— Você está sendo dramático.
— Milo também é bem dramático, você não pode negar...
— Eu AMO Milo, Surtr.
Aquilo fez com que o outro se calasse, ferido. Ficaram se encarando por uns instantes até que a campainha tocou. Foi até difícil Surtr se levantar para atender a porta, tão atingido fora por aquela cortada.
Um garçom negro, vestido impecavelmente com o uniforme do hotel, adentrou a sala, trazendo o vinho em um balde com gelo e duas taças com o símbolo do resort. Dispôs as taças na mesa de centro, uma em frente à poltrona onde Camus estava sentado, e outra à frente do sofá onde se encontrava o ocupante do 402; em seguida, abriu a garrafa e serviu a bebida, enchendo os cálices até dois dedos da borda. Surtr estendeu uma nota ao rapaz, dispensando-o. Assim que o funcionário se foi, fez menção de brindar com o Santo. Sem esconder a má vontade, Camus pegou a taça e fez conforme o ruivo propusera.
— Eu poderia brindar à nossa amizade... mas acho que isto aqui na verdade é uma despedida... pelo visto, NÃO MAIS seremos amigos... – comentou, cravando um olhar enigmático no francês.
— Isso depende mais de suas ações daqui para frente do que de minha vontade.
Surtr suspirou, fitando o líquido rubro que brilhava sob as luzes da sala. E então com a sua taça, tocou de leve a borda do cálice que Camus segurava, levando-a em seguida aos lábios. O cavaleiro fez o mesmo, bebendo lentamente o encorpado vinho. Chegou a cerrar os olhos, apreciando o magnífico sabor.
— Este era um de seus preferidos, não? Eu me lembro disso – Surtr comentou, sorrindo, melancólico.
— Realmente, muito bom.
— E qual é a bebida preferida de Milo? – e ante o olhar apático do outro, atinou – Claro, se não for abuso demais de minha parte querer saber, por mera curiosidade...
— Ele gosta de cerveja – foi a única resposta, e sequer estava completa.
— É a cara dele – riu o asgardiano. Camus não o acompanhou. Bebeu mais um pouco, aproveitando para, discretamente, verificar as horas em seu relógio de pulso.
21: 22.
Com sorte, conseguiria se libertar daquele molesto “ajuste de contas” a tempo, antes que Milo aparecesse. O grego dissera que, se em uma hora o namorado não aparecesse no cassino, iria ao flat de Surtr. Não seria algo agradável. Não mesmo. Nem tanto por Milo – embora essa falta de confiança nele lhe incomodasse... sim, era falta de confiança NELE, sabia-o! – e sim por Surtr, que poderia fazer alguma cena... ainda mais tocado pelo vinho...
Bom, ele não ficaria tão embriagado por meras 3 taças de vinho, ficaria?
— Está gostando do lugar? – o francês perguntou, tanto para se livrar do embaraçoso silêncio que se estabeleceu entre eles... quanto para se distrair de um discreto torpor que o invadiu.
Estranho, sequer terminara a taça. E estava bem alimentado, se ao menos estivesse de estômago vazio, podia até creditar aquilo à falta de sal no organismo.
— Eles podem ter quilômetros e quilômetros de vinícolas neste fim de mundo, mas um vinho francês É um vinho francês, não é?
— Hum... bom, os vinhos sul-africanos que provei eram bem palatáveis.
Surtr riu, com certo deboche.
— Não precisa bancar o diplomata, não estamos em reunião nem nada.
— Eu... não...
— Sim?
Camus levou a mão aos olhos. Sua visão embaciara momentaneamente, e ele fechou-os com força, no afã de que voltasse ao normal.
— Está tudo bem? – indagou Surtr, reparando.
— Está. Acho que meus olhos estão um tanto irritados.
— Deve estar forçando muito as vistas lendo tanto... sim, não me olhe com essa cara, eu me lembro de como você era compulsivo com leituras.
O aquariano ergueu-se, disposto a sair dali. Percebeu que de fato não estava nada bem.
— Eu preciso ir, Surtr.
— Assim, de repente? Veja, nem terminou seu vinho e…
— Obrigado, mas preciso mesmo ir... Milo está... está me...
Por que sua língua parecia tão pesada? E por que ele não conseguia terminar o que queria dizer? Ao virar-se para a saída, o cenário diante de seus olhos pareceu mover-se em um rodamoinho, tudo se convertendo em um mero borrão. Vacilou, no intuito de caminhar, perdendo o equilíbrio de vez. Surtr adiantou-se e o segurou, trazendo-o para o sofá.
— Camus? – chamou. Mentiria se dissesse que não estava preocupado.
Não imaginava que o efeito seria... TÃO RÁPIDO.
O aquariano não havia perdido totalmente a consciência: conservava os olhos semicerrados como que fitos através do rosto de Surtr. Suas pupilas dilataram-se a ponto de suas íris parecerem quase que totalmente pretas. Seu corpo mole não oferecia qualquer resistência ao agarre do asgardiano. A pele já naturalmente fria agora estava gelada, e suas faces perderam as cores.
— Camus! Camus, por favor, fale comigo! O que está sentindo?
Os lábios do francês se descolaram, e enfim, ele pareceu focar o amigo à sua frente.
— Eu... eu não sei... eu não sei, MILO. De repente... me senti estranho.
— Sabe que pode confiar em mim, não sabe? – o ruivo testou, apreensivo. Mas não: NÃO ouvira errado...
— Claro, Milo... que tipo de pergunta é essa?...
Sondou a expressão do Cavaleiro... menos perdida. Menos confusa. Apenas... lânguida.
As mãos de Camus acariciaram o rosto do homem que o amparava.
— Milo... – sussurrou.
— Estou aqui... meu amor.
Os olhos de Surtr luziram, vitoriosos. Estreitou os braços em torno daquele corpo tão amado, tão desejado... tão ENTREGUE. Tão DISPONÍVEL.
Tão DELE.
Não deveria ser tão rápido, pois que o Escorpião HAVIA DE VIR atrás de Camus. E tudo deveria ser conforme o planejado. Contudo, se demorasse por demais...
... não sabia se seria capaz de se CONTER.
Não... possivelmente ele NÃO conseguiria.
Tudo tinha que ocorrer no tempo certo. Seu objetivo era tão somente separar os amantes...
... não VIOLENTAR alguém.
— Milo? O que há com você? – Camus perguntou, com voz arrastada, acariciando-lhe o queixo.
Que Odin o ajudasse... que o mantivesse FORTE!
*************
— Milo, aonde vai? – inquiriu Aioria, vendo-o se erguer resoluto da cadeira diante da mesa de pôquer.
— O que você acha? Buscar o Camus. Já são 22 horas.
— Você tá brincando, né?
— Olha a minha cara de brincadeira – replicou o escorpiano, sem humor algum – Eu disse a ele que se ele não estivesse aqui em uma hora, eu iria bater no quarto do Surtr.
Os outros guerreiros se entreolharam.
— Não sei se Camus se agradará disso – disse Saga.
— Conhecendo o senhor geleira, ele vai ficar PUTO se você fizer isso, Milo. Parece que não confia nele! — o leonino ajuntou.
— Nada disso, eu disse a ele que não confiava era no “amiguinho” dele.
Frodi coçou a cabeça e ofereceu:
— Quer que eu vá até lá? Digo que estamos todos esperando-os para...
— Isso será uma ofensa a Camus – sentenciou o geminiano, muito sério – Que é, Milo, sua insegurança agora vai fazer tratá-lo como a uma criança? Você gostaria que ele fizesse isso contigo?
O leonino riu, segurando uma cerveja.
— E tu ainda pergunta, cunhadinho? Claro que ele gostaria! Ia ficar todo bobo, hehehehe...
De fato... ficaria mesmo, pensou o escorpiano.
No entanto... realmente poderia ofender o amante... voltou para a mesa, dando um gole em sua bebida.
— Certo. Vou dar mais um tempinho – falou, nada satisfeito, porém consciente de que os companheiros tinham razão.
Camus poderia realmente se ofender, e ele não queria demonstrar que temia pela proximidade dos dois.
A verdade é que... sim, mentira quando apelara para o conciliador artifício de “confio em você, é nele que não confio”.
Não.
Milo NÃO confiava em Camus.
Não no sentido da traição amorosa! Mas sabia-o diplomático, cordato, sereno. E se o cabeça de abóbora viesse com conversinhas comoventes de amizade perdida e tal? De promessas e alianças passadas? A bem dizer… Camus NÃO havia dado “aquele ‘chega-pra-lá’ ” no ruivo. Por pura educação... consideração... talvez até pena.
Lembrava-se da história que escutara no hospital... sobre o que ocorrera em Asgard.
Surtr beijara Camus. Aproveitando-se do momento em que o Cavaleiro encontrava-se acuado, em terra inimiga, nas mãos dos inimigos...
Bem, não havia nada similar àquela situação de outrora ali, havia?
Mas... não havia sido somente daquela vez... quando o aquariano esteve febril devido ao chip implantado nele... Surtr TAMBÉM se aproveitar da situação para...
“Diz Camus que ele PAROU ao ouvir meu nome sendo chamado... terá sido REALMENTE assim?”
Sentiu-se mal por duvidar de algo que o amado havia lhe contado. Entretanto, seu coração...
“Droga. Chega disso!”, pensou, irritado consigo mesmo. Virou mais cerveja e começou a provocar os amigos, caçoando de suas jogadas. Passaram a brincar entre si, animadamente.
Milo olhou o relógio por sobre a manga do blazer preto.
Mais uma hora. Daria mais uma hora.
“Antes disso, Camus estará aqui”, pensou, tentando com todas as forças acreditar naquele pensamento.
*************
Surtr acariciava o contorno bem feito do rosto do francês em seus braços... nada esquivo.
Inteiramente à sua disposição.
Camus lhe sorria timidamente, quase com dificuldade... não sabia se pela falta de hábito de sorrir... ou pela DROGA...
— Venha, vou deixar você descansar – falou o asgardiano, cingindo o outro pela cintura e ajudando-o a se levantar.
— Eu... estou bem... muito bem, Milo...
— Que bom, sei que está – e o levou até o quarto; sequer preocupou-se em acender a luz. Ao deitar o francês no grande leito forrado com perfumados lençóis de seda prata, contudo, quis ver-lhe os contornos tentadores, e acendeu a luz dos abajures, apertando um pequeno botão na mesinha de cabeceira.
Largado naquele colchão, Camus ficou subitamente imóvel. Surtr não perdeu tempo: pôs-se a abrir os botões da camisa branca, e um peito imberbe e moldado se revelou. O umbigo centrado em meio a músculos delicadamente delineados foi uma visão que encheu de água a boca entreaberta do ruivo.
— Milo... – balbuciou o francês, entorpecido. Naquele momento, acreditava PIAMENTE que aquele ali presente, a despi-lo tão suavemente que sentia a pele se arrepiar de forma involuntária... era seu amado Milo.
— Shhhh – fez Surtr, enternecido ante o ar confuso de Camus, que lhe conferia uma sensualidade irresistível – estou aqui...
— Aaahh... – gemeu o aquariano, ao ter um dos mamilos abocanhado por quem ACHAVA ser seu namorado. A língua umedecia a carne delicada, circundando, massageando.
O asgardiano abriu o cinto da calça preta social do amigo, descobrindo a margem da boxer branca. Exclamou, ansioso. Deslizou seus dedos sobre ela, arrancando mais gemidos. Enquanto massageava a região de leve, voltou a se concentrar na parte de cima, deslizando sua língua pelo peito, rumando pelo pescoço, até o queixo de Camus, mordendo-o de leve, e fazendo-o vibrar. O jovem arqueou um pouco o corpo ante aqueles sensações. Surtr segurou-o, alimentando-se daquele calor. Considerou os lábios vermelhos, muito abertos agora, em busca do ar que o deleite de ser tocado lhe roubava. Sem hesitar um segundo sequer, tomou aquela boca com a sua, faminta, ansiosa, saudosa. Foi correspondido, apaixonadamente. Claro, nem poderia ser diferente...
...já que Camus não o via ali.
Camus via MILO ali.
Em meio ao seu delírio, proporcionado pela poderosa substância, via o que mais queria ver.
E certamente que seria o Santo de Escorpião a monopolizar seus sonhos, seus desejos, o seu querer.
Sempre.
*************
Após olhar para o relógio pela vigésima vez, ele ergueu a voz, a fim de vencer a música que ocupava todo o ambiente, um tanto impregnado de charutos:
— Bem, pessoal... então...
— “Então” o quê, venenoso? Não começa com isso de novo, vai!
— Mas Oria, já são quase 23 horas!!! Camus disse que estaria aqui às 22h e...
— Para com isso, Milo! Você quer ir até o quarto do Surtr buscar o Camus? Se ele está lá é porque estão conversando até agora, oras! Ou você não confia no teu namorado? — impacientou-se o leonino.
— Eu já disse que sim, que não confio é no...
— Sem essa, para de dar desculpa pras tuas paranoias – Aioria cortou, levantando a mão.
— Não temos o direito de te impedir de ir lá buscar o Camus. Apenas pense bem, sobre como essa atitude será interpretada por ele – disse Saga, sem olhar para ele, e sim para as cartas em suas mãos.
O mais novo bufou, impaciente. Cruzou os braços ao falar:
— OK. Cês têm razão. Mais meia hora.
— Que progresso – riu Leão, levando um olhar assassino do escorpiano.
“A quem estou enganando... eu SEI que tem algo errado... mas... certo, meia hora”, pensou, sabendo que não mais se concentraria em jogo algum. Já não o estava fazendo mesmo...
*************
A essa altura, o Santo de Aquário, aprisionado em delírios protagonizados por Milo, havia sido inteiramente despido pelo amigo de infância de Asgard. Surtr contemplava aquela estonteante nudez, extasiado. Magro porém forte, de compleição bem marcada, poucos pelos por sobre a pele clara e macia, músculos forjados por uma vida inteira de treinamentos, que nem assim lhe conferiram rudeza. Passeou os dedos temerosos por cada parte daquela carne, que se cobria de arrepios pelos toques.
— Milo...
— Estou aqui, meu amor...
Beijou-o mais uma vez.
Contudo...
... algo não estava saindo conforme o esperado.
Sim, não pretendia abusar realmente do amigo. Não deveria. Amava-o. Entretanto, mesmo com ele vulnerável e tão sensual em seus braços... não conseguia sequer se sentir realmente... bem.
Seus lábios eram suaves e doces como se lembrava.
No entanto, era sempre o nome de Milo que saía por entre eles.
Sempre.
Acariciou-lhe a parte interna das coxas, a centímetros da intimidade que despertava pouco a pouco. Temia, porém... tocá-la.
Por quê?
—Milo, me faça seu... eu quero sentir... – pediu o aquariano, o rosto enrubescido pela expectativa.
Contraindo a mandíbula, Surtr parou sua mão por cima do ventre do francês. Tão quente... tão perto... tão dele...
— Camus... – gemeu em seu pescoço.
— Milo...
Uma lágrima que nasceu dos olhos magenta precipitou-se até a pele que era coberta de beijos.
Tão quente... tão perto...
...tão longe.
NUNCA seria dele.
O beijo que lograra obter de Camus na varanda do castelo em Asgard... nascera da tentativa do outro de encobrir a existência do amor por Milo.
Durante a febre que de Camus se abatera, pelo efeito do implante de Fafner... fora correspondido em suas ministrações lascivas... porque era a Milo que o amigo via.
Agora mesmo... podia senti-lo em seus braços, em seus lábios... porque não era SUA imagem que Camus tinha diante de si... e sim a IMAGEM DE MILO.
Milo SEMPRE estaria ali.
Naquele coração.
Sobre ele Surtr levou a mão. Batia tão rápido. Mirou-o com os olhos molhados de lágrimas. Entorpecido, o aquariano correspondeu ao olhar.
— Milo...
Quis perguntar por que o namorado o olhava daquele jeito tão triste... por que não o amava da maneira que queria ser amado? A vontade, não obstante, era derrotada por uma letargia inexplicável. Sentiu o outro subitamente distante. Milo apenas o contemplava... por que parecia tão só? Tão desiludido? Fizera algo de errado ao grego?
Em meio a seus mudos questionamentos, sem perceber, Camus ia sucumbindo à inconsciência. Surtr notou:
—Sente-se bem? Está com sono?
Não achou que Camus deveria DORMIR com a droga. Deveria ficar consciente por mais tempo.
— Camus – chamou-o, apreensivo.
O francês rendera-se ao sono de vez.
Com o meio sorriso que nasceu em Surtr, as últimas lágrimas deslizaram.
Nunca o teria.
Mas MILO TAMBÉM NÃO.
Questão de tempo.
Cobriu-o com o lençol e ajeitou o jovem adormecido sobre os travesseiros. Ficou a contemplá-lo, como em uma despedida.
Não deixava de ser.
*************
— São 23:45. Digam o que quiserem, EU VOU LÁ – anunciou Milo, quase raivoso.
Saga e Aioria se entreolharam, e em seguida entre os Guerreiros Deuses. Não podiam recriminar a agitação de Milo. Camus estava há quase três horas no apartamento de Surtr, quando dissera que terminaria a conversa em uma hora no máximo.
— Eu vou com você – prontificou o geminiano – SEI que você vai causar confusão.
— Qualé, Saga? Não sou nenhum moleque pra me tratar assim! – indignou-se Milo.
— Você e Surtr estão para brigar há dias. Esta me parece a situação mais propícia a isso.
O escorpiano abriu mais a boca para protestar, porém foi interrompido por Aioria:
— Vai com ele de uma vez, cara, acaba logo com isso e volta aqui pra gente continuar o jogo.
Resignado, Milo assentiu, dando meia volta para sair dali. Saga agradeceu ao “cunhado” com um discreto menear de cabeça. Em seguida, pôs-se no encalço do irritado escorpiano.
Não iria revelar... mas na verdade, não fizera isso por falta de confiança em Milo, e sim porque TAMBÉM ele desconfiava de que algo estava errado.
Não via Camus passar tanto tempo com Surtr, primeiro porque de fato não mais sentia-se ligado a ele como amigo. Segundo, porque isso revoltaria Milo. Camus não admitia para ninguém, nem para si mesmo, mas fazia DE TUDO por Milo. Ele REALMENTE não ficaria tanto tempo no quarto do asgardiano. Apertou o passo e alcançou o mais novo. Entraram no elevador, silenciosos e tensos.
Chegaram ao quarto andar e se dirigiram para o número 402.
Pararam diante da porta, incertos do que fariam.
— Não ouço nada. É a conversa mais silenciosa de que se tem notícia – comentou Milo, intrigado, sabendo que a entrada dos flats sempre davam para as salas... que é onde SUPOSTAMENTE os guerreiros estariam conversando...
— Bom, vamos tocar a campa...
Nesse momento, aproximou-se um jovem negro com um balde de gelo, champanhe e duas taças. Os dois observaram-no parar diante do mesmo apartamento.
— Com licença – disse Derrick, levando a mão à maçaneta. Aquilo surpreendeu os Santos. O camareiro não iria tocar a campainha?
— Ei, por que está entrando sem se anunciar? – interpelou Milo, franzindo o cenho.
— Oh, foram ordens do senhor Surtr... que eu entrasse sem bater e deixasse as bebidas para os dois na sala...
— “Bebidas para os dois”?
— Milo, calma.
— “Calma”, Saga?!? O que eles TÃO fazendo que não podem atender a porta?!?
Passando pelos dois, o escorpiano adentrou o apartamento, já tomado de fúria. Não era nenhum tolo! Não mesmo!!!
Abriu com violência duas portas, deparando-se com os aposentos vazios. Nada se ouvia...
O geminiano, consciente de que algo grave estava para ser flagrado, agarrou o braço do amigo, no afã de impedi-lo de prosseguir. Milo desvencilhou-se sem dificuldade, tamanho poder lhe conferia a exaltação que dele se apossava.
A porta do final do corredor... apenas encostada... abriu-a.
Os dois Santos paralisaram.
No leito, Surtr e Camus, nus, dormiam, abraçados.
Boquiaberto, Milo forçava o olhar, para certificar-se de que não era uma peça pregada por seus olhos vidrados.
O braço do asgardiano passava por cima de SEU namorado, possessivamente. Ambos ressonavam, tranquilamente, os cabelos espalhados por sobre os travesseiros, e o lençol acetinado mal cobria as partes inferiores de seus corpos entrelaçados. Dava para ver que Surtr tinha uma das pernas por cima das de Camus. Pareciam em paz, plenos... como estariam duas pessoas após... após...
Saga pôs a mão no ombro do menor, sentindo-o trêmulo. Antes que dissesse qualquer coisa, Milo, em um movimento brusco, girou sobre os calcanhares, ganhando o corredor e a saída em alta velocidade. Gêmeos foi atrás dele, preocupado.
— Milo! Espere, fale comigo!
Alcançando-o perto do elevador, puxou-o pelos ombros.
— Largue-me, Saga! – vociferou, agitado.
— Tenha calma...! Sei que é difícil mas...
— NÃO ME PEÇA CALMA, SAGA! Você VIU! Mais uma vez, VOCÊ VIU!
— Sim, não estou negando. Eu vi...
Tentou abraçar o escorpiano tanto para contê-lo quanto para demonstrar cumplicidade, mas, surpreendentemente, foi rechaçado.
— Milo?
— Eu estou bem – declarou, a voz baixa repleta de ira amarga – Deixe-me.
— O que vai...
— Vou tirar minhas coisas do quarto, antes que o Santo de Aquário volte para os aposentos dele.
Ao contrário do que Saga esperava, Milo não cedeu ao desespero e à fúria; antes, adquiriu uma expressão sombria de ódio... um ódio frio... um ódio que nunca vira nos olhos claros do amigo.
Teria preferido a reação usual do escorpiano. Aquela... amendrontava-o.
— Certo. Eu vou ajudá-lo – disse Saga, tão somente.
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