O Brilho da Honra
9 Verdades incômodas
Notas iniciais
— A estrada que conduz ao dito progresso da humanidade é pavimentada com sangue. Invariavelmente sangue dos inocentes...
Foi com essa declaração impactante que Camus iniciou seu pronunciamento. Mantendo o mesmo tom imparcial porém seguro, ele prosseguiu:
-O que se tem historicamente como início da civilização nada mais foi que a regulamentação da exploração do mais forte pelo mais fraco: o advento da agricultura, considerados seus óbvios legados positivos, marcou o início da ideia de propriedade privada. Divisão de trabalho, controle de tecnologia, posse da terra, produção e produção excedente, lucros de um lado, prejuízos de outros; produtos superestimados, produtos subestimados. Pessoas dominantes, pessoas dominadas. O que passaria a nortear as relações humanas, desde milhões de anos atrás, até nossos dias atuais: posses. E não mais comunhão. Nos reunimos aqui hoje e nos próximos dias a fim de seja realizada uma reflexão acerca do panorama atual da África no tocante à violência que ceifa milhões de vidas, ruidosamente em seu coração, silenciosamente para nós. Violência cujas razões muitas vezes encontram-se nas próprias mãos dos que tencionam ou alegam ajudar.
Milo percebeu que muitos presentes entreolhavam-se como a se perguntarem do que o jovem estava falando.
— Há muito o continente africano é vítima de uma coincidência dramática: conflitos armados e pobreza. Como as guerras nem sempre estão presentes em todos os contextos de pobreza, acredito que a pobreza nem sempre é a geratriz de disputas violentas. Ela seria, a meu ver, uma causa na medida em que disso se aproveitam desde os a ela diretamente ligados, até alguns que aqui mesmo entre nós se encontram na condição de auxiliadores.
Um breve murmúrio correu a plateia.
— Camus... o que está fazendo? – murmurou o escorpiano. Aioria parecia experimentar a mesma dúvida. Saga mantinha o semblante impassível. A ele não parecia ser surpresa o teor daquele pronunciamento.
— Senhoras e senhores, permitam que eu me faça explicar: é de conhecimento comum que muitos de nós, mesmo cientes das condições trágicas a que são submetidos os trabalhadores africanos em sua maioria, persistamos no consumo desenfreado de bens considerados indispensáveis, sem com isso procurarmos adotar medidas para reverter o preço de nossas amenidades, que tem sido, muitas vezes, dignidade e até vidas humanas. Jean Bertin, da República Democrática do Congo, disse: “pode ser que duas crianças tenham morrido para você ter esse telefone celular”, referindo-se à exploração de matérias-primas como o contan, feita através de crimes nefandos contra a população local. Recorro a esse fato, não de todo desconhecido, para ilustrar o que me proponho a expor: ajudas humanitárias como doação financeira nem sempre são suficientes. Ainda que como paliativo, ou para aliviar questões tributárias de nossos negócios, ou, acredito, claro, que sob louváveis intenções. Longe de mim desmerecer os esforços empregados pelas Nações Unidas; penso, outrossim, que detemos em nossas mãos não o poder de ajudar ou aliviar o sofrimento de nossos irmãos africanos, e sim o poder de eliminá-lo. Eu diria mais que poder, estimados senhoras e senhores: OBRIGAÇÃO de fazê-lo. E dela estamos fugindo, seja inconscientemente, seja deliberadamente. Pretender minimizar um problema que se pode exterminar não tem configurado atitude muito idônea de nossa parte.
Os murmúrios aumentaram, e via-se agora pessoas nitidamente incomodadas com o que o Santo dizia.
— Aioria, sou eu que não tô entendendo bem... ou o Camus tá CRITICANDO gente aqui?
— Eu tô tendo a MESMA impressão, Milo. Saga, o que você acha...
— Shhh. Vamos continuar ouvindo – cortou o mais velho, os olhos azuis fitos no amigo, que prosseguiu, tranquilamente:
— As políticas de apoio à causa pela qual nos reunimos no presente ambiente têm que ser repensadas no intuito não de ajudar pontual e esporadicamente, mas de construir bases sólidas para que o desenvolvimento que se almeja seja uma realidade aos povos. Em outras palavras, AUTONOMIA E INVESTIMENTO. Sobretudo respeitando aspectos que não o foram quando da intromissão de países estrangeiros, o que, mais que auxiliar, acirrou disputas internas...
Sem que ele esperasse, aplausos fizeram-se ouvir; eram notadamente participantes do próprio continente, que pareciam concordar com o que o francês expunha. Contudo, podia-se também perceber expressões de desagrado em outros conferencistas.
Do outro lado do palanque, o secretário geral da ONU tomou a palavra:
— Senhor Camus Chermont, o ministro das Relações Internacionais do Japão, senhor Hidaka Kazuhiro, gostaria de contribuir com um breve argumento. O senhor se importaria?
Malgrado aquilo o surpreendesse, o aquariano prosseguiu demonstrando controle e fleuma:
— De forma alguma, eu ficaria imensamente honrado em ouvi-lo – respondeu, polido.
“Que negócio é esse, nem deixou ele terminar”, observou Milo, em pensamento, levando a unha do polegar à boca, aflito.
Numa das extremidades do semicírculo à frente da plateia, abaixo do símbolo das nações unidas e das centenas de bandeiras coloridas, um homem de média estatura e olhos apertados porém vívidos por trás de grossas lentes de aumento proferiu ao microfone:
— Boa tarde, senhoras e senhores, senhores presidentes. Atrevi-me a argumentar com o senhor Camus com misto de admiração e temor; sim, pois que é notável a agudeza de espírito do Cavaleiro de Atena, e temor por recear que sua fala seja mal interpretada justamente num momento em que o objetivo é nos unir em prol desta terra sofrida – e virou-se para observar o guerreiro, pacientemente esperando para escutá-lo – Senhor Camus, é um imenso prazer constatar tamanha clareza de ideias a serviço de um ideal que temos em comum. Não foram exagerados os atributos com os quais o senhor foi mencionado como um dos principais palestrantes de hoje. No entanto, gostaria de contribuir com algumas informações das quais, creio eu, talvez o senhor não esteja ciente, uma vez que sugere que a ajuda das Nações Unidas possa não estar sendo suficiente: as doações para o continente passaram de 15,5 bilhões de dólares para 38,7 bilhões de dólares nos últimos sete anos, dado divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. E não para por aí: os líderes do G8 (*) confirmaram o compromisso de dobrar sua ajuda à África nos próximos três anos. O senhor deve estar ciente de que a queda da mortalidade infantil e o aumento da alfabetização de devem a esses esforços que o senhor classifica como “insuficientes”.
— Que porra... quando foi que isso virou debate? Achei que fosse depois...
— Shhh – repetiu Saga, para um já tenso Milo. Este estalou a língua contrariado.
— O senhor mesmo se ateve à palavra que usei, senhor Hidaka: eu classifico como “insuficientes”. Não como “inúteis”.
Mais palmas e exclamações de apoio. Houve pedidos de silêncio. Camus prosseguiu, ao contrário do que se via no rosto do japonês, sereno:
— Não sou apenas eu: grandes especialistas em África, como o professor da Universidade de Nova Iorque William Easterly, e líderes regionais, como o presidente de Ruanda, Paul Kagame, ambos nos prestigiando com suas presenças – e ele fez uma elegante mesura, respondida de longe pelos dois homens, que sorriram em apoio ao jovem – encontram-se entre os opositores do envio de somas astronômicas à África como estratégia de “salvamento”, pois que, afirmam eles, e com eles concordarei, que o dinheiro de fora como mera doação produz mais efeitos negativos que positivos.
O burburinho aumentou consideravelmente e logo decresceu, a fim de que ele continuasse:
— Os recursos vindos de fora fomentam a corrupção, paralisam o desenvolvimento de indústrias nacionais e nem de longe acabam com a pobreza. Esse assistencialismo ajuda a construir uma política pró-esmola que, gradativamente, pode arruinar a responsabilidade dos governos africanos de fornecer saúde, educação e infraestrutura de qualidade, e até o empreendorismo da região. E são estes, senhores, os componentes da base para a alavancada da África.
Mais palmas, de parte dos presentes; alguns balançavam as cabeças, em reprovação, outros sorriam cinicamente. O ministro do Japão pareceu aproveitar os momentos de barulho que se seguiram para arquitetar sua réplica.
— O senhor por acaso sugere, então, que as doações sejam suspensas e que deixemos a carga a governos que, uma vez desassistidos pelas Nações Unidas, não terão como proceder às melhorias que chama de “componentes da base para a alavancada da África”? Ora, se está em nosso alcance ajudar, por que não deveríamos fazê-lo? Queira me perdoar, mas isso em meu país é tido como uma fuga ao dever. Não esperava tal proposta de um homem que vive para servir uma divindade responsável pela paz mundial – falou, mal disfarçando um sorriso no canto dos lábios grossos.
— Há maneiras e maneiras de ajudar. Eu proponho que as nações ricas invistam em indústrias e companhias nos países africanos, empregando a população, dando a ela instrução e subsídios para erguerem suas vidas e exercerem papeis de cidadãos que lhes convêm. Inclusive, caro senhor Hidaka, o seu país está entre os 17 dos 22 países mais ricos do mundo que NÃO cumpriram na totalidade a proposta de ajuda – Camus segurou um papel no qual leu – “Apenas 5 dos 22 países que se dispuseram a dedicar 0,7% de seu PIB(**) em ajuda à África e a demais regiões mais pobres: Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Holanda e Suécia.”
Mais ruídos se elevaram. Como que golpeado, o japonês inconscientemente deu um passo para trás, e ao perceber isso, pigarreou, constrangido. Um homem loiro e alto pediu a palavra ao secretário da ONU.
“Não era para este debate ser hoje, o que pretendem?”, pensou o francês, aguardando.
— O embaixador da Inglaterra na África do Sul, senhor Edward Stevenson, pede a gentileza de uma réplica, senhor Camus – o secretário anunciou.
— Queira ficar à vontade, senhor Stevenson – e meneou a cabeça numa atitude respeitosa. Que não foi seguida pelo outro.
— Senhor Camus, o senhor é um Cavaleiro de Ouro do Santuário de Atena da Grécia, correto?
Uma pergunta retórica.
— Perfeitamente.
— Não pretendo indispô-lo e desde já peço perdão se minha indagação soar um tanto quanto rude, mas... um guerreiro, um homem de armas e de lutas poderia deter melhores soluções econômicas para um continente do que centenas de especialistas na área, que já se dedicam há anos na problemática? Um jovem guerreiro que vive recluso num santuário remoto poderia refutar decisões realizadas por especialistas da área? – disparou o inglês, cujo veneno destoava da polidez com que falava.
— Ora, esse... – rosnou Milo, cerrando os punhos.
— Calma, Milo, ou o Saga vai fazer aquele “shhh” de novo – Aioria falou-lhe ao ouvido.
— Em absoluto, senhor Stevenson. O que pretendo elucidar é fruto de exaustivas pesquisas e conferências com autoridades no referido campo, algumas já mencionadas, aliadas à visão Daquela que não apenas é a Deusa das Batalhas, como também a Deusa da Sabedoria. E sabedoria é muito mais essencial na construção de soluções do que o menosprezo estéril.
Desta vez houve mesmo um princípio de balbúrdia. Aquilo estava mais parecendo um tribunal!
— A autoridade a que sigo é da opinião de que apenas tratando os africanos como irmãos e não como mendicantes, os quais não mais encontraremos após dar-lhes esmolas, poderemos reerguer este continente, que conheceu a glória antes de NOS conhecer; refiro-me às nações europeias e de eixo central no cenário sociopolítico. A senhora Saori Kido oferece parte de seu contingente militar como membros de missões de paz onde houver demanda, e disponibilidade de sua Fundação Graad em discutir acordos comerciais a fim de incrementar a indústria e os negócios locais – falou o aquariano, erguendo levemente o queixo enquanto mirava em todas direções.
— São propostas louváveis, caro Cavaleiro – retrucou Stevenson, agora controlando o tom arrogante, já que perdera a primeira investida contra o rapaz, que só PARECIA inexperiente... – contudo, dados os riscos que determinadas áreas oferecem à tentativa de urbanização e industrialização, e digo isso porque tais tentativas não são inéditas, principalmente empreendidas pelo meu país, me pergunto se realmente podemos nos lançar a tal campanha antes de minimizar os conflitos violentos que assolam este continente... é como semear antes de cuidar de uma terra infértil ou tomada por pragas.
— Muita dessa violência é fruto de nossas ações, senhor Stevenson, tanto no passado como no presente. O consumismo desenfreado dos países ricos não se preocupa o suficiente com a procedência das matérias primas com as quais produzirão seus artigos; temos como exemplos de causadores de verdadeiras guerras a demanda por diamantes, ouro, tântalo, cassiterita, cobalto, cobre, madeiras nobres, columbita, o cacau até. Importante para nós tem sido a mão-de-obra barata que proporciona produtos igualmente baratos e lucros exponencialmente vantajosos. A exploração auxiliada por nossas “vistas grossas” não apenas ocasiona crimes como também são entraves ao desenvolvimento industrial regional, e assim temos o círculo de “fatalidades” formado e perpetuado.
— O senhor Camus insiste muito na obrigação que os países ricos têm de efetuar investimentos, e não de ajudar nossos irmãos – disse o loiro, elevando um pouco a voz – se o risco potencialmente real não é, a seus olhos, um entrave para a realização de negócios locais, gostaria de saber o que fazer quanto às limitações geográficas de muitos lugares, tais como desertos, que igualmente devem ser considerados.
— Não nego tais limitações, senhor Stevenson. Mas acredito que o senhor reconhece que até nisso os países ricos têm sua parcela de responsabilidade. Afinal, desde a Revolução Industrial, a emissão de gases poluentes por tanto tempo na atmosfera resultou no aquecimento global, e esse quadro deve piorar nos próximos 50 anos. Também deve reconhecer que o desmatamento, resultado da exploração provocada pelas multinacionais na extração de riquezas minerais, da qual somos NÓS os maiores beneficiários, contribui significativamente para a existência das “limitações geográficas” às quais o senhor se refere.
Desta vez houve até assobios na plateia. Milo remexia-se, orgulhoso.
— Ele é demais – deixou escapar, sorrindo.
— Não tem como argumentar com Camus, cara. Ele tem realmente o dom da palavra – comentou Aioria, impressionado.
“Se é assim... porque ele NÃO consegue me convencer sobre NÓS DOIS? Por que não percebo nele essa capacidade em se fazer explicar? Será que ele não conseguiu me convencer... ou EU que me recusei em escutar...?”, pensou o escorpiano, pela primeira vez em dúvida sobre o impasse entre eles.
— Eu não digo que os países ricos sejam os únicos responsáveis pela delicada situação do continente africano. Sabemos que muitos governantes africanos disso também se aproveitam, bem como vários líderes e dirigentes locais. Mas o reconhecimento de nossa culpa deve ser o ponto de partida para que tomemos medidas mais incisivas, e não meramente paliativas, como as que temos tomado até agora – Aquário completou, observando que o secretário da ONU preparava-se para falar.
— A ministra da economia da França, senhora Claire Le Héron, gostaria de fazer uma pergunta ao senhor Camus Chermont – anunciou.
— O que é isso, esse povo vai mesmo ficar sabatinando o Camus? – Milo deixou escapar alto o que deveria ser um resmungo. Desta vez Saga não o repreendeu: ele mesmo já estava ficando indignado com aquilo, ainda que demonstrasse tranquilidade. O companheiro estava se saindo muito bem, e sempre por cima, mas até quando? Só lhe restava confiar.
— Boa tarde, senhoras e senhores, senhor Camus...
— Muito boa tarde, senhora Le Héron – tratou-a pelo sobrenome para demonstrar maior respeito. A mulher, de cerca de 40 anos, elegantemente vestida num tailleur sóbrio e cinza, disse:
— Partilho da opinião do senhor em relação às nossas responsabilidades, nem sempre assumidas, mas creia-me, o esforço é presente, e crescente, no sentido de uma maior conscientização justamente por parte de jovens como o senhor...
“Zeus, até que enfim”, o escorpiano suspirou, meio aliviado, acreditando que finalmente alguém nos lugares de destaque da plenária apoiasse Camus. Seria por ser da mesma nacionalidade? Riu ante a suspeita simplista.
— ...entretanto, retomando sua menção à exploração mineral, a qual, parece-me, o senhor credita quase que exclusivamente a nós, acho pertinente lembrar... ou fazê-lo conhecer – e frisou o “fazê-lo conhecer” mirando-o com indisfarçável condescendência – que, em relação aos diamantes, talvez um dos mais polêmicos itens desencadeadores de conflitos, muitas das minas diamantíferas ficaram nas últimas décadas nas mãos de ditadores e líderes guerrilheiros da África. O apoio popular que recebem conduzem as regiões a longas guerras civis. Os maiores desencadeares de tragédias humanas, como Mobutu, Savimbi e Sankoh foram punidos graças à intervenção das nações que o senhor aponta como “responsáveis pela exploração”.
Murmúrios divididos elevaram-se mais uma vez.
“Certo, me enganei com ela”, pensou Milo, passando a mão no rosto. Já suava um pouco.
— Concordo plenamente, senhora Le Héron – enunciou Camus, sustentando a mesma calma – as causas fundamentais desses conflitos estão, em geral, relacionadas à fraqueza e à pouca, ou nenhuma, legitimidade dos governos. Uma cultura de violência marca os jovens estados africanos, herdeiros do domínio cultural europeu – e como a ministra, frisou também uma expressão, no caso “domínio cultural europeu”, evocando, mais uma vez, a responsabilidade das nações em questão – essa fragilidade manifesta-se no caráter vulnerável a intervenções internacionais e, é neste ponto em que mais uma vez me concentro, ao mercado informal, que possibilita a circulação de armas ilegais. E preciso dizer quem domina a produção mundial de armas (***) ?
— ISSO AÍ!!! – uma jovem africana, de turbante dourado, gritou. À sua coragem em se manifestar, outros se juntaram.
— Senhores, POR FAVOR, mantenham a ordem, ou serão retirados! – enfim o secretário geral ordenou.
— Senhor Camus – a francesa iniciou, mesmo antes de o silêncio ser restabelecido – foi assinado na Suíça o Processo de Kimberley, um acordo que padroniza e controla a emissão de certificados de procedência dos diamantes, o que evita o contrabando de pedras, e foi sancionada pelo Congresso dos EUA a Ata para o Comércio Limpo de Diamantes, que monitora o movimento de pedras não lapidadas no mundo.
— Eu sei que muita coisa melhorou, senhora Le Héron, mas isso não quer dizer que esteja bom. Se passamos de 8 milhões de mortes para 5 milhões de mortes, eu ainda vejo problemas a serem resolvidos, e com outras estratégias. Ainda mais porque essa medida cuida de uma parte muito pequena da produção mundial, já que 80% da mesma concentra-se nas mãos de dois negociantes, a empresa sul-africana De Beers e o milionário russo Lev Kiev. Eles estão nesse acordo, senhora Le Héron?
A mulher respirou mais forte. De fato, Nikki Oppenheimer, presidente da De Beers, resistia ao acordo... “querem fazer com a gente o que fizeram com os casacos de pele”, dizia lembrando que protestos de ONGs ecológicas prejudicaram o comércio de estolas e afins.
— E no mundo dos diamantes, os grandes mineradores são amigos dos governos e governantes... que por sua vez mantêm acordos com países ricos. Diamantes são como moedas. Conseguem-nos explorando o povo, ou seja, a baixo custo... e com eles pagam empréstimos internacionais, pagam propinas e compram armas. Eu me apodero das palavras de Jean-Bertin: a maldição do continente africano é a sua riqueza – alegou o francês, agora abaixando mais o tom de voz, como que conduzindo à reflexão, e não mais contra-argumentando – justamente por ser rico em matéria-prima, minerais e agrícolas, existe a dificuldade de se produzir para o mercado interno. E sem isso, não há crescimento. Essa exploração tem como objetivo o mercado externo, o que prejudicou o desenvolvimento de produções voltadas para a subsistência da população africana, pois inutilizou muitas das áreas que poderiam ser úteis nesse sentido. E é esta a minha proposta, e a da Deusa em nome da qual aqui estou: assumamos a responsabilidade em fomentar essa produção interna. Invistamos na indústria. Permitamos que cresçam. Não é apenas o tráfico de diamantes que deve ser banido, e usei-o como ilustração: os salários escandalosamente baixos pagos aos trabalhadores africanos, ou o trabalho infantil, realizados em condições precárias também têm que sumir para sempre. Nós devemos isso à África.
Não houve cara feia de secretário nem de ministros que impedissem a chuva de palmas que se abateu sobre a câmara. Assobios e tambores foram ouvidos; os chefes de Estado se entreolharam e alguns aplaudiram também, outros permaneceram estáticos, ainda que se visse a surpresa em seus semblantes.
— Senhores, por gentileza...! – o secretário geral pedia, insistentemente.
Camus fez uma mesura e deixou o centro do palanque, pois seu tempo tinha acabado. Voltou para seu assento e acomodou-se, ainda aparentando serenidade.
— Muito bom, Camus – Saga permitiu-se um sorriso, satisfeito.
— Ele foi incrível – falou Aioria, rindo. Virou-se para o amigo – Não foi, Milo?
— É... ele É incrível – reconheceu, embevecido. Recebeu uma cotovelada do leonino.
— E você tá deixando ele escapar, mesmo todo apaixonado desse jeito aí…
— Ei, qual foi? Tem nada de “apaixonado” aqui, não – defendeu-se – Não posso admirar a oratória de um companheiro?
— Hehehe, sei que você admira outras coisas também... aliás, admira TUDO dele. É só olhar pra essa tua cara vermelha.
— Cala a boca, seu pulguento...
— Depois não reclama quando o Surtr “chegar nele” e conseguir o que você tá esnobando, falou?
— O que...
— Vocês dois, parem de cochichar – ralhou Gêmeos. O próximo palestrante se dirigia para o centro do semicírculo.
Inconscientemente, Milo procurou Surtr com o olhar: viu-o do outro lado, fitando com insistência o francês já sentado. A satisfação em suas feições era evidente, e um discreto sorriso se desenhava na face orgulhosa do asgardiano.
“Depois não reclama quando o Surtr “chegar nele” e conseguir o que você tá esnobando, falou?”
“Aquilo... não é cara de quem só quer amizade”, observou o escorpiano, pensativo.
Lembrou do beijo no hall do hotel.
No brilho do olhar.
“ Está me entregando o homem que você ama? Depois de eu dizer que ele te ama? Você não é apenas um homem curioso, Escorpião... é bem generoso.”
“Ele só falou isso pra me provocar”, raciocinou o grego, forçando-se a não pensar mais naquilo. Enquanto isso, Surtr contemplava o amigo com indisfarçável admiração, pensando:
“Você é mesmo fabuloso, Camus. Quem diria que debaixo dessa aura gelada e indiferente habita tanta força de ideias... eu nunca o havia visto em ação que não fosse no campo de batalha... para mim, assim você é ainda mais fantástico. E só reforça o que apenas se insinuava aqui no meu peito: eu te quero. E vou te ter.”
— Quer tirar esse sorriso estranho da cara? Vão achar que você está rindo das palavras do palestrante de agora – sussurrou-lhe Sigmund, sério.
— Eu quero é que o palestrante de agora se foda – respondeu-lhe, igualmente baixo, e como sempre, despreocupado.
— Você é mesmo uma vergonha para os Guerreiros Deuses – o loiro não aguentou, franzindo o cenho.
— E eu tô pouco me fodendo pro que você acha de mim também.
— Como é vulgar...
— Sigmund – Frodi chamou-o – Não se distraia. Deixe-o.
O jovem fez conforme lhe foi sugerido, já que aquela sugestão vinha de um guerreiro honrado, e não leviano como o ruivo, a quem fuzilava com o olhar...
*************
A tarde transcorreu em palestras, discursos e debates; a participação de Camus, porém, havia deixado marcas indeléveis, patenteadas nas constantes referências feitas a ele durante o resto do dia. As comitivas começaram a deixar o prédio rumo ao estacionamento: o cheiro de fumaça ainda presente fez com que olhassem na direção dos manifestos de horas antes: o cordão de isolamento permanecia, e agora havia centenas de militares circundando o prédio. A maioria das pessoas haviam deixado o local, restando apenas uns poucos, e de muito longe.
— Será que já chegaram a uma conclusão sobre o que aconteceu mais cedo? – questionou Frodi, emparelhando-se com os Santos de Atena.
— Os paramédicos disseram que seria feita uma perícia pra saber se o que explodiu foi um carro bomba ou se foi uma bomba caseira que acidentalmente implodiu dentro de um carro ao ser transportada para cá – Milo lembrou.
— É certo que se tratava de uma manifestação popular. Porém as explosões me pareceram suspeitas; se quisessem protestar e chamar a atenção da mídia internacional, não teriam sequer usado bombas de fabricação caseira – opinou Saga.
— E por que não? Acha que chamariam a atenção brandindo flores, como hippies? – zombou Surtr.
O geminiano estreitou os olhos para ele.
— Acho que não seriam bem sucedidos em seu intuito se atraíssem críticas e reprovação para movimento em questão. Para mim, houve mesmo infiltração de algum grupo terrorista no protesto.
— Mas Saga, você acha que os manifestantes não sabiam disso?
— Eu tenho quase certeza de que não sabiam, Sigmund. Acha que eles se arriscariam a ir também pelos ares?
— Bom, esses bárbaros são meio suicidas, né? – retrucou Surtr, colocando as mãos nos bolsos.
— Pare de chamá-los de bárbaros e de se dirigir a eles nesse tom jocoso – ordenou Camus, severamente.
O ruivo arregalou os olhos.
— Muito me admira você dizer isso. Quase foi atingido por algo que ELES lançaram sobre você!
— Nem foram eles que atiraram aquilo, nem era eu um alvo – devolveu, seco.
— Você não tem como saber!
— Você também não... até a perícia ser concluída. Mas eu já adianto que, como disse o Saga, isso não é perfil de protesto popular.
— Então você também acha que foi um carro bomba terrorista – quis saber Aioria – agora por que logo numa conferência da ONU...?
Começaram a embarcar no ônibus.
— Camus – Surtr o chamou – Você foi perfeito. Meus parabéns.
— Verdade, Aquário. Foi muito bom o seu pronunciamento – ajuntou Sigmund.
— Eu tenciono seguir a sua linha no meu – disse Frodi. O francês sorriu também:
— Fico feliz em saber disso, Frodi. É bom saber que estamos unidos nessa causa.
Nem Milo nem Surtr gostaram de vê-lo sorrindo para o guerreiro de cabelos azuis...
— Que tal fazermos alguma coisa hoje à noite, Camus? É noite de sexta, e amanhã não haverá palestras – o ruivo propôs, ante um olhar estupefato do escorpiano, enquanto passavam pelo corredor acarpetado.
— Eu pretendo dormir cedo, Surtr, foi um dia bastante cansativo – respondeu, simplesmente.
Milo não sabia se sorria pela resposta de Camus ou pela expressão de decepção de Surtr... separaram-se, por fim. O aquariano sentou na janela e ao seu lado não foi Saga, mas sim Milo quem tomou o lugar.
Ambos permaneceram silenciosos durante quase todo o caminho. Não sabiam o que dizer. Apenas quando o ônibus dobrou a estrada acima do mar, e ao fundo já se podia distinguir o opulento resort, Camus quebrou o silêncio:
— Muito obrigado por tudo hoje.
— Ah... hum, não foi nada, eu só...
— Cumpriu com seu dever, eu sei – o francês adiantou-se, decidido – Mas não falo apenas de ter me salvado a vida. Falo do momento que precedeu meu discurso.
Um tanto constrangido, Milo coçou o pescoço. Sim, deixara se levar pela emoção...
— Que nada. Era o mínimo que eu poderia fazer por um companheiro que está prestes a cumprir uma missão dada por Atena e...
— Será que nós poderíamos conversar mais tarde?
Milo estremeceu.
— Eu receio que não. Combinei de sair com Aioria à noite.
— Ah, sim? – o francês não demonstrou desânimo algum ante aquela negativa – Bom, seria apenas um drink... e uma breve conversa. Suponho que vocês dois vão a alguma casa noturna, não?
— Sim, tem uma boate no centro que parece muito legal... a gente deve ir umas 22 horas.
— Podemos nos encontrar no bar do hotel mesmo, antes de vocês saírem – sugeriu o aquariano, nada disposto a ceder desta vez – Não vai demorar muito. É só um drink.
Sem virar para o lado, o escorpiano pareceu cogitar. Bom... eles não eram inimigos, oras. Seria apenas um drink ou dois, antes de ele ir para a noitada com o melhor amigo. Por mais que seu orgulho lhe gritasse “não aceite”, sua razão (sim, por vezes ela falava também!) dizia-lhe que fugir para sempre do “colega de farda” (algo do tipo) era infantil... e passava uma imagem da qual ele queria se despir: a de que se importava. De que ainda estava magoado.
— Está certo. Podemos marcar no piano bar umas... hã... 21 horas?
— Pode ser 20 horas?
“Ai, é mais tempo que vou ficar perto dele...”, pensou Milo, nervoso. Não queria ficar tanto tempo perto dele.
— Hum... 20:30… sabe que eu demoro pra me arrumar e…
Calou-se, envergonhado pelo que dissera. Camus sorriu, um sorriso que mesclava tristeza e nostalgia.
— Sim, eu sei. Ou melhor, eu me lembro – murmurou. E concordou, sem deixar transparecer a esperança que fez seu coração disparar – Certo, está marcado. 20:30 no piano bar do térreo.
— Combinado – assentiu o grego, sentindo o mesmo que o ex-namorado.
No céu a lua despontava por entre escassas nuvens.
Os passageiros desembarcaram e entraram no resort. Passando pelo hall, os Santos de Ouro e os Guerreiros Deuses conversavam entre si, ainda parabenizando Camus e dando suas impressões sobre o dia. O ruivo atrasara o passo e, como não era lá muito bem quisto por eles, disso os rapazes nem fizeram caso. Aproveitando-se do colóquio que se desenrolava já distante, Surtr chamou um dos atendentes.
— Pois não, senhor.
— Eu gostaria de um favor seu, meu rapaz. Posso pagar bem.
O jovem fez uma expressão curiosa. Já havia recebido propostas indecorosas de hóspedes estrangeiros, pois que era belo e, aos olhares de vários daqueles “gringos”, bem exótico e promissor, com aquela altura, aqueles músculos mal disfarçados pelo uniforme do hotel, e aquela pele num acetinado tom negro tão uniforme quanto os grandes e vivos olhos. De algumas dessas propostas ele se valera bastante, havia até ganhado um carro de um magnata alemão.
— Não garanto que o farei, senhor, mas posso ouvir – respondeu ele, considerando o ruivo e pensando que não seria nada desagradável.
— Não é algo a que vocês são permitidos, eu sei. Mas desejo saber o apartamento daquele homem de cabelos compridos azuis esverdeados, que veste terno cinza – descreveu para não apontar, em seguida, mostrando o número de seu quarto, gravado no cartão chave que tirou do bolso – e desejo outra coisa; saber quando ele sair de suas acomodações. Vai ligar para este apartamento e pedir para falar com “o senhor Surtr”.
Um tanto surpreso, o rapaz balançou a cabeça numa leve negativa; de fato, aquilo era muito mais arriscado que aceitar propostas sexuais de hóspedes endinheirados.
— O senhor acertou. Não somos permitidos a dar informações de nossos hóspedes a outros.
— Quanto você recebe aqui por mês?
— Eu...
— Pagarei o triplo – prometeu Surtr, sorrindo de modo sensual e convincente.
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