O Brilho da Honra
10 Distâncias
Notas iniciais
Derrick Sirham poderia ser considerado um rapaz de sorte. Nascera há 22 anos no extremo oposto de onde ele se encontrava agora, em meio a um balcão de nácar e paredes com entalhes em puro ouro, refletindo a iluminação oriunda do lustre de cristal e opalinas. Em outras palavras, nascido em uma das townships, as extensas áreas pobres que permeavam as rodovias, bem distante da área nobre onde trabalhava. Derrick fora agraciado com a suprema graça dos deuses: a combinação de sorte, beleza física e inteligência. Um coquetel capaz de suplantar aquela que é tida como a maior das bençãos, a riqueza. Pois que desde muito cedo, Derrick percebeu os olhares que recebia, e, consequentemente, sua sagacidade logo tratou de traçar estratégias para que ele tivesse um destino muito diferente dos seus, que ainda estavam lá naquela penúria, sem ter sequer esgoto tratado. Não ele: aos 16 anos, e já aparentando 18, fazia programas com turistas endinheirados embasbacados com suas formas bem esculpidas e, ora, desde adolescente já ouvia aquilo, não havia como negar, seus “dotes” promissores. Dentes imaculadamente brancos, em perfeito alinhamento, o que sempre causava assombro em quem com ele falasse, e, em seguida, aquele sorriso entre inocente e pervertido que deixava quem quer que fosse de quatro pelo garoto. E isso quase sempre literalmente. Até nisso ele havia tido “sorte”: na grande maioria das vezes, Sirham era o ativo da relação. Não que desgostasse de ser passivo, ou menosprezasse seus colegas que exerciam mais amiúde esse papel: apenas considerava mais rentável assim, uma vez que se ficasse “por baixo”, não conseguiria fazer mais que dois ou três programas por noite (os estrangeiros gostavam de descontar nele o que não podiam fazer nas esposas, ele aprendeu rápido isso), ao passo que sendo ativo, esse número duplicava. Durante o dia fazia cursos de idiomas, e assim, aos 22 anos, o sul-africano dominava além das línguas oficiais, inglês e africâner, o italiano, alemão e já arranhava francês e russo (ninguém diria como russos eram generosos, ele descobriu isso logo também e não perdeu tempo). Assim, acabou trabalhando como recepcionista poliglota daquele hotel padrão seis estrelas. Não que ganhasse mais ali que vendendo seu estonteante corpo, não. Almejava, porém, um futuro como gerente ou algo do tipo, e não estava longe. O salário, em comparação ao que ganhavam jovens de sua idade moradores das favelas, era bastante satisfatório. Mas Derrick já se acostumara a ter mais, muito e sempre. Amantes, regalias, viagens, presentes, admiração. Já viajara à Europa; já ganhara um carro; seria a primeira vez que ganharia tanto dinheiro só por umas míseras informações acerca de um conferencista. E nisso pensava ao vê-lo sair do elevador. Sorriu de leve; com uma sorte daquelas, TINHA mesmo que sorrir.
Os deuses sorriram para ele... ele sorria também.
Observou-o, sem se importar em disfarçar muito, em razão da distância em que se encontrava o jovem. Vestia-se casualmente, nem muito formal, nem informal em demasia. Os cabelos – impressionantes, aliás – caíam soltos pelo corpo esguio porém forte. Não parecia que ia sair, pois virou à esquerda, ao invés de seguir rumo ao saguão.
A bem de conservar sua fabulosa sorte – ele fazia por onde, sempre! – Derrick esperou uns cinco minutos, antes de tomar o gancho do telefone e digitar o número 402.
— Boa noite – a voz do ruivo, um tanto apática.
— Boa noite, senhor Surtr.
— Oh, é você. Pode falar. Ele apareceu aí embaixo?
— Sim, senhor.
— Hum. Saiu do hotel? – indagou o asgardiano, segurando o fone e indo até o armário buscar seus sapatos.
— Não, senhor. Ele não saiu, não. Está no resort mesmo.
— Ah, é? – o tom desinteressado adquiriu mais curiosidade – E tem ideia de onde ele esteja agora? Será que foi à praia pelo caminho do jardim?
— Não, senhor, pela direção que ele seguiu, deve ter ido para a sala de cinema, o restaurante ou o piano bar.
— Aham – Surtr calçou seus calçados e dirigiu-se à varanda enquanto falava – Diga-me... tinha alguém com ele?
— Não senhor, ele estava sozinho.
— Certo. Quero que vá verificar, COM EXATIDÃO, onde ele está. Assim que souber, ligue de volta. Estarei esperando.
— Mesmo que ele esteja com alguém, senhor?
Surtr parou uns instantes. Verdade... Camus havia descido sozinho. Mas talvez tivesse MARCADO com alguém no restaurante... ou no piano bar... ou onde inferno quisesse que estivesse.
E o filha da mãe disse que iria dormir cedo, hã? Recusara um convite para fazer algo com ele para isso... descer e se encontrar com alguém! Uma raiva surda fez com que seu silêncio se estendesse a ponto de Derrick chamar, do outro lado da linha:
— Senhor?
— Sim… mesmo… mesmo que ele esteja com alguém, você me informa. Preste bem atenção na pessoa para descrevê-la, sim? – orientou, controlando a impaciência.
— Pois não, senhor Surtr, eu entrarei em contato logo a seguir. Com licença.
Surtr pôs o telefone no lugar, agradecendo a Odin por ter conseguido ficar num apartamento sozinho, sem aqueles pedantes do Frodi e do Sigmund. Tivera que bater o pé só um pouquinho, e logo desistiram dele. Vantagens de não ser muito estimado, pensou, sorrindo. Tomou nas mãos o colar que trazia ao pescoço, fitando o medalhão escuro, que luziu sinistramente.
— Você que me “deu” ele, Escorpião... só vou fazer a SUA vontade... – murmurou, colocando a jóia para dentro da camisa branca.
*************
Camus adentrou o luxuoso recinto, valorizado pela iluminação tênue e uniforme. O teto abobadado não cobria toda a extensão do piano bar, sendo o restante preenchido por uma cobertura de vidro, através da qual podia-se ter a visão do céu estrelado. Pelo extenso balcão luzidio poucas pessoas sorviam seus drinks, a maioria preferia o maior conforto de poltronas e bancos acolchoados circundando as mesas. O pianista executava uma canção nem lenta nem animada demais, o suficiente para não deixar os frequentadores com mais tédio que aquele lugar inspirava. O tom predominante da decoração era dourado, vermelho e negro, um padrão do hotel, pelo que se podia perceber.
Olhou-se ao espelho antes de tomar assento, verificando sua aparência, um tanto apreensivo: vestia uma calça jeans estilo clássico, com uma camisa de botão dobrada no cotovelo na cor preta. Estava bem simples, mas também, não iria sair nem nada... não queria dar a impressão de muito esmero em se vestir para um encontro de reles duas horas dentro do próprio hotel, antes que o outro sim partisse para noitada... os cabelos azul petróleo estavam soltos e muito lisos, e Camus considerou-os compridos demais: talvez devesse cortá-los um palmo acima da cintura, como estavam na época de sua... de sua “primeira” morte. Haviam crescido estupidamente durante aqueles quatro anos, chegando na metade das coxas. Bom, agora era tarde. Conferiu se a franja não lhe tapava os olhos em demasia, e cheirou o pulso a fim de detectar qualquer exagero no perfume. Nem se lembrava de há quanto tempo não se perfumava! Sentiu-se subitamente ridículo... não, nada de hesitações. Não desta vez. Não nesta noite.
— Boa noite – o cumprimento do barman o despertou dos devaneios – o senhor deseja ficar no balcão ou prefere uma mesa?
— Eu vou ficar aqui no balcão mesmo, obrigado – não queria sentar numa daquelas mesas como quem espera alguém... o balcão dava-lhe maior despojamento. Havia marcado 20:30 com Milo, mas preferiu descer meia hora antes… considerou que um drink antes que o grego chegasse poderia ajudá-lo a relaxar um pouco. A não deixá-lo tão travado.
— Pois não, fique à vontade. O que o senhor deseja?
O aquariano hesitou... nem era muito de beber. Ocasionalmente, tomava vinho tinto, ou champanhe, contudo ponderou se não seria melhor tomar algo MAIS forte...
— Algum drink com... com vodka estaria bom.
O barman mirou-o, como se pensasse que aquilo era um pedido tanto quanto vago. Simpático, perguntou:
—O senhor gosta de drinks mais doces ou menos?...
— Não... não gosto muito de coisas doces – respondeu, olhando de soslaio, na expectativa de Milo chegar. Bobagem. Ainda eram 20:03…
— Aqui está a carta de bebidas e drinks. Eu poderia sugerir ao senhor um “Black & Blue”. Um drink bem marcante, à base de vodka preta e curaçau Blue.
Assentindo com a cabeça, Camus preferiu poupar o barman da informação que ele sequer sabia que existia uma vodka preta. Enquanto a bebida era preparada, o francês se distraía vendo as outras opções do bar, e não percebeu que era observado por um jovem recém chegado que, da entrada, chamou a atenção de alguns: trajava uma calça de couro marrom e uma blusa de gola alta preta. Usava algumas pulseiras de couro preto e os cabelos azulados desciam em suaves cachos tão leves que eclipsavam os penteados das damas ali presentes. De compleição forte a ponto de deixar bem marcados os músculos das coxas grossas e do peito largo por baixo das roupas. Ele pareceu hesitar, notaram aqueles que o admiravam.
“Ele JÁ está aqui... e eu que pensei em tomar um drink antes que ele chegasse só pra dar aquela relaxada” Milo pensou, caminhando, enfim, na direção do suntuoso bar.
— Camus! Já está aqui – simulou surpresa.
— Ah, boa noite, Milo – o aquariano por sua vez procurou disfarçar a surpresa. Não imaginava que o grego chegaria tão cedo, mal havia tomado dois goles!
— Sim, estava entediado no apartamento e resolvi vir logo tomar um drink – mentiu, sorvendo um pouco da bebida gelada.
— Você entediado? Essa é nova pra mim. Sempre tá ocupado com seus livros e estudos... – sentou-se ao lado dele e apontou para o copo de Aquário, falando ao barman – Oi, eu quero isso aí que ele tá bebendo, por favor.
O atendente sorriu e foi preparar a bebida. Camus aprumou-se sobre o banco ao proferir:
— Após tantos dias de leituras e pesquisas exaustivas, achei por bem não me ocupar de semelhantes atividades hoje.
— Faz bem. E... você vai sair também?
— Eu? Não. Por que pergunta?
— Ahh... bem... tipo, achei que você...
“Está tão lindo, Camus.”
— ... você sabe...
“Tão lindo... mais do que nunca esteve...”
— ...parece arrumado pra sair...
“Seu idiota, ele vai perceber isso como um elogio.”
— Como assim? – o francês realmente não entendeu.
— Vestido assim... como se... fosse sair.
— Que nada, perto de você estou mal vestido...
“Está tão lindo, Milo.”
— ... mas você SIM vai sair, não? Fará sucesso na boate, por certo...
“Cale essa boca, isso é lá coisa que se diga?”
— Hehehehe, mas eu SEMPRE me visto assim, ué.
“Sempre não. Você é NATURALMENTE sexy. Hoje está DELIBERADAMENTE. Para uma noitada”, pensou Camus, sorvendo a bebida.
— Isto é forte! Desde quando bebe coisas assim? – indagou Milo, mirando o próprio copo após um novo gole.
— De vez em quando é bom experimentar algo diferente – foi o melhor que conseguiu inventar. Balançou os cubos de gelo no fundo, evitando ao máximo se perder naqueles olhos da cor do céu.
— Nunca pensei que fosse ouvir você dizer isso – riu o grego – Sempre foi tão metódico, tão certinho, tão...
Calou-se, de repente. Quem era ele para ficar dizendo o que Camus foi ou tinha deixado de ser?
Não era mais nada dele, NADA!
— Então... essa boate a que você e Aioria vão...
— Não me diga que quer ir? – espantou-se Milo. Recebeu um olhar um tanto indignado.
— Não se preocupe. Não quero ir – falou, seco.
Sem se dar conta, o escorpiano riu de novo:
— Não, não é isso! É que você tinha acabado de dizer que era bom experimentar coisas diferentes...
— Não chego a tanto – retrucou, suavizando o tom – Continuo detestando tais ambientes. Mas me fale dela. Onde é?
— Ah… fica no centro. Parece bem legal, tem três andares, pistas enormes, a mais moderna da cidade, Sound Season, o nome. A gente achou pesquisando o que fazer nas noites de sexta e sábado, hehehe...
Notou que o aquariano apenas o ouvia, apoiando o rosto com uma das mãos, muito concentrado... e enigmático.
— É claro que... que se quiser ir... se...
— Sossegue, Milo. Eu não quero ir a boate alguma.
O outro mirou as próprias mãos, um tanto sem jeito. Foi quando ouviu:
—Uma noitada perfeita para mim seria aqui mesmo… com você.
Engolindo em seco, Milo se perguntava se aquilo não era algum tipo de alucinação sonora.
Da entrada por onde viera o escorpiano, um jovem negro lançou um olhar sobre o piano bar. Viu os dois Santos conversando no balcão. Virou-se e voltou para o hall. Por trás do balcão da recepção, pegou um dos telefones e chamou o número 402.
— Senhor Surtr. É sobre seu pedido – falou, afastando-se um pouco mais dos demais recepcionistas, encostando-se na outra extremidade da bancada fria.
— Sim, prossiga.
— Ele está no piano bar do térreo, em frente ao cassino, seguindo à esquerda dos elevadores dos apartamentos ímpares.
— Hum. No piano bar... ele está sozinho, ainda? – o ruivo ajeitou uma mecha de cabelo que teimava em cair sobre seus olhos.
— Não senhor, há um cavalheiro acompanhando-o.
A expressão do asgardiano mudou.
— Descreva-o – ordenou, tão somente.
— Ele é alto, mais forte que magro, cabelos bem compridos azuis escuros...
“Que droga. Milo ou Saga? Além dessa descrição servir bem aos dois imbecis, Gêmeos também é bem próximo de Camus...”, pensou, sem saber o que fazer. Com Milo ele tinha até coragem de bater de frente, mas Saga... Saga não.
— Eles estão muito próximos?
— Próximos? Como assim, senhor...?
— Parecem muito amigos… muito íntimos... estão rindo ou...
— Não, conversam mantendo certa distância, foi a impressão que tive – respondeu o atendente.
— Certo. Diga... tem alguma maneira de eu acessar ao piano bar sem que eles me vejam? – perguntou Surtr, verificando-se no imenso espelho da sala de estar.
— Pela entrada oposta, cujo acesso é pelo campo de golfe. Se o senhor vier por ela, não será visto, a menos que vá na direção do piano e da fonte.
— Perfeito. Muito obrigado, huum...
— Derrick. Derrick Sirham.
— Vejam só... – a voz do asgardiano fez-se macia — um nome tão bonito e forte como quem o possui. Eu agradeço imensamente, Derrick. Avise-me se vir um deles passar pela recepção, está bem?
— Entendido, senhor – assentiu o rapaz, sentindo-se orgulhoso por receber aquele elogio de um homem tão interessante. Bom, não tão interessante quanto o dinheiro que recebera dele, mas... atendê-lo de modo mais “quente” não seria nada desagradável, nada mesmo! Só não lamentava o favor requerido não ser do tipo sexual em virtude de seu valor superior.
Assim que desligou o telefone, Surtr mordeu o lábio inferior, pensativo. Dirigiu-se para a varanda; sentou-se na poltrona de vime escuro e serviu-se do vinho que saboreava na sala, momentos antes de receber a ligação. Camus se negara a passar a noite com ele e no entanto estava num bar do hotel com outra pessoa. Milo ou Saga, quem seria?
Fosse ele mais devoto, acharia que o Grande Odin conspirava a seu favor: porque de sua varanda dava para ver o apartamento de Sigmund e Frodi, no quinto andar. E eis que viu, na imensa área externa, os dois compatriotas e Saga. Os três não se deram conta de que ele os vira. Pareciam beber café, ou chá, e conversavam relaxadamente. Saiu rapidamente dali antes que fosse notado.
SAGA ESTAVA COM ELES.
Então quem estava com Camus ERA MESMO MILO.
“Seu patife, não demorou em fazer seu movimento, hã?”, pensou, irado, sem saber que o amigo é quem havia convidado o escorpiano.
Largou a taça em cima da mesa e dirigiu-se para a porta.
Hora de agir.
*************
— Camus... – começou Milo, sem graça pelo que escutara.
— E você vai sair assim, com esse ferimento? Pode não ter sido profundo, mas você ainda está com o curativo, eu presumo.
— Estou, mas... não é grande coisa. Nem dói. Estou usando apenas porque Aioria insistiu. Ele disse que pode infeccionar se não tapar a lesão e o machucado ficar roçando na roupa diretamente.
Fazendo sinal ao barman para que lhe servisse outro Black & Blue, o aquariano comentou, neutro:
— Saga e Frodi acham que o que houve pode ter sido obra de um terrorista infiltrado.
— Bem, os paramédicos que me atenderam achavam que podia ser apenas algum manifestante mais radical... que uma bomba caseira carregada por algum sem noção assim tivesse explodido acidentalmente – respondeu o grego, pedindo segundo copo.
— Caso tivesse sido um ataque terrorista, o natural seria que algum grupo tivesse assumido o ato.
— Como assim, Camus, os terroristas se entregam dessa maneira?
— Não é que se entreguem. Assumir um ataque terrorista é um atestado de poder. É uma forma de demonstrar do que são capazes e com que estão incomodados.
Milo descansou o queixo em uma das mãos, intrigado:
— Isso me parece bem sem sentido.
— Não é, não. Há inclusive casos em que uma organização terrorista assume um ataque que NÃO foi de sua autoria.
— Ué, tipo assumir um crime que não cometeu? – Milo ergueu uma sobrancelha.
— Não. Surrupiar o respeito e o temor que seriam direcionados a outra organização pelo feito.
— Cara, isso é coisa de maluco.
— Não, Milo, é justamente o contrário. Raras vezes são de pessoas sem razão, sem noção do que fazem. Tudo é muito bem calculado, tanto o processo quanto suas consequências.
A música executada com maestria pelo pianista terminou, e uma salva de palmas correu o elegante salão. O grego observou o seu interlocutor, admirado com sua frieza ao analisar aqueles fatos tão passíveis de causar revolta pura e simples.
— Atena não poderia ter escolhido melhor seus representantes – disse, sorrindo levemente – Você e Saga são muito preparados para lidar com essas questões. E você hoje... uau, você massacrou aqueles calhordas.
— Não fale assim. Faz parecer que são inimigos. E não são. Só possuem uma visão diferente...
— Ah, qualé, parecia que queriam te comer vivo ali! E nem era o dia do debate! – Milo fingiu tremer – Zeus, não quero nem imaginar o dia em que for MESMO o debate! Melhor vestir sua armadura...
Rendendo-se ao riso, ainda que comedido, como de praxe, Camus abaixou a cabeça. Estranha emoção apoderou-se dele, e sem que pudesse mais refrear, declarou:
— Eu sinto sua falta, Milo.
O riso do outro extinguiu-se imediatamente. O francês continuou, agora encarando-o com decisão:
— Queria que ficássemos juntos novamente.
— Camus... – o grego sustentou o olhar, igualmente firme — ...se vai começar, eu levanto desta cadeira agora mesmo.
Estremecendo com aquela fala, o aquariano insistiu, externamente nem sombra do desespero que ribombava em seu interior:
— Você realmente não sente mais nada por mim?
— Eu avisei – e ergueu-se do banco, apunhalando com essa ação o peito do ex-namorado.
“Não, não vou desistir desta vez!”
— Milo. Não há necessidade de ações destemperadas.
— Para de falar assim comigo, tu não tá mais no palanque, não! – rebateu mais alto do que pretendia.
— Você nunca vai permitir que conversemos com propriedade sobre nossa situação, não é mesmo? – Camus, por sua vez, conservava a calma, e talvez fosse isso que revoltava mais ainda o escorpiano.
— “Nossa situação”? – ele riu, sarcasticamente – Se não existe mais “nós”, é evidente que não existe mais “nossa situação”!
— Não, Milo. Não existe uma CHANCE. Não existe, nunca existiu uma chance para que eu pudesse falar com você sobre o que ocorreu em Asgard...
— Você já falou. Cem mil vezes.
— NÃO tudo! Não o que PRECISO falar! Não o que VOCÊ PRECISA ouvir! Porque... porque você não deixa – começou em voz quase alta, mas o dito tornou-se um murmúrio.
Alguns poucos hóspedes olharam-nos num misto de curiosidade e reprovação. Um lugar elegante como aquele e aqueles dois jovens à beira de uma cena. Percebendo, ambos acalmaram os ânimos, respirando fundo e bebendo mais.
De longe, instalado num sofá de veludo verde, Surtr observa os dois. Distinguira PERFEITAMENTE uma contenda ali... sorveu o vinho com um sorriso nos lábios. Não, aquilo merecia uma bela assistida antes de ELE entrar em ação. Causava-lhe quase um prazer perverso, a angústia no rosto de Camus, a ira no rosto de Milo... poderia se masturbar com aquilo, oh, se poderia. Virou mais vinho, e nem mesmo a música enjoativamente lenta acalmou as excitadas batidas de seu coração.
— Não tenho como impedi-lo de ir embora. Só gostaria de saber por que teme tanto me ouvir.
— Eu não temo nada. Eu só não quero.
— Certo. Pode fugir agora, então. Vá. Vá para sua noitada. Consiga corpos para tentar se esquecer de quem você REALMENTE AMA... e que te ama.
O grego fitou-o, balançando a cabeça de indignação.
— Não fui eu que troquei a pessoa amada por outra qualquer – disparou, com desprezo infinito.
— Milo...
— Quanto aos corpos – deixou-se cair sentado novamente no banco – Não preciso disso. Ao contrário de você, eu não me deitei com ninguém, desde que nos separamos. Digo... desde sua primeira morte.
Camus não sabia se ficava mais estupefato por aquele “ao contrário de você”... ou por aquela revelação. Então Milo... Milo, tão fogoso e entusiasta dos prazeres da carne... mantivera-se abstêmico em sua ausência?!?
— E quem disse que me deitei com alguém? – perguntou, singelamente.
— Você e o Surtr não... não...?
— Milo, por ZEUS! Por isso eu digo que tem que ouvir minha versão dos fatos. Você não o faz, e fica aí imaginando coisas... – bebeu o resto do drink, já acenando para o barman. Aquilo dava-lhe coragem.
— Bem, eu... eu... olha. Não importa. O que importa é que você TEM que aceitar. Aceitar que TUDO acabou. Não sabe aceitar os fatos?
— E você, que não aceita o que seu próprio coração diz... vem me dizer que não sei aceitar os fatos? – volveu, num tom baixo.
— Isso não é verdade! – defendeu-se o grego, sentindo-se acuado. Não lutava num terreno propício. Camus sabia ler sua alma, e era muito mais hábil em argumentação que ele – Eu... certo. Que meu coração diga uma coisa, mas o que minha razão diz é outra. Não era você que defendia a superioridade da razão em relação às emoções?
O aquariano teve que contrair os lábios para que eles não se movessem num sorriso.
Com aquilo Milo apenas confessava que SIM, seus sentimentos NÃO estavam mortos como ele tão arduamente apregoava.
— Aproveitar a nova vida que nos foi dada para superar as falhas do passado seria prova de que você estaria ouvindo a razão, Milo. A razão não contempla o sufocamento do amor quando ele existe.
— Eu já acho que o amor não é a solução de tudo.
Desta vez foi Camus quem ficou momentaneamente sem ação.
Milo... o SEU Milo... jamais teria enunciado aquilo no passado!
“O amor não é a solução de tudo.”
Jamais!
Nunca!
— Eu só queria uma chance de tentar amenizar toda essa dor que lhe causei – desabafou, sentindo-se fraquejar.
— Você pode fazer isso afastando-se de mim.
Nenhum golpe físico poderia ter esmurrado Camus com tanta violência quanto aquela frase. Por um momento sentiu-se em choque, sem ação, apenas desejoso de evadir-se e nada mais pedir. Contudo, reparou que tampouco Milo se levantava.
— Realmente, você mudou muito – comentou, distraidamente, não mais olhando para ele.
— Oh, mudei? Como?
— O Milo que conheci e amei não era tão covarde.
Inesperadamente sentiu-se alçar sobre o banco, sem entender o que ocorria. Eram os vapores do álcool, a iluminação baixa... ou Milo REALMENTE segurava-o ameaçadoramente pela gola da camisa?
— Repita o que disse – comandou, a voz rouca de raiva.
— Senhores...! – fez o barman, apavorado. Surtr prontamente se ergueu, os olhos magentas muito abertos, sem saber se continuava observando ou...
... ou nada! Aquele bárbaro iria... machucar o “seu” Camus!
— Além de covarde ficou surdo... – os lábios finos do francês chegaram a produzir um meio sorriso – pois não, eu repito...
— O que está acontecendo aqui? – o asgardiano surgiu por trás deles.
— Oh. Você – disse Milo, sem se impressionar com aquela aparição. Virou-se para Camus, soltando-o bruscamente – Pelo jeito você tem mais guarda-costas.
Levando a mão até o pescoço, por onde o tecido correra de forma rude, o aquariano nada respondeu. O ocorrido, as palavras, a expressão no rosto do amado, o álcool... tudo o atordoava.
— É assim que cumpre sua função de “guarda-costas”, Escorpião? OK, primeiro machuca o rosto dele e agora pretendia o quê, bater nele? – disse o asgardiano, duro, porém sem erguer a voz.
O barman aproximou-se, aflito.
— Senhores, por favor...
— Tá tudo bem – Milo cortou-o, aborrecido. E olhou fundo nos olhos de Camus – Uma pessoa que atacou sem aviso algum aquele a quem diz amar tem realmente MUITO gabarito para chamar a outra de “covarde”...
— Suas atitudes não demandam outra classificação a meu ver, Escorpião – disparou o ruivo, já se postando ao lado de um Camus ainda aturdido.
Enfim o escorpiano mirou o recém chegado:
— Uma hora, Surtr, não haverá empecilho algum para que eu soque essa sua cara desagradável.
— Quando quiser, meu caro. Asseguro-lhe que a vontade é rec
— Parem com isso – pediu o francês, virando-se para o balcão, desejoso por fugir daquilo para sempre.
O celular de Milo tocou; atendeu-o:
— Oi, Oria. Ah, até que enfim. Nossa, o que você e a Marin tanto falam ao telefone, por Zeus? Hahaha, não precisa dizer, eu imagino, hahaha... ah, beleza, vou já pra lá. OK, até já – desligou. Olhou uma última vez para Camus, que tinha os braços cruzados sobre o balcão, fixando o olhar em algum ponto dentro do bar. Virou-se para Surtr, as íris luzindo de veneno.
— Divirtam-se, os dois. Sabem fazer isso juntos muito bem – disse, desdenhosamente.
O coração de Camus parecia em chamas, assim como suas órbitas. Sua mão apertou-se mais no copo. Uma resposta dançou em sua boca, mas seus lábios pareciam selados. Apenas tremia. Ainda assim, perante quem visse a cena, ele permanecia intocado por tudo que ocorria.
O escorpiano retirou-se, com o coração igualmente pesado. Sentiu-se horrível. Seus pés, no entanto, resistiram à gana de se dirigirem de volta para aquele a quem amava... e a quem por certo destroçara.
“Estamos quites, Camus. Você me destruiu. Sinta como é”, pensou, amargo, e desejando mais que nunca, afogar-se no esquecimento. Ganhou o saguão reluzente, vendo Aioria sentado em um dos sofás trançados em fios de ouro, distraído com o celular.
— Oi, o carro chega em... Milo, que cara é essa?
— Depois te falo. Vamos logo lá pra fora.
— Não é preciso, o motorista vai avisar quando...
— ORIA, por favor. Não quero ficar aqui dentro... nem mais um segundo – implorou, nitidamente angustiado.
O leonino concordou, preocupado. Ambos saíram sob o olhar atento de Derrick, que fez uma educada mesura para eles, assim como os demais recepcionistas.
*************
Uma hora havia se passado desde que Milo fora embora. Camus permanecera sentado ao balcão, completamente mudo. Nem ao menos olhara para Surtr, que sentara ao seu lado e começara também a beber, já que não tinha muitas opções. De quando em quando o ruivo pousava o olhar na tela de LED acima de um dos quadros do bar, de forma distraída, as imagens de uma emissora local mesclando-se sem qualquer sentido diante dele.
— Camus... – ousou, por fim.
— Surtr. Não quero conversar.
— Eu imagino. Olha, se não fosse por estarmos num local como este, por Odin, eu arrebentava a cara dele. Quando eu vi o miserável te segurando pela gola da camisa, eu...
— Onde você estava que viu isso?
O ruivo não se atrapalhou.
— Eu estava entrando no piano bar. Tinha marcado de vir aqui com Frodi e Sigmund, mas eles receberam Saga no apartamento e desistiram de vir.
— Ah. – foi a única resposta. Virou mais bebida.
— Escuta, que tal irmos lá fora um pouco? Acho que seria bom você tomar um ar – propôs Surtr, amavelmente.
— Lá fora... – Camus repetiu maquinalmente, sem processar de fato a fala.
— Sim. Tem uma área externa bem agradável, de frente para o mar...
— Já tinha vindo aqui antes?
— Sim, ontem mesmo – mentiu, rapidamente.
Sem responder, o francês ergueu-se. Surtr notou-o meio vacilante. Ele já deveria ter bebido bastante... acompanhou-o rumo ao local sugerido. Uma deliciosa brisa marinha saudou-os e Camus imediatamente se sentiu melhor. Ele era um homem de vento, de frio, de lugares amplos e abertos, de preferência vazios e tranquilos, como estava o deck. A temperatura baixara consideravelmente, o que era bem comum na Cidade do Cabo durante as noites àquela época, e somente poucos corajosos se aventuravam ali fora; a maioria preferia o sofisticado e cálido interior do piano bar.
— Sente-se melhor? – o ruivo perguntou, atento à mudança no semblante do outro, um pouco mais aliviado.
— Sim. Bem melhor. Obrigado.
Ao ouvir aquilo, o asgardiano sorriu. Um sorriso destituído de maquinações e perfídia.
— Fico feliz em saber. Fiquei preocupado com você. Mas preferi respeitar seu silêncio.
— Eu agradeço por isso – murmurou, inexpressivo.
— O que aconteceu entre vocês? Eu sei que teu namorado é um grosso e estúpido, mas nunca imaginei que ele fosse...
— Você SABE que não somos mais namorados – cortou, enfastiado.
— Bom... achei que pudessem ter se entendido...
— Não. Nós NUNCA mais nos entendemos.
— Mas daí ele querer te agredir...
— Eu o chamei de covarde.
Surtr deixou um riso escapar.
— Oh, ele ia te agredir por você falar a verdade?
Ao ver Camus fuzilá-lo com o olhar, ergueu as mãos, defensivo:
— Ora, meu amigo, se ele fez aquilo só por ouvir algo que o desagradou, o que mais ele é?
O silêncio se abateu sobre eles. Apenas o som abafado do piano e das vagas marinhas. Surtr observou-o perdido na contemplação da noite. Os lindos cabelos esvoaçantes, a aparência distante... cedeu ao imperioso desejo de tocá-lo: acariciou-lhe a face, sussurrando:
— Me dói muito te ver triste assim.
Discretamente, o outro tornou o rosto mais para o lado. O ruivo entendeu e tirou logo a mão dali.
— Alguém que te faz sofrer assim não merece seu amor – sentenciou.
— Eu o amo. Não é algo que consiga controlar.
— Você pode controlar SIM. O guerreiro do gelo que eu conhecia era senhor de suas emoções.
— Surtr...
— E se eu dissesse que te amo?
Camus virou-se para ele, surpreso. Esperou mesmo por uns segundos que ele desatasse a rir, ou que demonstrasse que aquilo fora mera piada para descontrair o clima instaurado. Surt, porém, continuou encarando-o, entre sério e sereno.
— Me condenaria por não conseguir controlar?
Sem ação, o aquariano apenas fitou-o.
— Você me salvou de mim mesmo, Camus. Eu estava perdido na escuridão, primeiro de meu ódio, depois do domínio de um deus maligno. E você não desistiu de mim. Você é diferente de Milo. E merece alguém diferente dele.
— Nós somos AMIGOS, Surtr. Por isso fiz o que fiz.
— Eu sei que você não me ama. Talvez sequer goste mesmo de mim. Depois de Escorpião surgir em sua vida, você me eclipsou de seu coração. Mas o meu sentimento permaneceu... e se fortaleceu ao encontrá-lo novamente.
— Eu vou voltar para o bar – anunciou o Santo, incomodado.
— Espera – segurou o pulso do francês – Não quero forçá-lo a nada. Só quero que saiba que estou aqui... sempre estarei.
Aquilo calou fundo em seu íntimo. Camus deteve-se, confuso, não sobre o que sentia, mas sobre como agir. Percebendo, Surtr o puxou levemente e pôs as mãos em seu rosto:
— Eu nunca te deixaria. Por nada. Nada me faria querer ficar afastado de você.
“Você pode fazer isso afastando-se de mim”.
As duras palavras de Milo assaltaram-lhe à mente. As mãos de Surtr desceram para seus ombros rígidos pela tensão. Seus dedos esticaram-se e tocaram-lhe a base do pescoço, praticamente o massageando. O francês viu o rosto do amigo se aproximando. Antes que se desse conta, os lábios do ruivo pousaram sobre os seus. O calor que irradiaram paralisou-o, e ele retesou mais. Sem se importar com aquilo, a boca de Surtr moveu-se sobre a sua, a língua introduzindo-se delicadamente por entre os lábios duros do aquariano. Num movimento brusco, Camus se desvencilhou dele.
— C-Camus! Me... me desculpe... – pretextou constrangimento – Eu...
— Eu prefiro ficar no balcão do bar, Surtr, se não se importa – disse, como se nada tivesse acontecido – com licença.
— Eu... tudo bem, eu vou com você.
“Não precisa”, era o que Camus queria dizer. Mas não queria ferir outra pessoa. Que, sim, era importante para ele. Não da maneira que o outro queria, lógico. Estava cansado de ferir pessoas, enfim.
Matara Sinmone.
Ferira Surtr ainda criança.
Ferira Isaak quando o deixara para morrer.
Ferira Hyoga, mandando sua mãe morta para as profundezas inalcançáveis.
Ferira Milo... uma, duas... três vezes.
E iria ferir Surtr mais uma vez.
Não conseguiu mais argumentar. Apenas retornou em silêncio para onde estava. Pelo menos ali, em meio às pessoas, o ruivo não tentaria mais nenhuma daquelas loucuras, sim, era uma loucura, ele havia de estar confuso... eram amigos, por Zeus!
Instalou-se e pediu um outro drink. O asgardiano fez o mesmo, procurando não mais tocar no assunto. Seu momento chegaria... cautela, agiria com cautela. Era conhecido por ser excelente estrategista... sabia aproveitar oportunidades, jogando limpo ou não. Atingir o objetivo era o mais importante.
Não faria Camus fugir de suas mãos. Não deveria usar de demasiada ofensiva.
De mais a mais, provar dos lábios do aquariano, ainda que tão superficialmente, havia sido uma experiência excelsa... foi tão rápido, tão de leve, e ele ficara aceso daquela maneira! Algo pulsava em seu interior, e o ruivo só sentiu mais ainda que deveria fazer o que ele PRETENDIA fazer.
O tempo passou e os vapores ébrios avolumavam-se nos sentidos de Aquário. A música parecia cada vez mais alta, vozes e sons embaralhavam-se... Surtr dizia uma coisa ou outra, sem que ele distinguisse os tópicos. Na certa, fazia-o apenas para que não caíssem em silêncio absoluto. Seus olhos enevoados passearam pelo ambiente e pararam na televisão... as imagens anteriores, provavelmente de algum filme ou novela, foram substituídas por uma cena de notícia. Sabia-o pela legenda em inglês, estática na tela.
Mas ele não conseguia ler. Ou melhor, não conseguia entender.
Isso era certo, pois estava lendo o nome da boate mencionada por Milo. Seria possível que aquilo estivesse tão fixo em sua mente? Porque... que ligação teria o nome da casa noturna a que fora o grego com aquelas imagens...
...fogo.
Chamas.
Luzes de viaturas e ambulâncias.
Arregalou os olhos, repentinamente sóbrio.
— Senhor – chamou o barman, enérgico – por favor, poderia aumentar o volume da TV?
— O som não pode ficar alto por causa do piano, senhor – explicou o homem, em tom de desculpas.
— OLHE PARA LÁ! – gritou, chamando a atenção de vários hóspedes – Está acontecendo alguma coisa...!
— Camus? – fez Surtr, estranhando a atitude intempestiva do amigo sempre tão comedido.
O atendente virou-se para a tela, finalmente dando-se conta do que ocorria.
— Meu Deus... – e ele aumentou o som, quase tão apavorado quanto Camus. Ouviram os dizeres da repórter:
“... as chamas estão extremamente altas e intensas, os bombeiros encontram dificuldades em entrar devido ao material altamente inflamável no qual os terroristas atearam o fogo, provavelmente por meio, inclusive, de homens bombas, que se faziam passar por frequentadores da boate Sound Season. Ainda não temos notícias de sobreviventes...”
“Ainda não temos notícias de sobreviventes.”
A vida, por uns instantes, abandonou o corpo de Camus, pois que nem sequer ele tremia. Nem respirava. Apenas fitava as imagens, hipnotizado.
“Ainda não temos notícias de sobreviventes.”
“...homens bombas, que se faziam passar por frequentadores da boate Sound Season.”
As falas ecoavam repetidamente, conduzindo-o quase a uma vertigem.
— Oh, Deus, um ataque terrorista na cidade! – exclamou o barman, aterrado – Cristo, e é a boate mais famosa e frequentada daqui!
— Deus, NÃO! Meus filhos estão lá!! – berrou uma mulher, em pânico.
Dezenas de olhares se convergiram para a TV do bar. Até mesmo o piano parou. Camus parecia ter parado de viver.
“Ainda não temos notícias de sobreviventes.”
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