O Brilho da Honra

30 Uma Cruel Persuasão


Notas iniciais
Olá vocês :3 Esta semana, mais precisamente no dia 21 de fevereiro, "O Brilho da Honra" completou um ano de vida. Tinha que ter atualização, né? E cá está o capítulo 30. Bom, 30 capítulos em um ano... acho que isso serve como uma prova de que NÃO, não "deixo Brilho de lado por causa de 'Dame Jolie'", como algumas pessoas têm dito. Há de convir que 30 capítulos em 1 ano dão mais de 2 por mês, se formos considerar a média. Logo, não é que a outra fic esteja "prejudicando" esta. Simplesmente consigo escrever a outra mais rapidamente. O que não quer dizer que Brilho esteja "ameaçada" ou algo do tipo. Espero que compreendam. E não se preocupem, Brilho continua, mais intensa ainda, entrando em uma nova e insólita etapa: Camus, em poder da Brilho da Honra! Explicando aqui mesmo: há uma breve menção a Kanon de Gêmeos e Isaak de Kraken, considerados na história como igualmente ressuscitados pelos Deuses no fim das batalhas anteriores. Não me aprofundei na explanação, eles apenas são citados de forma breve, e não têm relação com a trama. A capa deste capítulo é um frame da série Saint Seiya, mais precisamente da Saga Hades, produzida pela Toei. Boa leitura!

Helicópteros sobrevoavam os céus por sobre o centro da Cidade do Cabo, militares faziam vigilância ostensiva em todos lugares, policiais continham com rigor qualquer agitação que ameaçasse surgir. As redes de TV não noticiavam outro assunto que não aqueles: o atentado terrorista no estádio onde haveria a gincana esportiva nacional das escolas da África do Sul, a interrupção das solenidades, o sequestro de um dos ônibus escolares que se dirigiam para o evento e o rapto de um dos “Anjos de Ouro”, como ficaram conhecidos Aioria, Milo e Camus após a heroica atuação quando do ataque à boate Sound System. E todos esses fatos encontravam-se interligados.

Em meio ao cenário caótico, o mais surreal era a comoção de fãs do “Herói do Gelo”, distribuídos em variados pontos como na frente do hotel onde o francês estivera hospedado, nas imediações do estádio, interditado pela polícia, e onde mais tivessem fãs chorando e clamando pela devolução do ídolo.

Bem no meio do imenso gramado em cujo centro pousara a aeronave da organização responsável por todo aquele horror, os jovens Santos de Ouro e os Guerreiros Deuses remanescentes da missão junto à ONU refletiam sobre os ocorridos e sobre medidas a serem tomadas. Ao longe, detrás dos cordões de isolamento, fotógrafos da imprensa não cansavam de acionar suas máquinas em prol de registros para as reportagens que viriam, focando principalmente os rapazes reunidos no centro do campo. Contudo, Saga, Milo, Aioria, Frodi e Sigmund, absortos que estavam com suas questões, não lhes deram importância.

— Então é por isso que vocês não conseguem rastrear o cosmo de Aquário?

— Só pode ser, Frodi. Você viu o cara aplicar a injeção no pescoço dele! – respondeu Milo, impaciente – É o mesmo processo pelo qual foi implantado o maldito chip que o denunciaria em Asgard, caso falasse conosco por telepatia!

— Sim, Saga nos contou essa história... quer dizer que Surtr ainda estava em posse de tal tecnologia – murmurou Sigmund.

— De fato, Fafner desenvolveu um rastreador telepático que nos deixaria cientes acerca da tentativa de Camus de se comunicar com vocês. Lorde Andreas nos avisou sobre isso àquela época em que fomos impelidos a lutar contra os Santos de Atena – rememorou Frodi, cruzando os braços.

Seu namorado pontuou:

—Mas era uma medida ordenada por Lorde Andreas, e quando ele estava dominado pelo maligno Loki! Fafner não tinha o direito de fazer aquilo de novo, e tanto mais dar a Surtr!

— Talvez Surtr tenha guardado um microchip reserva desde então.

Todos olharam para Aioria.

— Não que eu esteja defendendo o cientista louco – ergueu as mãos em defesa – Mas pode ser que mais daquilo tivesse sido produzido... e que Surtr tenha obtido um para si.

— Faz sentido. Aqueles dois sempre foram um tanto próximos. Eu não duvidaria –Frodi estreitou os olhos.

— Dizia-se que não era raro que Surtr fosse convidado para assistir os hediondos experimentos realizados por Fafner em seres humanos... – acrescentou Sigmund.

Milo deu-lhes as costas, andando nervosamente.

— Droga, não consigo ouvir vocês falando desses dois sem sentir meu sangue ferver de ódio. Queria matá-los com minhas próprias mãos!

— Entendo como se sente, mas no momento devemos nos concentrar em entender o que aconteceu e como salvar nosso companheiro – disse Gêmeos, calmo por fora, agitado por dentro. Prosseguiu, mirando os dois asgardianos – Deve haver algum jeito de neutralizar a ação desse chip. Não sabem de nada a respeito de seu mecanismo?

Eles menearam negativamente as cabeças.

— Os projetos que Fafner desenvolvia via de regra eram mantidos em segredo até mesmo para nós, tanto mais nessa época em que Lorde Andreas não era “ele mesmo” – Frodi respondeu, consternado.

— Mas tem que ter... tem que ter um jeito!... – Angustiava-se Milo, quase dando voltas.

— Sentimos muito. Naquela ocasião, estávamos cegos para o que acontecia, e no fim, Loki estendeu sua influência também sobre nós. Não chegamos a saber detalhes sobre o maldito invento de Fafner... sequer soubemos que Camus havia sido torturado... nunca concordaríamos com isso! – lamentou Sigmund, cabisbaixo e envergonhado. Teve um leve sobressalto ao sentir a grande mão do geminiano pousar em seu ombro. Ergueu a cabeça e deu com o compassivo semblante do cavaleiro por quem um dia fora apaixonado.

— Não se sinta mal por isso, Sigmund. De uma forma ou de outra, todos nós fomos manipulados.

— S-Saga... obrigado – murmurou, desconcertado. Não percebeu a expressão de desagrado do namorado.

— Bom, o que eu quero saber é como vamos encontrar o Camus sem podermos nos comunicar com Ele! – vociferou o escorpiano.

— Esquece isso, Milo. Se não dá, não dá. Temos que pensar em encontrá-lo sem que ele nos conte onde está – falou Aioria, já preparando os ouvidos para a réplica furiosa:

— DISSO EU SEI! Mas – subitamente abaixou a voz, aflito – fico apavorado em pensar o que podem fazer com ele enquanto não o encontramos...

— Se até as forças da ONU e do exército já se puseram em busca, só nos resta fazer o mesmo.

— Concordo, Aioria, mas vaguear aleatoriamente pode ser justamente o que a tal organização quer que façamos, enquanto eles levam seus planos adiante.

— Saga, esse é o outro ponto... – disse o escorpiano, perturbado – Por que a Brilho da Honra iria querer sequestrar o Camus? Para quê? Eu não consigo entender. E por que o porra do Surtr tá metido nessa merda toda?!?

— Talvez eu possa ajudar os senhores a entender.

Eles viraram na direção de uma melodiosa e profunda voz de mulher. Tinha cerca de cinquenta anos, nem alta nem baixa, o turbante dourado envolvia-lhe os cabelos trançados, emoldurando um rosto sério e aparentemente sábio. Vestia trajes tradicionais de seu país, em tons pastéis de verde, e trazia belos colares coloridos em seu colo.

— Senhora Kuarashí! – exclamaram, reconhecendo de pronto a presidente angolana, vencedora do prêmio Nobel da Paz no ano anterior. Fora ela a discursar acerca da Brilho da Honra na Cúpula da ONU. (*Capítulo 18)

A governante sorriu levemente, em um agradecimento por terem dela se lembrado. Aproximou-se dos jovens, considerando a cada um enquanto falava:

— Como pesquisadora da Brilho da Honra desde a sua formação, e tendo sob meus serviços informantes eficientes, creio ter algo mais que teorias a expor aos senhores. Poderiam me acompanhar? Aqui não é muito adequado a que tratemos de tais assuntos. E se me permitem... somos mesmo um ALVO.

Eles arregalaram os olhos, ainda que Urbi se expressasse com absoluta serenidade. Assentiram, acompanhando-na, deixando o campo e saindo do alcance das lentes dos queixosos repórteres.

*************

A volta à consciência foi como escalar um íngreme despenhadeiro cuja base mergulhava na mais absoluta escuridão. Os compridos cílios tremularam antes de revelar as íris de um raro azul marinho. Não havia dor, apenas confusão, e isso não o confortava nem um pouco.

Deu-se conta de que estava sentado em uma luxuosa poltrona, a ela amarrado pelos pulsos e pelos pés, que ainda conservavam-se calçados com os mesmos sapatos. Sim, usava a mesma roupa de quando estivera no estádio para prestigiar a solenidade para a qual fora convidado. Mas... quanto tempo se passara? Nem que se esforçasse muito poderia dizer. Parecia o interior de uma vasta tenda, a luminosidade solar mal oculta pelos tecidos imóveis de tão esticados que estavam. Dois homens negros sentados em poltronas parecidas vigiavam-no.

— Quem são vocês? Onde estou? – perguntou, em inglês, sem demonstrar temor algum. Não tinha por que sentir, a bem dizer.

Após se entreolharem visivelmente ansiosos, um deles respondeu, no mesmo idioma:

— O senhor já ficará sabendo, por favor, apenas... espere, por favor – levantou-se, nervosamente, e disse para o outro – Vá já chamar ELE.

Camus viu que traziam armas à cintura. Não que aquilo o intimidasse. E disso os vigias estavam cientes; quem pede a alguém amarrado em uma cadeira para que “espere”?

Ainda assim, preferiu continuar “imobilizado” só para ver até onde aquilo iria. Não ficou surpreso ao ver Surtr surgindo diante de si, porém a ira era inevitável.

— Fico feliz que tenha acordado bem e disposto, Camus. Bem diferente do que houve da última vez.

— Desta vez, para seu azar, não há nenhuma árvore maldita a me enfraquecer – rebateu, friamente.

O ruivo riu, e completou, malicioso:

— Não posso negar que naquela ocasião, o momento de seu retorno à consciência foi bem mais... agradável.

Sem qualquer esforço, o aquariano arrebentou as cordas que o prendiam. Mesmo esperando por aquilo, o asgardiano pôs-se receoso. Inconscientemente, deu uns passos para trás.

— Eu quero explicações, Surtr – levantou-se, resoluto – E JÁ.

— Você as terá! Mas se me fizer alguma coisa...

— O que fará? Qual a ameaça agora? – indagou o francês, caminhando para o asgardiano.

— Já que deseja tanto saber, Aquário, devo me intrometer... – uma voz que parecia egressa de catacumbas se fez anunciar. Camus viu entrar na tenda um homem negro, intimidador como poucos, de quase dois metros, metido em um terno cinza escuro.

— Você! Era você no telão do estádio!

— Sim. Meu nome é Kulaita, como vai? Sou um dos líderes da organização separatista Brilho da Honra.

Estendeu a mão para cumprimentar o Cavaleiro, que limitou-se a replicar, em tom sarcástico:

— Precisa treinar mais o seu inglês, meu caro. Creio que quisesse usar a palavra “terrorista”, e não “separatista”.

O criminoso riu com vontade, a mão enorme em vão à espera de que o cumprimento fosse correspondido pelo jovem.

— Não, Aquário, eu quis realmente dizer “separatista”. Durante o tempo em que permanecer conosco, entenderá que “terrorista” é o jugo de países que construíram e ainda constroem seus impérios com o sangue de meus irmãos africanos – postou-se bem próximo do Santo – países esses como o SEU, aliás.


— Não é preciso que me dê aulas de História – Camus não quis admitir, mas incomodou-se com aquela fala por julgá-la pertinente. Como negar a devastação que a política colonialista, que se seguiu à corrida imperialista das nações europeias, causou na África? Ele considerava-se mais grego e siberiano do que francês, apenas nascera na França... 90% dos anos de sua vida distribuíram-se entre o Santuário e a Sibéria. Mesmo assim, era natural do país pelo terrorista acusado...

— Não é minha intenção. Sei que é um rapaz culto, estudado, deve estar ciente do que sua França, dentre outros países de sua Europa, aqui fizeram.

— E por isso você põe fogo em ônibus com pessoas inocentes. Gostaria de saber de que forma tal covardia neutraliza o mal que os países centrais fizeram em seu continente.

— Ele é ferino, hein – dirigiu-se a Surtr, que deu de ombros, sorrindo. Voltou a encarar Camus – Não o imaginava exatamente submisso, mas está me saindo mais belicoso do que o que eu esperava, Aquário... isso só demonstra o quão certa foi a decisão que tomamos em trazê-lo para nossa causa.

— Me trazer para a causa de vocês? — o aquariano arqueou as sobrancelhas, admirado.

— Sim. Quer beber alguma coisa enquanto conversamos?

Como Camus não respondesse, Kulaita acenou para um dos dois vigias e este levou até um sofá um carrinho com taças e bebidas.

— Venha, sente-se enquanto nos falamos.

Camus não saiu do lugar. Kulaita sentou-se e aceitou o copo de uísque preparado pelo vigia.

— Prefere ficar de pé. Como quiser – sorveu a bebida, fazendo expressão de satisfação.

— Só há duas coisas que quero saber. Onde estou e por que me trouxeram para cá.

— Saberá tudo que quiser, meu jovem... basta que comporte-se de maneira civilizada; você não vem de um país de Primeiro Mundo? – Portava-se de modo tão cínico quanto refinado – Então utilize sua inerente civilidade e colabore com a nossa... AAH!

Teve que largar o copo, pois que congelara imediatamente em sua mão; a dor que sentiu assemelhou-se à de uma queimadura junto ao fogo! O vidro espatifou-se no chão, e Kulaita ficou a balançar a mão dolorida, fazendo uma careta.

— Diga AGORA o que quero saber – demandou o aquariano, um vento frio vindo dele que assustou os presentes.

Se Kulaita se assustou, não o demonstrou em excesso. Segurando a palma ferida, respondeu, afetando cortesia:

— Não, “Príncipe do Gelo”, não é assim que serão as coisas... eu queria manter tudo em um nível civilizado. Mas... pelo que vejo... – DERRICK!

Atravessando a entrada franjada, o rapaz que um dia fora recepcionista do resort onde a maior parte das comitivas da Conferência se hospedaram apareceu, trazendo com ele uma menina. Atrás deles, dois homens de cerca de 30 ou 40 anos e um bem idoso.

Camus arregalou os olhos ante a visão da criança, cuja mão Derrick segurava com firmeza. Negra, trancinhas rentes à cabeça, muito magra, de seus seis ou sete anos, olhos tão vívidos quanto assustados. Kulaita pegou a mão da menina e a conduziu até o prisioneiro.

— Camus. Vou te apresentar a Sinmone – e disse, simulando gentileza – diz “olá” para o tio, Sinmone.

Visivelmente apavorada, a garotinha mal pôde articular qualquer coisa. O sangue do francês borbulhou de fúria. Olhou para Surtr, indignado, e inquiriu:

— Que tipo de brincadeira é essa?

— Não é uma brincadeira, Camus... é uma HOMENAGEM. Homenagem a uma criança que VOCÊ matou há muitos anos... – esclareceu Kulaita, muito calmo.

Um tanto golpeado por ver aquele assunto voltar à tona novamente, o aquariano manteve-se em silêncio.

— O nome dela era Twanny. Apenas Twanny. Nenhum sobrenome. Sem pai, nem mãe, atirada desde o parto à miséria de um mundo que NÓS estamos tentando mudar – dizia o terrorista, afagando a cabecinha da menina – Resolvemos dar-lhe um novo e mais significativo nome... Sinmone. A irmã falecida de Surtr. A criança cuja morte fez nascer um novo Camus e também um novo Surtr, no passado.

— Liberte-a. O que tiver a tratar, trate comigo – murmurou Camus, cerrando os punhos.

— Libertá-la? Ela NÃO é nenhuma cativa, Cavaleiro. Na verdade, ela tem uma missão... ou devo dizer... a PRIMEIRA missão a ela pertence. E essa missão é converter você à nossa lei. E tal conversão significará a ascensão de povos escravos e abandonados à glória.

As palavras de Kulaita mesclavam-se e fundiam-se em uma só para Camus:

“Chantagem”.

— A primeira missão... que termina agora.

— O... o quê?

— Comecemos o acordo entre nós. Camus de Aquário, você só manifesta o seu cosmo sob NOSSA permissão. E NUNCA para se comunicar com seus amigos. Caso tente falar com eles, o que, sendo inteligente como você é, até agora não tentou, Surtr saberá. E se ele souber, tem plena autoridade para avisar aos nossos irmãos de que você o fez.

A respiração do francês dificultou-se à medida que o discurso ia sendo proferido de modo arrastado, sombrio.

— Deve estar se perguntando o que acontecerá caso você não siga nossas ordens. Claro, poderoso como é, que ameaças podemos nós, pobres mortais, contra o poderoso Santo de Aquário? – ironizou, teatralmente.

A presença da criança completou a explicação de Kulaita. Engolindo em seco, Camus disse, um tanto receoso:

— Eu entendi.

— Prefiro me certificar disso – retrucou Kulaita, o sorriso desaparecendo dos grossos lábios – Idowu!

Um dos rapazes, dos que Camus viu tão logo acordou, adiantou-se; tirou uma pistola da cintura.

— Não... – balbuciou o aquariano, seu coração disparando loucamente.

Kulaita fitou-o, maldosamente.

— Essa é por ter usado seu cosmo contra mim há pouco. E ISSO é o que acontecerá caso o faça de novo... – tornando o olhar para o soldado, meneou a cabeça.

— N-não – Camus tartamudeou, mecanicamente.

Idowu botou a arma na cabeça da criança, por trás; puxou o gatilho. Veio um estampido seco. O sangue espirrou no Cavaleiro, que gritou como em um pesadelo:

— NÃÃÃÃOOO!!!

O corpinho inerte pendeu para a frente; tombou no chão. Nem a velocidade da luz venceria o choque que se abatera sobre o guerreiro... não pôde sequer ampará-la como achou que deveria.

O olhar esgazeado de Camus prendeu-se à imagem da menininha a seus pés, o sangue a espalhar-se no assoalho, a tocar-lhe os sapatos italianos finos...

Mesmo Surtr e Derrick quedaram-se boquiabertos ante o assassinato que acabaram de presenciar. Entreolharam-se brevemente, cuidando para não aparentar qualquer reprovação àquela ação.

No entanto, o aquariano encontrava-se alheio aos dois.

Tudo que via era o corpinho imóvel da criança.

Morta por ELE ter usado o cosmo contra Kulaita... pelo menos era a mensagem que se inseriu em seu atormentado cérebro.

E pelo olhar esgazeado, Kulaita soube que atingira o intento de subjugar o guerreiro.

— Entende agora de que forma podemos te ameaçar? – perguntou, em voz baixa.

Camus caiu de joelhos diante da menina morta. As lágrimas que vieram-lhe aos olhos gelaram-se nas pálpebras antes de caírem por sobre o pequeno cadáver.

— Seu cosmo é a luz de nossa causa, Aquário –sentenciou o líder terrorista – A nós ele pertence, e a sua manifestação de nossa vontade dependerá. Caso essa manifestação não ocorra de acordo com nossos desígnios, Surtr nos dará o sinal. Sempre há outras “Twannys” entre nós. Ou seus irmãozinhos.

Em completo choque, o francês ouvia, sem esboçar reação. Seu peito comprimia-se de dor, e tudo o mais desaparecia. Reviu o deslizamento de neve mergulhar sobre o povoado... ouvia novamente o pranto de Surtr...

...Twanny...

...sequer chorara...

— Levem-no para onde possa descansar. Deem-lhe de comer e de beber. Assim que se restabelecer, conversaremos – e mirou duramente Camus – E aí então, sem interferências... por certo, Cavaleiro?

Ainda ajoelhado diante da garotinha, nem mesmo força para assentir ele teve. O ancião pôs-se a seu lado, fazendo sinal para que se erguesse.

— Themba vai “cuida” do Senhor do Gelo – anunciou para os demais, e insistiu para que o Santo se levantasse – Senhor do Gelo, sabe que “dever” obedecer Kulaita, não? “Vir” com Themba.

Mirando o velho de cabelos brancos quanto as córneas onde residiam íris negras como a mais profunda noite, Camus obedeceu e pôs-se pé. Surtr sentiu um aperto no coração ao vê-lo alquebrado daquela forma, mas de alguma forma aquilo deu-lhe um fino e delicioso prazer.

— Surtr, Derrick, venham comigo. Tenho assuntos a tratar com vocês. Mashudu, Okpara, vocês fiquem com Themba e o nosso “Príncipe do Gelo”. Em algumas horas, nós o levaremos para O passeio – Kulaita ainda apontou para a criança executada – Idowu, trate disto aqui.

*************

Em uma sala reservada, cujas portas policiais guardavam atentamente, a presidente de Angola encontrava-se em reunião com os jovens que encontrara no estádio. Todos sentavam-se em macios sofás de couro cobertos com mantas de peles exóticas. Café, chá e água foi servido a eles, e terminado o serviço, os copeiros retiraram-se do local.

— O que eu tanto alertei por anos tornou-se uma realidade, e não mais mera ameaça. A Brilho da Honra caminha para ter o que sempre almejou, além da soberania do “país” que criou; poder e riqueza absolutos. Ao contrário do que apregoam, não para os povos sobre os quais está sedimentando seu império de terror – sorvendo o café fumegante, a governante iniciou a conversa.

— Lembro-me de a senhora palestrar sobre a formação e os rumos dessa organização: dos cinco maiores produtores de diamantes do continente, quarto deles uniram-se sob liderança dessa terrível Brilho da Honra. Eu só não tô lembrando o nome do “novo país”...

— Shamallah – ela respondeu a Milo – Sem obter o reconhecimento mundial como nação, Shamallah seguiu com sua política déspota, longe do alcance de quaisquer intervenções internacionais. Os motivos são variados e vocês devem imaginar quais...

— Se produzem tanta riqueza, seguramente “compram” seu salvo-conduto para continuar fazendo o que querem – sintetizou Aioria – Mas se conseguem tudo assim na boa pelas riquezas naturais que possuem, qual o motivo de estarem cometendo atos terroristas em áreas fora das deles?

— Um recado às nações.

— Como...?

— Atentados terroristas são sempre recados... avisos... Saga disse isso uma vez – lembrou Frodi, pensativo – O que eles querem dizer ao mundo?

— Basicamente que os deixem em paz – Urbi pousou o pires em seus joelhos – Paradoxalmente, justo no ápice de suas realizações, a comunidade internacional começou a se movimentar no afã de desmantelar o país clandestino. A opinião pública, fomentada pela crescente visibilidade promovida pelas mídias eletrônicas, notadamente a TV e a Internet, não pode mais ignorar os desmandos da Brilho da Honra.

— Traduzindo... se antes faziam vista grossa pra organização, já que ela devia “molhar a mão” de várias autoridades, agora isso começa a ficar difícil – explanou Aioria, terminando seu café. Pegou o bule, queria mais.

— Em parte. Não vamos negar que nos tempos atuais, um dos maiores poderes de que um líder pode dispor é o de sua imagem. Entretanto, seguindo o seu estilo de linguagem, meu rapaz – ela sorriu para o leonino – eu acrescentaria que “a fonte começa a secar”.

— Fala do poderio econômico obtido com a extração dos diamantes, senhora? – indagou Milo.

— Você diz extração DESENFREADA dos diamantes. Sim, é um bem não renovável, e, no caso de Shamallah, grande parte destinado a compra de armamento. Devem imaginar que, para extrair minérios com maior eficácia ideal seria utilizar a tecnologia atual, justamente a que vem de países aos quais a Brilho ergue-se em franca revolta.

— Então... eles precisam de nova fonte de riqueza. Escassearam os diamantes. Qual seria essa nova geratriz de recursos para a “causa” deles?

A chefe de Estado percebeu a expressão impaciente de Milo. Por duas vezes antes de eles conversarem, notou que aquele rapaz perguntara aos companheiros, de maneira discreta porém profundamente irritada, que relação teria tal reunião “com salvar Camus”. Fingiu não ter ouvido. Por isso, foi olhando diretamente em seus olhos azuis turquesas que Kuarashí elucidou:

— Eles não vão parar com a extração mineral, na qual empregam inclusive mulheres e crianças. Paralelamente a essa atividade, organizaram imensos contingentes paramilitares... igualmente formados por crianças. Fui informada... a custa de muitas vidas ao longo de anos de investigações – tornou-se mais séria ainda – de que o número ultrapassa centenas de milhares de crianças.

— Exércitos de crianças – assombrou-se Sigmund, seu chá há muito esfriara – Eu tinha ouvido falar que nos países periféricos são largamente exploradas em tais atividades... em exércitos, quadrilhas, redes de tráfico...

— O que também configura moeda de troca em inúmeras negociações. É algo extremamente rentável, e que demanda baixos investimentos para sua formação – ajuntou a governante angolana.

— Isso é horrível. Mas infelizmente explicável, não é, senhora?

— De fato, Frodi. Crianças e adolescentes são mais facilmente influenciáveis, maleáveis, têm mais resistência física e mesmo mental, acostumam-se rapidamente a matar, perdendo todo e qualquer senso de consciência, uma vez que nesse sórdido universo são inseridas muito cedo, antes mesmo de terem o senso moral plenamente desenvolvido... pelo menos, é no que se acredita, comumente. Recebendo o treinamento adequado, tornam-se mais mortais do que muitos adultos. E ainda conta-se com o fator comoção. Podem imaginar? Como ficaria perante a opinião pública mundial, um exército que investisse, sem hesitar, contra uma tropa de crianças?

— Por Atena... – murmurou Saga, aterrado. Urbi soube que ele, aparentemente o mais velho daqueles jovens, chegara ao entendimento da insólita questão.

— O que foi, Saga?

Ele olhou para a presidente, incrédulo.

— A senhora quer dizer que... que foi por isso que Camus foi levado por eles? Para TREINAR essas crianças?

— O quê?!? – fizeram, em uníssono.

— Não, não pode ser! É a coisa mais ridícula que já ouvi falar! – vociferou o escorpiano, erguendo-se imediatamente.

— Isso não faz sentido – Aioria sacudia a cabeça, perplexo – por que... por que o Camus... ah!

Como que em sintonia mental, lembraram-se de quando foram transmitidos nos mais variados meios de comunicação daquele país reportagens sobre os Santos de Atena. Tidos como entes lendários, sua participação na Conferência da ONU Pela Paz na África provocou estrondosa reação, nascida da curiosidade e seguida pela admiração. Não chegaram a receber assédio quando de sua chegada? E tudo aumentou exponencialmente após o episódio da boate Sound System... ali alçaram ao status de “ídolos”. E em ambas situações, biografias sobre eles foram divulgadas... sabia-se que um deles, o Santo de Aquário, treinara dois Cavaleiros poderosos, um deles o Santo de Bronze Hyoga de Cisne, herdeiro mais cotado da armadura de Aquário, e que fazia parte da escolta pessoal e de elite da Deusa das Batalhas; o outro, o General Marina Isaak de Kraken, atualmente um dos braços direitos do próprio Poseidon, representado na Terra pelo Dragão Marinho Kanon de Gêmeos. Contava-se que Isaak e Kanon haviam sido revividos, assim como vários guerreiros que haviam perecido em sucessivas guerras travadas sem que delas os habitantes da Terra tomassem grande conhecimento então.

— Os líderes da Brilho da Honra tomaram conhecimento de um homem cujo treinamento poderia transformar meninos em lutadores extremamente fortes, a ponto de se realizarem feitos impensáveis para um homem comum. Por uma incrível coincidência do destino, o sobrinho de um desses terroristas trabalhava no mesmo hotel em que Camus estava hospedado.

Frodi cerrou os punhos, injuriado, e foi quase rosnando de raiva que pontuou:

— Isso explica por que Surtr se meteu nessa tramoia; ele se envolveu com o rapaz que tinha parentesco com um desses líderes. Foi a maneira que encontrou de fugir do julgamento de Asgard, e, quem sabe, vingar-se de vocês, Escorpião... ajudou-os a dominar o homem que queriam para formação de discípulos com talentos fora do comum.

— Inacreditável... é inacreditável! – Milo dizia, levando as mãos à cabeça.

— Eu não posso concordar mais – ajuntava Aiolia, levantando também.

— Eu posso imaginar... a estupefação de vocês – Urbi mostrou-se empática – Mas é a minha teoria. Acredito que a Brilho da Honra tenha sequestrado Aquário com intuito de obrigá-lo a TREINAR meninos para se tornarem soldados.

— Por Odin! Espere... – Sigmund mostrou-se verdadeiramente confuso – Por mais fantástico que seja Camus como treinador de garotos, ele NÃO poderia treinar centenas de milhares de crianças... não foi o que a senhora disse? Que estima-se que sejam centenas de milhares as escravizadas pela Brilho da Honra?!?

— Quanto a isso, não sei o que a organização pretende. Mas... lembrem-se que mesmo entre vocês, houve uma SELEÇÃO para que os escolhidos seguissem para o treinamento. Não foi assim?

— Foi – concordou Saga, esfregando o rosto com as palmas das mãos– Foi assim mesmo.

— Por Atena... estou preocupado com Camus... mas estou bem preocupado com essas crianças também... se é o que os miseráveis pretendem... – considerava Milo, dando voltas – Camus não vai concordar com isso, já sabemos. Mas CLARO que vão forçá-lo...

— Como poderiam fazer isso, Milo? Ele é um Cavaleiro de Ouro – Aioria tentava animar o amigo, à beira do desespero – Eles não têm como forçá-lo... o que aconteceu em Asgard foi um caso único. Nossos cosmos estavam sendo drenados por aquela árvore desgraçada do Loki!

— Eu sei, eu sei! Mas... e o que foi aquilo que eles fizeram... botar fogo em um ônibus com pessoas lá dentro... ameaçar repetir o feito com o ônibus escolar hoje... – a voz de Milo fraquejava, embargada.

Eles se calaram por instantes. Urbi pronunciou-se, tristemente:

—Receio aumentar sua angústia,Santo de Escorpião... mas essas não foram as únicas ações da Brilho da Honra. São capazes dos atos mais atrozes que pode imaginar.

— Como estão as buscas do Exército? Do Serviço de Inteligência? – o geminiano questionou, desanimado – Impossibilitados de nos comunicar com Camus, só nos resta procurá-lo de modos... convencionais.

Envergonhados, aguardaram pela resposta de Urbi. A elegante presidente ficou de pé como eles para responder:

— Neste primeiro momento, tais atribuições competem ao governo da África do Sul. Mas eu acionarei imediatamente o Ministério da Guerra de meu país. Embora considere que mais importantes serão os relatórios redigidos pelos espiões que tive a serviço de Angola... bom... dos que sobreviveram.

— O Santuário será eternamente grato por tais préstimos, presidente – garantiu Saga.

— Correndo o risco de parecer mercenária, Gêmeos – ela estreitou os olhos negros – Eu espero mais que o “agradecimento do Santuário”.

Um frêmito de surpresa correu entre os rapazes. Em seguida, a governante esclareceu seus dizeres impactantes:

— Sinto-me leviana em aproveitar-me da situação desesperadora de vocês, afinal, tiveram seu amigo raptado. Porém, vejo nisso a solução que busquei por 20 anos de minha vida... ver o FIM da Brilho da Honra. Homens comuns não foram capazes. Minha esperança, enfim, reside em vocês.

Milo abriu um sorriso de entusiasmo, antegozando as batalhas vindouras, tanto para recuperar seu amado quanto para desmantelar aquela infame organização, que tantas dores traziam àquele continente:

— Senhora, nem precisava dizer isso. Quanto a mim, faço questão de ESMAGAR essa maldita Brilho da Honra.

— Nós também, é claro – ajuntou Aioria, e os demais fizeram gestos de concordância.

Urbi sorriu, e fez questão de cumprimentar a cada um dos rapazes.

— Partiremos em algumas horas para Angola – disse, e foi curioso como uma simples mulher, sem poder algum, nem divindade alguma em si, transmitiu a eles o ânimo que suas líderes lhes transmitiam para seguirem rumo aos combates.

Bem. Talvez porque, de fato... Urbi Kuarashí não fosse “apenas” uma simples mulher.

Como tantas na Terra não o são.

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Notas finais
Enfim, ficamos sabendo, pelo menos de acordo com as teorias de Urbi, que estuda a Brilho da Honra há anos, que Camus pode ter sido sequestrado para treinar crianças, a fim de que a organização terrorista disponha de um exército de meninos com habilidades além do normal, tal qual o aquariano um dia fez com seus pupilos Hyoga e Isaak. E os métodos de persuasão são os mais covardes possíveis: matar inocentes diante do Santo de Aquário! Que saída encontrará Camus? E seus amigos, conseguirão ajudá-lo nessa? Espero que tenham apreciado. Até o próximo capítulo... bom Carnaval a todos! Obrigada por prestigiarem, e até o próximo capítulo!