O Brilho da Honra

31 Encontro com o Mal


Notas iniciais
Olá vocês :3 Ainda que esteja dentro do atual prazo estipulado de atualizações no máximo bimestrais (a 11 dias de findar o prazo, rs) peço desculpas pela demora. Agradeço a quem esperou, e mais ainda a quem comentou o capítulo anterior. A capa é uma fanart de autoria da Yumitim. Boa leitura!

O clímax fora certeiro e arrebatador.

Pelo menos por alguns instantes sua mente fora alçada às mais altas esferas do prazer. O orgasmo que o fizera estremecer momentos antes ainda distribuía vibrações por seu corpo suado e trêmulo. Deixou-se cair pesadamente sobre os travesseiros de pena de ganso, vestidos com pura seda alvíssima. Respirava com certa dificuldade quando recebeu em seus lábios finos os lábios cheios do jovem sul africano que o possuíra com maestria e paixão desmedidas. Derrick considerou o amante longamente, enquanto enrolava em seus grandes dedos rubras mechas dos cabelos desgrenhados. Apontou, sem qualquer tom acusatório:

— Parecia tão longe daqui.

— Hum? – fez Surtr, como se não entendesse.

— Você parecia estar longe. Sua mente, digo. Pois seu corpo... – beijou-o na base do pescoço úmido – até que respondia muito bem.

— Hunf. Que bobagem – retrucou, cansado – como é que a “minha mente” estaria “longe” daqui, pode me dizer?

— Pensando no Cavaleiro de Aquário.

Desvencilhando-se do rapaz, o asgardiano replicou, impaciente:

— Eu NÃO estava pensando em Camus! Como poderia, com você metendo esse pau gigante na minha bunda?

Derrick riu com gosto, apoiando o belo rosto com uma das mãos. Estava de bruços na cama, aparentemente se divertindo com o desconforto do ruivo. Este sentia o desconforto aumentar mediante o efeito que Derrick causava em si. Levantou-se, irritado.

— Meu caro, se eu pegasse o Camus, tenha certeza de que seria EU a foder aquele rabo, não o contrário – resmungou, antes de dirigir para a suíte.

— E por acaso pretende fazer isso? – perguntou Derrick, seguindo-o. Ambos nus... evitando olhar para ele, Surtr enfiou-se imediatamente no espaçoso box de lâminas de cristal. O sul africano juntou-se a ele, sem a menor cerimônia. O asgardiano virou-se para a parede de mármore e abriu a torneira, de ouro como vários detalhes da requintada casa de banhos.

— Quem sabe? – respondeu, devolvendo um sorriso malvado nos lábios magoados pelo intercurso ardente a que haviam se entregado.

— Está falando sério?

— Claro, ele está sob meu poder agora.

— Você quer dizer sob o poder de meu tio.

— Hunf – fez um muxoxo desdenhoso, enfiando-se debaixo da ducha morna – Dá no mesmo. Aliás... o que houve com toda aquela deferência de “senhor Surtr” isso, “senhor Surtr aquilo”... cansou?

— Foi você mesmo que pediu que eu parasse de usar o tratamento durante... bom, posso voltar a...

— Tsc, não precisa. De mais a mais, o seu titio pode se desagradar disso. Deixa ele achar que nos controla...

Os braços negros cingiram a esbelta cintura pálida.

— E não nos controla? – indagou ao ouvido de Surtr.

— Nada é para sempre – jogou-se lânguido contra ele, provocante – Por ora, faremos o que Kulaita quer, porque fora daqui... realmente estamos perdidos...

Puxou-o mais para perto, completando em um tom perigoso:

— ... com ele teremos poder. Uma nação a nossos pés. Mas lembre-se... tenho meus truques na manga...

— Não se arrisque. Meu tio sabe de suas habilidades. Ele dobrou o Cavaleiro! O que garante que não te dobrará também?

— Não sou um tolo sentimental como o Camus. Seu titio pode matar quantas criancinhas quiser diante de mim. A única com quem eu me importava já se foi há muito – tornou-se sombrio, apoiando-se no peito do jovem que o acariciava de cima a baixo nas costas, causando-lhe arrepios.

— É muito corajoso confessando ao sobrinho do líder de toda esta organização o seu intuito de traição – murmurou ao ouvido do ruivo, que suspirou com aquilo.

— Eu posso confiar no sobrinho do chefão porque ele está junto comigo nesta... e porque ele me ama.

— E ele? É amado?

As mãos de Surtr passearam por sobre o largo peito de ébano. Respondeu, provocante:

—Quem sabe?

— Mas você ainda quer foder o rabo do Cavaleiro de Aquário, acabou de dizer – abraçou-o pela cintura, encostando sua virilha na dele.

— Mera questão de vingança pessoal. Meu sentimento por ele já não existe mais.

Derrick fez uma expressão de surpresa. Tentou não se sentir demasiado esperançoso. Balbuciou, nada convencido com aquela fala:

—Você jura?

— Eu não juro nada... nem por ninguém. Nesta vida, só tive lealdade a Odin e a Camus. E ambos viraram as costas para mim. – Volveu, amargo. Em seguida, lambeu os mamilos de Derrick, que suspirou, deliciado. O africano resistia ao furioso anseio de agarrar o menor em um ímpeto possessivo.

— Então... gostaria de possuí-lo como vingança?

— Assim que tiver a oportunidade...

— Você teve e não o fez. Desculpe-me a franqueza, mas não acredito que o fará agora.

Os olhos fúcsia fixaram-se no rosto plácido do jovem negro.

— Olhe para nós, Derrick. Somos a prova de que tudo pode mudar. Eu era um guerreiro honrado numa terra do extremo norte, e você um simples funcionário de hotel que vendia seu corpo nas horas vagas. Agora estamos na liderança de uma frente separatista, e estaremos no centro do novo poder que controla um novo país.

— E um país com muitas riquezas – acrescentou Derrick, acariciando as costas do asgardiano. Suas mãos desciam e desciam...

— Sim. Basta ver as instalações faraônicas deste simples Q.G. de operações em que nos encontramos.

— E você pode mesmo descobrir se Camus tentar se comunicar com os companheiros dele?

— Sim, não importa a distância em que estejamos um do outro. Mesmo agora, sou capaz de saber que ele está dormindo.

— Como isso é possível?

— Simples. Não para sua mente limitada, claro. Mas Fafner, que é o mais renomado cientista de Asgard, pôde produzir um microchip que, uma vez implantado no corpo daquele que se quer vigiar, avisa a nós, Guerreiros Deuses a intenção de seu cosmo. Consiste em uma espécie de ressonância psíquica propagada pelas ondas geradas por tal manifestação.

— E se consegue mesmo saber que o sujeito está dormindo! – admirava-se Derrick, beijando a omoplata sardenta do ruivo.

— Posso sentir pela espécie de ondas cerebrais que ele está em repouso.

— Então não há com que se preocupar.

— Nunca mais haverá.

Dito isto, investiu contra o amante, em um significativo apelo para que se estreitassem mais uma vez.

*************

“Milo...”

Fora o primeiro pensamento de Camus ao despertar. Ergueu a cabeça dos macios travesseiros e viu por uma imensa janela que a alvorada se aproximava. Lembrou-se de imediato que não estava mais entre os seus. Por certo, estava bem longe da Cidade do Cabo. Recordava-se do sequestro, de Surtr de volta e totalmente recuperado, do homem que vira no telão do estádio... do assassinato a sangue frio de uma criança na sua frente, apenas para demonstrar o que aconteceria caso ele tentasse contactar os Santos de Ouro. Através do maldito microchip projetado por Fafner, novamente implantado em seu pescoço, seu cosmo agora estava em sintonia com a mente de Surtr. Maquinalmente, levou a mão à região onde o dispositivo havia sido injetado. Não doía mais.

Ergueu os olhos índigo para sondar o ambiente em que se encontrava. Conforme a primeira vez em que naquele local despertara, sem dúvida um recinto de inegável requinte: sobre o carpete púrpura e aveludado móveis de alto padrão nos quais se dispunham obras de arte das mais variadas, desde finas porcelanas até adornos esculpidos em ouro. Um lustre de cristais translúcidos refletia a tênue iluminação a todos os cantos das paredes em porcelanato. E, sentados nas poltronas Luís XIV, dois robustos homens negros com os olhares atentos sobre ele. Claro. Nem dormindo deixaria de ser vigiado. O que o surpreendia verdadeiramente era como havia conseguido dormir após eventos tão terrificantes! De que forma aquilo fora possível? Ah sim… recordava-se de ter aceitado um chá que um dos homens de Kulaita lhe oferecera... um ancião. Em absoluto choque após ver a menininha ser alvejada como um convencimento por parte do terrorista, deixara-se conduzir pelo velho até aquele quarto. Naquele momento, Camus tentava interromper o fluxo das lágrimas, o que trazia-lhe ainda mais agonia. O peito constringido dificultava-lhe a respiração. Foi então que o idoso oferecera-lhe a bebida. Disse que o acalmaria. Que insensatez ter aceitado! E se quisessem matá-lo?

Ora, se esse fosse o caso, por que teriam tido tanto trabalho para levá-lo até ali? Para que teriam implantado o chip que denunciaria uma tentativa de comunicação telepática? Por que teriam lançado mão de artifícios tão odiosos para convencê-lo a fazer seja lá o que fosse? Para dar cabo dele, simplesmente? Com um chá envenenado?

Raciocinando assim, entendeu a razão de ter aceitado a beberagem. Incrível que de fato havia-o nocauteado! E, verdade fosse dita, sentia-se descansado, ao menos fisicamente. De que seria feita a bebida?

O som da porta se abrindo atraiu sua atenção: era o ancião que adentrava o quarto. Os vigias fizeram-lhe uma respeitosa mesura, à qual ele respondeu com um discreto menear da cabeça grisalha. Dirigiu-se a Camus, que fitava-o cuidadosamente. Uma lembrança delineou-se na cabeça do francês. Uma lembrança a qual estivera se esgueirando desde a véspera mas que fora soterrada pelo horrível ocorrido. Agora que Themba se aproximava, ela tomava cores e formas mais definidas.

— Você... – murmurou, atônito.

— Themba veio “verifica” o senhor. Themba feliz em ver que semblante do Príncipe do Gelo “estar” mais descansado. O chá que Themba “preparar” “funcionar” mesmo! – regozijava-se o velho, dois ou três dentes de ouro reluzentes no sorriso servil.

— ... era VOCÊ no hospital! – disse, enfim, a boca seca de ira – Digo, na saída do hospital... quando eu saía com Milo!...

As mãos ossudas bateram-se brevemente em contentamento.

— Themba fica feliz por ser lembrado por senhor tão importante!

Sua alegria, entretanto, chocava-se com o frio desprezo do interlocutor.

— Estavam me vigiando desde então – apontou Camus, secamente.

— “Vigiar” é cuidar, meu senhor. Príncipe do Gelo se “ferir”... nós preocupados...

Apenas a consideração pela avançada idade do homem à sua frente impedia-o de partir para a agressão, tão indignado se encontrava. Tratou de acalmar seu estado de espírito. Um rompante não era boa ideia, e ele comprovara isso da pior maneira.

Relaxou os pulsos, que estivera inconscientemente a contrair. Em tom mais ameno, indagou, sentado na cama:

— Onde estou? O que, afinal, vocês querem de mim?

— Príncipe do Gelo vai ter suas respostas mas não da boca de Themba. Themba só “cuidar” de Príncipe.

— Que tal parar de me chamar dessa maneira estúpida?

O velho apenas sorriu, e chamou:

— Zarina!

Camus ergueu uma sobrancelha quando surgiu diante dele uma mulher negra trajando uma longa túnica amarela, trazendo um recipiente fumegante. Encarou o cavaleiro de forma quase petulante, as íris escuras como a noite a conter estrelas. Ofereceu-lhe o recipiente. Voltando-se para Themba, o aquariano inquiriu, um tanto sarcástico:

— Mais um de seus chás soníferos?

O homem balançou a cabeça, negando com certa condescendência:

— Não, não, não, é apenas para o desconforto que “residir” aí...

Como o francês fez uma expressão interrogativa, Themba esclareceu, subitamente melancólico:

— Há dor na alma nobre de Príncipe do Gelo... dor que enfraquece corpo e espírito... dor que “vir” daqui – tocou o próprio peito e em seguida, a cabeça – e “turvar” aqui. E aqui não “poder” turvar. Príncipe “dever” brilhar. Como uma luz guia na escuridão.

Aquelas palavras causaram estranha impressão em Camus. Desanuviou a expressão e fitou as próprias mãos sobre os joelhos, todo ele a imagem do desalento.

— Como é que eu poderia estar depois de ter presenciado AQUILO? Talvez seja normal para VOCÊS executar crianças inocentes... mas para mim... ver tal atrocidade sem poder fazer nada...

Nesse momento, a mulher que segurava o chá falou algo para Themba, em uma língua desconhecida para o Santo. Havia um sorriso jocoso no rosto trigueiro que desagradou profundamente o francês. Ela desviava por vezes o olhar irônico para o Cavaleiro, sem o menor temor. O ancião respondeu-lhe, enérgico. Deixara de sorrir. Comunicavam-se em alguma língua africana a qual, uma vez ativado o cosmo para tal, Camus poderia passar a compreender. Temeu, contudo, que tal manifestação, detectada por Surtr e transmitida a Kulaita, trouxesse mais alguma consequência funesta. Não podia usar seu cosmo sem a autorização deles, não fora isso que lhe disseram? Sentiu-se terrivelmente impotente ao perceber o quanto se encontrava à mercê de pessoas “comuns”... conformou-se em observar a cena: Themba parecia repreender severamente a moça, que abaixara a cabeça, nitidamente sem argumentos... ou sem poder argumentar, nunca saberia.

Quando eles se calaram, o velho tirou a bebida das mãos da mulher e ofereceu ao Santo.

— É melhor “que bebe” logo, antes que “esfriar” – falou, adquirindo o semblante cordial de novo.

O aquariano aceitou, sorvendo o chá aos poucos, surpreendendo-se com o agradável sabor.

— Zarina, “poder” se retirar.

— Eu bem queria continuar olhando o Príncipe do Gelo – replicou ela, a audácia mal contida na voz baixa – Ele é mais bonito que o guerreiro ruivo que tirei do hospital.

Camus olhou-a, surpreso. Themba insistiu:

— Nem tudo que se quer se pode. Vai.

Ela assentiu, a contra gosto. E saiu, quase bufando de insatisfação.

— Então... foi ela que... – o jovem se surpreendia a cada nova descoberta.

— Bebe, bebe.

Após umas goladas, Camus terminou de beber. Um calor reconfortante subia-lhe, fazendo-o admitir que a bebida de fato era boa. Calmamente, indagou:

— O que vocês estavam falando? Não é costume meu querer sondar conversas alheias, mas dava para notar que o tópico dessa em questão era EU. Talvez tenha o direito de saber.

— Themba “estar” certo de que Príncipe do Gelo poderia muito bem ter entendido... se “usava” o cosmo poderia entender.

— Tenho fortes motivos para não querer mais usar meu cosmo, mesmo para coisas mais banais como essa. Você sabe muito bem que motivos são – replicou, friamente.

— Isso apenas reforça o que Themba “dizer” à Zarina – comentou o ancião, mais para si mesmo do que para o aquariano, que o mirou em dúvida. Continuou – Zarina “questionar” que Príncipe do Gelo “parecer” emotivo demais para quem “conduzir” nossa nação à glória. Themba “dizer” que justamente essa preocupação com nossas gentes “fazer” Príncipe do Gelo especial e digno. Príncipe do Gelo “pensar” nos outros. Sofrer pelos outros, mesmo sem conhecer os outros...

Camus desviou o olhar e perguntou, distraidamente:

— Por que diz que vou conduzir “a nação de vocês” à glória?

— Porque é missão de Príncipe do Gelo. Mas é Kulaita quem “explica” melhor tudo.

As sobrancelhas azuis franziram à menção do líder terrorista. Que conversa poderia ter com um homem que não hesitava em tirar a vida de um ser inocente em prol de seus planos? Gostaria de nunca mais defrontar-se som ele. Entretanto... sabia que uma hora havia de fazê-lo.

Como que adivinhando seus pensamentos, Themba disse:

— Agora que terminou o chá, “ir”para suíte limpar-se, “ter” roupas limpas... Kulaita “vir” buscar Príncipe assim que Príncipe se preparar e fizer refeição. Themba “trazer” comida especialmente preparada para Príncipe.

— Ele vem me buscar? Para ir aonde?

— Para ir conhecer sua missão, Príncipe do Gelo...

*************

Saga contactara Atena para informá-la acerca da difícil situação em que se encontravam. Precisava também da autorização da Deusa para partir rumo à Angola, mesmo antes de a Conferência da ONU terminar, o que aconteceria em dois dias. Não se surpreendeu quando não a obteve: em quaisquer circunstâncias, a missão deveria ser levada até o fim. Estavam na Cúpula para representar o Santuário, e assim deveria ser feito, sem antecipar nada. Não se surpreender, no entanto, não queria dizer ficar satisfeito. E o geminiano não estava nada satisfeito em não poder abandonar seu posto para tentar salvar um amigo. Não obstante, Saori permitiu que Milo e Aioria fossem para Angola com a presidente Urbi; Saga continuaria participando do evento, e ao seu término retornaria à Grécia para prestar relatórios. Continuariam com ele na Cidade do Cabo Frodi e Sigmund, que de igual maneira não obtiveram permissão para deixar seus postos em busca de um renegado. Por outro lado, Lorde Andreas ordenou que, finda a Conferência, partissem em dupla missão: auxiliar os Santos de Leão e de Escorpião e, principalmente, encontrar Surtr, agora tido como um traidor de Asgard. Ao que parece, a sacerdotisa de Odin, ainda enferma, pedira veementemente, que o jovem fosse levado à Asgard com vida, para ser julgado. O médico concordara, sabendo, entretanto, que Surtr poderia oferecer resistência, pois que se rebelara de uma forma inédita na história dos Guerreiros Deuses. E assim convenceu uma consternada Hilda que deixasse Frodi e Sigmund executá-lo, caso fosse necessário.

Naquela manhã de quarta-feira Milo e Aioria embarcavam no jato da governante angolana. A viagem duraria três horas e meia, e nesse meio tempo eles já iam se inteirando do que Urbi sabia acerca da organização que iriam enfrentar. Acomodaram-se à mesa de reuniões no interior da aeronave, assessorados por elegantes comissários.

Milo olhava pela janela, pensativo. Estivera mais calado que o usual, e suspirava vez ou outra.

— Camus há de estar bem, Milo. Não se preocupe demais – disse Aioria, adivinhando-lhe os pensamentos. Não era nada difícil, aliás.

— Eu sei. Mas... é mais forte do que eu, sabe.

— Não vai demorar muito a gente vai desmantelar essa merda de Brilho do caralho e trazer o Camus de volta. Confie em mim!

O escorpiano sorriu. Um sorriso forçado, mas melhor que nada. Respondeu:

— Vamos sim. Não vejo a hora de transformar os filhos da puta em peneira. Aquele ruivo escroto, então...

— Aham – pigarreou a presidente angolana; os jovens ficaram sem jeito pelo palavreado diante da governante, que juntava-se a eles.

— Ah! Errr... foi mal... digo, desculpe, senhora... – desculparam-se, atrapalhados.

Ela sorriu, balançando a mão com alguns anéis.

— Está tudo bem, rapazes. Bem, se me permitirem, começarei a explicar um pouco sobre Shamallah, o pretenso país criado pela Brilho da Honra. Possivelmente, é lá que já se encontra o amigo de vocês.

— Claro – disseram a uma só voz.

Urbi apontou a tela na qual era projetado o mapa africano.

— Os quatro países tomados pela organização terrorista formaram Shamallah, que avança para a República Democrática do Congo. A população do Congo, inclusive, lançou-se em um êxodo nunca visto, fugindo de possíveis ataques da Brilho da Honra. É quase certo que tencionam tomar o país, ainda mais com as forças potencializadas do jeito que esperam. O acesso a Shamallah a partir da Angola não é de todo fácil, embora para vocês seja extremamente possível – dizia a mulher, gravemente – No entanto, creio que devam encontrar forte resistência configurada no enorme contingente de exércitos milicianos.

— E... e de crianças – completou Aioria, temeroso.

— Sim.

— Como enfrentaremos crianças? Pessoas que estão sendo forçadas a combater? Que sofreram lavagem cerebral almejando um futuro melhor? É uma situação nova para mim, confesso – admitiu Milo, sem esconder uma inédita insegurança.

— Nem todos agrupamentos paramilitares com que se depararão serão de crianças, tanto mais se aquilo de que suspeito seja levado a sério pelos líderes; a este momento, devem estar concentrando as crianças guerreiras em locais de seleção, para receberem o treinamento de Aquário.

— Essa “seleção” me preocupa, e muito – acrescentou Milo, torcendo as mãos – Eu gostaria que pudéssemos chegar a tempo de salvá-las desse massacre... que é o que vai ser, muito provavelmente.

— Sou da mesma opinião, Escorpião – pontuou Urbi, resoluta.

— A senhora falou que enviou espiões a Shamallah. Muitos sucumbiram, mas alguns voltaram com informações...

— Exatamente, Leão, e esse é um dos motivos da ida de vocês ao meu país.

— Precisamos agir logo – disse Milo, angustiado.

— E irão. Há outras pessoas com quem vocês poderão falar.

— Ah, é? Quem?

— Prisioneiros.

Os dois jovens se entreolharam.

— Prisioneiros? A senhora se refere a terroristas da Brilho…?

Ela assentiu. Ajuntou:

— Além de prisioneiros, refugiados de guerra asilados em Angola. Dispomos de bastante informação. Mas não do poder de vocês.

— Pois com essas duas coisas juntas, eles podem fazer suas orações. Se é que creem em alguma coisa a não ser em suas ambições sórdidas.

— Eu duvido, Milo – respondeu ela, tristemente – duvido muito.

*************

Camus fez a higiene matinal, banhou-se e vestiu-se com as roupas deixadas para ele, cujo tamanho atestava o quanto dele haviam pesquisado: caíram-lhe perfeitamente a calça social preta, a camisa de linho branca, as meias e os sapatos envernizados pretos. A despeito de sua total ausência de apetite, forçou-se a comer algumas frutas e um pão de sabor diferente de tudo que já tinha provado na vida. Precisava de energia, tanto mais porque nem com seu cosmo podia contar livremente.

Viu os seguranças dirigindo-se à porta, quando toques discretos se fizeram ouvir.

Não queria sequer olhar para ele. Seu estômago revoltou-se à presença do recém chegado.

— Bom dia, caro Camus de Aquário.

Impossível responder ao cumprimento. Sua garganta fechara-se de repulsa e ódio. Limitou-se a encará-lo, controlando a fúria nas íris azuladas.

— Vejo que está razoavelmente bem recuperado. Confesso que preocupou-me o estado em que ficou ontem à noite.

Kulaita sentou-se à mesa, fazendo sinal para que um dos vigias o servisse. Trajava-se com esmero, um terno de alfaiataria perfeita, em risca de giz e com uma gravata de pura seda italiana. Via-se que ele realmente via a si mesmo como um importante governante.

— Em que estado deveria eu ficar após ver uma criança ser morta a sangue frio bem na minha frente? – perguntou o aquariano, pousando a xícara no pires delicado.

— Verdade, concordo que não é algo agradável de se presenciar, ainda mais sendo você um homem que luta pela justiça – sorveu o chá displicentemente, angariando espanto de Camus. Espanto esse que ele disfarçou.

— Consegue manter-se despreocupado após ter feito o que fez?

— Há muito mais com que se preocupar, Aquário. Os homens que pavimentam uma estrada não param para lamentar pelas vidas que se perdem sob as obras do progresso.

— Você matou uma criança – repetiu o jovem, friamente, semicerrando os olhos.

— E com isso você fará com que milhares de outras possam ter uma nova história. Se não o fizesse, você nos pulverizaria com seu grandioso poder. Não é um preço tão grande, ainda que doloroso.

— Não vejo um único indício em seu rosto de que realmente considere isso “doloroso”.

— Você não é o único a mascarar emoções, Cavaleiro. Já pensou nisso?

Camus estreitou ainda mais os olhos.

— Está dizendo que lamenta o que fez?

— “Lamentar” é um termo forte. Eu cumpri o meu dever. O que não quer dizer que me cause prazer. Você, que matou seu próprio discípulo, em nome de “seu” dever deveria entender o que digo – disparou o terrorista, o tom mais suave que o teor da réplica.

Aquele assunto sempre atormentava Camus e não foi diferente desta vez. Por mais que não demonstrasse o que sentia, uma discreta oscilação em sua voz não passou despercebida a Kulaita:

— De fato, averiguaram toda minha vida. Fizeram um bom trabalho. Apenas se esqueceram de averiguar as reais razões de meus atos.

— Os resultados independem das razões – rebateu o homem, partindo uma torta de legumes – tanto minha razão quanto sua razão tiveram o mesmo resultado: crianças mortas. Não era uma criança, o seu discípulo? Um pouco mais velha que Sinmone. Um pouco mais velha que Twanny. Que real diferença faz? Aliás... falo apenas de você. Sei de um Santo de Atena que não hesitava em atingir velhos e crianças, caso estes estivessem em seu campo de ação... como ele, certamente houve outros...

— Não vai conseguir me convencer com seu jogo de palavras. Já arrumou com que fazê-lo, o palavrório é desnecessário. Veio finalmente me dizer o que espera de mim? – quis saber, já enfastiado da conversa estéril.

— Vim buscá-lo para um certo lugar.

— Ah, sim. O velho me disse que você me levaria a um passeio – ironizou, mordendo uma maçã.

— Assim que terminarmos o desjejum, partimos.

— E somente lá você me dirá como servirei à sua “nobre” causa.

— Correto – o sorriso se fazia mais amedrontador que a expressão sisuda.

— Deve imaginar que não apenas meus companheiros, como também os companheiros de Surtr virão para cá, não é mesmo?

— Imagino que tentarão. Mas não conseguirão.

— Sua confiança é quase tão notável quanto sua covardia.

— Aquário... sugiro que meça suas palavras. Estou tratando-o com todo respeito possível. Está certo que o combinado foi que um inocente sofreria as consequências de sua insubordinação, e isso se referia ao uso não autorizado de seu cosmo. Posso estender o trato ao uso inadequado de suas palavras.

Camus estremeceu de ódio.

— Não ousaria...

— Se você continuar com essa atitude, não posso garantir minha paciência. Como tudo nesta vida, uma hora ela acaba.

O aquariano engoliu sua raiva, que desceu como farpas cortantes pela garganta apertada.

*************

Horas depois, um comboio de jipes cruzava as estepes banhadas pelo sol já escaldante às nove da manhã. Em um dos veículos, Kulaita, Camus e dois guardas a empunharem metralhadoras, além do motorista também armado, iam silenciosos pelo caminho. O francês prendera os longos cabelos esvoaçantes pela alta velocidade com que avançavam pelas pradarias. Não fazia a menor ideia para onde estavam indo, contudo absteve-se de perguntar. Na verdade, achava melhor falar o mínimo possível com o detestável homem sob cujas ordens se encontravam milhares de pessoas.

Após longo tempo de viagem, pararam nas imediações de um cânion. Ao descer do carro, Camus viu Surtr descer de outro. Acompanhava-o o ex-recepcionista do resort. Sentindo-se observado, o asgardiano olhou na direção daquele que um dia fora seu amigo. Não hesitou em ir até ele, para desgosto do aquariano.

— Camus! Como está? Eu fiquei preocupado – anunciou, abrindo os braços de satisfação.

Sequer recebeu uma resposta.

— Você parece ótimo – sorriu, admirando o Cavaleiro, tão impassível quanto inalcançável.

— Bem, cá estamos. Venha, Aquário, quero que veja um espetáculo – chamou Kulaita, colocando a mão no ombro do jovem.

Atrás deles iam o sobrinho, a quem Surtr cochichou:

— É impressão minha ou seu tio totalmente nos ignora, agora que tem Camus?

— Não acho que seja impressão sua.

— Hunf. Não gosto muito disso.

— No momento, só podemos segui-los – falou Derrick, claramente receoso de que alguém ouvisse o que diziam.

— Sim, eu concordo... por enquanto – resmungou o ruivo.

Os grupos acompanhavam seu líder e aquele a quem muitos chamavam “Príncipe do Gelo”. Sons diferentes dos da natureza chegaram aos ouvidos sensíveis de Camus. Algo como uma cacofonia, ainda ao longe, mas na qual se distinguia gritos, vozes, britadeiras, ecos, batidas.

À beira de um penhasco, seus olhos desceram pela depressão e encontraram a origem dos sons que ouvia.

Dezenas de crateras a abrigar leitos terrosos de água, por sobre os quais apinhavam-se sombras negras móveis; perfuradoras e escavadoras agiam ao longe, no afã de ferir mais a terra e dela extrair o que se queria. Pelas encostas, mais sombras negras móveis, verdadeiros enxames...

Pessoas.

Tantas!

— É um garimpo de diamantes – observou, maquinalmente.

— Perfeitamente – confirmou Kulaita, ajeitando o chapéu que o protegia da incidência solar, em cheio em seus olhos escuros.

— E com certeza clandestino.

— Não é clandestino porque está em NOSSOS domínios. Você está em Shamallah, caso não tenha se dado conta, meu caro.

— Tantas pessoas – murmurou o francês, aterrado – Então é daqui que saem os recursos para sua... “causa”.

— Este é apenas um dos pontos em que colhemos o que Deus nos ofereceu.

— Há outros?...

— Naturalmente, Aquário. Não é bonito? Todos se orquestrando para prover sua nação de subsídios que a possibilite se defender dos imperialistas – disse Kulaita, oferecendo um chapéu ao rapaz, que cobria os olhos com as mãos para observar melhor. Camus recusou com um breve aceno.

— Você ao menos paga essas pessoas?

— Não são escravas, se é o que quer saber. Quem tem o hábito de escravizar os africanos são vocês europeus, não nós – riu o terrorista, acendendo um charuto.

— Então recebem por esse trabalho extenuante – podia sentir a potência do sol através de suas roupas claras, imaginava como não seria para aquela gente de torso nu, sem qualquer proteção aparente.

— Recebem o suficiente para viverem e moverem as engrenagens de nosso futuro.

— Imagino como não deve ser “generoso” esse pagamento – comentou, mordaz. Era simplesmente impossível controlar! A exploração era evidente!

— Falar em generosidade, é bem verdade que a Mãe Terra tem sido generosa para conosco. No entanto, a ascensão de nosso país demanda novas fontes de riquezas... e novos meios de mantê-las. Novos meios de garantir a soberania de nossa nação, de garantir a segurança de nosso povo, pois que, sabemos, a comunidade internacional não aguentará ver nossa escalada rumo à glória sem tentar nos impedir.

Camus olhou para Kulaita, desconfiado de que aquele discurso apenas introduzia a verdade que ele almejava conhecer.

— O que faz um homem que tem muitas riquezas, Aquário?

— Explora os outros?

— Muito engraçado. Refiro-me ao que ele faz para PROTEGER suas riquezas.

— Não sei. Guarda-as bem guardadas?

— É uma das ações. Há outras. Quais?

Enfastiado, o jovem deu de ombros, demandando:

— Poupe nosso tempo e diga de uma vez o que quer.

— Que impaciente, Aquário, ou será preguiça de pensar? – riu outra vez. Após dar uma profunda tragada e soltar a fumaça voluptuosamente no ar, Kulaita rendeu-se – Pois bem. Um homem com muitas riquezas contrata seguranças para vigiar suas propriedades. É isso que Shamallah está a fazer. Estamos a constituir exércitos mais potentes, mais especializados, forças militares capazes de isolar-nos deste mundo sórdido que já deu sinais de combater nossos ideais de unificação justa e sólida.

Fez sinal a Camus para que o seguisse:

— Agora venha até o outro extremo deste platô.

Andaram alguns metros no sentido oposto de onde estavam. Desta vez Camus quedou-se realmente boquiaberto.

No fundo do vale, centenas de crianças e adolescente exercitavam-se sob as ordens ditadas em inglês através de potentes megafones. Corriam, pulavam, escalavam estruturas próprias de treinamentos militares. Ouvia-se gritos gerados pelos esforços, mas possivelmente de punições a que os menos capazes se sujeitavam. Tudo ocorria ao longe, porém era facilmente identificável a Camus. Ele conhecia aquela situação muito bem, ainda que com menos meninos por perto.

— É um campo de treinamento? Por que não vejo adultos treinando?

— É um campo específico. Aqui treinam soldados mais jovens. Um treinamento diferenciado e bastante eficaz.

— Por Atena – balbuciou o aquariano – Exército de crianças... vocês estão usando crianças em suas tropas!

— Tem-se mostrado eficaz estratégia através dos tempos. São soldados audazes, vigorosos, obedientes. Shamallah não é pioneira na prática. Apenas desejamos APERFEIÇOÁ-LA, Camus de Aquário. E é por isso que você foi trazido para cá.

— Não entendo – Camus falou, estupefato. E sua estupefação aumentou quando enfim Kulaita revelou:

— Você será o mestre das crianças que forem escolhidas por este rigoroso programa de seleção. Treinará os meninos e meninas escolhidos. Assim como treinou duas crianças no passado que se tornaram admiráveis e poderosos guerreiros, treinará esses filhos de Shamallah que sob seus ensinamentos se tornarão os soldados perfeitos e invencíveis de nossa nação.

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Notas finais
É, agora Camus vai saber o que de fato os "brilhosos" esperam dele (apelido dos integrantes da Brilho da Honra cunhado pela Quézia, hehaheuhahauhe). Enquanto isso, em Angola, Milo e Aioria conhecerão mais sobre o inimigo que irão enfrentar. Espero que tenham todos uma excelente Páscoa. Muito obrigada por lerem, e até a próxima o/