O Brilho da Honra
32 A Mais Perigosa das Loucuras
Notas iniciais

Kulaita terminou de falar e Camus apenas permaneceu estático encarando-o, tomado de completo estupor. Não seria força de expressão afirmar que o aquariano não acreditara no que acabara de ouvir. Ele, treinar crianças e adolescentes para combaterem pela causa torpe de uma organização terrorista e separatista? Sorrindo sarcasticamente, o terrorista indagou:
— Posso tomar seu silêncio como um sinal de concordância? Ou ao menos de sábia consideração?
— Eu já sabia que você era perverso. Possivelmente louco. Vejo agora que também delira. – O jovem respondeu friamente, estreitando o olhar reprovador.
O tio de Derrick deixou escapar um riso rouco.
— Deliro? O que o leva a acreditar que deliro? Você não teve a experiência de treinar crianças exatamente como essas que vê diante de seus olhos, e torná-las guerreiros fora do comum? Não lhes ensinou a usar um poder além das capacidades de um ser humano normal? – Estendeu o braço na direção do vale, fazendo o francês pousar seus olhos azuis marinhos nos extensos agrupamentos em intensa atividade. – Então é perfeitamente compreensível que possa fazer o mesmo com estes meninos... pois que foi para ISSO que foi trazido para cá, Cavaleiro.
Ainda incrédulo, Camus meneou a cabeça, devagar.
— Não pode estar falando sério. – murmurou.
— Achei que o sacrifício de Twanny... digo, Sinmone... tivesse sido o suficiente para convencê-lo de que eu SEMPRE falo sério, Aquário.
Mordendo o lábio inferior, o Santo calou-se. Considerou, apreensivo, as crianças que treinavam nos campos; castigados pelo sol escaldante, seus corpos brilhavam, untados de suor. Pequenos, altos, muitos franzinos, outros com a estrutura corporal já desenvolvida pelos constantes exercícios os quais eram obrigados a praticar. Alguns lutavam entre si, outros treinavam juntos, contra alguns adultos... nas mãos de alguns homens, bastões e chicotes. Os gritos feriam os ouvidos do aquariano... brados de fúria, de comemoração, de dor, de ardor pela luta...
— Acontece que o quer de mim é impossível. Não posso fazer o que está exigindo.
— Por que diz isso, meu caro Camus?
O jovem voltou a fitar as íris negras de Kulaita; de modo firme e seguro, volveu:
— Quando uma criança é treinada para se sagrar um Santo de Ouro, de Prata ou mesmo de Bronze, é porque foi previamente escolhida através de rigorosos testes de seleção. Não é qualquer menino que pode aprender a usar o cosmo com fins de se tornar um guerreiro.
— Pois é EXATAMENTE o que estamos a fazer aqui, não vê? – Deu as costas ao rapaz, contemplando a multidão agitada e barulhenta. – Destas centenas, apenas os melhores, os mais fortes, os mais talentosos... serão destacados para receberem os SEUS ensinamentos, Santo.
— E o que vai acontecer com os que não forem “destacados”?
— Você pode imaginar que isso dependerá da sorte desses... ou da força dos oponentes...
Camus franziu o cenho, indignado. Retorquiu, contraindo os punhos:
—Imagino que podem se ferir… ou até mesmo... morrer.
— Há nisso alguma diferença no processo de seleção das crianças que receberão treinamento para se tornarem Santos de Atena? Ou mesmo entre aqueles que já estão a receber tal treinamento?
— Não. Não há, mas... – Viu-se obrigado a concordar. Em sua infância, presenciara vários meninos sucumbirem ao rigor empregado na escolha dos que seguiriam os caminhos por ele trilhados. E boa parte dos sobreviventes tampouco chegariam ao fim daqueles caminhos.
Mas isso não queria dizer que o que a Brilho da Honra ambicionava fazer fosse a mesma coisa! E o francês, obstinadamente, tencionou demonstrá-lo:
—Sacrifícios em prol da justiça. Que fizeram parte dos desígnios da deusa Atena, para que novas gerações de Cavaleiros possam, continuamente, defender a Terra de ameaças oriundas de caprichos de deuses... ou de facínoras como você.
— O que parece justo para a sua deusa parece injusto para mim. E o que parece injusto para você é tão somente a justiça enfim chegando a estes povos desgarrados, abandonados à própria sorte...
— Poupe-me desse seu discurso repetitivo – rebateu o francês, com desdém, voltando a mirar as centenas de pessoas no vale – tudo que vocês fazem é por cobiça, e apenas por isso.
O terrorista torceu os lábios grossos em um sorriso sombrio. Balançando a cabeça, caminhou até o aquariano, parando bem diante dele. Mirou-lhe o rosto determinado, vários centímetros abaixo do seu. E sem qualquer aviso, esbofeteou-o, ruidosamente.
Sem poder contar com o cosmo, e pego de surpresa, Camus sentiu, e bastante, o golpe. Afinal, era com um homem extremamente forte, de uns 2m de altura, que estava lidando.
— Ei! – gritou Surtr, sendo contido por Derrick – Você disse que não faria mal a ele!
— Cale-se. Isso não é nada para ele. – sorriu de leve, observando o sangue que desceu dos lábios do Cavaleiro – Mas é uma compensação para mim. Tenho suportado por tempo demais a língua ferina deste nosso “convidado”. Espero que com isso a tenha mordido...
Os que acompanhavam-nos entreolharam-se. Pareciam igualmente surpresos por Kulaita ter levantado a mão contra o “Príncipe de Gelo”. Este não proferira um só gemido, limitando-se a endireitar a postura, momentaneamente desequilibrada pelo inesperado e potente impacto.
— Isso foi apenas para me aliviar, Aquário. Da próxima vez em que for rude comigo, não será o seu sangue a verter, lembre-se.
Camus deu de ombros; cuspiu o sangue quase nos pés do terrorista. Aprumou-se e argumentou, como se nada tivesse sequer lhe tocado a face:
— Mesmo que eu concordasse com tamanho absurdo, eu NÃO poderia instruir crianças apenas porque vocês as trouxeram aqui para tal. Mesmo os jovens destinados para competirem pelas armaduras somente obtiveram essa chance porque tiveram seus cosmos identificados como sendo capazes de se desenvolverem.
Observador que era, notou que uma sombra de dúvida passou pelos olhos de Kulaita. Começava a ficar confiante em semear mais hesitação no criminoso quando Surtr se adiantou e postou-se entre os dois:
— Camus, o que houve com você? Foi o convívio com aquele falastrão do Milo? – perguntou, fitando o ex-amigo – Porque eu nunca soube que você era de blefar...
— Explique-se, Surtr – demandou Kulaita, subitamente sério.
— É claro – virou-se para o homem, lançando alguns olhares de soslaio para o francês – Ele não mente quando diz que garotos escolhidos para treinar pelas armaduras são seleionados mediante o potencial de seus cosmos, previamente identificados por enviados da deusa. Porém, esconde um fato...
— O que ele esconde?
— Que, de acordo com a crença dos próprios Santos e de sua valorosa Atena – imprimiu tom de sarcasmo ao mencionar o nome da deusa — todo ser neste mundo possui em seu interior o que eles chamam de “cosmo”. TODO e QUALQUER ser. Seres vivos... e mesmo os inanimados.
— Surtr! – exclamou Camus, revoltado com a revelação do asgardiano, que parecia ser uma verdadeira novidade para os integrantes da organização terrorista.
— Ou seja, o que ele usa como motivo para não treinar os filhos de Shamallah é uma farsa. Todas essas crianças têm, sim, cosmo. Até o solo, a terra sobre os quais elas pisam neste exato instante têm esse cosmo. Quanto a ter umas ou outras pessoas mais aptas para desenvolverem esse cosmo... ele não mente. Entretanto... tudo é uma questão de separar o joio do trigo... ou, como muitos estão fazendo do outro lado da montanha, separar os diamantes de seixos e pedras sem valor...
— SEU MALDITO! – Camus fez que iria avançar sobre o ruivo, mas foi prontamente impedido por dois comparsas de Kulaita a segurarem-no pelos braços. – É de CRIANÇAS que você está falando!!!
Vendo o aquariano contido, Surtr prosseguiu a explicação ao líder, interessado como nunca:
— Os meninos de quem ele foi mentor não eram muito diferentes de muitos que estão aqui. Recebendo os ensinamentos de Camus, aprenderam a controlar, a manipular, a utilizar o cosmo pelo bem de uma causa; a de se tornarem guerreiros fenomenais. Um deles foi servir o Imperador dos Mares. O outro está ao lado da Deusa, e é o sucessor da armadura de Aquário, é o que esperam do menino. Como pode ver, Camus fez dos dois notáveis guerreiros. Certamente fará o mesmo aqui, e mais que apenas dois, porque – riu – Olhe quantos! Deve ter pelo menos uma dúzia de potenciais por esse campo...
— Como pode estar compactuando com essa loucura, Surtr?!? Não vê o derramamento de sangue inocente que suas palavras absurdas vão causar?! Por Atena, quer mesmo que crianças sofram ou até percam a vida nesta “busca” pelos soldados controlados por esse maldito?!?
Debatia-se para se livrar dos homens que o continham, agora quatro deles (como aquele francesinho magro poderia ser tão forte?), sua ira contrastando com a tranquilidade zombeteira do rapaz de quem um dia fora amigo.
— Quem é você pra se preocupar com a morte de crianças? Não seja hipócrita, meu caro – cruzou os braços, desferindo toda sua insolência – Primeiro mata minha irmã durante seu... “treinamento”...
— Desista, Surtr, essa sua ladainha não me atinge mais!
— ...quem disse que acabei? Como eu dizia, PRIMEIRO mata minha irmã... depois deixa o próprio discípulo, um menino de... de quantos anos, Camus? Uns dez? Onze? Que seja, deixa seu aprendiz desaparecer nas águas do Atlântico Norte sem nem ao menos tentar resgatá-lo...
— Desgraçado... – mais homens se uniram aos que impediam o Santo de avançar sobre o ruivo. Este, sentindo-se seguro para continuar, prosseguiu:
— O coitado foi salvar o amiguinho, também discípulo SEU, Camus... já que o grande mestre não estava por perto para fazê-lo. Acabou por perder a vida anos mais tarde pelas mãos do garoto que VOCÊ encerrou em um esquife de gelo no Santuário, deixado ali para nunca mais voltar à vida...
— Surtr, já chega – ordenou Kulaita, franzindo as sobrancelhas em sinal de desagrado.
— Você não manda em mim!
— Tem certeza?
— Há, agora que comecei não tenho a MÍNIMA vontade de parar – gargalhou, rouco de raiva – Camus não passa de um hipócrita. Todo esse teatro de recusar ser o mestre dessas crianças não se deve à sua “preocupação” com elas, e sim porque foi um péssimo mestre...
Os presentes, assim como o próprio Kulaita, observavam a cena, pasmados. Então Camus também deixou escapar uma gargalhada, o que os estarreceu ainda mais.
— Que é, ficou louco? – Diante daquela reação o riso de Surtr foi aplacado.
— Você tem toda razão, Surtr... eu fui um péssimo mestre. – declarou, entre um sorriso sardônico. Ergueu mais o rosto, os olhos escuros cintilando de forma indefinida. Em verdade, sua expressão não podia ser lida por nenhum dos que ali estavam.
— Isso não é verdade. Caso fosse, eu não o teria trazido para cá.
— E por acaso depois de ouvir o que seu cachorrinho de Asgard disse, vai ter coragem de me querer como treinador de seus “soldados”, Kulaita?
— Quem aqui é cachorrinho, seu... – Vociferou o ruivo; Derrick se interpôs entre o amante e o Cavaleiro.
— O que ouvi em nada me surpreende ou mesmo afeta meus planos, Aquário – respondeu o líder terrorista, calmamente – Não foi nenhuma surpresa para mim.
— Quê?
— Hã? Mas… mas eu nunca te contei nada disso…
— Não precisei que você me contasse – cuspiu Kulaita, lançando um olhar de desprezo sobre Surtr.
— Não me diga que tem espiões no Santuário ou coisa do tipo – arriscou o asgardiano, boquiaberto.
O tio de Derrick não se dignou a responder. Súbito, exclamações se seguiram ao ato de Camus se desvencilhar dos que o continham; em um único impulso, arremessou-se sobre Surtr, acertando-o em cheio com um soco devastador, carregado de toda vontade que vinha acumulando de fazê-lo. Pego de surpresa, o ruivo ainda conseguiu se firmar nas pernas e evitar a queda. E logo teve que se defender de nova investida do francês, nitidamente disposto a nocauteá-lo: foi bem sucedido, pois que girou e acertou-o pelas costas. Camus também conseguiu se equilibrar, rápido o bastante para acertar Surtr, agora com um soco no estômago. Desta vez o asgardiano gritou de dor e tombou ao solo; Camus preparou-se para socá-lo mas ele rolou na terra, derrubando o aquariano com um chute por trás dos joelhos. Sentindo aquele golpe, Camus caiu. Foi a deixa para Surtr lançar-se sobre ele, visando à vitória naquela briga. Seu ex-amigo, porém, não estava nada disposto a concedê-la. Sob os olhares perplexos dos terroristas ambos ficaram se golpeando, rolando no chão de tal forma que levantava nuvens de pó.
— Kulaita, o que fazemos? – quis saber um dos comparsas do homem, que limitava-se a fitar a cena com vívido interesse.
— Surtr – murmurou Derrick, aflito ao ver o amante naquele embate feroz.
— Deixemos, deixemos – respondeu o líder da organização, sorrindo enleado – Está se vendo que os dois têm muito a resolver.
— Mas... eles estão se aproximando da beirada... – observou, receoso, um outro, vendo que os dois homens a lutarem no chão chegavam perigosamente perto da margem do despenhadeiro.
— Isso deixa tudo mais interessante.
Os dois guerreiros se socavam, esmurravam, sem qualquer trégua, e sem perceberem o risco que corriam. Ainda que, dada a força que ambos possuíam, não morressem com a queda, poderiam se machucar.
— Kulaita, eles vão cair!
— Lembre-se de que o Príncipe do Gelo não está usando os “poderes” – lembrou um dos terroristas, em tom grave – Se ele cair...
— Se ele cair, constataremos que foi um erro trazê-lo – disparou Kulaita, impaciente – E damos cabo dele, simples. Agora calem-se. Quero ver o desfecho disso.
Dito isto, todos se calaram e continuaram a observar aquela luta corporal, aparentemente equilibrada.
— Isso é tudo que pode fazer, Camus? O convívio com o estúpido do Escorpião te estragou mesmo! – zombou o ruivo, acertando uma joelhada no flanco esquerdo do aquariano. Antes que Surtr se atirasse sobre ele para se aproveitar da fraquejada provocada pela intensa dor, Camus rolou para o lado, dando uma violenta cotovelada na junção do ombro com o pescoço do ruivo.
— Cale a boca! Não ouse nem mesmo dizer o nome de Milo, seu traidor sujo! – rosnou, tentando se erguer; foi impedido por um chute do qual não pôde desviar. Tombou novamente, sendo contido pelo oponente, que continuou a provocá-lo:
— Eu sou o traidor? Você que traiu nossa amizade, e eu sou o traidor?
— Talvez você tenha sido meu amigo na infância... – bufou, sentindo o ar escapar — ...mas desde... desde a morte de Sinmone... não é mais...
— A morte que VOCÊ provocou, desgraçado! O mínimo que me devia... era... era me aceitar! Mas não... me humilhou na frente daquele cretino do seu namoradinho!
As falas saíam entrecortadas, em meio aos sucessivos ataques e golpeadas.
— Eles vão cair – balbuciou Derrick, arregalando os olhos. E gritou – SURTR! CUIDADO! VOCÊS VÃO...
Em vão. Rolaram até onde o limite se findou e sumiram das vistas dos espectadores. Exclamações ergueram-se.
— MALDIÇÃO!
— O Príncipe do...
— Eles caíram!
Alguns homens fizeram menção de correr para lá; Kulaita, no entanto, impediu-os, erguendo o braço e sinalizando para que não fossem até a beirada. Fazendo silêncio, eles ouviram uns gritos e palavras em mais de um idioma, vindos dos campos. Entreolharam-se, intrigados. Os que estavam lá embaixo claramente pareciam vibrar com algo. Os bandidos correram a outro ponto do qual puderam aferir o que ocorria.
Na planície inóspita, dezenas e dezenas de jovens bradavam de euforia ao ver dois homens dependurados do alto do precipício; na queda, Camus conseguira se segurar com uma das mãos e com a outra, segurava Surtr pelo braço. Braços negros foram erguidos, balançados, gestos de euforia se multiplicavam, todos esquecidos do treinamento para torcerem, alguns pela salvação, outros...
— Meu Deus, Surtr!!! – gritou Derrick – Camus, desgraçado, segure ele!!!
— Isso pedia um bom uísque para acompanhar! – divertia-se Kulaita.
Os dedos de Camus engancharam-se firmemente em uma parte da rocha que fora a salvação. A superfície era um tanto porosa, o que, se por um lado lhe beneficiava por não ser escorregadia, por outro estava quase a feri-lo. Na outra mão, sustentava o asgardiano, que nem assim cessava de praguejar:
— Vai, Camus, me deixa cair! VAMOS!!! Já matou minha irmã, já deixou um de seus discípulos se perder, já encerrou o outro num caixão de gelo, que é minha morte pro seu rol de crimes?
— Não seja ridículo, Surtr, uma queda destas jamais te mataria. Ao contrário de MIM, você PODE usar seus poderes.
— Eu NÃO USEI meus poderes em nenhum momento de nossa briga, imbecil!!!
— Eu sei disso... então ainda há uma migalha de honra em você... – retorquiu o francês, usando toda a energia de seu corpo para suportar o peso do rival. Pôs o pé em uma cavidade na encosta e conseguiu subir um pouco.
— Quem é você pra falar de honra?
— Surtr, PARA DE SE MEXER!
— E se eu quiser cair? Seria ótimo cair, se com isso eu visse você ser humilhado na frente de seus “futuros pupilos” – gargalhou, ensandecido.
Camus rangeu os dentes, esgotado e irado. Nem mesmo ele saberia explicar como conseguiu, sem ajuda alguma, subir e trazer consigo o asgardiano resmungão. Foi necessário muito esforço. Surtr enfim usou a mão livre para ganhar acesso ao cume. Ouviu-se palmas e vivas dos que estavam lá embaixo.
Os dois surgiram diante de Kulaita, Derrick e os demais presentes.
— Aí estão – sorriu o líder dos terroristas.
Ofegantes, os jovens mantinham-se ajoelhados, procurando se recompor. Tanto Surtr quanto Camus estavam razoavelmente machucados. Quando enfim puderam se sustentar nas pernas, ainda encurvados e exaustos, Surtr dirigiu a Camus um sorriso repleto de desdém e disse:
— Não espere que eu... que eu te agradeça por isso...
— Eu... não espero nada de você, Surtr... mas você... você SIM deveria esperar algo de mim...
— Verdade? O quê?
Sem que ninguém pudesse por aquilo prever, o Cavaleiro desferiu um potente soco no rosto do Guerreiro Deus, que caiu pesadamente no chão arenoso, fazendo levantar uma espessa poeira.
— Surtr!! – Derrick gritou, e correu até ele. Abaixou-se para ajudá-lo e viu que estava inconsciente. – Tio! Ele desmaiou!!!
— Me chame de “tio” de novo e ele não será o único, garoto – devolveu Kulaita, com ar de pouco caso. Virou-se para alguns de seus asseclas – Levem-no para o jipe onde está Themba. Se precisar, o velho remenda ele de novo.
Eles correram para obedecer ao líder, e por ele passaram, carregando o ruivo. O sul-africano, fuzilando Camus com o olhar; o francês não lhe deu qualquer importância. Passou por Kulaita e o Santo, fervilhante de raiva.
Kulaita considerou o aliado sem sentidos e olhou para o aquariano, erguendo uma sobrancelha.
— Qual foi, afinal, a razão de você começar essa briga?
Camus sorriu, irônico, enquanto se endireitava. Repetiu as palavras ditas anteriormente pelo terrorista:
— Isso foi apenas para me aliviar.
— Uma compensação.
— Exatamente.
O terrorista riu com gosto, e um quê de sadismo.
— Queria muito que nos entendêssemos, Aquário... gosto de você... gosto mesmo!
— Não posso dizer que seja recíproco.
— Claro que não – e chegou a gargalhar, ante a expressão gélida do prisioneiro. – Quer que Themba cuide desses seus ferimentos antes de continuarmos a conversar?
— Tenho certeza de que o que vou ouvir é pior do que estes machucados pífios.
— Bom, se é o que acha... o importante é que agora podemos voltar a conversar sem maiores interrupções, creio eu. – disse Kulaita a Camus, entregando-lhe um chapéu de abas largas que um comparsa lhe trouxera – Coloque, você não tem pele para receber um sol desgraçado destes.
— Na minha concepção, ninguém tem. Não vê que é desumano que os jovens estejam treinando nestas condições?
Vendo que o acessório não era aceito, o homem deu de ombros e atirou-o ao vento. Suspirou antes de responder:
— Você também treinava em condições adversas, penso eu. A Sibéria não é exatamente o Caribe, ou estou enganado?
— Isso é diferente...
— Não, não é. Você treinava para ser um guerreiro, e é o que esses meninos estão fazendo. Dependerá de você se eles serão soldados que sucumbirão ante a primeira ameaça ou não.
Foi a vez de Camus suspirar. Um tanto desanimado, inquiriu:
— Considerando que eu não tenha escolha, uma vez que minha recusa será o pretexto para que você mate mais inocentes como a menina de ontem... como espera que eu... que eu treine esses jovens?
— Conforme te disse, eles estão passando por seleções preliminares. Esperamos que pelo menos cem deles possam receber diretamente seus ensinamentos.
— Cem! Isso é inviável... nem que eu fosse o mais poderoso cavaleiro do mundo poderia treinar cem crianças simultaneamente. Não seria sequer minimamente produtivo – refutou o aquariano, em tom espantado.
Vendo que ele não mentia, Kulaita quis saber:
— Até quantos aprendizes acha que seria... viável?
— De mais a mais, não se sabe se há tantos garotos propensos a desenvolverem seus cosmos assim... cem! Você quer uma fábrica de guerreiros, só pode ser.
— Não respondeu minha pergunta, Aquário.
— Porque não há uma resposta.
Revirando os olhos, o líder terrorista pôs as mãos para trás e caminhou para a beira do cume onde se encontravam ele, Camus, e alguns de seus comparsas e seguranças.
— Neste caso, teremos que esperar para ver quantos SOBREVIVEM.
O aquariano arregalou os olhos. Apreensivo, tornou:
—Vai mesmo selecionar os que irão passar pelo “meu treinamento” dessa forma... na base da ELIMINAÇÃO?
— De que outro jeito seria? A menos que tenha uma sugestão...
Abaixando a cabeça, Camus considerou os próprios pés... sobre aquela terra árida, calçando sapatos nos quais residia uma fina camada de terra... na noite anterior, havia sangue nos calçados... sangue de uma filha daquela nação... ou melhor, daquelas nações... uma... várias... que poderia fazer? Uma perdera a vida. Ele estava de mãos atadas. Pelo menos, por enquanto. Não perdera a fé em sua deusa, em seus amigos, tampouco em si mesmo. Por uns breves instantes, havia perdido, porém, sabia que não tinha esse direito. Ele era um Santo de Atena. Não possuía o direito de esmorecer!
Do que precisava era ganhar tempo. E evitar o máximo possível que mais vidas se perdessem em meio àquela loucura revestida de idealismo e boas intenções.
Justamente a mais perigosa das loucuras.
— Acho que tenho sim, uma sugestão – anunciou.
*************
O Palácio Presidencial de Angola erguia-se majestoso rumo ao céu de um azul impecável, totalmente despido de nuvens. A elevada temperatura fez até mesmo Milo e Aioria, acostumados com o calor da Grécia, bufarem ao deixarem o conforto da limusine climatizada; o ar quente veio tal qual um vapor, a despeito da brisa que balançava, ainda que preguiçosamente, as bandeiras hasteadas na florida alameda defronte à edificação, pintada em tons róseos e dourados. Inegavelmente um belo monumento, digno da autoridade máxima de um país, sem dúvida, no entanto contrastante com a realidade do que eles já conheciam daquele lugar.
— É uma bela residência, senhora Urbí – comentou Milo, caminhando ao lado da presidente.
— Obrigada, Milo. Espero que as dependências sejam do agrado de vocês.
— É sobre isso que gostaria de falar...
— Milo... – Aioria chamou, em tom de leve repreensão.
— ... por que tínhamos que vir para cá antes de falar com os prisioneiros que pertenceram à Brilho da Honra? Imagino que eles estejam em outro lugar que não aqui.
— É evidente – ela sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos, com um dourado ao fundo. – Contudo, antes devemos falar com alguns de meus espiões, que estão a caminho. E vocês precisam se preparar adequadamente para a empreitada.
— Eu estou pronto desde que vi Camus sendo levado daquele estádio – retrucou, sombrio.
— Milo, nós precisamos obter informações... não se esqueça de que não podemos contactar o Camus pelo cosmo. Teremos que procurá-lo, e não dá pra sair pela África a esmo, né?
— Sei disso, Aioria... sei disso. Mas poderíamos pelo menos apressar as coisas, não?
Acessaram a mansão, o frescor de seu interior recepcionando-os. Atrás deles, um séquito de assessores e seguranças. Por dentro, o requinte condizia com o exterior suntuoso. Os jovens não puderam deixar de erguer as cabeças para contemplarem ao redor; nas paredes imaculadamente brancas, como o mármore luzidio em que pisavam, detalhes e brasões em um dourado que eles sabiam ser ouro puro. Ouro como o que revestia o imenso lustre com lumes em cristais fulgurantes. Aparadores feitos do mesmo material comportavam relíquias e adornos valiosos, como o tudo mais por ali. Dirigiram-se à uma porta clara, prontamente aberta por um funcionário, que fez uma reverência ante a passagem de sua governante e dos rapazes que a acompanhavam. Alguns seguranças também entraram, postando-se em pontos estratégicos da imensa sala de reuniões. No centro desta, uma comprida mesa enfeitada com flores da região, talvez dos próprios jardins que cercavam o palácio, e várias cadeiras de estofado negro; adiante, a mesa de trabalho da soberana. Ela, contudo, sentou-se à mesa maior e convidou a que os Cavaleiros fizessem o mesmo.
— Eles não devem demorar. Pedi que chegassem às 16 horas. São 15 horas, chegamos cedo. Acompanham-me em um café?
— Aceitamos sim, mas me diga, senhora Urbí, “eles”... são os espiões?
— Dois deles. Não sobreviveram muitos, se me permite confessar, Aioria.
— A senhora disse ter enviado dezenas, durante os últimos anos – observou Milo.
— De fato. Descobertos pela Brilho da Honra, a maioria foi assassinada... e das piores maneiras possíveis. Os relatos que a mim chegaram não são nada agradáveis de serem reproduzidos. Outros, considerados pelos insurgentes como sendo úteis de alguma forma... foram agregados à sua força criminosa.
— Eu imagino que um bom número desses tenha se entregado a eles de própria vontade, ao considerarem o perigo que corriam. Do jeito que a senhora disse que o fim dos espiões costuma ser...
— Eu penso o mesmo, Escorpião – concordou a presidente, resignada – É incrível que tenham crescido tanto. Eles realmente acham que nada vai pará-los...
— Até porque nada nunca parou – Aioria deixou escapar, com uma careta.
— Sim, de fato. Fomos negligentes, nós, os demais governantes do entorno...
Milo balançou a cabeça, negando:
— Pelo que entendi, a senhora estava empregando todos os esforços para combater a ameaça da Brilho da Honra.
— Talvez não da maneira certa... não houve articulação de nosso país com outros. E nos recusamos a pedir ajuda internacional para isso, embora dela nos tenhamos servido para muitas outras coisas. Reconheço minhas falhas.
Ao dizer tais palavras, ela assemelhou-se com uma mulher mais comum do que sua aura imponente fazia crer que era.
Milo pôs sua mão sobre a dela, nem se importando se isso quebrava protocolos ou não. E pela expressão dos assessores ali presentes... quebrava.
— A senhora falhou tentando acertar. Não era uma luta de uma ou duas pessoas. Não houve articulação entre os países porque a ameaça não era por eles sentida. E porque algo disso deviam lucrar...
Aioria não sabia ao certo se aquilo era uma coisa boa de se dizer. Entretanto, a presidente nada respondeu: limitou-se a sorrir de forma terna. Empregados entraram, empurrando um carrinho com bules de prata, aparelho de chá e algumas iguarias.
Tempos depois, foi anunciada a chegada dos dois espiões de Urbí. Trajavam-se formalmente, com sobriedade distinta. Eles se apresentaram tão logo entraram:
—Sou Raymond Amandi, natural da Nigéria – anunciou um homem negro, tão alto quanto os jovens Santos, de cerca de 30 anos, rosto liso e confiável logo ao primeiro olhar.
— Sou Johari Kadija, natural do Quênia – foi a vez de uma mulher, talvez um pouco mais nova, talvez um pouco mais velha que Amandi, era difícil precisar. Trazia o cabelo cortado rente e quadrado, à moda oitentista, e maquiagem pesada como a da época.
— Eu sou Aioria, Santo de Leão... – apressou-se a cumprimentar Johari, nitidamente encantado com a beleza magnética da queniana.
— Muito prazer, se a senhora Urbí já não tivesse nos contado a respeito de vocês, eu estranharia tal apresentação – ela respondeu, sorrindo lindamente. O leonino quase foi ao céu com aquele sorriso!
— Aham... – Milo quase teve que o empurrar, para se apresentar, e para lembrar ao amigo que o outro espião TAMBÉM tinha que ser cumprimentado – Eu sou Milo, Santo de Escorpião.
— Muito prazer em conhecê-lo, senhor Milo.
— Não precisa me chamar de “senhor”.
— A mim também não, viu, dispenso o “senhor” e...
— AIORIA, já cumprimentou o senhor Raymond?!?
Amandi riu.
— Eu igualmente dispenso o “senhor”.
— Bom, eu sou o Milo e esse mal educado aqui é o Aioria – o escorpiano apertou a mão do nigeriano, que retribuiu com firmeza.
— Queiram sentar-se. Já estão a par do que o que os trouxe até aqui. Reconheço os serviços prestados ao meu país, Amandi e Kadija, e sinto muito ter que pedir que voltassem mais uma vez a esta sala, depois de todos os riscos que correram durante os serviços a mim prestados.
— A senhora visava a um bem comum de toda África. E por isso estamos aqui – falou Raymond, condescendente.
— E desta vez, os desgraçados estão de posse de uma verdadeira arma – ajuntou a queniana, despreocupadamente.
— Camus não é uma arma – rebateu Milo, ofendido – Ele não vai fazer o que eles querem.
— Com toda sinceridade, eu acho muito difícil que não faça. – respondeu ela, imperturbável.
O escorpiano fechou a cara imediatamente. Percebendo o clima tenso, Urbí interveio:
— Sendo um Cavaleiro do Santuário, eu acredito que Aquário não se prestará ao que a organização pretende. No entanto, é certo que ele está em uma situação difícil. Os líderes encontrarão um meio de convencê-lo, e a prova é que seus companheiros não podem se comunicar com ele.
— Acha que podem forçá-lo... mediante algo que... que o machuque?
— A Brilho da Honra dispõe dos mais convincentes meios para tal, Milo, isso posso afirmar, de acordo com o que vi. – O nigeriano disse, com estudada convicção. – Mas nem sempre da forma direta.
— Gostaria que conversassem sobre o que viveram entre os fascínoras. Os Santos de Atena precisam saber em que terreno pisarão ao ganharem seus domínios. O resgate de seu companheiro pode significar, enfim, o desmantelamento da infame organizção.
— Tenha certeza de que assim será, senhora Urbí – garantiu Milo, Aioria assentindo.
— Eu possuo ainda alguns contatos no meio deles – Raymond dizia, aceitando o café que lhe era oferecido – É verdade que o amigo de vocês já se encontra nos campos de treinamento, provavelmente recebendo instruções de como treinará as crianças e adolescentes que, segundo o líder, deverão obter dele ensinamentos para serem poderosos como Cavaleiros.
Os dois Santos se entreolharam, atônitos.
— Camus está nos campos de treinamento?
— Ele está mesmo treinando crianças para o exército de Shamallah?
— Ainda não. Pelo que soube, está conhecendo.
— Espera – Milo não queria acreditar – Ele está... está COM AQUELES CARAS?
— Sim – confirmou o nigeriano.
— Mas... mas... está... ele está bem? Está amarrado? Acorrentado? Está lá forçado, talvez? Sob a mira de uma arma?
— Pelo que nos foi passado, NÃO, Cavaleiro de Escorpião – respondeu Kadija, encarando-o serenamente.
— Mas então... como...?
Vendo-se confuso, Milo balançou a cabeça em uma negativa. Camus NUNCA ajudaria aqueles criminosos sanguinários!
— Eles devem estar forçando ele de ALGUMA forma! – ponderou, em voz alta e desafiadora.
— Sim, certamente, não estamos dizendo que ele está ajudando Kulaita de livre e espontânea vontade – Amandi apressou-se em dizer – Veja, eu recebi uma foto em meu celular...
O aparelho quase foi arrancado da mão do espião; Milo viu duas fotos: em uma delas, Camus estava em um jipe com Kulaita, e em outra, em um lugar que parecia o alto de um despenhadeiro, sempre ao lado do terrorista.
Em nenhuma delas aparecia contido, amarrado, ou com uma arma apontada para si.
— Camus é um estrategista – disse, obstinado – Certamente está estudando as possibilidades de como agir.
— Só há essas fotos? – quis saber Aioria.
— Bom, não é como se um espião pudesse agir como um paparazzo, rapazes – Johari não dissimulou o sarcasmo.
Apertando os punhos, Milo a fitou. Não estava gostando nada daquela moça. Amandi pareceu-lhe cordato e prestativo, no entanto a queniana parecia desconfiar de Camus, e isso ele não iria suportar! Prevendo-lhe a reação, Aioria perguntou:
— Que ele fazia exatamente nesse lugar?
— Ao que parece, estudava os soldados em treinamento...
— Soldados... as crianças?
— Exato – confirmou o espião – Neste lugar há um garimpo e, do lado extremo oposto, um dos campos de treino das tropas, agora tomado por crianças e adolescentes, que passam por seleção preliminar...
— Para que sejam escolhidos aqueles que Camus deverá treinar – completou a queniana, mais neutra desta vez.
— Isso é um absurdo – murmurou o escorpiano, atordoado – Precisamos ir JÁ para lá.
— Tenha calma, Milo. Precisamos antes ir ter com os prisioneiros de que Urbí nos falou.
— O que nos garante que eles vão abrir a boca para nós? – vociferou Milo.
— Bom, nós temos meios... por acaso não está cogitando utilizá-los? – sussurrou o amigo, bem próximo dele, como se tivesse receio de como seria julgado pela presidente e seus espiões.
Perturbado, Milo anuiu:
— Eu faço o que for necessário. Mas... não quero incorrer em excessos... são... são pessoas comuns.
Raymond sorriu e ousou pôr a mão no ombro do grego:
— Deixe isso conosco. É nosso trabalho também, “extrair a verdade”, quando necessário...
Os dois Cavaleiros olharam um tanto surpresos para o homem, que, até então, lhes parecera gentil... e que de repente parecia um tanto sinistro, através daquelas palavras.
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