O Brilho da Honra
33 Ganhando Tempo
Notas iniciais

Kulaita esperava pela resposta de Camus, o qual se encontrava concentrado em um novo questionamento.
Havia nocauteado Surtr durante a infame luta que travaram diante de todas aquelas pessoas, quase caindo precipício abaixo. E, ao final dela, finalmente dera ao outro aquilo que ele vinha merecendo há muito tempo. Bem, eis que lá estava Surtr, desacordado, vigiado pelo amante e por alguns dos terroristas.
Será que naquele momento não poderia, ao menos por breves segundos, usar o cosmo para se comunicar com Milo? Os estados de inconsciência possuem nuances; estivesse o ruivo imerso em um sono comum, provavelmente acordaria devido à sintonia estabelecida entre o poder do asgardiano e o microchip implantado em seu pescoço. Camus processava sua atual situação... dormindo, Surtr despertaria e alertaria a todos da tentativa do prisioneiro. Desmaiado... aconteceria o mesmo?
Ele não estava bem certo.
E o preço de uma tentativa poderia ser bem alto.
— Pois bem, Aquário. Qual foi a solução que encontrou para selecionar seus aprendizes?
— É simples... eu... – Virou-se para trás, a fim de ver o que era feito do ex-amigo. Estivesse o crápula ainda inconsciente, talvez...
— Por que está hesitando? Há poucos instantes, parecia bem certo sobre o que fazer.
“Se eu mandar um breve sinal, quem sabe eles não consigam rastrear...”
— SURTR! – Ouviu a voz de Derrick, que tentava desesperadamente reanimar o amante, acomodado em um jipe sem cobertura. – Surtr, acorde! Vamos, acorde!!!
O Cavaleiro viu o asgardiano se remexer um pouco, como a fazer força para recobrar a consciência.
“Droga... tarde demais...”
— Que está tramando, Santo de Atena? – Rosnou o líder dos terroristas.
Sem demonstrar a mínima inquietação, Camus respondeu, fitando-o friamente:
— Não estou tramando nada. Apenas pensando em uma maneira de explicar a questão de um modo que alguém como VOCÊ entenda.
O homenzarrão riu ruidosamente:
— Quem te ouve falar assim pensa até que está tentando me ofender.
— Como um reles prisioneiro incapaz de se defender poderia ofender o grande chefão que o encurralou tão magistralmente? – Em verdade, tentava ganhar tempo para se certificar de que Surtr realmente voltava a si. Oxalá fosse um alarme falso!...
Contudo, olhando-o de soslaio, notou que fazia caretas de dor e gemia, levando a mão ao rosto ferido.
Se houvera uma chance, ela se fora.
Entretanto, futuramente... construiria uma oportunidade.
— Preocupado com o asgardiano? Pensei que não o considerasse mais seu amigo. – Kulaita quis deixar bem claro que percebera o olhar furtivo do francês para o rapaz socorrido. Derrick ajudava o ruivo a se sentar, observado por guardas, soldados e assessores do tio.
— Talvez não seja questão de eu não considerá-lo mais meu amigo. Talvez ele NUNCA tenha sido. – Alegou, imprimindo certa amargura no tom.
— Não me faça chorar. Apenas diga o que quero saber, sim?
Após um suspiro resignado, o jovem admitiu:
— O que Surtr disse é verdade. Todos esses meninos possuem, latentes, seus cosmos. Assim como tudo o que existe no universo. Se eu puder sondar quais deles detêm cosmos mais passíveis de serem desenvolvidos com a rapidez de que a sua “nobre causa” necessita... – ironizou – teremos logo candidatos que poderão responder ao meu treinamento.
Erguendo uma sobrancelha e emitindo um desconfiado “hum...”, Kulaita considerou o Santo. Não acreditava que com vidas de crianças em jogo ele optasse por mentir. Porém, algo naquela proposta o punha alerta.
— E de que forma pretende “sondar” esses cosmos mais responsivos?
— Através da ressonância deles com o meu próprio cosmo. Eu o emanarei em meio aos jovens, e aqueles em cujos cosmos eu encontrar um ato reflexo, serão meus escolhidos.
— Hum. Algo como uma onda magnética que encontra uma barreira?
— Não possuem a capacidade de oferecerem essa barreira, mas saberei quando estiver encontrando uma resposta digna de nota.
— Pode fazer isso agora?
—Se puderem reuni-los em grupos de cem em cem, e eu ficar no meio de cada grupo por vez...
Cruzando os braços, o líder terrorista inquiriu, severo:
— Como posso ter certeza de que você não vai se aproveitar desse momento, em que estará manifestando seu cosmo, para se comunicar com seus companheiros?
Camus deu de ombros, como se aquilo não fosse problema dele.
— Meu caro, você nunca poderá ter certeza de nada, apenas se contentar com a minha palavra. De mais a mais, se você não o fizer, como irá lidar com as várias vezes em que eu utilizar o meu cosmo para ensinar o seu exército mirim? E por acaso, já se esqueceu de que puseram um "brinquedinho" em mim que dará o alarme ao seu capacho asgardiano caso eu me comunique com meus companheiros?
Vendo pertinência naquelas palavras, o criminoso nada respondeu. Limitou-se a gesticular para alguns comparsas, chamando-os. Quando chegaram perto, ordenou:
— Mande que suspendam os treinamentos de nossos soldados. Quero grupos separados de no máximo cem meninos, cada grupo será analisado pelo nosso Príncipe do Gelo aqui.
Assentindo em concordância, eles se retiraram. Do jipe, Surtr saiu, brandindo a mão na direção do Cavaleiro. Ameaçava, em meio a passos vacilantes:
— Você não sai daqui antes de PAGAR pelo que me fez, Camus! Você usou de um golpe SUJO, me acertou quando já tínhamos parado de lutar!
— Você jura que ele tem utilidade para você? – O francês indagou a Kulaita, apontando o ruivo com o polegar.
— Ele teve utilidade para te trazer até aqui, mas agora, sinceramente não vejo mais nenhuma... – O homem respondeu, com enfado.
— Está enganado, tio, Surtr é um guerreiro poderoso, e pode ser de grande serventia junto aos seus exércitos quando...
— Que que eu te falei sobre me chamar de “tio” no horário dos negócios, guri?
— Oh, desculpe...
Alguns homens contiveram o irado jovem, que vociferava contra o Cavaleiro:
— Você não perde por esperar, Camus! Eu tive piedade de você em alguns momentos, mas isso faz parte do PASSADO, ouviu bem? Da próxima vez em que eu tiver a chance de acabar com você, da forma que for, eu não vou mais hesitar!!!
— Quem você pensa que é pra ameaçar a joia de nossa operação? – Kulaita atirou, com desprezo. Balançou a mão como quem espanta uma mosca insistente. – Não que você possua meios para tal, mas desde já advirto que se fizer algo contra Aquário, se unicamente tocar em um fio de cabelo dele, me desfaço de você na mesma hora.
— E por acaso, meu caro Kulaita, VOCÊ possui meios para tal? – Surtr devolveu, debochado.
Desta vez foi o terrorista quem desferiu um soco no rosto do ruivo, obviamente com menos efeitos do que o golpe dado pelo aquariano. Ainda assim, dada a monstruosa compleição física do agressor, Surtr sentiu, e muito. Tão logo se recompôs, encarou-o com fúria a crepitar nas íris fúcsia. O ato valeu meia dúzia de armas apontadas para si, os canos quase encostando nas faces contundidas. Derrick sufocou um grito de pavor, e mesmo Camus arregalou os olhos, aterrado.
— Estou realmente me cansando de você, garoto. – Falou Kulaita, a paciência se esvaindo. Percebia que aquele idiota começava a ser bastante inconveniente. – Eu deveria acabar contigo agora mesmo, pois SEI que vai me causar problemas...
— JÁ CHEGA, Kulaita. Basta de derramamento de sangue. – Interveio Camus, sem receio de parecer autoritário.
Todos olharam-no surpresos.
— Surtr é inofensivo, você deveria saber.
— Tão inofensivo que te trouxe pra cá – Retorquiu o asgardiano, ferido na carne e no orgulho. – Você se acha muito, Camus...
— Vamos, tirem ele daqui, já estou ficando farto desse cara. Não quero me aborrecer antes do grande show que Aquário vai apresentar daqui a pouco.
Os guardas cumpriram a ordem do líder, escoltando Surtr de volta ao jipe de onde ele saíra. Derrick permaneceu imóvel, mirando Camus. Parecia atônito.
— E você, que faz aqui ainda? Vá, acompanhe seu macho e cuide para que ele não dê mais nenhum ataque. – Kulaita, enxotou-o, com descaso.
O jovem não abriu a boca sequer para dizer “sim senhor”. Olhava, aturdido, o homem contra o qual vinha atuando por amor a Surtr. O homem contra o qual eles dois arquitetaram planos, o qual chegaram a mandar para o hospital. E eis que ele DEFENDERA o asgardiano. Bem, o sujeito se arvorava um “defensor da justiça”... era chamado de “Santo”! Claro que tinha que bancar o bonzinho, mesmo com toda aquela banca de frio e durão...
— Ficou surdo, moleque?
— Oh, desculpe, ti… senhor. Já estou indo, ele não vai mais importuná-los. – Garantiu, se retirando apressadamente.
— Hunf, eu acho bom. Bom, vamos, Aquário. Aos campos! Onde seus futuros discípulos o esperam!
*************
Não houve muita resistência por parte dos prisioneiros de Urbí, integrantes da Brilho da Honra dos quais alguns capturados em Angola e outros fora do país, durante operações contratadas pela presidente. Ao que parece, Raymond Amandi gozava de certa notoriedade entre os presos. Houve quem já se rendesse ao pânico meramente por ver o jovem nigeriano surgir diante de suas celas. Milo e Aiolia se entreolhavam, intrigados, porém sem a mínima vontade de inquirir que métodos haviam conferido a Raymond aquela funesta fama. Johari Kadija, a espiã queniana, sorria divertida com a expressão dos rapazes, indubitavelmente mais poderosos do que qualquer um ali, e, ainda assim, impressionados com a reação provocada pela presença de Amandi.
Confirmaram o que a governante e seus outros espiões haviam dito, sobre as intenções do líder da organização de utilizar o Santo de Atena para treinar um exército paramilitar formado unicamente por adolescentes e crianças. Conhecendo o histórico do francês como bem sucedido mestre de meninos de tenra idade, e vendo-o ao alcance, não mediram esforços para coagi-lo. Mortes de inocentes não seriam descartadas no processo, uma vez que a Brilho da Honra tinha histórico em atentados cruéis, sendo o caso mais emblemático o do ônibus escolar queimado na África do Sul... repleto de crianças e professores.
— Eu sabia que Camus nunca estaria lá de boa tratando com os canalhas se não fosse para proteger a vida de inocentes! – Comentou Milo, lançando um olhar vitorioso para a queniana, que chegara a tecer desconfianças a respeito da “colaboração” do aquariano. Ela desviou o olhar, revirando-o antes.
— É assim que estão controlando o coitado; se ele tentar contactar vocês através do cosmo, o mecanismo implantado em seu corpo emitirá um sinal ao asgardiano, que prontamente alertará o chefão. Acontecendo isso... – Falava Amandi, de acordo com informações que recebera de contatos no acampamento e de cativos previamente interrogados – ... os miseráveis utilizam inocentes na represália à insubordinação de Camus.
Conversavam em uma antessala anexa às celas, ocupadas apenas pelos presos ligados àquele grupo separatista.
— Certo, então Camus não terá outra saída a não ser fazer o que eles querem... mas sua ação também estará colocando em risco a vida de muitos meninos e meninas. – Observou Johari, tentando imprimir neutralidade à sua observação, a fim de não despertar mais miradas raivosas daquele cabeludo – Afinal, sabemos o quanto aquelas crianças e adolescentes devem estar debilitados em função das péssimas condições de vida nos campos dominados pelo maldito Kulaita. Não resistirão a um treinamento de um Cavaleiro do Santuário.
— Ele não fará nada que possa ameaçar a vida de inocentes. – Claro que o “cabeludo” não ficou quieto. – Certamente está tentando ganhar algum tempo até que cheguemos até lá para libertar aquelas pessoas.
— Essa é a questão... “chegar lá”. Podemos confiar nas coordenadas dadas pelos prisioneiros?
— Por enquanto, é tudo de que dispomos, Aioria. – Admitiu o queniano.
— Eles podem estar nos mandando para alguma armadilha. Embora não seja a armadilha em si que me preocupe, pois temos como nos defender de qualquer ataque, e sim do tempo que podem nos fazer perder...
— Infelizmente, sem podermos nos comunicar com o Camus, é a única opção no momento, Milo. – Argumentou o leonino, colocando a mão no ombro do amigo. Este concordou, silenciosa e tristemente.
Raymond dirigiu-se para a saída, dizendo:
— Vamos nos preparar, então. Jipes, provisões, barracas, armas...
— Espera. Você não tá pensando em ir com a gente, né?
— Esse é o MEU trabalho, Aioria.
Sorrindo agradecido, o escorpiano alegou:
— Raymond, eu e Aioria damos conta daqui em diante. Não tem sentido arriscar a sua vida quando nós dois podemos aniquilar as tropas da Brilho da Honra com um piscar de olhos.
— Vocês só vão dispor de mapas. Aparelhos de GPS podem ser rastreados no campo de ação do inimigo. E não podem contar com a comunicação através do cosmo do seu amigo. Eu conheço a região que leva ao que hoje estão chamando de Shamallah, e tenho diversos “contatos” espalhados pelo caminho. Mais ainda, tenho ordens expressas da senhora Kuarashí de guiá-los até lá.
— Ela não deveria fazer isso...
— Há muito ela faz – Cortou Johari, séria. – Ela e tantos outros. O pai de Amandi morreu por essa causa. Muitas vidas se foram para que tivéssemos em nossas mãos o que hoje entregamos a vocês. Não subestimem a nossa contribuição. Não nos tomem por fracos unicamente por não termos “poderes” como vocês. Chegamos até aqui sem deter as suas fantásticas habilidades.
— Kadija! Não é preciso que seja grosseira com...
— Não, Raymond. Ela está certa. – Surpreendentemente, Milo foi quem interrompeu o nigeriano em favor da jovem. E, virando-se para ela, prosseguiu – Você está certa. Há anos têm cuidado dessa questão, enquanto nós, do Santuário, a tudo estivemos alheios. É certo que sempre estivemos às voltas com problemas, digamos... mais externos. Mas nosso dever é proteger a Terra com a nossa Deusa Atena. E vamos fazê-lo com guerreiros tão ou mais experientes do que nós. Apenas com métodos diferentes.
Impressionada com a fala do grego, pela primeira vez Johari deu um sorriso que não de escárnio ou ironia. Comovida, ela abaixou a cabeça em sinal de gratidão, murmurando:
— Obrigada pela compreensão, Cavaleiro de Escorpião.
Ele sorriu de volta para ela, enfim um mudo acordo de trégua. Aioria se adiantou, limpando a garganta para dizer, dirigindo à espiã o mais irresistível sorriso de seu acervo de sorrisos conquistadores:
— Olha, tudo isso que o Milo falou aí fui EU que expliquei pra ele, sabe...
— Quê? Quando isso? – O escorpiano ergueu as sobrancelhas, sem entender.
— Não lembra? Quando eles estavam lá conversando com aqueles presos, e eu te puxei pro canto pra te mostrar o que está realmente acontecendo aqui...
— Tu deve ter batido a cabeça em algum lugar, Aioria.
Johari riu, achando graça da pequena discussão dos Santos. Lançou um olhar provocativo ao leonino e se retirou do recinto, anunciando:
— Estou indo para o estacionamento. Até.
Milo puxou a orelha do amigo, que urrou de dor.
— Deixa de ser cafajeste, olha que eu conto pra Marin!
— Aaai! OOUCH! DO QUE CÊ TÁ FALANDO, seu doido?
— Sei muito bem o que foi isso, que absurdo, querendo impressionar a Johari?!?
— D-d-da onde você tirou essa ideia, Milo?
— Da onde? Desses teus olhos de peixe morto pra cima da moça, desse teu sorriso de canastrão, dessa tua lorota idiota...
— Escuta aqui, Milo, nem uma palavra a Marin, ouviu bem?
— Se tem medo, tem culpa!
Largou a orelha do leonino, vermelha como um pimentão. Bufou, impaciente:
— Chega de palhaçada, pelo que Raymond disse temos um longo caminho a percorrer.
— Sim, meus amigos... – Concordou o espião, seguindo o escorpiano – Serão dias e dias na estrada. Poupem as energias. Certamente vamos encontrar perigos para vocês descarregá-las.
— Bom, eu tô precisando MESMO descarregar muita coisa – Milo estalou as juntas dos dedos, cerrando o cenho. – E depois de descarregar, tenham certeza de que vai sobrar MUITO dessa energia pra acabar com aquele maldito do Surtr...
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—Eu vou ACABAR com aquele maldito do Camus, você vai ver, Derrick! Eu já suportei tudo que podia do miserável...
O jovem africano olhava ao redor, aflito, temeroso que pudessem ouvir os resmungos que Surtr não parava de cuspir. Juntamente com alguns coágulos de sangue... e...
— Oh, puta que pariu... que é isso...? – Estremeceu o ruivo, ao ver na palma da mão fragmentos de algo que expelira.
— Hã... parece... um dente.
— Filho da... ai... merda... pftt! Tem outro... – Choramingou.
— Pelo menos não foi nenhum dente da frente, veja pelo lado bom!
— CALA A PORRA DA BOCA, negro estúpido!!!
Empurrou o rapaz, fazendo menção de sair de novo do veículo. Derrick segurou-o pelo braço, obviamente com medo de ser rechaçado com violência, como o foi no hospital, contudo mais temeroso ainda pelo que poderia acontecer com o ruivo caso fizesse outra cena.
— Surtr, não volta pra lá! Se acalma primeiro, por favor...
— Desde quando você se acha no DIREITO de me dar ordens, seu MACACO?
— Não percebe o que ACABOU de acontecer? – Pela primeira vez, Sirham aumentou a voz com o asgardiano. – Você esteve prestes a ser MORTO pelo meu tio... e Camus, o seu DETESTADO Camus TE SALVOU!
Surtr fitou-o com os olhos arregalados, tanto pela atitude inédita do amante pelo que dele ouvira.
— Havia SEIS FUZIS apontados para você, e Camus impediu que eles atirassem!
— Heh... Camus... o quê? – Deu um riso rouco. – Não fala MERDA, garoto! Você se esqueceu de que eu sou um GUERREIRO DEUS?
Da mão trêmula emergiu uma flama rubra, a princípio pequena, e em seguida aumentando conforme Surtr ia falando, raivoso:
— Eu posso destruir TUDO ISTO aqui se eu quiser... se eu não o fiz ainda, é porque quero lucrar também com os negócios sujos do seu titio...
— Fale baixo, por favor!... Se te escutam...
— Não vão escutar – Sussurrou, ainda manipulando o fogo. – Eu pretendo me servir do que está acontecendo aqui. Quando enfim eu tiver tudo que eu quero, então eu vou assar Kulaita como o grande porco que ele é e servir a estes famélicos desgraçados...
— Surtr, nós escapamos da justiça e estamos refugiados em um lugar que em breve será o país mais rico da África... seremos como príncipes! O que exatamente você quer tanto que te faria passar por cima disso tudo?
O sorriso maníaco do asgardiano se apagou como o fogo que ele criara com seu poder. Mirou fundo nos olhos escuros do amante e reforçou:
— Você SABE que estou nesta por vingança. Camus me tirou minha irmã, me tirou a paz, e agora a honra. Eu quero tirar TUDO dele. Eu quero destroçá-lo...
— Surtr, sabe que meu tio quer Aquário liderando as tropas de crianças. Ele acabou de dizer que se você fizer mal ao Cavaleiro, vai se desfazer de você. E com certeza ele não falou no sentido meramente de te expulsar de Shamallah. – Argumentou Derrick, paciente porém firme.
— Ele PENSA que pode fazer algo contra mim... mas NÓS sabemos que não pode. Eu estou apenas esperando. Primeiro, vou concretizar o que venho adiando... e depois matarei Kulaita. Ciente do meu poder, seus comparsas não terão outro remédio a não ser me seguir.
Conversavam muito baixo e já isolados, pois que os homens haviam se afastado para presenciar a ação do jovem Cavaleiro nos campos abaixo. Mesmo assim, Derrick tremia de medo.
— Você pretende fazer um MOTIM, é isso?
— Exatamente.
— Surtr... sei que tem poderes incríveis. Mas os que seguem meu tio são milhares...
— Ficarão ao MEU LADO quando virem do que realmente sou capaz. Derrick – balbuciou, medonho – Farei este campo ARDER. Vai ser a maior FOGUEIRA que a África terá visto.
— Surtr... – Foi tudo que conseguiu proferir, amedrontado.
— Mas antes... CAMUS... não vou matá-lo, porque quero que ele veja a minha ascensão, como o governante de Shamallah... mas vou fazê-lo sofrer tanto que ele vai lamentar não ter morrido como Kulaita...
*************
Ao centro das dezenas de crianças e adolescentes que o estudavam, ansiosos e desconfiados, o Santo de Aquário muniu-se de fôlego para a elas se dirigir:
— Imagino que já saibam quem sou eu. Vi que treinavam arduamente, para servirem a um exército especial que a Brilho da Honra pretende utilizar daqui em diante.
Ele falava em inglês, língua que a maioria conseguia entender, ao menos um pouco, e alguns homens iam traduzindo em algumas línguas locais.
— Meu nome é Camus de Aquário, sou um Guerreiro de Atena, no Santuário da Grécia. Treinei para me tornar um Cavaleiro, e depois, treinei para tornar alguns meninos Cavaleiros... e agora, recebi a incumbência de treinar alguns de vocês para que possam ser soldados especiais... como “soldados especiais”, me refiro à capacidade de não dependerem de armas para guerrearem, e sim usarem uma poderosa força que todos vocês têm dentro de si. Meu papel será verificar quais de vocês estão mais aptos a trazerem para fora essa força.
Os meninos se entreolharam, incertos de que haviam entendido o que o estrangeiro falava, mesmo por intermédio dos intérpretes. Percebendo-o, o jovem elucidou:
— Não posso treinar todos vocês. Seria impossível para mim, e extremamente perigoso aos que não estão prontos para manifestarem essa força, que se chama “cosmo”.
Alguns puseram-se a repetir “Cosmo... cosmo?”.
Camus sabia que aquilo era necessário, tanto para livrar o máximo que pudesse de crianças dos campos de treinos de guerra, quanto para ganhar tempo até pôr em ação o plano que traçara quando vira Surtr desacordado.
— Todos vocês possuem esse cosmo. Mas nem todos podem usá-lo para lutar. Nem todos podem usá-lo para a guerra. Nem todos podem usá-lo para aprenderem o que eu tenho a ensinar... e muitos sequer conseguem trazê-lo à tona. Meu objetivo hoje é identificar quais de vocês possuem um nível de cosmo que permita que sejam meus discípulos.
Viu alguns sorrisos excitados, algumas carinhas eufóricas, outras assustadas, outras continuavam desconfiadas. Sentiu uma profunda compaixão por todos eles, e mais resoluto ainda em seguir com o planejado, até conseguir libertá-los... com a ajuda de Milo e os outros.
Fechou os olhos brevemente, pensando com ternura em seu amado. Ele certamente haveria de ficar revoltado quando soubesse o que acontecia de fato nos campos de guerra de Shamallah...
— Pedirei a vocês que façam tudo o que eu disser, exatamente COMO eu disser...
— Um líder não pede, ORDENA. – Interveio Kulaita, a média distância.
Um rápido olhar do Santo o fez se calar, mais por praticidade do que por intimidação. O terrorista se garantia muito com todos seus seguranças... e os soldados do alto das colinas, devidamente a postos para qualquer reação ousada do “Príncipe do Gelo”.
Camus continuou a se dirigir à sua jovem e atenta plateia:
— Fechem seus olhos... isso... fechem seus olhos... não abram os olhos em hipótese alguma. Não importa o que sintam.
Certificando-se de que lhe obedeciam – bem, para eles, obedecer era como respirar, era o que os mantinham vivos – prosseguiu, sua voz alcançando a cada um dos pequenos presentes:
— Tentem não pensar em nada, a partir de agora. Nada está em suas mentes neste momento. E sabem por quê? Porque vocês não são mais escravos. Cativos. Prisioneiros.
Os homens de Kulaita se espantaram com aquelas palavras. O líder contraiu as espessas sobrancelhas.
— Vocês ESTÃO cativos. Mas suas almas são livres. Seus espíritos pertencem ao Universo. E o Universo é feito justamente desse mesmo cosmo que há dentro de cada um de vocês. O cosmo está em suas essências, está no ar que respiram, está na terra sob seus pés, no céu sobre suas cabeças, nas montanhas que os cercam. Está nas rochas que partem com suas ferramentas, nas gemas que colhem nos veios dos rios, nas fendas do solo. Sintam esse cosmo, que até então repousava em vocês, começar a ressoar com o meu... continuem assim...
Neste momento, não se ouvia um único som. Até os furtivos pássaros que por vezes iam até ali procurar algum alimento deixado pelos homens naquela área árida calaram-se. O vento cessara de correr e alguém mais impressionável poderia dizer que mesmo as nuvens paralisaram no firmamento.
Foi a vez de Camus cerrar seus olhos. De seu corpo imóvel uma tênue luz dourada foi emanada. Themba e os demais intérpretes deram lentos passos para trás, apavorados com o que viam. Malgrado não houvesse sequer uma brisa a mover um grão de areia que fosse, os cabelos do francês se moveram, balançando como se uma corrente emergisse do lugar onde no qual ele se posicionara.
Concentrando-se, com a visão do espírito ele os viu.
O seu cosmo zarpou rumo aos cem meninos e meninas, na velocidade da luz, invisível para quem presenciava o estranho fenômeno. E as miríades de feixes que se cruzaram esvaíram-se como pó de estrelas, sobrando apenas sete.
Sete pontes entre seu cosmo e cosmos latentes extremamente poderosos ali presentes.
No âmago de seu ser viu o semblante de cada um deles. Não precisou sequer abrir os olhos.
Duas meninas e cinco meninos.
Com efeito, havia bem mais meninos do que meninas nos campos de luta. Poderia ser daí a diferença... ele só comprovaria após sondar os outros grupos.
Camus abriu os olhos e a aura dourada ao seu redor se dissipou. Caminhando entre os soldados mirins, ele foi apontando os escolhidos:
— Você... você... você... e você... você... – Eles saíam de seus lugares e seguiam o estrangeiro, mudos de assombro.
Por fim, Camus se deteve diante de Kulaita com quatro adolescentes e três crianças. Uma delas não deveria ter mais que oito ou nove anos. O tio de Derrick fez um muxoxo.
— Só isso? Você só pode estar brincando comigo. Todo esse show e você escolhe míseros sete pirralhos?
— Estes “pirralhos” detêm em seus frágeis e por você explorados corpos cosmos mais promissores do que muitos aprendizes de Cavaleiros do Santuário de Atena. Desta leva de cem, são os únicos que podem receber meus ensinamentos e gerarem resultados efetivos.
Curiosamente os meninos se achegaram a Camus, como se vissem nele uma proteção. Themba sorriu, e Zarina, sempre acompanhando tudo murmurou um desdenhoso “Ora, vejam só...”.
Torcendo os lábios grossos, Kulaita bufou:
— Certo, é exatamente ISSO que queremos: resultados efetivos. Guardas! Levem os moleques pra tenda separada para eles.
Pareceram relutantes em sair de perto do Cavaleiro. O que sentiram estreitou-os a ele, de uma maneira inexplicável. Camus sorriu levemente e lhes disse, com brandura:
— Agora vão. Descansem. Nos reencontraremos em uma outra hora.
Virou-se para Kulaita.
— Eu gostaria de pedir que deixasse TODOS eles descansarem por hoje. Não apenas o que selecionei. – Pediu o aquariano, humildemente. – Esse processo deve tê-los exaurido... precisam se alimentar propriamente, também...
— Está certo, está certo! Maneno, Owiti, Bushiri, Kafele, levem esse grupo de volta para os alojamentos. E depois tragam o próximo grupo.
O líder da organização considerou Camus e declarou:
— Vamos continuar as seleções, nem que entrem pela madrugada, até que TODOS sejam avaliados.
— São muitos, isso levará muitas horas. Se eles estiverem extenuados, sem comer e sem dormir, eu não garanto que minha tática seja bem sucedida.
— Hunf... está bem, “Príncipe”. Avalie até quando VOSSA ALTEZA considerar adequado. Então continuaremos amanhã.
— Obrigado. – Disse o guerreiro, secamente.
— Acha que conseguiremos pelo menos uns cem lutadores?
— Quantidade não é o mais importante, Kulaita. Vinte guerreiros que saibam usar o cosmo são bem mais eficientes do que mil que não o fazem.
— Hum. Isso MUITO me anima. É sempre mais fácil deslocar tropas pouco numerosas.
Camus não respondeu. Vislumbrou com apreensão o próximo grande grupo que se aproximava, silhuetas esguias que mais se assemelhavam a gravetos móveis do que gente.
Era preciso ganhar tempo... mas ao ver aquele triste panorama... ele queria que esse tempo na verdade fosse o mais breve possível.
— Aí estão, Aquário. Pode começar...
*************
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