O Brilho da Honra
34 Sementes Lançadas
Notas iniciais

Raymond mantinha as mãos displicentemente posicionadas atrás da cabeça, apoiado na árvore, seu camarote para assistir ao Santo de Escorpião extrair informações de um terrorista encontrado no caminho. “Encontrado” não era bem a palavra, pois que o grupo ao qual pertencia o homem aos pés de Milo atacara o pequeno comboio enviado pela presidente de Angola a Shamallah. O nigeriano, longe de invejar o talento do grego, divertia-se: sabia que, por mais capaz que fosse na “arte da persuasão de prisioneiros”, aquela estranha “técnica da unha vermelha” ele jamais dominaria. Tudo bem, cada qual com o seu talento. E ele estava bem feliz por Escorpião estar do seu lado...
Estalando a língua, Milo perguntava-se se não havia sido excessivo. Treze homens jaziam sem sentidos sobre o solo árido daquela região erma. Por mais que fossem criminosos, esperava que nenhum morresse até o Exército daquele país ou as Forças da ONU chegarem. Verdade fosse dita, tratavam-se de indivíduos tenazes, sinceramente convencidos de que seu líder Kulaita detinha a razão. Para o azar deles, se faziam-se renitentes também se faziam frágeis perante um Santo de Atena, tanto mais um tão hábil na arte de proporcionar DOR ao inimigo... após ver todo seus companheiros sucumbirem ante o forasteiro de longos cabelos azuis arroxeados e olhar perversamente penetrante, aquele tinha sido o único a se render de primeira e revelar tudo o que sabia.
— Bem o que imaginávamos mesmo: Camus está sendo mantido cativo no Q.G. dos líderes da Brilho da Honra; pelo que estes caras... hã... AQUELE CARA desmaiado ali disse, próximo aos garimpos e campos de treinamento, em uma região montanhosa de Shamallah chamada Kundhar. – Anunciou Milo, ao retornar para perto de Johari e Aioria, que, juntamente com dois soldados, amarravam uns quinze homens desacordados.
Olhando ao longe, para as matas enegrecidas pelo ocaso, completou, indignado:
— Está fora de ação devido ao microchip rastreador de cosmo implantado nele pelo desgraçado do Surtr. O maldito ficou encarregado de comunicar à cúpula da Brilho se Camus tentar falar conosco. Se descobrirem que ele tentou... matam crianças por eles escravizadas.
— O quê?!? Que absurdo!!! – Revoltou-se o leonino. Semelhante reação teve Kadija.
— E... e... – Milo abaixou a cabeça consternado. – Uma já foi assassinada diante de Camus. Uma menininha... ao que parece, por Camus ter atacado Kulaita...
— Por Atena! Como são cruéis... covardes!!! – Aioria levou a mão à boca, aterrado.
Johari cerrou os punhos com força, contendo-se o quanto podia. Disse, em voz baixa:
—Não é à toa que Aquário parecia “colaborativo” nas fotos enviadas pelos nossos espiões.
Fitando-a duramente, Milo atirou:
— Eu DISSE que havia de ter uma explicação. Camus JAMAIS colaboraria com esses maníacos. Está sob chantagem, e da pior espécie. Te garanto que fosse a própria vida em jogo, ele nem assim aceitaria os termos absurdos da Brilho da Honra. Mas... como ouviram... vidas de crianças inocentes estão em risco.
— É um homem bom e honrado. Eles sabem disso. – Comentou Amandi, sombrio.
Pegando mais corda e indo até o outro grupo de homens caídos, Johari dizia:
— Quer dizer que pretendem mesmo obrigar o Cavaleiro a treinar meninos para os exércitos de Kulaita?
— Esta seria uma espécie de “força especial”: jovens com seus cosmos desenvolvidos, dotados de técnicas aprendidas com ninguém menos que um Cavaleiro de Atena. Um plano arrojado. – Falou Amandi, indo ajudá-la a amarrar os bandidos.
— Um plano que iremos frustrar. – Milo sorriu triunfante ao mostrar um mapa. – Vejam o que conseguimos...
— É o que estou pensando que é?
— É sim, Aioria, um mapa para Shamallah. Esses caras têm seus aparelhos de GPS e tal, mas é como Ray e Johari nos alertaram: usamos os troços e seremos rastreados em dois tempos. – O escorpiano respondeu sério.
— A sintonia psíquica de Surtr só funciona com o cosmo de Camus, certo? Então, já que temos a localização do covil dos separatistas, podemos utilizar nossa velocidade da luz e chegar lá em um instante.
— Sim... o problema é que não temos como saber QUANTAS dessas crianças estão sob a mira de capangas de Kulaita. Nossa mera aparição pode desencadear uma tragédia. Sei que salvaríamos milhares, mas... quantas morreriam? – E, ao dizer isso, a voz de Milo fraquejou – Eu não me conformaria em perder uma vida que fosse...
— Fora que o amigo de vocês se sentiria culpado. – Supôs Raymond. – Eu aposto que ele já está se sentindo assim.
Sorrindo amargamente, o escorpiano concordou:
— Parece até que você já o conhece, Ray.
— Homens bons costumam ser assim.
— Neste caso, que faremos? Continuamos como estamos, indo a passos de formiga?
— Sou a pessoa mais insatisfeita aqui com isso, Aioria... mas sim, temos que seguir o caminho sem apelar para os nossos poderes. – Disse Milo, mostrando o mapa apreendido com os terroristas. – Pelo menos temos isto.
— Lá vêm os soldados. Vamos apenas entregar esse lixo a eles e seguir em frente. – Sugeriu Johari, apontando os homens caídos e amarrados.
— Eu ainda acho que Camus encontrará uma maneira de se comunicar com a gente. E de resolver a questão dos “escudos humanos”.
O leonino considerou o amigo, sinceramente curioso:
— Mas se ele tá com o maldito microchip implantado no corpo, como vai fazer isso?
— É algo que nós, como Santos de Atena, estamos acostumados a realizar desde o início dos tempos, Aioria: MILAGRES.
Batendo-lhe cordialmente no ombro, a queniana assentiu:
— É assim que se fala, Escorpião! Com poderes ou sem poderes, nada de esmorecer!
Ele lançou-lhe um olhar agradecido. Foi só a moça se afastar que Aioria se aproximou, falando com a mão em concha perto da boca:
— Antes vocês se estranhavam como cão e gato, e agora tão aí trocando olharzinhos?
Estupefato, o escorpiano só conseguiu articular:
— Deixa de ser ridículo...
O outro praticamente se pendurou em Milo, ao choramingar dramático:
— Viviam se estranhando e agora vê... ela se amarra na sua! Enquanto eu, que fui todo simpático e cavalheiro desde quando fomos apresentados, não recebo nem um “tchum”...
— Você quer receber um “tchum”? Beleza, eu falo disso pra Marin, aposto que ela vai te dar um TCHUM nessa tua cara de pau...
— PELO AMOR DE ATENA, MILO, EU TÔ BRINCANDO!
Amandi riu dos dois: aproximou-se deles, mostrando-lhes o crepúsculo que alaranjava os prados sem fim.
— Estamos há trinta horas na estrada. Que tal pousarmos? – Propôs o nigeriano. – Preparo algo para comermos, vocês montam as barracas. – Comemos, descansamos, e partimos logo ao amanhecer.
Os dois amigos concordaram efusivamente, dando-se conta de quão famintos estavam.
*************
Camus banhara-se há pouco. Desfez-se do roupão branco e vestiu uma roupa tradicional local, uma espécie de bata marrom clara com detalhes em marrom escuro e uma calça nos mesmos tons. Calçou sapatilhas de couro macio e saiu do quarto, em direção ao living do apartamento que ocupava na mansão de Kulaita. Dois seguranças mantinham-se imóveis junto à porta de saída. O aquariano suspirou, pensando em como tudo aquilo era inútil. Com a vida de inocentes em risco, evidentemente que não empreenderia nenhuma tentativa de fuga ou coisa que o valesse. No dia seguinte, prosseguiria com a seleção de meninos para o seu... “treinamento”. Kulaita não estava nada satisfeito com o que considerava um pífio número de escolhidos... Vinte e duas crianças! De um grupo de quinhentas! O francês, porém, sabia que aquele era o padrão de uma prévia seleção. PRÉVIA. No decorrer de um verdadeiro treino de cavaleiros, a tendência era de que aquele quantitativo até decrescesse...
Ele não estava exatamente simulando o processo, todavia, sabia que ganhava tempo assim. Perguntava-se quantos jovens se destacariam no dia seguinte, quando a porta se abriu. Um serviçal entrou, empurrando um carrinho com o jantar do “hóspede”. Posicionou-o perto da mesa redonda próxima à varanda da sala, e começou a dispor os pratos ali. Enfastiado, Camus comentou:
—Não era preciso tudo isso, eu como pouco.
— Foi o que me mandaram trazer, senhor. – Defendeu-se o rapaz, dando de ombros.
— Precisa se “alimenta” bem, Príncipe do Gelo...
— Oh. É você. – Falou o Santo, inexpressivo, ao ver o velho Themba adentrar o quarto, acompanhado de Zarina. – Por acaso tem alguma poção mágica sua nessa comida?
O ancião riu ao responder:
— Não, não, Themba não “colocar” nada na comida de Príncipe, Themba “jurar”.
— Que tal parar de me chamar por esse nome estúpido?
— Nada “ter” de estúpido, Príncipe. É o que “ser” Príncipe, Themba sabia, muito antes de Príncipe “veio” para cá...
— Sim, eu imagino. Afinal, desde que eu estava no hospital, lá estava você bisbilhotando. – O aquariano sentou-se à mesa, olhando desinteressado para a refeição fumegante. Sabia que precisava se nutrir, ficar à míngua não era uma opção para quem se prepara para uma batalha.
A qual ele sabia que eclodiria a qualquer momento.
— Meu bisavô não é nenhum bisbilhoteiro. Não foi assim que ele soube de você, forasteiro. – Enunciou Zarina, pouco amistosa.
— Não que me interesse em saber como ele soube, mas imagino que você vai falar.
— Meu bisavô é um curandeiro, Príncipe do Gelo. E o mais influente de nossa terra. Aconselhou gerações de reis, e detém muitas habilidades. Habilidades adquiridas em seus 113 anos de vida...
— Hã? Cento e treze anos, você disse? – Aquela informação foi capaz de demover a indiferença no semblante do aquariano. Não daria mais que setenta anos ao ancião!
— Cento e quatorze, minha menina. Você sempre “errar” a idade do seu próprio vovô...
Logo o francês retomou a fria expressão habitual. Servindo-se de uma sopa desconhecida – o cheiro não era nada mau – ironizou:
— Então detém “muitas habilidades”, hã? Dentre as quais, servir a terroristas sanguinários assassinos de crianças...
A moça teria acertado o rosto do prisioneiro com um vigoroso tapa, não fosse a velocidade do jovem em bloqueá-lo, de imediato, com o dorso da mão. Irada, ela atirou:
— Você não sabe NADA sobre nós! Não sabe NADA sobre o meu bisavô!!!
Imperturbável, Camus encarou o ancião e atinou:
— Não, não sei mesmo. Fique à vontade para me contar. Então são parentes? Bisavô e bisneta. De onde são?
Themba encarou-o de volta, o insistente sorriso desvanecendo-se à medida que respondia:
— De Unitar, um país bem pequenininho que a Brilho da Honra “tomar”... Themba líder de seu povo nas montanhas de Barekhi... – De repente, o inglês deu lugar a um idioma completamente diferente, que apenas Camus entendeu. A língua dos pais dos pais de Themba – Fui obrigado a entregar o meu povo à Brilho da Honra, caso contrário, seria massacrado pelas forças de Shamallah... além disso...
Zarina arregalou os olhos, alarmada. Os guardas pareceram se inquietar.
— Ei, velho. – Chamou um deles, levantando-se da cadeira.
Themba sequer piscou. Continuou, sendo compreendido por Camus, graças ao cosmo do guerreiro:
— Kulaita ameaçou atirar minha bisneta aos seus homens. Disse que ela seria violada e torturada até a morte se eu não usasse minha influência para convencer os outros povos do meu país...
Falava bem rápido, ignorando os chamados dos seguranças, que agora se aproximavam da mesa.
— Ei, velho! Fale EM INGLÊS!
— Esta noite falarei contigo em espírito. Espere que eu esteja pronto, às 3 da manhã.
— Não está ouvindo, desgraçado? – Um dos guardas agarrou com violência o braço ossudo do curandeiro, que gemeu dolorosamente. Zarina interpôs-se entre o capanga e o bisavô, gritando:
— Solte ele, seu animal!!! Como ousa tratar assim o grande sábio, mão direita de Kulaita?
Foi estapeada pelo maior deles, que vociferou:
— Saia da frente! Ele não pode se expressar em língua que não entendemos, sabe muito bem disso! É uma de nossas mais importantes regras!
Súbito, ambos guardas foram lançados pelo ar, varridos pelo poder do cosmo de Aquário, que sequer se moveu. Chocaram-se violentamente contra a parede, chegando a derrubar-lhe alguns quadros. Levantando-se da mesa, Camus, que agora tinha um brilho azulado nos olhos, disse friamente:
— Covardes... são bem eficientes para agredir um velho e uma mulher. Que tal testarem essa eficiência COMIGO?
Não foram precisos mais que dois passos de Camus em sua direção; os dois puseram-se de pé, cambaleantes, e correram para fora do quarto. Foi a deixa para ele dizer a Themba em voz baixa:
— Não posso usar meu cosmo para me comunicar contigo.
— É como eu disse, EU falarei contigo, não através de teu cosmo, mas através de MEUS ANCESTRAIS. Tua deusa os conhece... amigos de longas eras... — Entregou-lhe um pequeno frasco, rapidamente. – Às portas das três horas, beba isto.
Foi a vez de Camus arregalar os olhos. Pelo visto, havia muitas e muitas coisas desconhecidas por ele neste mundo... meteu o frasquinho no bolso da calça. Percebendo o olhar surpreso de Zarina sobre si, o francês ergueu sua mão e concentrou ar frio: fez menção de tocar o rosto da moça, explicando-lhe a ação:
— Deixe-me. Vai evitar que inche. Evitará a dor também.
Após uma breve hesitação inicial, ela permitiu. Ante o toque gélido em sua pele magoada, cerrou as pálpebras em um misto de alívio e vergonha.
— Você ajudou meu bisavô – Murmurou, ainda de olhos fechados. Por baixo dos cílios algo cintilou. – Me ajudou. E eu, que estive prestes a te agredir...
— Está acontecendo alguma coisa por aqui?
Surtr. E Derrick a seu lado. Acompanhados de seis seguranças.
— Nada que demande sua pouco agradável presença, Surtr. – Respondeu o aquariano, fazendo-se de despreocupado. Retirou a mão da face de Zarina, que abaixou a cabeça em um mudo agradecimento.
— Hum. Não parece. Primeiro, os guardas que estavam aqui abandonaram seus postos, apavorados com a sua atitude selvagem. E eis que me deparo com uma cena curiosa como essa... tenho a impressão de que algo estranho se passa aqui.
Rindo com discreto sarcasmo, o Cavaleiro replicou:
— Um Santo de Atena prisioneiro de uma nação clandestina dominada por déspotas covardes exploradores de crianças. Tem ALGUMA COISA que NÃO seja estranha por aqui, Surtr? Ah, sim: um Guerreiro de Asgard que se VENDEU a esses déspotas covardes...
O ruivo postou-se bem diante do aquariano, dardejando-o com ódio.
— Cuidado, Camus. Não estou mais disposto a tolerar o seu veneno. Quer saber? Acho que você apanhou pouco lá no garimpo... posso resolver isso.
— Quando quiser. Desta vez, prefere NÃO ser salvo por quem te vencia?
— Seu miserável, você NÃO me salvou porra nenhuma!
Derrick interpôs-se entre os dois.
— Surtr, pare! Se o meu tio souber...
— O que é que ele vai fazer? Cai na real, seu idiota, seu titio PRECISA de mim para saber se Camus está se comunicando com os cretinos de Ouro!
— Sim, mas em um momento de fúria, quem sabe como ele pode agir?
O asgardiano mirou o amante ao retrucar, arrogante:
— Acha mesmo que ele falou a sério naquela hora? Não passou de um BLEFE!
Encarando-o severamente, o africano jogou-lhe na cara:
— É fácil para você estar tranquilo agora e avaliar a situação dessa maneira: foi Aquário quem impediu que você virasse PENEIRA naquela hora.
As cores abandonaram o rosto de Surtr. Seu olhar esgazeado dividia-se entre o amante e o ex-amigo. Não suportando mais, deu meia volta e saiu do quarto, fumegando de ódio. Os guardas seguiram-no, pois esta fora sua ordem.
Notando que Camus o observava de modo interrogativo, Derrick enunciou:
— Por duas vezes, você salvou o homem que tantos problemas te causou. Que te pôs neste cativeiro. – Apontou para Themba e Zarina. – Defendeu essas pessoas, que são aliadas do teu inimigo. Por quê?
Sem nada responder, o francês encarou-o com enigmática gravidade. Ao ver que alguns guardas retornavam para o quarto, Derrick entendeu-lhe o silêncio. Antes de se retirar, o sobrinho de Kulaita comentou, corajosamente:
— Aquilo que falou para os jovens no garimpo, sobre elas ESTAREM cativas, e não SEREM cativas... sobre seus espíritos livres... foi bem bonito.
— Não falei aquilo por ser bonito. Falei por ser a VERDADE. – Volveu o Santo, nunca abandonando aqueles grandes olhos castanhos.
Em meio a um suspiro, o africano murmurou:
— Gostaria que fosse a MINHA verdade também.
— Se você assim o quiser, já é a SUA verdade.
Estremecendo levemente, o jovem calou-se. Saiu com certa pressa dos aposentos do ‘Príncipe de Gelo”.
Ele saiu da presença de Aquário.
Mas as palavras de Aquário não sairiam dele...
*************
O céu daquela localidade rivalizava-se com o de Star Hill. Despido da intervenção das luzes da civilização e da poluição por ela mesma produzida, o manto negro crivava-se de estrelas a perder de vista. Nenhuma nuvem bloqueava a estonteante visão. Recostado a uma árvore, Milo contemplava o magnífico firmamento, perdido em pensamentos que foram interrompidos pela voz de Johari Kadija:
— Não consegue dormir?
Ele olhou para a queniana, de pé ao lado do largo tronco.
— Vejo que você também não. Todos se recolheram há mais de três horas. – Respondeu, voltando a fitar o céu.
— Não sou muito de dormir. Consegui pregar o olho por duas horas. Talvez daqui a pouco, consiga dormir mais uma ou duas horas.
— Sono fracionado, hã? Camus fazia isso. Digo... faz. – Corrigiu, perturbado pelo inconsciente uso do verbo no passado.
— Alguns dizem que não é saudável. Outros, que se bastar a uma pessoa, então não há jeito.
— Pode ser. Cada organismo conhece suas próprias necessidades...
Sem cerimônia, a jovem sentou-se ao lado do Santo. Após um breve suspiro, arriscou:
— O Santo de Aquário... não é apenas um “amigo” seu, não é?
Milo surpreendeu-se levemente. Então respondeu, com resignada tranquilidade:
— Não, não é.
— Dava para perceber pelo jeito com que fala dele, defende ele... mas principalmente, pela maneira com que seus olhos se inflamam quando você ou alguém se refere a ele.
Como ela se expressava em um tom quase neutro, o escorpiano permitiu-se confirmar:
— Atualmente, diria que somos namorados. Mas somos muito mais do que isso... entre idas e vindas, estamos juntos há mais de dez anos.
— “Idas e vindas”? Quer dizer que romperam algumas vezes?
Um sorriso triste precedeu a resposta:
— Nunca rompemos deliberadamente. Nossas separações aconteceram por motivos alheios às nossas vontades. Motivos os quais se eu te contasse, dificilmente você acreditaria.
— Não tenha tanta certeza. – Também ela sorriu com certa amargura. – Disso eu entendo muito bem. Acho que poderia acreditar em qualquer coisa que dissesse.
Tomado por uma repentina melancolia, o grego rememorava as razões que separaram os dois amantes de longa data.
A ida de Camus para a Sibéria, a fim de treinar os jovens Hyoga e Isaak.
A morte de Camus na Batalha das Doze Casas.
A morte no Submundo.
A suposta traição em Asgard.
Por mais que admitisse que a vida de um Santo de Atena não tivesse como ser uma vida comum, espantava-o tantas reviravoltas nos destinos de duas pessoas de meros 24 anos.
Agora que haviam resolvido tudo, mais uma vez Camus havia lhe sido arrebatado...
— Eu também tive uma pessoa querida tirada de mim pela Brilho da Honra. – Murmurou Kadija, fazendo-o estremecer pela sintonia de reflexão.
— Tirada...? Você quer dizer...
Ela apenas meneou a cabeça, seu rosto sério iluminado pelas chamas da fogueira que crepitava frente ao pequeno acampamento.
— E quem foi tirado de você, se é que posso perguntar?
— Minha companheira Achieng. Minha esposa, se assim entender melhor... ocorre que no nosso país casamentos entre pessoas do mesmo sexo são expressamente proibidos... bom, em se tratando do nosso continente, onde há até mesmo pena de morte institucionalizada em algumas nações, pode-se considerar que no Quênia não há tanto rigor. No país do Ray, por exemplo, pune-se com a morte. Mas em Angola, onde vivemos até ela ser tirada de mim, desfrutávamos de relativa paz.
— O que aconteceu com ela?
— Foi assassinada enquanto dava uma palestra na Universidade de Luanda. Eu estava em missão com Ray e outros agentes da senhora Urbí. Os enviados da Brilho da Honra sabiam muito bem disso, e sabiam que Achieng não tinha qualquer ligação com o meu trabalho. Logo, você pode concluir que a morte dela foi nada mais nada menos que um simples recado para MIM.
Boquiaberto, o escorpiano mirava a moça, pensando no que dizer. Difícil decidir, tamanha indignação que constringia-lhe a garganta.
— Minha maior dor é não ter conseguido pôr as mãos nos canalhas e fazê-los pagar.
— Johari... eu lamento muito.
— Tudo bem. Digo... não está tudo bem. Mas eu reverto minha dor em luta contra a organização. Não me importa que eu morra. Se nos meus momentos finais eu souber que a Brilho foi desmantelada, eu morrerei satisfeita.
— Você não vai morrer. – Assegurou Milo, colocando a mão no ombro da queniana. – E, seguramente, a Brilho será destruída. Você vai comemorar muito isso, em vida.
Sorrindo enternecida, ela falou:
— Seu amado também não vai morrer. Pare de ficar pelos cantos antecipando um luto que não vai acontecer.
— O certo seria você dizer “seu amado não vai morrer DE NOVO” – Riu o jovem, de leve.
— “De novo”? Como assim?
— É uma longa história... ou melhor dizendo, SÃO longas histórias... uma hora eu te conto. Mas melhor seria que fôssemos tentar descansar. Em poucas horas partiremos.
— Tem razão. – Ela ia se levantar, mas o grego foi mais rápido e ajudou-a a se erguer, tomando-lhe as mãos.
— Tenha certeza de que Achieng está lá, com aquelas estrelas – Milo apontou com o rosto levantado – velando por você... e repleta do mais puro orgulho pela guerreira que você é.
As mãos dela puxaram-no, fazendo-o abaixar para receber um amistoso beijo no rosto.
Desta vez ele teve certeza de que os olhos negros estavam marejados.
— Obrigada, guerreiro de Atena.
Retornaram cada qual para sua barraca. Mal Milo adentrou o abrigo, Aioria puxou-o pela gola:
— Vai, me diz agora que não tá rolando nada entre você e a Johari! Eu vi, até beijinho ela te deu!
— Não acredito que tu tava espionando a gente... Aioria, você tá errado em tantos níveis que não sei nem por onde começar! – Reclamou, mais cansado do que irritado.
— Tá, eu sei que eu sou comprometido...
— Eu TAMBÉM, seu imbecil.
— Mas então, o que tava rolando?
— Não é da sua conta, vai dormir, seu leão desmiolado. – Milo estirou-se no colchonete, puxando a manta até os ombros.
— Não me entenda mal, eu não vou trair a Marin, mas a Johari me fascina... aquela pele, aqueles olhos, o jeitão forte e decidido dela, o...
— Aioria. Cala a boca.
— Você acha que ela não poderia se sentir nem um pouquinho atraída por mim?
— Hunf. Eu tenho uma má notícia para você...
— Hum? Qual? Que má notícia, Milo? Hein? Me conta?
Ao ouvir o ressonar do amigo, viu que ficaria sem resposta. Não pôde evitar de ficar surpreso pela rapidez com que o escorpiano pegara no sono.
— Hunf. – Resmungou, deitando também, por fim, injuriado.
*************
—Surtr... ainda está chateado comigo?
— Imagine. – Respondeu o asgardiano, mal humorado, deitado no sofá da vasta sala iluminada apenas por um abajur. No chão, uma garrafa vazia denunciava a atividade a que se entregara nas últimas horas.
— Então por que não vem para o quarto? – Indagou Derrick, embora soubesse a resposta.
— Boa ideia. EU vou para o quarto, VOCÊ dorme aqui. Não quero me deitar com defensores de Camus.
Suspirando, o africano argumentou:
— Não defendi Aquário. Será que não se dá conta de que defendi VOCÊ?
Surtr levantou-se bruscamente, fuzilando-o com o olhar:
— Digamos que eu não considero que me defendeu, quando apenas senti que me HUMILHOU na frente dele!
— Eu não te humilhei, disse apenas a verdade. Surtr, admita, Aquário SALVOU sua vida. Duas vezes!
Uma sonora gargalhada chegou a assustar o ex recepcionista.
— “Me salvou”! Não fala merda! Eu NÃO morreria se caísse daquele despenhadeiro! Nem morreria se todas aquelas armas contra mim tivessem sido disparadas ao mesmo tempo!!! Como é que Camus “me salvou”, seu imbecil?
Derrick evocou os dizeres do Santo: “Se você assim o quiser, já é a sua verdade”.
A vontade... a intenção... a resposta.
A verdade.
Em um tom baixo e reflexivo, o jovem respondeu:
— Mesmo que você escapasse das duas situações, acho que só de Aquário ter te ajudado... faz com que, sim, ele tenha te salvado.
— Eu que bebo e você que fica divagando. – Zombou, empurrando o rapaz para que lhe saísse do caminho. Atravessou o corredor em direção ao quarto. Sem olhar para trás, Derrick ouviu a porta batendo com força. Conformado, soube que seu leito seria o sofá. Ali se deitou, deixando-se perder nas miríades de estrelas vistas da extensa varanda.
*************
Camus olhou o relógio em cima da mesa de cabeceira.
Duas e cinquenta e seis.
Não que tivesse sono, pois não tinha, mas perguntava-se se precisava mesmo estar acordado. Themba disse que entraria em contato com ele às três da manhã... o que isso significava, afinal? Entendera que o ancião pertencia a uma casta de xamãs, e que esses homens detinham habilidades que os posicionavam acima das pessoas comuns. No entanto, daí a acreditar que poderiam se comunicar por telepatia ou algo parecido...
Duas e cinquenta e oito.
Deu um suspiro e ergueu-se da cama. Não havia seguranças no quarto; estavam no living do apartamento, porém. Qualquer barulho poderia fazê-los entrar... abriu lentamente a gaveta e pegou o pequeno frasco entregue por Themba. Abriu-o e, sem pestanejar, engoliu todo seu conteúdo; desceu-lhe pela garganta, espalhando na boca um amargor inconscientemente esperado.
Aquelas coisas nunca tinham sabor agradável. Impressionante.
Tampou-o e guardou de volta no interior do móvel, sem fazer um único ruído. Recostou-se nos travesseiros macios, em dúvida sobre o que viria em seguida.
Segundos depois, suas pálpebras pesaram.
Sentiu o coração bater mais rápido, os músculos relaxando; soube que o efeito da substância, fosse qual fosse, principiara. Não teve propriamente medo, pois algo em Themba lhe convencera...
Foi como se seu corpo se desligasse. Não sucumbira ao sono, e sim a um estado diferente. Tampouco tratava-se de torpor. Sentia-se tão consciente, tão desperto, embora...
Já não estava no quarto.
Sequer estava na mansão.
Olhou ao redor, distinguindo o som de água corrente. Um riacho, uma cachoeira? Não podia precisar, a escuridão não lhe permitia.
Não, certamente era uma cachoeira. Podia sentir as gotículas elevando-se no ar e indo de encontro ao seu corpo.
Levantou a cabeça e deparou-se com o céu mais estrelado que já contemplara. Um risco luminoso cortou o céu.
— Agradeço por sua confiança, Aquário.
Virou-se na direção da voz, clara e profunda, destituída do servilismo e do curioso sotaque verificado quando da comunicação na língua inglesa.
Envolto em misteriosa luminosidade, o ancião trajando longas e majestosas vestes cerimoniais aproximava-se. Nada evocava a costumeira imagem humilde envergada na Brilho da Honra, ele mais parecia um verdadeiro rei.
— Themba – Murmurou o jovem, impressionado.
— Aqui podemos enfim conversar sossegados. E traçar nosso projeto de derrubada da maligna Brilho da Honra. De qualquer maneira, sementes já foram lançadas. Você vai me ajudar, e eu vou te ajudar. Disposto a me ouvir, Cavaleiro de Atena?
— Nem precisava perguntar. – O francês sorriu ao responder.
— Neste caso, acompanhe-me.
— Para onde?
— Para onde mais? Para a Terra Sagrada de nossos espíritos.
*************
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