O Brilho da Honra
35 Sangue Sobre A Terra
Notas iniciais
O jovem Santo de Atena e o velho curandeiro atravessavam uma ponte sobre densa névoa. Acima deles, miríades de estrelas faiscantes, olhos curiosos dirigidos para os dois, que não pertenciam àquele lugar.
— Isto é um sonho?
— Um sonho? Não, Aquário. – Themba riu, como se falasse a uma criança. – Eu não disse que iríamos para a Terra Sagrada de nossos espíritos?
— Não entendo o que quer dizer.
— Não é necessário que entenda. Basta saber que aqui estamos seguros para traçarmos o plano de aniquilação da nefasta Brilho da Honra.
Camus olhou ao redor, compreendendo de certa forma o quão longe de seus inimigos estavam. Era como navegar à deriva no meio do oceano à noite. Não se podia precisar o que estava abaixo de si, tampouco o que havia adiante. Apenas o firmamento infindo se descortinava diante de seus olhos índigo.
— Diga-me o que pretende, Themba.
— Sim, não temos muito tempo. – Continuaram a marcha pelo caminho enevoado. – Preciso antes averiguar se você realmente não foi seduzido pela proposta de Kulaita.
— Ainda tem alguma dúvida a respeito?
— Se fizer o que Kulaita quer, há de se tornar um dos governantes de Shamallah, que, na certa, será o mais poderoso país da África... e, considerando-se os recursos sobre os quais as quatro nações se encontram, o mais rico país do MUNDO. Pode ser que considere que, com seu poder e conhecimento, seria uma luz sobre a escuridão que paira nesta terra.
— Eu jamais concordaria com o que aquele maníaco pretende – Rebateu o francês, enérgico. – Estou fazendo o que ele quer apenas pela segurança das crianças prisioneiras.
— E se houvesse um jeito de salvaguardar os cativos, você se voltaria efetivamente contra a Brilho da Honra?
— Mas É CLARO! É unicamente por eles que estou à mercê desses terroristas malditos...
— Pois bem, não vai demorar.
— Hã?
Themba parou. Fixou o olhar ao longe.
— O que está...
— Shhh. Eu ouço.
Antes que Camus perguntasse “o quê”, o ancião respondeu, os olhos fitos no horizonte escuro:
— O revolver de uma alma por ti tocada.
— O quê?
— Você atirou uma semente em terra aparentemente estéril, porém mais fértil do que poderia julgar. Em breve colherá o que plantou...
Virou-se para o rapaz legitimamente confuso.
— Somente o verdadeiro Brilho da Honra poderia tocar o mal esculpido pela dor e pela desesperança. A Brilho da Honra é uma infâmia que deve ser destruída. E é brilho da TUA honra, Cavaleiro, que conduzirá a essa destruição.
— Realmente gostaria que você fosse mais objetivo.
— É como você mesmo disse: ESTAMOS cativos, NÃO SOMOS cativos. O germe da insurreição já existia entre meus irmãos. Tuas palavras fomentaram ideais adormecidos pelo sono do medo.
Camus arregalou os olhos.
— Quer dizer que...
— Não estamos sozinhos. Centenas e centenas aguardam o momento em que o Príncipe de Gelo castigará os usurpadores. Assim que você enfim reagir contra o maligno Kulaita, eles também lutarão e defenderão os meninos com suas vidas. Estão em todos os lugares. Até dentro da mansão dos líderes.
— Rebeldes?
Themba assentiu.
— Com a ajuda de seus amigos Santos de Ouro, não restará nada da Brilho da Honra. Logo você poderá contactá-los através de seu cosmo.
Levando a mão ao pescoço, o Cavaleiro retrucou, desanimado:
— Não tenho como fazer isso. Surtr está em constante sintonia com o dispositivo presente no microchip implantado em meu corpo. Qualquer tentativa de comunicação com eles, Surtr ficará sabendo e avisará Kulaita.
— O Guerreiro de Asgard nada poderá dizer a ninguém, se não estiver neste plano...
À essa resposta, Camus estremeceu.
— Pretendem matá-lo? Não podem contra os poderes de...
Sorrindo de leve, o ancião ergueu a mão, interrompendo o jovem.
— Não. Escute... ele não terá como saber de nada nem de comunicar nada a alguém se a alma dele estiver SUSPENSA. Como a SUA está agora.
— A minha alma... está suspensa? Que quer dizer?
— É como eu disse, Aquário: você não está sonhando... sequer está dormindo de fato...
— A beberagem – Impressionado, Camus enfim compreendeu – é uma droga que induz a uma “viagem astral”, é isso?
— É uma bonita expressão. Talvez eu passe a usá-la – Riu o velho. – Com efeito, não é meramente estar “inconsciente”; fosse assim, você poderia ter entrado em contato com seus companheiros enquanto Surtr dormia, ou enquanto o tolo esteve inconsciente após aquele belo golpe que você aplicou nele, lá no garimpo.
— No entanto eu poderia fazê-lo caso a alma... o espírito de Surtr se desprendesse de seu corpo...
— Exatamente.
— Está dizendo que se ele beber o que eu bebi...
— Terá a chance de se comunicar com os seus, Santo.
— Milo... – Murmurou, o coração repleto de saudade a comprimir-se no peito. – Se ele e os demais vierem para cá, a Brilho da Honra será pulverizada em segundos.
Ansioso, voltou-se para o feiticeiro:
— Mas como faremos para Surtr ingerir esse... essa... “poção”? – Não conseguiu encontrar outra expressão.
— Não faremos. OUTRO fará.
— “Outro”?...
—A semente que você plantou, Aquário. Ela já brotou. E cresce, posso ouvi-la.
Matizes violáceas romperam o fundo de tudo que a vista alcançava. O céu pôs-se a mudar de cor, gradativamente, como se a alvorada se aproximasse. Algo incomodou os olhos de Camus. Fechou os olhos com força. Uma vertigem repentina dele se apossou.
— O tempo está chegando ao fim. Preste atenção: levarei o filtro para que você entregue àquele que poderá dá-lo a Surtr.
— Quê? Não entendo... – Agora o jovem sentia real mal estar. Parecia que iria perder o equilíbrio a qualquer instante. Themba amparou-o, dizendo-lhe ao ouvido, pois Camus já não conseguia escutar muito bem:
— No açucareiro. No meio do açúcar. Um frasco com a mesma substância que te trouxe até aqui. Em menor quantidade, contudo com o mesmo poder. Pela manhã, quando o desjejum for servido em seu quarto.
— Açúcar... manhã... n-não entendo... – A consciência começava a se esvair, bem como tudo diante de seus olhos. Sentiu-se sugado por um túnel, precipitando-se no vazio. Ainda tentou estender os braços, mas nada havia para segurar. Caiu, sem contudo ser assaltado por qualquer pânico que fosse. Era como morrer pacificamente.
Entretanto, não estava morrendo.
Estava RETORNANDO.
Ao SEU plano, ao SEU corpo...
— Aaah! – Foi com um sobressalto que despertou na cama. As tênues e aconchegantes luzes dos abajures do belo aposento substituíram as trevas.
— Por Atena... – murmurou, levando a palma da mão até a fronte.
Aquilo... acontecera de verdade? Ou havia sido um sonho estranho induzido pela misteriosa beberagem do xamã? Sentia que não era sonho, todavia...
Então um sono irresistível nocauteou-o antes que pudesse concluir qualquer um de seus pensamentos bagunçados.
*************
“– Aquilo que falou para os jovens no garimpo, sobre eles ESTAREM cativos, e não SEREM cativos... sobre seus espíritos livres... foi bem bonito.
— Não falei aquilo por ser bonito. Falei por ser a VERDADE.
— Gostaria que fosse a MINHA verdade também.
— Se você assim o quiser, já é a SUA verdade.”
Ele saíra da presença de Aquário.
Mas as palavras de Aquário não saíram dele...
Reverberavam contínuas, como o canto de aves noturnas que ouvia da extensa varanda do apartamento. Grilos acompanhavam-nas, entoando sua orquestra ininterruptamente. Não sabia há quanto tempo estava ali, de pé, sozinho, ouvindo sem parar a mensagem que tão estranhamente tocara um coração que ele chegara a julgar fora do alcance de semelhantes discursos.
“O que me trouxe aqui significou uma reviravolta em minha vida: vou me dar bem, nunca mais terei que lutar pela minha sobrevivência... atender hóspedes ricaços e insuportáveis, vender meu corpo a homens desprezíveis e hipócritas... serei coberto de luxo e riquezas, privilégios...”
Levou o copo de uísque até os lábios carnudos. No entanto apenas roçou a borda gélida, sem nada beber.
“... então o que me fez falar aquilo para ele? Como se EU fosse um cativo, como esses miseráveis controlados pelo meu tio? O que me fez dizer aquelas palavras?”
Desistiu da bebida, pousando o copo em uma mesinha próxima a si. Suspirou, lançando um olhar às estrelas.
“Certo, não vim para cá por vontade própria. Não tive uma real escolha. Mas... com tanto a ganhar, isso me faz um CATIVO? Não faz sentido.”
Lembrou da menininha que conduzira pela mão até a execução sumária. Sentiu um súbito enjoo. Tomou novamente o uísque nas mãos, sorvendo-o com ânsia. Detestava pensar naquilo. Fora uma surpresa para ele! Não tinha ideia do que o tio iria fazer! Procurava não pensar naquilo. A presença de Surtr ajudava-o. Surtr não se incomodara nem um pouco com o assassinato da criança. Nem com a visão dos soldados famélicos, feridos nos corpos e nas almas, nem com seus olhares de quem pouco a pouco se convertia em uma máquina... máquinas exploradas, violadas, programadas para matar e serem mortas em nome dos ideais da Brilho da Honra. Não, o ruivo não se importava, e ele acreditava que também não se importava. Ora, também fora explorado, maltratado, aviltado, violado... sua hora da dor havia passado. Era a vez daqueles milhares de crianças, adolescentes e jovens... que cada um lidasse com as vicissitudes às quais foram destinados. Ele não era Deus. Ele não poderia fazer nada por ninguém. Ninguém fizera nada por ele. Assim são as coisas. Assim era a vida.
Então por que dissera aquilo ao Cavaleiro de Aquário? O que lhe fizera dizer tais palavras? Céus. Por sorte, Surtr não estava mais no cômodo quando aquela asneira escapou-se-lhe dos lábios. O amante teria ficado furioso... bem, MAIS furioso do que já estava.
“Se você assim o quiser, já é a SUA verdade.”
“A... minha verdade?”
— Ei.
Virou-se para trás, deparando-se com a figura desgrenhada de Surtr contra a luz dos abajures.
— Oh. Oi. – Balbuciou, incerto sobre o que responder.
— Que tá fazendo aí?
—Nada. Apenas observando as estrelas.
O asgardiano deu um sorriso irônico, acompanhado de um “hunf” gutural.
— Camus tinha a mesma mania besta.
— Não acho que seja “besta”. É tão bonito... e acalma nossa alma.
— Que razão tem você pra querer se “acalmar”? – Retrucou, com sarcasmo seco. Seus olhos fúcsia desviaram-se do jovem africano. – Eu é que preciso ser acalmado...
— Achei que estivesse dormindo.
— Dormi um pouco, mas... – Calou-se, a expressão perdendo a dureza por algum motivo desconhecido ao outro.
— Sente-se mal?
— É estranho não ter mais você ao meu lado na cama.
Derrick ergueu as sobrancelhas, surpreso com aquela declaração feita em um murmúrio quase constrangido. Recriminando-se por se sentir subitamente comovido, observou suavemente:
— Foi você quem me impediu de ir para o quarto contigo.
— Eu sei, eu sei, falei o contrário? – Rosnou. E em um tom contrafeito: – Vem.
Caminhou para o corredor. Ao ver que o rapaz não o seguia, voltou-se para acrescentar, mais cordato:
— Como eu disse, preciso ser acalmado... você é o único agora quem pode fazer isso.
Assentindo, Sirham aproximou-se dele. Segurou-lhe o rosto frio e ergueu-o. Surtr não fez o menor movimento para evitar o profundo e apaixonado beijo com que o amante respondeu-lhe.
*************
Quando Camus acordou, o sol já despontara majestoso. A cabeça doía razoavelmente, como se tivesse bebido em excesso na noite anterior. Levou a mão à testa, em dúvida se havia sonhado ou não. Sua intuição dizia-lhe que não, no entanto, tudo era tão nebuloso em sua mente... parecia real tanto quanto não parecia.
Ergueu-se com presteza, antes que viessem bater à porta do dormitório. Isso o irritaria por demais... fez a higiene na suíte espaçosa, retirando-se dela já vestido com uma túnica média branca por sobre uma calça azul escuro. Bem a tempo: ouviu passos na sala anexa.
— Senhor, seu café da manhã. – Ouviu através da porta branca.
Não se incomodou em sinalizar que havia escutado o chamado. Calçou os sapatos de tecido macio, suspirou em uma forçada resignação e saiu do quarto.
Além dos quatro vigias, Themba e sua bisneta, que empurrava o carrinho com o desjejum do prisioneiro. O francês lançou um olhar neutro e rápido para o curandeiro. Nada na expressão do ancião diferia das de outros dias. Por um momento, Camus ponderou se tudo aquilo havia acontecido realmente. A “viagem astral”... Themba em roupas suntuosas... ambos caminhando em meio ao que parecia ser o próprio firmamento acima de tudo...
— Príncipe “parecer estar” bem disposto hoje. Themba fica satisfeito. Príncipe “precisar” de força para treinar o exército de Kulaita.
Ali estava a dicção usual e a peculiar maneira de falar do velho. No sonho não parecia a mesma pessoa...
“Mas não foi um sonho... foi?”, perguntava-se em pensamento; sentou-se â mesa onde fora depositada a refeição. Olhou para os pães, bolos, ovos mexidos, bacon e salsichas, frutas, a jarra de suco, o bule de café e, por fim, o açucareiro prateado.
“O açucareiro”, um estalo fê-lo lembrar-se.
— O que deseja primeiro, Cavaleiro? – Indagou Zarina, solícita, destapando as bandejas.
— Um copo de suco de laranja, por favor.
Ela o serviu.
— Pode me passar o açúcar, por gentileza?
— Não tem necessidade de ser tão polido, “Alteza”. A serviçal aqui sou eu, não você. – Atirou Zarina, com o usual jeito mordaz. Camus encarou-a brevemente, não distinguindo nada fora do normal. Sem nada responder, esperou que ela lhe passasse o açucareiro.
Ele tirou a tampa. Olhou para o interior. Com a colher, remexeu discretamente.
Um brilho entre o açúcar.
Ali...
Pôs uma, duas, três colheres na bebida. Misturou vigorosamente. Primeiro gole.
Sua língua nada achou. Segundo gole. Terceiro
Em determinado gole, sentiu-o.
Devia ser apenas um pouco maior que uma drágea.
Súbito, pôs a mão em concha sobre a boca, tossindo ruidosamente.
Os presentes olharam-no; teria se engasgado?
O polegar do aquariano prendeu na palma o pequenino objeto. Levou a mão até o peito, curvando-se enquanto tossia com violência. Deixou-a escorregar até debaixo da mesa. Enfiou o tal filtro com rapidez precisa em um bolso da calça; seu acesso atraiu todas as atenções, contribuindo para a ação.
— “Dar” água para o Príncipe, Zarina! Rápido, ele “engasgar”...
— A culpa foi só dele. Onde já se viu, colocar tanto açúcar em um copo de suco? – Debochou a moça, obedecendo ao bisavô. – Europeus...
Camus ainda tossia, quando aceitou a água. Chegava a ter lágrimas nos olhos.
— Não vá morrer antes de arrumar os soldados para a Brilho da Honra, hein – Riu um dos homens.
— Duvido que eu tivesse essa sorte. – Retrucou o Santo, “recuperando o fôlego”.
“Bem, está provado que não foi sonho ou coisa do tipo”, pensou ele, enxugando o queixo com um guardanapo.
— Agora que Príncipe “estar” melhor, “apressar”; Príncipe “acordar” tarde hoje. “Atrasar” o treinamento. Kulaita não “ficar” satisfeito, e se Kulaita não “ficar” satisfeito...
— Pode deixar, eu sei o que o covarde pode fazer. Não vou demorar. Não tenho muita fome mesmo.
*************
Seria um belíssimo passeio pelas magníficas pradarias do Congo, não houvesse no ar a tensão quase palpável de hordas de mercenários que vez ou outra investiam contra o comboio vindo de Angola. Todas rechaçadas com extrema facilidade por Milo e Aioria. Na verdade, apenas um deles daria conta, no entanto, nenhum deles abriria mão de defender o grupo que os acompanhava.
— Kulaita acabará sabendo que estamos indo para lá. Esses malditos parecem formigas saídas de um formigueiro! – Vociferava Kadija, que não se intimidava nem um pouco com a superioridade dos Santos de Ouro; ela preferia partir para o ataque à sua maneira. Não lhe faltava técnica. Tampouco ferocidade. Percebendo o olhar embevecido de Leão para a queniana, o escorpiano tratou de desferir um tapão na cabeça do amigo.
— EI! Tá do lado dos inimigos, é?
— Já falei pra parar com isso... toma vergonha...
— Não sei do que tá falando.
— Tudo que sei é que a Marin...
Aioria cobriu a boca do escorpiano, resmungando:
— Cala a boca! Caramba, não tô traindo a Marin nem nada! Não posso admirar uma lindeza como a Kadija, hein?
— Não dessa maneira. Admirar é uma coisa. Isso aí é...
— O que é aquilo? – Um dos soldados de Urbí apontou para a densa névoa que se erguia do horizonte alaranjado.
Todos olharam na direção apontada.
— Uma tempestade de areia...?
—Não estamos perto do deserto ainda, não faz sentido – Raymond respondeu a Milo, apreensivo.
No âmago da nuvem, negras silhuetas assemelhavam-se a monstros indo diretamente para o grupo.
— São tanques – Murmurou um jovem, sem disfarçar o pavor na voz. – E não são poucos não!...
— Tanques... então essa é a novidade do dia, hã? – Sorriu Milo, nada preocupado. Virou-se para o leonino. – Aioria...
— Não precisava nem falar – Sorriu de volta, ambos dirigindo-se para a frente dos jipes parados.
Foi então que uma explosão tirou os sorrisos dos rostos dos dois guerreiros. Uma forte luz azul emergiu da terra, como que expelindo para os ares dezenas de tanques e carros.
— Mas que porra...? – Milo adiantou-se, intrigado. Algo atacara aquela frente, antes mesmo que eles fizessem qualquer coisa. Mas o que teria poder para tal...?
Com a velocidade que lhe era característica, ele dirigiu-se para lá. Abriu um enorme sorriso ao entender o que se passava.
Frodi e Sigmund estavam de volta!
Os que escaparam do alcance dos golpes dos asgardianos prontamente bateram em retirada.
— Vocês! Uau, que entrada de classe, hein! Roubando a minha cena... – Brincou o grego, indo cumprimentar os amigos.
Eles o receberam amistosamente.
— É bom te ver também, Escorpião. – Frodi falou, correspondendo-lhe aos tapinhas nas costas.
— Desculpe a nossa demora. Embora eu saiba que você e Aioria cuidaram de tudo por aqui.
Milo riu, pensando na bravura de Raymond, de Kadija, dos soldados que os acompanhavam.
— Não só a gente, Sig... não sabe do que as “pessoas comuns” são capazes. Confesso que eu mesmo não fazia ideia.
— Bem, agora vocês podem contar conosco também.
— Frodi, o que a senhorita Hilda e o senhor Andreas decidiram sobre Surtr?
O asgardiano tornou-se gravemente sério.
— Eles preferem que nós o levemos a julgamento. Mas... se Surtr oferecer muita resistência...
— ...temos permissão de executá-lo. – Completou Sigmund.
Boquiaberto, Milo teve que admitir que aquilo lhe surpreendeu. Estava dividido entre o desejo de fazer justiça com seus próprios meios e a vontade de ver Surtr pagar pelo que fizera durante tudo que lhe restava da miserável vida.
— Milo, espero que tenha entendido o que falamos aqui.
— Hã?
Frodi postou-se bem diante do grego. Pontuou cada sílaba, para se fazer bem entendido pelo companheiro, cuja fama de impulsivo fora provada mais de uma vez, só durante aquela viagem:
— Quem recebeu a permissão de executar Surtr fomos EU E SIG. Não você. Nem Aioria. Nem um Cavaleiro de Atena.
— Quê! Você só pode estar de sacanagem...
— Se acha que a ordem dos representantes de Odin na Terra é uma “sacanagem”... bem, vá em frente.
Cerrando os punhos de ódio, Milo chegou a ranger os dentes.
— Que faria se eu ou Sig contrariássemos algo acordado entre sua Deusa e o nosso Deus?
— Eu teria que... que impedir vocês. – Admitiu, em um murmúrio contrariado.
Sigmund pôs a mão no ombro do escorpiano.
— Nós detestaríamos ficar contra você, Milo. Tornou-se um bom amigo para nós. Você e seus companheiros. – Comentou. Entendia a frustração do grego, contudo seu dever estava acima da amizade entre eles. Era assim que tinha que ser. Era assim que SEMPRE teria que ser.
— Mas... porra... eu não posso nem dar um soquinho nele?
— A última vez em que você deu um “soquinho” no Surtr, ele virou uma múmia de hospital.
— Mas não morreu, né?
Eles riram.
— Bem, precisamos seguir adiante. A essa altura, Shamallah já está à nossa espera. Tantos já vieram tentar nos impedir de prosseguir.
— Ainda não pôde fazer contato com Aquário?
Milo balançou a cabeça negativamente.
— Então ele ainda está sob poder do implante psíquico de Fafner...
— E sobre isso, Frodi? Descobriram algo sobre como neutralizarmos o elo mantido pelo dispositivo?
— Infelizmente as notícias sobre isso são as piores possíveis...
— C-como assim?
— Se a explosão do cosmo de Camus foi o que destruiu o implante da primeira vez, e ele está impossibilitado de usá-lo, devido às ameaças que pairam sobre os milhares de prisioneiros... apenas a morte poderá anular a influência do controle psíquico a que Aquário está submetido.
— A... a morte? A morte DE QUEM?
—Ou de Surtr… ou do próprio Camus.
Um frio cortante enregelou a alma de Milo.
Não.
Por Atena!
Se por um acaso CRUEL e INJUSTO, Camus ficasse sabendo DAQUILO...
— ... o imbecil seria bem capaz de se sacrificar!... – Disse, entre dentes.
— Achamos o mesmo. Digo, não achamos Aquário imbecil... – Sigmund tentou consertar. – Nossa vantagem é que não tem como ele saber disso.
— Vocês não conhecem aquele IMBECIL. Auto-sacrifício é o sobrenome dele. E inteligência também. Ele vai acabar DESCOBRINDO.
Chutou umas pedras que voaram longe. Ele, que nem havia transpirado, agora suava de nervoso. Que inferno! Seria que possível que justo agora que se aproximavam do maldito país da maldita Brilho da Honra perderia Camus...
... perderia Camus MAIS UMA VEZ?
— Surtr morrer é improvável. Camus está impossibilitado de atacá-lo, e duvido que o miserável do Kulaita vai exterminar a única pessoa que de fato controla Camus. – Raciocinou, irritado.
— Tenha calma. Nós vamos chegar até lá antes que Aquário faça isso. E... cá entre nós, eu acho que ele tem um motivo muito forte para não se sacrificar desse jeito.
— Qual motivo?
— VOCÊ, Milo.
Lágrimas amargas vieram aos olhos turquesa do Cavaleiro. Com voz sumida, replicou:
— Isso não impediu ele das outras vezes, Frodi.
— Talvez exatamente por isso agora impeça. – Falou o asgardiano, tocado pelo desamparo do outro. – Não perca as esperanças. Sobretudo, não crie finais trágicos. Camus não sabe disso. E mesmo que soubesse, não se entregaria dessa maneira. Tenho certeza de que ele já está arquitetando algo por lá.
— Eu também penso como Frodi. Já deu para constatar que Aquário é um grande estrategista. – Sigmund ajuntou, simpático.
— Obrigado, amigos – Enxugou os olhos com força. Bem a tempo: Aioria chegou até ali, já saudando os recém chegados com seu jeito efusivo.
“Camus. Por favor, espere. Não se entregue, meu amor... não se entregue! Vou tirar você daí... e nunca mais... NUNCA MAIS te perder novamente.”, pensou o escorpiano, mirando o sol avermelhado pousar sobre as montanhas distantes.
*************
—Você só pode estar debochando de mim, Aquário! O dia inteiro fazendo a sua “seleção pelo cosmo”, mais de quinhentos moleques, e está me dizendo que só encontrou DOZE capazes de receberem seus ensinamentos?!?
Kulaita indagava, mais impaciente do que gostaria de ter demonstrado diante daquele homem tão frio e controlado. Atrás deste, cinco crianças e sete adolescentes tremiam ante a ira do líder terrorista, cujos seguranças empunhavam rifles e pistolas sem qualquer discrição. Instintivamente, o aquariano abriu os braços, em uma tentativa simbólica de mostrar àqueles pobres cativos que ele os protegeria.
— Quantas vezes mais terei que explicar que, para o que VOCÊ MESMO quer, o que menos importa é a quantidade.
— Sim, eu já entendi isso, mas essa quantidade... é RIDÍCULA! Todos estes dias e você só escolheu VINTE E CINCO aprendizes! Pelo andamento dessa sua “seleção”, o meu exército especial não contará nem com cinquenta soldados!!!
Ao redor, centenas de prisioneiros, guardas, mercenários e outros observavam o embate. Não muito longe dali, dois homens também prestavam atenção no que se desenrolava no imenso descampado, no entanto, protegiam-se do sol em uma confortável barraca, munidos de baldes contendo champanhe gelada. Surtr sorria, aceitando mais uma taça servida por Derrick. Ver Camus passando por maus bocados enquanto ele estava ali, na sombra, com um belo e viril acompanhante, desfrutando das melhores bebidas e manjares seria uma vingança já suficientemente justa. Óbvio que não se contentava com isso, e sabia que viria muito mais.
— De que adianta eu treinar 300 meninos, se 200 ou mais certamente perecerão no processo? Por acaso, deseja tanto assim se livrar de sua rentável “mão de obra barata”? Ou sua crueldade de fato sobrepuja o seu intelecto? – O francês argumentou, sereno porém contundente.
Kulaita crispou os punhos, resistindo ao impulso de golpear aquele insolente. Bem, já fizera isso antes e de nada adiantara. Já entendera. Deu um grunhido insatisfeito antes de ordenar aos seus subordinados:
— Guardas! Levem os fedelhos. – E, antes que o Cavaleiro falasse, adiantou, ao acrescentar: – Mande dar carne a eles. Comida forte e decente.
Os braços de Camus foram agarrados por algumas mãozinhas empoeiradas e calejadas. Com um nó na garganta, virou-se para os garotos, que o miravam com um quê de súplica:
— Não precisam ter medo. Pelo menos por hoje, estão a salvo da ruindade destas pessoas.
— Sim, use direitinho as palavras, meu caro... “POR HOJE”! Atreva-se a alguma gracinha e eu...
— Sei do que é capaz. Não me esquecerei.
— Ah, mas eu gosto de te lembrar – Gargalhou.
As sobrancelhas azuis franziram-se em legítima indignação.
— Gostaria de saber como consegue fazer isso com o seu próprio povo.
— O que faço é o melhor para eles. E eles SABEM disso. Não sabem? – Gesticulou, dirigindo-se aos que o ouviam. – Quem vai levá-los à glória? Ao poder? À autonomia? À independência eterna?
—A Brilho da Honra! – Prontamente incontáveis braços erguerem-se no ar.
— A Brilho da Honra!
— A Brilho da Honra!!!
Fosse com expressões empolgadas, fosse com expressões oprimidas, todos juntaram-se ao enorme coro.
— Heh, o show tá ficando bom – Riu Surtr, saindo da barraca para ver melhor. Derrick a ele se juntou, com uma fisionomia menos divertida. Viu seu tio voltar-se, triunfante, para Aquário, e demandar:
— Vocês, europeus, são os maiores hipócritas deste mundo. Depois de levarem tudo de nós, de nos sangrarem à exaustão para erguerem seus impérios imundos, vêm até aqui, se arvorando “comovidos” com a “situação de nosso povo”? Comovido, ó nobre francês? Pois é melhor sacrificar 300 vidas e salvar MILHÕES de outras... salvá-las da ganância de VOCÊS!
— Um discurso similar ao de Leopoldo II, o facínora belga. – Atirou Camus, com gélido desprezo. – Quer dizer que se inspira nele? Eu não esperaria menos de você. (1)
— Bem, ele conseguiu o que queria, não? Disso entendem muito bem vocês, europeus... agora é a NOSSA vez... e não estamos nisto para retroceder...
Com os olhos horrivelmente esbugalhados, Kulaita sacou um revólver e apontou-o na direção de um menininho que não havia sido um dos escolhidos.
— Que está fazendo? Abaixe essa arma!
— Veja bem, Aquário, não é um blefe...
— NÃO!
Surtr e Derrick ouviram o Santo, alerta. Um estampido surdo seguiu-se aos gritos das crianças, estes perpetuando-se durante o eco que reverberou. Os dois amantes se entreolharam, surpresos.
— Mas que diabos será que... – O asgardiano sequer terminou de questionar; Derrick, em uma arrancada inesperada, partiu na direção do tio. – DERRICK! Aonde você... merda, não!
Uma força maior que sua razão impelia o ex recepcionista a abrir caminho entre as miríades de pessoas paralisadas. Seria possível que o tio havia tirado a vida de MAIS um inocente unicamente para subjugar o Cavaleiro! Sem saber por que deveria, ele TINHA que saber!
Eis que mais uma vez viu sangue.
Sangue vivo, vermelho, abundante.
Espalhando-se pelo tecido branco como as trevas se espalham no céu ao crepúsculo.
Longos cabelos de um insólito azul petróleo cobriam a criança cujo rostinho escuro brilhava de lágrimas;
— Mas o que...? — Escapou dos lábios trêmulos de um aturdido Derrick.
— SEU LOUCO! – Berrou Kulaita, exasperado vendo o Cavaleiro por sobre o menino. Das costas do aquariano distinguia-se o local onde se alojara a bala.
“Ele se jogou na frente do garoto... para SALVÁ-LO!”, pensou Derrick, aterrado. Por trás dele surgiu um exasperado Surtr.
— VOCÊ! – Gritou para o líder terrorista. – O que foi que você fez?!?
Camus afastou-se do menino. Sorriu-lhe com doçura, a dor queimando-lhe o peito.
— Você está bem? – Perguntou em inglês.
A pobre criança apenas soluçou mais alto, abraçando o Santo. Camus pôs-se de pé, amparando-o. Não pôde por muito tempo, entretanto; vacilou, trespassado de dor atroz.
— Eu NÃO pretendia acertar Aquário! Ele que se jogou pra proteger esse... esse MISERAVELZINHO!... – Kulaita voltou a apontar a arma para o garotinho.
— NÃO!!!
Para a surpresa de todos, Derrick se interpôs entre o cano de revólver e a criança em prantos. Surtr arregalou os olhos, tanto quanto o tio do amante... tanto quanto o próprio Camus!
— Que está fazendo, seu cretino? – Vociferou o ruivo. – Sai já daí!!!
Os olhos castanhos de Derrick encontraram os azuis que já se ocultavam detrás de pálpebras trêmulas.
— S-saia da frente... ele... vai te... – Camus balbuciou, tentando alcançar Derrick para empurrá-lo. Mas o jovem se recusou, decidido.
— Não!
— Mas o que... o que esse débil mental andou bebendo na barraca? – Kulaita virou-se para Surtr, que apressou-se em tirar Derrick da linha de fogo.
— Tudo e mais um pouco. Ele está muito bêbado, eu cuido dele... – O asgardiano puxou o amante, com força obviamente superior.
— Senhor Kulaita! O Príncipe!...
Olharam na direção de Camus, que perdera os sentidos sobre o solo arenoso.
— Maldição! Só me falta esse IDIOTA morrer! – Esbravejou o líder terrorista. – Vamos, levem-no daqui, rápido!
— Não se preocupe tanto, você NÃO poderia matar um Santo de Ouro tão facilmente assim. – Alfinetou o ruivo, imobilizando o amante, em nítido estado de choque.
— SAIA DAQUI – Rosnou Kulaita. – E leve logo esse retardado do seu namorado contigo! Ele MERECIA que eu o MATASSE...
— Mate-o e veja o que te acontece... – Surtr fechou firmemente o punho direito. Brandiu-o na direção de um jipe ao longe. Chamas espiraladas surgidas não se sabia de onde envolveram seu braço. Poderiam jurar que uma espada flamejante materializou-se na extensão do membro. Uma trilha rubra e dourada de fogo atravessou o ar e, para terror de todos, atingiu em cheio o veículo. Em meio a gritos de horror, o automóvel ardeu apenas uns segundos, antes de explodir. Destroços inflamados voaram por toda a parte. Nem mesmo Kulaita pôde sufocar um grito.
— Lembre-se de que Camus não é o único com poderes aqui. E lembre-se também de que, ao contrário DELE, eu tô pouco me fodendo pro que você faz com esses lixos que chama de “seu povo”. – Disse Surtr, tomando o amante nos braços. – Mate quantos quiser. Encoste um dedo em Derrick, e você vai ter o mesmo fim que aquele carro.
Diante exclamações e olhares estupefatos, o ruivo dali se retirou.
Instantes de completo silêncio, cortados pelo estalar e crepitar resultantes da destruição provocada pelo guerreiro de Asgard, seguiram-se, até que alguém exclamou:
— Senhor Kulaita!... o Príncipe do Gelo... ele precisa ser socorrido!
— Eu sei, eu sei! Que diabos! Levem-no pra enfermaria, rápido!
Puseram o Cavaleiro inconsciente em uma maca. Perto dali, Zarina levou a mão à boca, horrorizada. Virou-se para o seu bisavô: encontrou a costumeira expressão inabalável do antigo sábio.
— E-ele... Aquário... ele... ele não…? – Balbuciou, com sincero medo da resposta.
Themba balançou a cabeça em uma negativa quase tão segura quanto seu olhar. Sussurrou ao vento, mas Zarina pôde ouvi-lo com distinção... e jurar que ele SORRIA:
— Ele tão somente espalhou mais sementes na terra com o seu sangue...
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