O Brilho da Honra
36 Gélidos Ventos de Mudança
Notas iniciais
— E então, como está Aquário? – Indagou Kulaita ao médico que acabara de sair do quarto onde o Cavaleiro estava recebendo tratamento após ter sido baleado.
— É impressionante, nunca vi nada parecido – O médico parecia genuinamente impressionado. – Àquela distância, era de se supor que o tiro pudesse ser fatal, ou, pelo menos, deixá-lo em estado gravíssimo, no entanto...
— O miserável está bem, não é? – O líder terrorista deu um sorriso triunfante. – Não poderia esperar menos de um Santo de Atena. Esses homens detêm um poder além de nossa compreensão. A tal manipulação do cosmo, dizem.
— Mesmo assim, dei-lhe uma injeção porque queixou-se de dor, e tinha um febre... está dormindo agora. Senhor, ele vai precisar descansar por pelo menos uns cinco dias.
— O QUÊ? – Furioso, o tio de Derrick agarrou a gola do jaleco do médico, que quase desmaiou de pavor. – NÃO TEMOS esse tempo a perder! Você acabou de dizer que ele está bem!
— Sim, senhor, mas precisa se recuperar do ferimento... e da febre... se forçar, pode ter uma infecção, e... veja bem, esse homem deveria estar MORTO ou inutilizado!... E estará em perfeitas condições de treinar seus meninos em alguns dias. Se for antes disso, pode ser que todos os esforços que tem empenhado sejam...
Impaciente, Kulaita soltou-o com um empurrão.
— Está bem, está bem, já entendi. Maldição! Eu deveria ter matado aquele moleque, mas...
Mas o fato é que temeu Surtr, pela primeira vez. De maneira efetiva, pela primeira vez. Sabia que o jovem era poderoso, contudo julgou que a ganância pudesse servir de coleira ao Guerreiro Deus. Acabara de dar-se conta de que havia um fator muito mais importante para o rapaz. Um fator que talvez nem o próprio Surtr reconhecesse.
E... Surtr não fora a única razão pela qual desistira de abater o moleque. Até porque o idiota nem mesmo se importava com quem quer que fosse, com exceção de Derrick.
Os olhares.
Percebera um fulgor nos olhares comumente mortiços daqueles homens e meninos. Poderia jurar que o vento trouxera consigo um ar gélido incompatível com o local em que se encontravam. Aquele sangue sobre a terra parecia sussurrar algo que enregelou também a alma de Kulaita. Preferiu não criar mais um mártir naquele dia. Ora, até seu sobrinho imprestável mostrara uma tola e incipiente coragem.
Bem, tola ou não... o ato fora percebido como um ato de coragem.
Não deveria manchar a honra de sua organização. O que ELE fazia era honra. Era o certo, a despeito dos caminhos tortuosos, dos sacrifícios de tantos, inclusive dele mesmo... não matara o próprio irmão em função daquele ideal? Não havia sido algo tão fácil assim como poderiam julgar... necessário, mas não fácil.
Dirigiu-se aos seguranças que o acompanhavam:
— Quero quatro de vocês dentro do quarto, quatro aqui fora, e quatro no corredor. Distribuam-se, não deixem nenhum canto sem observação irrestrita. E não guardem as armas, mantenham-nas sempre à mão.
— Sim, senhor. – Responderam em uníssono, posicionando-se de acordo com as ordens do chefe.
“Eu deveria ir falar com Surtr, mas... melhor deixá-lo se acalmar mais um pouco... com aquele ali, a expressão ‘cabeça quente’ não é exagero... ele pode pôr tudo a perder.”, pensava, enquanto caminhava pelo corredor. Tinha sempre que ter em mente que o controle psíquico de Camus dependia do estado físico, psíquico e mental de Surtr. Conduzi-lo a algum arroubo que resultasse em sua morte significaria a perda de seu item mais precioso naquela grande empreitada.
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—Ainda não acredito que fez uma loucura daquelas! Onde você estava com a cabeça, seu IDIOTA?
— Eu realmente não poderia explicar... quando vi, já estava me jogando entre meu tio e o menino...
— Sabe que seu tio é um covarde que não hesita em atirar em uma CRIANÇA! Por que se seguraria em disparar contra um IDIOTA como você?!?
— Surtr, por favor, fale baixo, alguém pode...
— ESCUTAR? – Berrou o ruivo, parando de andar em círculos pelo luxuoso living. Com a parada brusca, chegou a derrubar um pouco de vodca no tapete de pele de jaguar. – Eu quero mais é que escutem mesmo! Como se eu pudesse temer algo vindo de homens fracos e COVARDES como esses MACACOS que se acham DEUSES!
Derrick suspirou, o copo quase cheio na mão. Sequer tinha disposição de beber. No entanto, conversar com Surtr já se mostrava tarefa infrutífera: além de furioso, começava a embebedar-se...
— Sei que você não tem por que temê-los. Tanto mais depois da manifestação de poder que deu para todos.
— Não se sinta orgulhoso por aquilo – Rosnou o ruivo, pois que percebeu um sorriso de orgulho nos lábios que tanto apreciava...
Dando de ombros, o ex recepcionista atinou:
— É bem difícil de não me orgulhar. Sabendo que fez aquilo por minha causa.
— Vai sonhando. – Surtr cruzou os braços. Deu-se conta de que terminara a bebida e esticou o copo para o amante para que lhe servisse mais.
— Não acha que já bebeu demais por hoje?
— Não acha que isso não é nada de sua conta?
Murmurando um “ai, ai”, o jovem africano fez conforme o asgardiano queria.
— Por que não está me acompanhando como se deve? Não sou boa companhia para você beber?
— Sabe que não sou muito de bebida. Principalmente, não como você. – Derrick respondeu sorrindo.
Com um muxoxo, o Guerreiro Deus sorveu a bebida em generosos goles. Observou o outro, que agora olhava para fora da varanda. Em tom mais ameno, comentou:
— Sabe, sempre pensei que pessoas que vivessem como você dependessem do uso de entorpecentes para suportar a vida que vivem. Drogas, bebidas que fossem... mas você é quase um padre.
— Fala de pessoas que se prostituem?
— Bem – Surpreendentemente, o ruivo pareceu um pouco constrangido. – Não use o verbo no presente. Você não faz mais isso... mas sim. Eu achei que você precisasse da bebida para... enfim...
— Aí que você se engana. – Disse, suavemente. – Só os destinados a cair muito rapidamente se entregam a tais vícios. Os que sobrevivem e vencem nesse meio sabem que o ideal é ficar sempre sóbrio. Sempre no controle. Sempre alerta.
— Alerta? – Surtr franziu o cenho, sem entender. Ou... sem querer entender?
— Sim. Nunca se sabe quem está comprando seu corpo. Alguns não se contentam com isso. Precisam... machucá-lo. Atingir-nos na alma. Na dignidade... na... enfim, não é nada que lhe interesse.
Surtr olhou-o, confuso. De fato, não lhe interessava. Não deveria. Então, por que havia perguntado? De qualquer maneira, já tinha se arrependido. Notando o desconforto do asgardiano, Derrick tentou mudar de assunto:
— Não está preocupado com Aquário? Disseram que a bala não o atingiu com gravidade, mas ele precisará ficar em observação por alguns dias...
— Não estou preocupado com ele. Estou preocupado com VOCÊ.
O jovem africano mirou-o estupefato.
— Comigo? Mas… por quê? Aquário é que foi...
Abandonando em cima da mesa de centro o copo rapidamente esvaziado, Surtr avançou para onde estava Sirham, que apenas viu-o se aproximar, sem ação. O guerreiro enlaçou-o com seus braços e ganhou-lhe a boca aberta de pura surpresa. O beijo foi tão urgente quanto sôfrego, quente, desesperado e ao mesmo tempo doce... doce como os lábios frios de Surtr jamais lhe pareceram doces. Durou tanto tempo que todos os pensamentos que assolavam a ambos foram dissolvidos naquele ardor, naquela paixão que chegava a parecer outra coisa...
— Não quero que morra. – Sussurrou Surtr, assim que pôde afastar-se daqueles lábios que tão divinamente preenchiam o deserto dentro de si.
— E quem disse que vou morrer?
— Se continuar querendo ser heroizinho como hoje, VAI MORRER, eu sei – A despeito do tom de gracejo do amante, Surtr mantinha uma seriedade perturbadora. – Não quero que você morra... não tem permissão de morrer, está me ouvindo? Que toda essa corja morra, que todos esses macacos morram, essas crianças mulambentas... até mesmo Camus! Mas você não...
Derrick parou de sorrir ao ver lágrimas cintilando nos olhos fúcsia. Acariciando-lhe o rosto angustiado, assegurou, com ternura:
— Sabe que jamais vou desobedecê-lo... Surtr...
Ergueu-o nos braços, beijando-o com um sentimento tão imenso que quase queria morrer para não se arriscar a perder aquela sensação...
— Não vou morrer.
— Acho bom... idiota.
Levou-o para o quarto, no qual se amariam por longas e longas horas.
Sim, se amariam.
Ambos sabiam no que, afinal, se convertera o que havia em seus peitos outrora áridos.
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O sol demoraria a nascer, e Surtr a acordar, tanto mais após ao que seu corpo fora submetido: quantidades inimagináveis de bebida para um ser humano comum... e horas e horas dos mais alucinantes deleites... por isso, Derrick vestiu-se sem maiores temores. Deu uma última olhada no corpo alvo desfeito nos lençóis revoltos como o mar da manhã. Seus olhos fulguraram com uma tristeza insólita. Então deixou a alcova, que recendia a sexo e vodca.
Dirigiu-se até o apartamento em que o Santo de Atena encontrava-se encerrado. Os guardas estranharam-no ali, mais por causa da hora avançada do que propriamente por sua presença.
— Meu tio me mandou entregar uma mensagem ao Cavaleiro.
— A essa hora? – Estranhou um dos vigilantes.
— Ele não especificou hora nem quando eu deveria transmiti-la. Ocorre que estou sem sono, e resolvi vir logo. De mais a mais, Surtr está dormindo, e é melhor assim. Kulaita não quer mais que ele fique fazendo escândalos por aí por causa de Aquário. – Disse, sem pestanejar.
A firmeza de seu discurso convenceu os guardas. Deixaram-no entrar, não sem antes avisar os que estavam dentro dos aposentos do francês.
— Vocês, pra fora. O que tenho a dizer para esse sujeito é confidencial. – Sirham ordenou, quase roboticamente, aos vigias que estavam no quarto de dormir, atentos ao paciente que dormia profundamente.
Eles assentiram, um tanto surpresos pela mudança de atitude do sobrinho do chefe. Retiraram-se com presteza. Fecharam a porta com leveza. Derrick considerou-a. Sabia que estavam do outro lado, atentos a qualquer movimentação. Teria que ser rápido.
Parou ao lado do leito. Em voz baixa, mas suficientemente audível para o aquariano, disse:
— Sei que não está dormindo. Talvez não tenha dormido nenhuma hora.
Os incomuns olhos índigo mostraram-se entre cílios de semelhante cor.
— Eu nunca imaginaria que o SEU cosmo fosse ressonante com o meu.
— Nem eu. – Admitiu o africano, disfarçando a insegurança que sentia por falar a sós com o poderoso Cavaleiro.
Olharam-se por alguns segundos que pareceram horas.
— Você foi muito corajoso. Seu tio podia tê-lo matado.
— Não estou aqui para ouvir seus elogios. – Rebateu, cerrando os punhos. – Vim saber como posso AJUDAR.
Camus fitou-o com severidade.
— Sabe que isso pode significar?
— Eu já perdi uma vez. Posso aguentar outra vez. – Falou Sirham, com uma melancolia logo notada pelo homem acamado.
— Acho que desta vez é diferente.
— Sempre é. O que não muda o fato de que é apenas um ciclo que não se encerra. E... Aquário... — Hesitou, engolindo em seco antes de comentar — eu não sabia que meu tio iria realmente matar aquela menina... pensei que ele só quisesse te intimidar... e... bem... eu estava enganado.
— Mas o menino no garimpo... está bem... graças a você, Derrick.
— E a você também.
— Então somos aliados...?
— Acho que podemos usar essa palavra. – Suspirou antes de completar – Não é porque fui sempre um cativo das circunstâncias que me cercavam que vou querer o mesmo destino para crianças inocentes... inocentes como eu era... o MEU POVO, afinal. Não é justo que VOCÊ, um estrangeiro, um maldito europeu, cumpra o papel de salvador dessas pessoas. Mas... você não se importa com o que possa te acontecer. Você daria a vida por esses desvalidos.
— É o que fazem não somente os Santos de Atena, mas também homens que aqui estão... homens como seu pai, Derrick...
— É, mas ele acabou virando uma pessoa ruim...
— Não é só você que se torna “cativo das circunstâncias”.
— É. Talvez não. Então... me diga o que posso fazer para que você se livre do controle psíquico do implante asgardiano.
— Tem certeza de que quer fazer isso? Perderá o homem que ama.
— Por quê? – Espantou-se. – Ele deve morrer para que você possa usar o cosmo para se contactar com seus companheiros?
Balançando a cabeça em uma negativa, Camus esclareceu:
— Não. Apenas ficar momentaneamente fora deste plano será suficiente.
— Fora deste plano? Não entendo.
— O espírito de Surt deve abandonar seu corpo por algum tempo. Nesse ínterim, poderei usar meu cosmo para dizer a Milo e aos outros onde estou. E eles virão nos ajudar.
— “Nos” ajudar – Repetiu, quase inaudível. – Eu estou além de salvação. Mas se essas crianças puderem...
— Se nos ajudar, não estará além de salvação. Ao contrário, Derrick, vai encontrá-la.
Sem acreditar nem um pouco naquelas palavras, o jovem, contudo, assentiu.
— Diga-me o que devo fazer, Cavaleiro.
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—Hum... aah... minha cabeça... oooh... – Gemeu Surtr, revirando-se no colchão perfumado. Aquele cheiro de amaciante, colônia, bebida e sexo contribuíam para o latejar em suas têmporas. Apertou-as, no afã de conter aquela dor detestável.
Em Asgard podia beber o quanto quisesse, nunca sentia um décimo daquele mal estar. O que havia nas horríveis bebidas das pessoas comuns? Na certa tal ocorria porque as bebidas dos ordinários não eram consagradas a Odin... ou preparadas com a Água da Vida... infelizmente, ele só lembrava daquilo tarde demais, quando estava cativo daquele horror que chamavam de “ressaca”. Ouvira dizer que o estado de espírito de quem bebia poderia influenciar na má recepção do organismo...
Divagava assim quando esticou o braço para o lado, procurando pelo amante. Somente encontrou lençóis.
Derrick não estava ali.
Mas para onde teria ido?
Ergueu-se tão de repente que sua cabeça foi atingida por pontadas tão agradáveis quando os raios de Thor.
— Unng! De... Derrick... onde...
Levantou-se da cama, a raiva substituindo o torpor. Como o outro tivera a audácia de abandoná-lo ali, nu, sozinho, fora de ação? Caminhou trôpego pelo quarto até a saleta que antecedia o cômodo. Lá estava ele, recém saído do banho, toalha ainda sobre os ombros úmidos, sentado à mesa já posta para o desjejum. Surtr não conseguiu evitar um sorriso misto de alívio e satisfação.
— Que esfomeado você é... nem ia me esperar para tomar o café da manhã? – Alfinetou, indo até ele.
— De jeito nenhum. Sentei apenas para tomar um copo de água. Imaginei que tivesse acordado com o barulho da porta da suíte.
— Pra falar a verdade, não ouvi nada... – Sentou-se. Espreguiçou-se como um felino. – Dormi como uma pedra.
— Devido à bebida, creio.
— Não apenas a isso, creia-me – Deu-lhe uma olhadela maliciosa.
— Você estava insaciável esta noite. Quis até assumir outras posições...
— Variar é preciso. Claro que tenho minhas preferências, mas... aah...
— O que foi? Ressaca?
— É o que parece...
Derrick fez um gesto de desaprovação.
— Depois de três garrafas de vodca... você realmente não é um cara comum.
— Você, melhor que ninguém, devia saber disso, meu querido.
“Meu querido”.
Não sabia se era real, ou mera maneira de falar. Só sabia que era a primeira vez que ouvia aquelas palavras daqueles lábios finos e rosados. Sentiu o coração comprimir em seu peito.
— Que merda... e hoje tenho reunião com seu titio e os líderes das outras nações que formam Shamallah... – Resmungou o ruivo, apertando a cabeça entre as mãos.
— Quer um remédio?
— Acho que não é questão de “querer”... vou precisar!
— Vou pegar no banheiro. Tente comer alguma coisa para não engolir a medicação de estômago vazio.
O ruivo botou a cabeça na mesa, seus cabelos escarlates espalhados sobre a superfície vítrea.
— Impossível... se eu comer um grão que seja, vou vomitar até meus órgãos.
— Certo. Eu já volto.
Derrick entrou no banheiro. Olhou-se ao espelho, já sentindo-se a última criatura da terra. Mas cercando seu reflexo emergiam semblantes de crianças, adolescentes, homens usados, torturados, aviltados... seres pelos quais o inimigo de seu amado lutava, usando a própria carne como escudo.
Por que não aparecera alguém como Camus quando era ELE, sozinho no mundo, alcançados por mãos imundas que mudaram todo o curso de sua vida...
“Que besteira. Que vida eu teria, se não tivesse feito tudo que fiz”, pensou, abrindo a mão que antes enfiara no bolso da calça. Ficou olhando demoradamente a drágea que o Guerreiro do Santuário lhe entregara. Nem teria a necessidade de dissolvê-la ou misturá-la em alguma bebida.
Porque Surtr confiava nele.
Sim, confiava.
E ele o trairia.
Apertou a drágea na palma até que suas unhas ali marcassem diminutas luas.
Um caminho sem volta.
Perderia tudo.
Mas, afinal, o que tivera?
A visão do sangue de Camus tingindo a terra em que nascera demoveu-o daquele pedestal vaporoso de ilusões.
Voltou para a sala de estar. Surtr continuava com a cabeça baixa, gemendo e resmungando de quando em quando. Virou o jarro de cristal que continha água em um copo.
— Aqui está, Surtr. Tome isso e vai se sentir logo bem.
— Obrigado.
Aquele agradecimento arrastado atingiu-o. Esteve prestes a agarrar a mão do ruivo, que levava à boca a droga...
— Surtr... escute... não...
— Sabe o que estive pensando, Derrick?
— Hã?
Viu o asgardiano engolir o “remédio”, em meio a uma careta.
— Uff. Foi. Que comprimido grande, por Odin!
— Surtr...
— Então, eu estive pensando... que tal fazermos uma longa viagem ao redor do mundo, assim que seu tio conseguir formar o maldito exército que tanto quer?
— Uma... viagem?
—Sim. Acho que você gostaria de ver o mundo civilizado... obviamente não poderíamos pisar nem na Grécia nem no Norte da Europa, hehehe... mas... quem sabe... – Semicerrou os olhos. – O mar do Caribe... as... ilhas... da...
— Sim, eu adoraria – Disse Derrick, segurando a mão de seu grande amor, que principiava a desfalecer.
— Isso... se você não... fizer... ne... nhuma... bes... tei...
Antes que atingisse o chão, o africano amparou-o.
Surtr se fora.
Tomou-lhe o pulso.
Fraco. Tão fraco, que dir-se-ia estar partindo.
E, com efeito, estava.
— Surtr... me perdoa...
Ajoelhado no carpete branco, sustentando o corpo aparentemente sem vida do asgardiano, beijou-lhe os lábios já gelados.
********
Em seu leito de convalescente, Camus sentiu algo romper-se dentro de si. Não era uma sensação física, tratava-se mais uma impressão. Algo que iluminou sua mente, espantando as amarras a que foram submetidas seu poderoso cosmo de Santo de Aquário. Estilhaçava como cristais de gelo, aquecendo-lhe o peito de tal forma, que ele teve que se levantar da cama. Imediatamente a temperatura do quarto começou a baixar. Assim como a da saleta que o precedia, e até a do corredor. Antes mesmo que os seguranças se dessem conta de que algo estranho estava em andamento ali, Camus fechou os olhos e bradou em seus pensamentos, que foram longe, tão longe, longe como apenas os corpos celeste podem ir...
“Milo! Milo, pode me ouvir?”
A muitos, muitos quilômetros dali, Milo desferia rajadas de seu cosmo rubro contra tanques que tentavam tomar de assalto o acampamentos dos rebeldes que encontraram no caminho. Sobre um veículo devastado, do qual retirava homens inconscientes, seu corpo foi varado por uma estranha energia, gélida e familiar, muito familiar.
— CAMUS! – Acabou gritando, chamando a atenção de seus companheiros.
“Milo!”
“Camus! Por Atena! COMO VOCÊ ESTÁ? ESTÁ FERIDO?”
“Estou bem, não se preocupe comigo.”
“Está bem MESMO? Não minta pra mim! Se esses malditos tiverem encostado um só dedo em você, eu...”
“Não é hora de tagarelar, Escorpião... venha me buscar.”
“Eu vou, mas... por favor, preciso saber como você está de verdade, tô aqui morrendo de preocupação, e também...”
“Vamos deixar pra conversar mais tarde, NA CAMA... que acha?”
“MAS É CLARO! CHEGO EM SEGUNDOS!”
“Cuidado, Milo, há reféns por todos os lados... talvez por toda a área... farei minha parte enquanto você não chega.”
“E Surtr? Se você está falando comigo, isso quer dizer que ele...?”
“Não, ele está vivo. Longa história. Te conto depois... na cama...”
O diálogo psíquico deu fogo novo ao Santo, e em vários outros sentidos. Mal viu a poeira levantada de novos jipes com guerrilheiros que se aproximavam, disparou um poderoso feixe de energia na direção. A explosão foi imediata, e os rebeldes comemoraram felizes.
— Milo! Senti o cosmo de Camus agora mesmo! Estava falando com ele? – Gritou Aioria, ajudando a prender os sobreviventes da Brilho da Honra que ousaram atacá-los.
— Estava sim, ele está bem!
— Graças a Atena! Que bom que conseguiu se livrar do controle do implante! – Dirigiu-se para o amigo. – Mas se ele conseguiu, quer dizer que Surtr morreu?
— Camus disse que o desgraçado tá vivo. Bom, mas o que importa agora é ir imediatamente para lá. Há reféns.
— Então, o que estamos esperando? Vamos nessa!
— Esperem um pouco!
Os dois Cavaleiros voltaram-se para Frodi, que juntava-se a eles naquela reunião emergencial.
— Ao invés de vocês dois irem para junto de Aquário, sugiro que nos dividamos. Eu vou com Milo, e Aioria fica aqui com Sigmund.
— Mas por quê? – O leonino inquiriu.
— Surtr é responsabilidade nossa – Frodi apontou para Sigmund e para si mesmo. – precisamos levá-lo com vida para Asgard, para que ele seja julgado pelas leis de NOSSA nação.
— Por acaso, depois de todo este tempo, você não confia em mim? Tá achando mesmo que vou matar o calhorda?
— Desculpe, Milo, mas meus deveres como Guerreiro Deus estão acima de qualquer coisa. Confio em você. Não confio é em Surtr. Você pode se ver OBRIGADO a neutralizá-lo de uma forma extremada.
Cruzando os braços, o escorpiano torceu os lábios em uma careta de descaso.
— Tá certo, tá certo. – Virou-se para Leão. – Você fica com Sigmund, Kadija, Ray e os outros. Mas procurem avançar. Esperamos vocês lá.
— Não se preocupe, já sei que caminho tomar. Seu cosmo está ressoando com o meu, dando todas as informações. Só me livrar de um lixo aqui e ali e me junto a vocês logo logo.
Sorrindo, Milo assentiu. Em seguida, olhou para Frodi, já a postos para a partida.
— Vamos?
— Quando quiser, Escorpião.
Ninguém pôde ver, de fato, a partida dos dois guerreiros sobre-humanos. Simplesmente desapareceram em um feixe de luz dourada, em meio a exclamações de surpresa de todos, com exceção do Cavaleiro e do Guerreiro Deus que permaneceram no acampamento rebelde encontrado no trajeto.
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No garimpo, sentiu-se algo diferente no ar. Homens, adolescentes e crianças que trabalhavam estremeceram ante a brisa gelada que soprou.
— Por que está esfriando assim de repente? – Perguntou um capataz, olhando para o céu que nublava estranhamente rápido.
— Que coisa esquisita, nunca faz frio aqui – Espantava-se outro, distraído com as nuvens revoltas pelo vento álgido.
Kulaita, no cume da elevação da qual observava os campos, logo percebeu do que se tratava:
— Aquário!!!
Pegou o celular e tentou se comunicar com os vigias que ficaram tomando conta do prisioneiro.
Nada. Nem um único sinal. De nenhum deles.
Estremeceu ante uma desconfiança que tanto o atemorizava. Gritou para os subordinados que o acompanhavam:
— Vamos voltar à mansão! RÁPIDO!
Os homens não perderam tempo questionando a ordem do líder terrorista. Prontamente foram buscar os jipes e partiram para a sede do Q.G. da Brilho da Honra.
Chegando lá, não encontraram vivalma nos pátios externos. Kulaita muniu-se de uma pistola e avisou aos que estavam consigo:
— Mantenham suas armas a postos! Vamos entrar.
Adentraram a edificação com toda cautela de que eram capazes. Não se via uma só pessoa, pelo hall de entrada, pelo vasto salão, pelas escadas. Tampouco se ouvia qualquer som.
— Meu Deus, como está frio aqui! – Balbuciou um dos terroristas, batendo o queixo enquanto avançavam pela escadaria de mármore.
— OI! TEM ALGUÉM AÍ! RESPONDAM! – Berrou outro, apreensivo.
Ao chegarem ao andar superior, viram dezenas de corpos espalhados sob finas e brilhantes crostas de gelo. Aterrorizados, tentavam entender o que se sucedera. Tremendo de frio, Kulaita rosnou:
—Aquário... então ele se libertou... não sei como, mas...
Eis que de um cômodo o Santo de Atena surgiu, cabelos elevando-se no ar, envolto pela névoa de seu poderoso cosmo. Um forte vento gelado emanava de seu corpo, totalmente recuperado.
— VOCÊ! COMO...
Os subordinados de Kulaita empunharam as armas, apavorados com a possibilidade de terminarem congelados como seus companheiros. Em menos de um segundo, estavam inutilizadas pelo gelo!
— Não consigo atirar!
— Nem eu!
— Também não!
— Que pena, porque EU consigo – Ironizou o francês, brandindo a mão direita na direção dos bandidos, dos quais alguns já haviam se virado para correr. – PÓ DE DIAMANTE!!!
Gritos ecoaram por meros segundos antes de a casa mergulhar novamente no silêncio. De pé, apenas Kulaita, trêmulo de frio e ódio. Ao seu redor, seus homens jaziam congelados, como os demais que haviam encontrado antes.
— Deve ter um bom motivo pra ter me poupado, seu maldito – Disse entre dentes.
— Você dará a ordem ao supervisor do garimpo para que liberte os jovens. Agora mesmo.
— Que está dizendo?...
— ESSE é o motivo pelo qual te poupei. Faça conforme estou ordenando, se não quiser se juntar aos seus lacaios no chão.
Um sorriso odioso brotou na face do líder terrorista,
— Por que é que VOCÊ mesmo não vai até o garimpo libertá-los, Príncipe do Gelo?
Camus apenas fitou-o, sério.
— É porque com todo seu poder não teria como salvar a todos, não é mesmo? Meus homens receberam orientações para atirar em TODOS, a começar pelas CRIANÇAS, caso você apareça por lá dando qualquer showzinho. – Gargalhou Kulaita, sem arrancar qualquer palavra ou mesmo expressão do homem à sua frente. – Vamos, Aquário, você está em desvantagem aqui. Desista e prometo que só vou matar DEZ meninos por essa sua insurgência, ao invés de CEM!!!
— Você não vai matar mais ninguém, Kulaita, a não ser VOCÊ mesmo, se não fizer o que mando.
O líder terrorista eliminou o sorriso do rosto enfurecido. Em dias passados acreditaria que Camus estivesse blefando, mas não agora... com tantos corpos pelos corredores.
— Matou mais pessoas do que eu matei em todos esses dias... – Tentou provocá-lo. – E ainda se arvora um honrado guerreiro a serviço da paz...
— Que aconteceu com a admiração que tinha por seu ídolo, Leopoldo II, que dizia ser justo matar cem pessoas para que quinhentas sobrevivessem? Não concorda mais com o discurso?
— Mas VOCÊ não faria isso...
Camus deu um meio sorriso. O cosmo brilhou em volta de seu corpo. Kulaita começou a sentir uma dor absurda subindo-lhe pelas pernas.
— AAAAHHH! NÃÃÃO!
— Suas pernas estão congelando. Eu poderia te congelar por inteiro, imediatamente, mas quero dar a chance de você se mostrar um homem razoável, e mudar de ideia...
— PAAARE! MALDITO! ESTÁ DOENDOOO!!
— Sim, é o que costuma acontecer quando partes do corpo de um homem são atingidas pelos rigores do gelo...
— AAAAHHH! DESGRAÇADO... E-EU VOU... AAAAH!!
Súbito, ouviu-se uma explosão distante. E outra. E mais outra.
“Milo chegou!”, temeroso de que os capatazes abrissem fogo contra os escravos, Camus intensificou seu poder, chegando até as coxas e a virilha do maioral da organização. Este deu um berro inumano.
— Ordene a seus homens que joguem fora as armas. AGORA, KULAITA!
— Tio!!!
Derrick surgira no corredor, carregando Surtr desacordado nos braços.
— DERRICK! Que houve com Surtr? – Demandou Kulaita, com o celular na mão. Olhou com raiva para o aquariano – Então é por isso que Aquário... bem, agora é tarde. Liberte-me, Cavaleiro, ou darei exatamente a ordem que você tanto teme... para que ABRAM fogo contra os cativos!...
— Eu cuido disso, meu tio! – Disse Sirham, arrebatando-lhe o aparelho da mão, isso após ter colocado Surtr no chão.
— ISSO, DERRICK, FAÇA ISSO! MANDE QUE MATEM OS MISERÁVEIS!
Mais explosões foram ouvidas. Para a surpresa de Kulaita, Derrick começou a filmar o local onde estavam, fazendo uma transmissão instantânea.
— O QUE ESTÁ FAZENDO, DERRICK?
— Prestem atenção: sozinho, o Príncipe do Gelo, já MATOU cinquenta homens aqui no Q.G., e o próximo será o “nosso” líder amado, Kulaita, caso não cedam às exigências...
— NÃO! CALE A BOCA, SEU IMBECIL!!!
— Aquário exige que cedam a tudo que seus companheiros recém chegados ordenarem, e, principalmente, que DESCARTEM suas armas. Não devem atirar nos cativos sob hipótese alguma, ou uma verdadeira tempestade de gelo vai matar a TODOS nós!
— Eu disse PARA CALAR A BOCA! – Kulaita sacou a pistola e apontou para Surtr, inconsciente, encostado à parede.
O jovem deteve-se, aturdido.
— Hehehehe, seu traidorzinho de merda, se não quiser ver os miolos do seu namoradinho, vai me entregar esse celular agora mesmo...
Derrick virou-se para Camus, com o olhar suplicante. O aquariano parecia totalmente indiferente. O rapaz abriu a boca, tomado de horrível estupor. Será possível que Aquário deixaria Kulaita atirar em Surtr? Certo, não que faltassem motivos ao Santo, mas...
— Você tem cinco segundos para me entregar esse celular Derrick. – Ameaçou o terrorista. – A partir de agora... CINCO... QUATRO...
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No garimpo, os capatazes, soldados e demais integrantes da Brilho da Honra foram rapidamente rendidos pelos fantásticos guerreiros que chegaram em meio a um feixe dourado que desceu dos céus. Como poderia enfrentar homens que com um erguer de mãos mandaram para os ares jipes, barracas e dezenas de integrantes do exército separatista?
— Vamos, reúnam nossos irmãos! – Gritou Zarina, para soldados que já haviam se aliado à causa de Themba, e planejado anterior e secretamente a cobertura quando da chegada da ajuda.
Também ela atirava contra os subordinados de Kulaita, desviando-se como podia dos revides. Homens vieram proteger a bisneta do ancião, alguns sendo abatidos no processo. O garimpo tornou-se um verdadeiro campo de guerra: os jovens e crianças, percebendo do que se tratava, passaram usar suas ferramentas como armas, afinal, também queriam lutar por sua liberdade... e pela liberdade de sua terra.
— Integrantes da Brilho da Honra! Entreguem-se pacificamente e pagarão por seus crimes EM VIDA! – Bradava Milo, desferindo seu espantoso poder por todos os lados, juntamente com Frodi, cujo poder de semelhante maneira causava estragos e pavor.
A maior parte deles acabaram por acatar. Como enfrentar um poderio como aquele? Os que resistiram, o fizeram no sentido de tentar fugir, no que foram frustrados, tanto pelos cativos, quanto pelos rebeldes de Themba, sob comando de Zarina.
“Camus, está tudo controlado aqui no garimpo! Por que ainda está nessa casa?”
“Digamos que estou com um problema a resolver aqui.”
“Quer ajuda?”
“Não, o mais importante é vocês salvarem essas pessoas.”
“Você também é importante para mim, sabe muito bem disso.”
“Não sou eu quem está em perigo.”
“Não? Então quem?...”
O silêncio do francês foi o suficiente para Milo inferir:
“SURTR? Ora, deixa o filho da puta virar ADUBO!”
“Desculpe, Milo, preciso cuidar disto aqui, você cuida de tudo aí fora.”
“QUÊ? CAMUS, NÃO OUSE ME DEIXAR FALANDO SOZINHO... CAMUS? CAMUS!!!”
— MAS QUE MERDA, CAMUS – Vociferou. E partiu para fazer um tanque de guerra em pedaços com sua unha escarlate.
— Vejam! Helicópteros! – Gritaram, apavorados, os que ainda estavam vulneráveis em espaço aberto.
— Serão amigos ou...
Frodi sequer terminou o questionamento. Rajadas de metralhadoras choveram sobre a terra e sobre corpos indiscriminadamente.
— Eis a nossa resposta. Vamos responder a eles também, Frodi!
— Com certeza!
Em segundos, o poder combinado dos guerreiros atingiu os helicópteros, fazendo-os sumir em meio à espessa fumaça negra.
— Cavaleiros! – Gritou Zarina, para eles. – Nossos companheiros acabaram de nos avisar que tropas da Brilho da Honra que aguardavam sinal no norte de Shamallah estão se dirigindo para cá!
— Moça, guie seus amigos e quantos mais puder para longe daqui. Não vamos poder nos conter mais. – Ordenou Milo.
— Quê? Estavam “se contendo”?!?
— Mas é claro. Precisávamos zelar pelos inocentes – Frodi esclareceu, tão natural que parecia até gozação.
— Tudo bem então – Ela acatou, gritando para os aliados. – Venham comigo, todos. Atirem em quem tentar nos impedir! Os Cavaleiros precisam da área limpa pra lutar com tudo!!!
— Ei, não sou um “Cavaleiro” – Murmurou Frodi, com expressão de cômico desagrado.
— “Guerreiro Deus” não é um termo muito popular, pelo visto, além de meio prepotente, amigo. – Milo brincou, já concentrando seu cosmo para o que viria a seguir.
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— ...TRÊS... DOIS... O... O QUÊ???
Com um grito horrível, Kulaita viu a pistola e sua mão totalmente envoltos por cristais de gelo que multiplicavam-se inexplicavelmente.
— Enquanto você estava demonstrando suas incríveis capacidades matemáticas, eu congelei seus tendões e músculos. Agora posso partir para os seus braços e o resto de seu corpo...
— IAAAARRRGH!!!!
— Derrick! Tire Surtr daqui! Vamos! – Ordenou Camus.
O jovem assentiu. Correu para onde deixara o asgardiano desacordado. Não esperava que um soldado virasse o corredor, a pistola empunhada enquanto projetava-se em um salto para o lado...
— Atena, NÃO! – O Santo bradou, prontamente direcionando seu poder congelante para o inimigo recém surgido. Mas um milésimo de segundo... foi o suficiente...
Derrick saltou sobre Surtr, protegendo-o do único tiro que saíra da pistola, recém congelada como o corpo que caía ao solo.
Protegendo-o com SEU PRÓPRIO CORPO.
— DERRICK!!! – Gritou Camus, seu coração como que atingido por aquela bala também.
Sob as horrendas gargalhadas de Kulaita, paralisado como uma grotesca estátua de gelo, apenas com a cabeça preservada, Camus correu para amparar o jovem que precipitava ao chão.
— Derrick! Derrick, fique comigo! Abra os olhos! – Chamou, sacudindo-o de leve.
Gemendo dolorosamente, o africano abriu os profundos olhos negros.
— A... Aquário... Surtr... ele...
— Ele está bem. Graças a você. Agora fique quieto. Procure não falar.
O sangue já encharcava-lhe o peito, repleto de joias.
— E-eu... Aquário... quero me despedir dele...
— Isso não será necessário. Você não vai morrer.
— S-Surtr... eu... eu o... a... amo...
— Não, por favor! Aguente firme! – Suplicou Camus. Sem perceber, derramava lágrimas sobre o jovem moribundo. – Espere ele acordar... e-eu... eu sei que ele te ama também...
— N-não... ele não me ama... mas... – Tossiu, expelindo sangue em profusão pela boca. – I-isso não importa...
— É CLARO QUE IMPORTA.
Camus e Derrick surpreenderam-se com a imagem de Surtr de pé.
— Camus... me permite...? – Pediu, com voz sumida.
Comovido, o francês fez que sim com um gesto de cabeça. Passou para os braços de seu inimigo o jovem que estava à beira da morte.
— Derrick... por que fez isso? Por quê? Seu idiota… – O Guerreiro Deus murmurou, entre lágrimas, enquanto embalava o amante mortalmente ferido.
— Justamente... p-porque sou um idiota... – sorriu; tossiu horrivelmente, quase engasgando-se.
— Você estava errado sobre uma coisa.
— O... o quê...?
Surtr contraiu os olhos banhados de pranto sentido.
— Sobre eu não te amar... seu idiota...
Sorrindo pateticamente, Derrick levou a mão ensanguentada até o rosto de Surtr. O ruivo segurou-a, apertando-a contra a face molhada. Então sentiu-a pesada...
— Derrick... – Sussurrou...
Sabia que seu chamado era em vão.
Depositou o corpo do amante no chão. Pôs-se de pé, quase sem enxergar nada, tão profuso era o seu pranto. Então olhou na direção de Camus, que a tudo assistia consternado. Declarou, repleto de dor e ódio:
— Você é um homem MORTO.
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