O Brilho da Honra
37 Certas Coisas Nunca Mudam
Notas iniciais
Dos olhos fúcsia do homem que um dia fora grande amigo seu, chispas de fogo emanaram furiosamente.
Mesmo as lágrimas evaporavam antes de se precipitarem. Camus não se surpreendeu de todo com a ameaça de Surtr: sabia que a dor consumiria por completo qualquer resquício de racionalidade que porventura ainda residisse no asgardiano. O homem que o ruivo amara jazia aos pés deste. Saber que a maior parte da culpa daquilo residia em seus próprios ombros não aplacava a ira de Surtr, nada, nada. Com estudada cautela, o Santo de Atena sentenciou:
— Surtr… não quero lutar com você. Não em um momento como ESTE.
As narinas do asgardiano dilataram-se ante a respiração desordenada. Seus punhos contraíram-se a ponto de irradiar fumaça.
— O que você quer ou deixa de querer não me importa nem um pouco, Camus... – Dito isto, invocou a espada de fogo, manifestação máxima de seu poder de Guerreiro de Odin. Disparou as mortíferas chamas na direção de Camus. O francês saltou com graça e perícia, esquivando-se sem dificuldade alguma do golpe do ruivo. Ao fazê-lo, porém, deu-se conta de que em NENHUM MOMENTO havia sido ELE o alvo...
— IIIIAAAAAAAAAARRRRRGGGH!!!! – Ecoou pelo salão devastado o medonho grito de Kulaita, preso no gelo e agora envolto em chamas.
O francês bradou alarmado:
— NÃO, SURTR! NÃO FAÇA ISSO!!!
— AAAAARRRRGHHH!!! – Os berros quase inumanos perpetuaram durante o embate dos dos guerreiros...
— E POR QUE NÃO, Camus? Me dê um motivo, UM MOTIVO SÓ!
— Posso dar mais do que UM! Para começar, isso NÃO TRARÁ DERRICK DE VOLTA!
Surtr estreitou os olhos ao murmurar:
— Você é um PÉSSIMO negociador, sabia?
E aumentou a potência das flamas, a fim de vencerem por completo o gelo do aquariano.
— NÃÃÃÃO!!! S-SOCOOORROOO! AQUÁRIO! AQUÁÁÁRIOOO!!!
Prontamente Camus conduziu rumo ao terrorista uma potente corrente de ar gelado, a fim de dissipar o fogo assassino.
— Surtr, ME ESCUTE!
— Claro, qual vai ser o argumento CONVINCENTE da vez?
— Kulaita tem que RESPONDER pelos crimes que cometeu! De seu julgamento, muitas outras informações sobre organizações similares à dele poderão vir à tona! Talvez até sobre aliados remanescentes...
Retraindo as espirais flamejantes, Surtr considerou longamente o Cavaleiro.
— E você acha que eu dou a MÍNIMA pra essa merda toda? – Bufou, ao mesmo tempo em que finalmente uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto endurecido. – Eu só quero ver esse desgraçado MORTO... e se pra isso eu tiver que enfrentar VOCÊ, não ache que vou hesitar...
— Eu não acho que você vai hesitar. Mas saiba que eu TAMBÉM não vou hesitar.
Na velocidade de um cometa, o Guerreiro Deus lançou-se na direção do Santo que tentava bloquear-lhe o caminho. O ruivo não conseguiu acertar o golpe que queria; em contrapartida, Camus tampouco efetuou qualquer dano no jovem. Sem demora, Surtr disparou numerosas rajadas espirais de fogo contra o francês. As chamas, rebatidas pelas correntes árticas, atingiram o teto congelado. Como se fosse a terra se partindo sob o poder de um terremoto, a estrutura começou a se fragmentar ruidosamente.
— Surtr, Derrick JÁ comunicou à Brilho da Honra a derrota deles! Por que continua...
Distraído em sua argumentação desesperada, o aquariano foi surpreendido por um cilindro de fogo ao redor de seu corpo. Ainda que seu cosmo gelado tivesse protegido-o de maiores danos, sentiu o golpe, a ponto de gritar de dor.
— IMBECIL! JÁ DISSE QUE NÃO LIGO MAIS PRA ESSA MERDA TODA!
— E... então... é só vingança mesmo... vingança por... – Segurando o braço chamuscado, Camus dirigiu um olhar pesaroso ao jovem africano estendido no chão, imóvel sob uma enorme poça de sangue.
— SÓ? “SÓ” VINGANÇA? – Vociferou o asgardiano, antes de empreender nova investida. Desta o Santo escapou, consciente de que a ira potencializava os poderes do adversário. – Você é um maldito HIPÓCRITA, Camus! Sempre foi!!!
— C-como?
—E se fosse o seu AMADO MILO ali, no lugar de Derrick? Você não iria querer MATAR esse FASCÍNORA? – Apontou, trêmulo, para um quase inconsciente Kulaita, ainda preso ao que assemelhava-se a um iceberg, agora retorcido pelo fogo. As partes de seu corpo que haviam se livrado do gelo estavam horrivelmente queimadas. Seus gritos converteram-se em gemidos baixos e intermitentes, quase como balidos de cordeirinhos bebês.
— É claro... mas... eu ouviria antes o dever...
— CONVERSA! É fácil você dizer isso... NÃO FOI VOCÊ QUE PERDEU O HOMEM QUE AMAVA!!!
— Surtr... – balbuciou Camus, tão comovido que acabou baixando novamente a guarda.
Súbito, o teto começou a ruir em algumas partes. Ao ver imensos pedaços de concreto caindo, o asgardiano virou-se para trás, gritando entre lágrimas:
— DERRICK!
Correu até ele, dando as as costas para Camus. Este, inconscientemente brandiu as mãos na direção do homem que esquecera-se da luta. Contudo, cerrou os olhos com força. Como poderia atacar Surtr naquela circunstância? O ruivo só queria proteger o corpo do amado... mesmo que a vida já houvesse deixado-o!
Um bloco gigantesco desprendeu-se do teto, logo acima de Camus. O francês mal teve tempo de piscar. Praticamente no mesmo instante seus pés deixaram o chão, e ele já estava do outro lado do salão, nos braços de...
— MILO!
— Desde quando você ficou descuidado desse jeito, seu IDIOTA?
Absurdamente feliz em ver o namorado, Camus sorriu ao responder:
— Desde que me tornei um IDIOTA... você sempre disse que eu era um, não?
A resposta de Escorpião foi um beijo tão urgente quanto inesperado. Invadiu a boca do outro sem qualquer cerimônia, vencendo-lhe instantaneamente as barreiras como se há horas já estivessem se beijando. De repente, o francês desprendeu-se do amplexo, perguntando:
— Mas como?... e o povo? E as crianças...?
— Os líderes receberam a mensagem do sobrinho de Kulaita e se entregaram na hora... mas, por falar no maldito Kulaita... cadê...
— Ali – Apontou Camus, hesitante.
Milo fez uma careta ao ver o estado do inimigo.
— PUTA MERDA, ele tá parecendo um chiclete mastigado, cuspido e pisado no chão! Desde quando você ficou mais cruel que o Mask?
Balançando a cabeça vigorosamente, o aquariano tencionou explicar:
— No início foi realmente para imobilizá-lo, mas depois, foi para PROTEGÊ-LO das chamas de Surtr...
— Surtr? Surtr atacou ele? – Coçou a cabeça, confuso. – Mas os dois não eram aliados?
— Eram... até... – Novamente, Camus usou o indicador para apontar algo a Milo. No caso, agora, um soluçante inimigo por sobre um corpo jovem e negro.
Estarrecido, Milo mirou Camus, e, em seguida, berrou para Surtr:
— SEU IDIOTA! QUE PENSA QUE TÁ FAZENDO? Não tá vendo que vocês abalaram as estruturas deste lugar e que em pouco tempo esta merda TODA virá abaixo?
— Milo... – Rosnou Surtr, com mais cansaço que ódio. – Vocês dois podem ir... VÃO! VÃO E SEJAM FELIZES! – Gritou, a cólera dorida vencendo por fim.
— Não é à toa que vocês eram amigos – Disse o grego, fitando o amante. – São dois IDIOTAS mesmo.
Sem entender, Camus viu Milo afastar-se e caminhar rumo ao desgraçado casal, que tão triste fim encontrara. O Santo de Escorpião deteve-se diante de Surtr. Este encarou-o furioso.
— O que você quer? Ah… quer se satisfazer vendo a MINHA dor, não é? Quer se VINGAR me vendo chorar a MORTE do homem que EU amei? Quer...
Um pontapé de Milo fè-lo voar longe.
— MILO! – Gritou Camus, entre revoltado e surpreso.
— Depois cês dizem que EU falo demais. – Murmurou o escorpiano, sem se importar com os gemidos do rapaz que golpeara, no momento completamente desnorteado pela dor e pelo inesperado do ato.
E, para horror tanto de Camus quanto de Surtr, ergueu o punho no ar, deixando livre apenas o indicador, Em um gesto mais veloz que poderia o olho humano acompanhar, o dedo em riste atingiu o flanco esquerdo de Derrick.
— O QUÊ? MILO, QUE ESTÁ...
— SEU DESGRAÇADO, EU VOU...
— Calados, os DOIS IDIOTAS. Vão atrapalhar minha concentração.
Então ambos ex amigos entenderam. Entreolharam-se por longos segundos, pasmados.
— Obrigado. Agora posso trabalhar em paz?
Sem esperar pela resposta, Escorpião acertou mais alguns golpes rápidos no peito ensanguentado do sobrinho de Kulaita.
— Agora eu me lembro – Sussurrou Surtr. Ergueu-se, claudicante, e apoiou-se na parede. – Foi assim que salvou o pupilo de Camus, daquela vez em que o moleque...
— O poder de tirar a vida... e o poder de conduzir à vida... – Camus completou, as íris índigo cintilando como nunca – Você atingiu pontos vitais capazes de... de... de estancar a hemorragia...
— M-mas... mas Derrick... Derrick NÃO ESTÁ...?
— Não. Ele perdeu muito sangue e seus sentidos estão quase no limite. Mas vocês DOIS IDIOTAS estavam mais preocupados em LUTAR do que verificar se o carinha aqui tinha realmente virado presunto.
O francês e o asgardiano encararam-se de novo, constrangidos e ofegantes.
— A hemostasia vai impedir que ele continue a perder sangue... e A VIDA. Eu evoluí ainda mais depois daquela luta com Hyoga, Camus.
— Que quer dizer...?
Milo estendeu a palma sobre o peito ferido de Sirham. Virou-se para o amado e piscou um olho.
— Agora não apenas posso estancar hemorragias, como posso RECONDUZIR o sangue perdido ao corpo... na quantidade necessária para garantir sua salvação. – Esclareceu, com um sorriso triunfante.
O cosmo fluiu de sua mão para o ferimento quase fatal. Derrick moveu-se, um suspiro profundo emergindo de seus lábios sofregamente entreabertos.
— Por quê? Por que VOCÊ ESTÁ SALVANDO A VIDA DELE?
O rosto álacre tornou-se, agora sério, para o autor da indagação.
— Porque é o CERTO a se fazer. – disse o escorpiano, quase grave.
— Ele... ele vai viver... vai viver MESMO? – A voz de Surtr embargou-se em um tom patético.
— Vai, assim como aquele CRÁPULA ali DEVE VIVER. Você entende, Surtr?
Concordar com Escorpião foi quase tão doloroso quanto ter sido alvo de sua ira no hospital.
Neste momento, Frodi saltou de uma das aberturas do teto.
— Está tudo controlado lá fora, Milo. A mansão vai ruir logo, precisam sair daqui. – Alegou. Olhou para Surtr. – Precisa de ajuda para vir? Posso…
— Não é preciso. Não vou fugir ao meu destino.
Estendeu as mãos para o outro asgardiano. Assentindo, Frodi acorrentou-lhes os pulsos. Soldados de Asgard aguardavam por eles do lado de fora. O ruivo não teve remédio senão resignar-se em ver Camus levar Derrick nos braços até os paramédicos, que acorreram inclusive para socorrer Kulaita, trazido por Milo. Urros e brados comemorativos ecoavam por todo o lugar. Themba e Zarina chegaram, acompanhados de centenas de outros que a seu lado lutaram.
— Vencemos, Príncipe do Gelo.
— É, eu sei, Themba. Graças a você. A Zarina. A todos aqui presentes. – Olhou para Surtr. – Até a você, Surtr.
O ruivo virou o rosto, em clara recusa de qualquer nova comunicação. O único lugar para onde seu olhar volvia, despido de indiferença, era para Derrick, inconsciente em uma maca, recebendo atendimento prévio antes de ser introduzido na ambulância.
— Ele vai ficar bem. – Assegurou Milo.
— Eu estava tão cego pelo ódio que sequer percebi que ele não tinha... – Sua voz fez-se subitamente amarga. – bem, acho que ouvir um “obrigado” de mim é a maior vingança que você poderia obter, não, Escorpião?
Milo fitou-o quase inexpressivo.
— Eu só queria que nada disso tivesse acontecido, Surtr. Mas se aconteceu, teve um ponto positivo.
— Bom, estou ANSIOSO por saber qual seria.
— VOCÊ descobriu o VERDADEIRO significado do AMOR.
Os olhos de Surtr arregalaram-se, úmidos. O Santo de Escorpião concluiu:
— Tudo aconteceu por um sentimento que você acreditava ser amor. Não... AGORA... AGORA é amor. O que você sente é AMOR.
Abaixando a cabeça, o asgardiano libertou as lágrimas ardentes.
— E... e por que tem que doer assim? Por que SEMPRE dói assim? – Demandou, o lábio inferior preso pelos dentes para que não se rendesse a um pranto mais “vergonhoso”.
Em gesto semelhante, o grego abaixou a cabeça enquanto tomava a mão de Camus.
— Não sou a melhor pessoa para te responder isso. Mas posso te dizer que NÃO é sempre que dói. E, quando finalmente, nos permitirmos... a dor se vai.
— Milo... – Sussurrou Camus. Virou-se para Surtr. – Talvez você não acredite, mas eu lamento por tudo.
— Não há o que lamentar. Derrick vai viver. E isso é tudo que me importa.
E, sem que nenhum soldado de Asgard o guiasse, deu as costas aos Santos de Ouro rumo a Frodi e seus subordinados.
Rumo à sua condenação eterna.
A morte, a prisão, o desterro... nada mais lhe importava.
E, ainda assim, um sorriso escapou-se-lhe dos lábios sem que ninguém disso se desse conta.
Derrick estava vivo.
Fechou os olhos.
— Estou pronto, asgardianos. Cumpram o seu dever.
*************
Um mês havia se passado. Aldebaran, Máscara da Morte, Afrodite, Aioria, Mu, Shaka, Shura, Dohko, Saga e Kanon enfileirados em um caminho que conduzia até um altar onde a Deusa Atena estava, paramentada como nos tempos imemoriais, sorriam felizes, felizes como as centenas de convidados que esperavam pelo grande momento. Enfim Milo e Camus surgiram, trajando túnicas cerimoniais, longas, brancas e drapeadas, com entalhes em puro ouro, atravessando o corredor formado pelos Santos de Ouro. Rosas brancas e louros caíam dos ares, obra do Cavaleiro de Peixes, conferindo beleza singular à celebração.
O casamento dos Santos de Aquário e de Escorpião.
Atena abençoou-os com seu báculo rutilante. Proferiu algumas palavras em grego arcaico, entendido apenas pelos que teriam poder para entendê-lo. Diante dos noivos, um saltitante Kiki abriu uma caixinha dourada. O peralta só parou de pular ante um olhar repreensivo de Áries. Da caixinha um brilho cintilou: duas alianças, que foram trocadas entre Milo e Camus. Um singelo beijo entre os dois desencadeou palmas, comemorações e assobios. E também choro: Hyoga e Shun eram dos que mais choravam, sob caçoadas dos amigos Seiya, Ikki e Shiryu.
Do anel de ouro branco, os olhos de Camus ergueram-se para encontrar os olhos de Milo. Custava a acreditar... pareceram tantas, tantas vidas de desencontros, de sofrimentos, de provações, de lutas, de batalhas... até a morte experimentara, e mais de uma vez!
Sentia-se tão vivo... vivo como nunca... e queria viver como jamais quisera, agora que chegara, enfim, aonde seu coração queria residir.
— Eu te amo, Camus.
Camus sempre respondia “eu também”, “eu também te amo”...
— Eu te amo, Milo.
Festas como aquela não eram tão incomuns no Santuário, ao menos não em seus milhares de anos de existência. Porém, a todos, tinha um sentido único, especial, pois era a concretização da união de duas almas que, malgrado se soubesse predestinadas uma a outra, tantos foram os percalços, que tal esperança enfraquecera como o sol ao ocaso do mais luminoso dos dias.
A celebração durou dias. A ela não faltaram Santos de Bronze (além dos cinco mais conhecidos), Santos de Prata, habitantes de Rodório, servos de Poseidon, de Odin, de Hades, demais personalidades, e a ela também não faltaram vinho, toda sorte de iguarias, música, danças... parecia que somente alegria existia no mundo, ao menos naqueles dias. O casamento de Milo e Camus ultrapassava o ato em si, tratava-se de algo emblemático, algo que aquecia todos os corações e semeava as esperanças de que, por piores que fossem as coisas, elas sempre, SEMPRE, haveriam de melhorar.
A lua de mel...
Ah, a lua de mel.
Onde mais? Se não na capital mundial do amor?
Paris recebeu os jovens amantes, agora casados, mas ainda amantes, e mais do que nunca amantes, no pleno sentido do termo.
O amor não era nenhuma novidade a eles. A despeito disso, amaram-se como nunca, todos os dias em que estiveram hospedados na Cidade Luz, isso quando não aproveitavam a vida como jovens comuns, o que jamais haviam experimentado... passeios, restaurantes, óperas, concertos, danceterias, cafés, compras... todos dias terminando no calor daquele quarto de hotel cinco estrelas: Milo possuindo Camus, Camus possuindo Milo, um possuindo ao outro, pois que se possuíam, e eram um... sempre fora assim.
Só que agora era oficial.
E até o fim de suas vidas.
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Três meses depois...
—HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! DITE, PAUSA, PAUSA AÍ DE NOVO!
— Nem era preciso pedir, cabeça de boi – Riu Peixes, parando o vídeo novamente na parte que fazia todos explodirem de risadas... e Milo, de raiva.
— Vocês parecem crianças. Não se cansam nunca da mesma brincadeira... – resmungou o escorpiano, braços cruzados e os lábios franzidos em um “bico”contrafeito.
— Mas ver o poderoso e altivo Escorpião sendo carregado como uma princesa pelo “Príncipe do Gelo” é a melhor cena do universo! – Riu Máscara da Morte.
— E podemos vê-la quantas vezes quisermos... – Disse Afrodite, segurando o controle do Blu-Ray com um sorriso sarcástico.
— Camus, faça alguma coisa! Eles não param de ficar me zoando!
— Eu JÁ ESTOU fazendo alguma coisa... gelando mais cervejas para esses pinguços – Respondeu o francês, muito calmamente, enquanto trazia mais dois baldes de long necks para a sala de estar do templo de Escorpião.
— Droga... eu poderia estar morrendo e vocês ficam aí rindo...
— “Morrendo”... você tava era tirando uma soneca pro Camus te tirar de lá numa boa.
— Hahaha, muito engraçado, Kanon, de você não esperava nada diferente. Mas CARALHO, Mu, Shaka, Shura, cês realmente vão continuar a participar desse massacre moral à minha pessoa?
— Deixe de ser dramático, foi um lindo ato de amor – Falou Áries, sorvendo com prazer uma Erdinger gelada como um sonho. Só Camus deixava bebidas naquela temperatura maravilhosa.
— Até o Mu tá ficando gaiato... é a convivência com Debas, só pode!
— Eu não sou gaiato, senhor Milo... sou bem humorado, como todo brasileiro que se preze, fique sabendo.
— Tá, tá, e vão juntar as escovas de dentes que nem a gente também, ou vai ficar enrolando o cabeça de lavanda?
O ariano ficou vermelho como o pimentão dos canapés que abundavam sobre a mesa de centro. Aldebaran pigarreou, corando levemente em função da tez amorenada.
— Vamos sim, oras... ainda que a expressão “juntar as escovas de dentes” não sirva muito para nosso caso... afinal, como não podemos deixar nossos templos sem proteção, não podemos morar juntos.
— Ah, pronto, agora ele tá sendo pragmático que nem o Shaka. – Milo revirou os olhos.
O virginiano sorriu discretamente; comentou com a suavidade característica:
— O importante é que Atena atualmente permite as uniões legais entre seus guardiães. No passado, relacionamentos entre cavaleiros não eram abertamente tolerados, em função da missão primordial de servir somente à Deusa e ao Santuário.
— Pena que ainda não permite casamentos entre Cavaleiros e MENORES DE IDADE, né, Shaka?
— Verdade, Milo – riu Aioria. – Ele deve se ressentir MUITO disso... hehehehehe...
Por um momento, acharam que o indiano iria abrir os olhos, tamanha expressão de desagrado que fez. Mas ele apenas franziu as sobrancelhas aloiradas, e retorquiu, ríspido:
— Ikki NÃO é menor de idade! Ele tem 19 anos!
— Mas ele é JAPONÊS, sua Barbie esotérica – Afrodite deu um tapinha no ombro do virginiano. – Aqui na Grécia, a maioridade é a partir dos dezoito anos. Só que no Japão, é a partir dos vinte. Então SIM, você está namorando com um menor de idade!
— E mesmo que fosse maior de idade, caramba, Shaka, logo você, o “senhor virtude”, o PAPA-ANJO da galera. Devia se envergonhar. – Zombou Kanon.
— Quem deveria se envergonhar é quem se relaciona com INIMIGOS do Santuário.
— Alto lá, SEU VIRGEM, Rada não é mais inimigo do Santuário! Hades agora é aliado de Atena, nenhum de seus subordinados é mais nosso inimigo...
— Mas você já estava envolvido com ele antes mesmo dessa aliança!
— Bom, sabe como é, a gente foi parar lá num mundo estranho juntos, estávamos agarradinhos, rolou um clima e...
— E você, Shura? É o único que não tá amarrado em ninguém. Qualé a sua? – Quis saber Milo.
Camus repreendeu-o.
— Não seja indiscreto, Milo.
— Ei, somos todos amigos aqui, não somos? Qual o problema?
O Santo de Capricórnio enrubesceu, unindo as mãos. Baixou os olhos e, curiosamente, Máscara da Morte e Afrodite começaram a rir.
— O problema é que esse "problema" é NOSSO, venenoso – Câncer respondeu, piscando um olho.
— Hã? “Nosso”?
—Sim, meu e do Dite…
— Isso aí... ainda estamos trabalhando na questão... – o belo Afrodite sorriu entre malicioso e divertido. – ao contrário do que se afirma, nem todos espanhóis são “calientes” e...
— Vocês querem parar com esse papo? – Demandou Shura, o novo pimentão do grupo.
O silêncio pairou por alguns instantes, até que Milo disse:
— OK. Não tá mais aqui quem perguntou. Não quero saber DISSO.
Shura, Máscara e Afrodite trocaram um olhar que desmascarava todo e qualquer mistério por trás das enigmáticas palavras do casal Câncer e Peixes, um dos mais antigos entre eles, perdendo apenas para...
— Bom! Mês que vem sou eu e Marin que vamos nos casar. Saga, pelo visto, vai ser o celibatário do grupo?
— Isso não é da sua conta, cunhado.
— Eu sei, mas é que... O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE?
— Nada não.
— NÃO ME DIGA QUE VOCÊS AINDA... Ele está em missão diplomática em Asgard há quase um ano!
— É, mas um dia volta.
— Por falar em Asgard... – Mu começou, incerto se deveria fazê-lo. – Que fim levou o Surtr?
Após um breve suspiro, Camus contou, com serenidade:
— Ele ficou 40 dias preso nas masmorras de Odin, até que foi julgado pelo Tribunal de Asgard. A pena por sua traição a Asgard foi a prisão perpétua nas Montanhas do Gelo Infindo. Havia mesmo uma certa petição por sua condenação à morte, mas Hilda de Polaris intercedeu por ele.
— Ela foi bondosa. Mas aposto que Surtr preferia a morte, sabe. – Murmurou o escorpiano, pensativo.
— Bom, a vontade da Soberana de Asgard é que tem de prevalecer, no final das contas. E Andreas apoiou-a. Ele tem muita influência no país.
— Quanto aos rapazes... Sigmund e Frodi vão se casar no verão. Fomos convidados, mas... bem, vocês sabem, não podemos todos nos ausentar ao mesmo tempo do Santuário.
— Que legal! Fico feliz por eles... começaram a namorar justamente nessa aventura de vocês pela África, não foi?
— Eles eram extremamente discretos – Riu Milo. – Mas pelo que disseram, foi sim, Debas.
— E, ao que parece, a Brilho da Honra foi completamente aniquilada. – Shaka comentou
— Como célula autônoma, sim. Kulaita sobreviveu aos ferimentos e foi levado a julgamento. As informações que cedeu em... – Camus pigarreou significativamente – ... interrogatórios... levaram a prisões de muitas pessoas importantes... personalidades influentes... até mesmo de fora da África. Os países que formavam Shamallah tiveram suas soberanias restabelecidas.
— A Brilho da Honra foi derrotada. Mas sempre há ameaças similares. Neste exato momento. – Milo falou, sério – Por isso, pleiteamos junto a Atena uma maior colaboração em questões desta natureza. Um de nós pode dar cabo de organizações inteiras.
Shaka cruzou os braços.
— As mudanças já começaram. Creio que em breve, nossa assistência a tais problemas seja uma realidade.
— É como pensamos uma vez. Os homens, muito frequentemente, superam os deuses em maldades. Atena já percebeu isso, a prova é que vocês foram mandados para a Conferência da ONU na Cidade do Cabo. – Afrodite sorriu para Camus, Milo, Saga e Aioria, que se entreolharam assentindo.
— Eu só não soube do Derrick. – Comentou o aquariano, tristemente.
— O rapaz que ajudou o Surtr, né?
— Ele fez BEM MAIS que isso, Saga...
— Milo!
— Desculpe, amor. Eu tentei buscar informações sobre ele, mas não obtive sucesso.
— Ele é sobrinho do líder preso da Brilho da Honra. – Aioria pontuou. – Na certa, está sendo mantido a sete chaves em algum lugar. Deve ter MUITA gente querendo pôr as mãos no garoto.
— Ele cometeu muitos erros. Mas realmente, não gostaria que estivesse preso. Podiam ao menos nos informar...
— Talvez esteja em algum programa de proteção a testemunhas, Camus – O marido tentou amenizar-lhe a preocupação. – Há fartos registros de que nos momentos decisivos, ele foi de grande ajuda para a derrocada do tio. Arriscou a vida para isso. Arriscou a vida por você.
Camus deu um sorriso triste.
— É. Por isso que eu queria que ele estivesse bem. Pode ser ingênuo de minha parte, mas...
— Não tem nada de ingênuo. Você é um cara bom. E... – Milo abaixou subitamente o olhar. – ...eu que demorei muito a perceber isso. Quase te perdi de novo. Por mais de duas vezes...
Afrodite ergueu-se, dando um grito efusivo:
— AH, NÃO, PAROU, PAROU, NADA DE CLIMA DEPRÊ! Camus, vá gelar mais cervejas!
— Vocês estão me explorando...
O pisciano foi empurrando o amigo até a cozinha:
— É bom, que isso te distrai, não dê ouvidos a esse chororô do escorpião arrependido, credo! Cantilena eterna, por Atena!!!
Os que ficaram na sala bronquearam com o escorpiano:
— Caramba, Milo, para de ficar lembrando dessas coisas.
— Isso deixa o clima pesado, cara...
— Quem vive de passado é museu!
— Cê não percebe que quando fica lembrando das merdas que fez, Camus acaba lembrando das merdas que ELE fez? Daí ficam os dois se sentindo culpados... e isso serve pra quê, me diz?
— Vocês têm razão, é que eu... – Sentiu o celular vibrar no bolso da calça jeans. – Esperem, deixem-me atender... sim, alô? Hã? QUEM? OH, CLARO, CLARO... passe a ligação, por favor!
Os Santos ficaram preocupados ao verem a expressão de estupefação no rosto do amigo.
— Milo? Tá tudo bem?
— Quem é?
— Shhhh – Fez o escorpiano, balançando a mão freneticamente. E afastou-se deles, apressado.
Intrigados com a situação, os jovens se entreolharam de modo interrogativo. Milo deixou a sala de estar, evadindo-se para fora do Templo de Escorpião. Diante das montanhas banhadas pelo tênue luar, ele abriu um grande sorriso ao saudar:
— Senhora Urbi! Como está? Fico feliz em saber… – Caminhou pela frente da Casa, conversando com a presidente de Angola. – ...também estou bem, muito bem, obrigado... ah, tentou? Camus é meio avoado com essas coisas, vive esquecendo de carregar o celular. Já briguei várias vezes com ele... oh, não, estamos bem, muito bem. Claro, entendo, a senhora não pôde comparecer à cerimônia, mas sabemos de seus votos... e, claro, adoramos os presentes!
Aos poucos, o jovem guerreiro foi ficando menos sorridente. Contudo, não é que a animação estivesse desaparecendo de seu ser. Ele apenas ouvia tão atentamente que quase se esqueceu de respirar.
— É... é sério isso? Digo… claro que acredito, imagina! É que é tão... surpreendente! E... – Cobriu os olhos com as mãos – E é que Camus vai ficar tão feliz. Ele nunca deixou de se preocupar com o destino do rapaz... sim, compreendo, foi exatamente o que disse a ele!
E repetiu, olhando para as estrelas que pareceram brilhar ainda mais intensamente com aquela notícia:
— Camus vai adorar saber disso!... pelo rapaz... agora... senhora Urbi... – ficou sério novamente. – Acha que... que Surtr é mesmo confiável? Depois de tudo que fez?
Quando Camus retornou à sala com Afrodite e baldes com dezenas de long necks envoltas em promissoras névoas, estranhou a feição dos companheiros... e também a ausência do esposo.
— O que aconteceu? Cadê o Milo?
Ninguém se atreveu a responder.
— Que foi? Eu hein, parece que tão escondendo alguma coisa do Camus – acusou Afrodite, com uma das mãos na cintura.
— Olha... se tem alguém escondendo alguma coisa do Camus, não é a gente...
— Shaka! Cala essa boca...
— Eu não tenho por que mentir para o nosso amigo, Aldebaran.
O aquariano olhou assustado para cada um dos rapazes.
— Do que é que vocês estão falando?
Em um gesto de piedosa cumplicidade, o Santo de Virgem pôs a mão no ombro do francês.
— Camus. Antes de mais nada, não se afobe. Não se precipite. Não se deixe levar por desconfianças. Tudo tem uma explicação plausível, nada é o que parece ser, e...
— Porra, com esse papo, aí que o cara vai querer matar o marido. – Kanon suspirou, esfregando o rosto com a palma direita.
— Hã? – Agora o pobre aquariano ficava tenso de verdade. – Alguém quer me dizer, em nome de Atena, o que é que está acontecendo?
— Milo recebeu uma ligação no celular assim que você foi para a cozinha. Pareceu extremamente surpreso e saiu da sala, sem querer nos dizer quem era. Foi lá para fora conversar com a pessoa misteriosa.
— Alguém me lembre de NUNCA contar um segredo pro Shaka. – Máscara da Morte deixou escapar, agarrando uma cerveja.
— COMO ASSIM? E você ia achar certo que o Milo escondesse algo do Camus? Você acha que o Shaka fez errado?
— E você, contaria um segredo pro Shaka, Dite?
Afrodite engoliu em seco. Virou-se para Camus, que estava paralisado e sem expressão alguma no rosto lívido. Tartamudeou:
— Camus, calma, isso NÃO QUER DIZER QUE ELE TÁ TE ENGANANDO, sabe...
Foi só a porta abrir e o dono da casa surgir que o ar esfriou drasticamente.
— MILO... O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – Rosnou, ameaçadoramente.
— Não está acontecendo... ACONTECEU!
O recém chegado estava tão empolgado que pareceu não perceber a animosidade fruto do ciúme.
— E o que FOI que aconteceu? – Volveu o francês, secamente. – Quem ligou para você? Com quem você estava conversando?
—Com a senhora Urbi Kuarashí!
— A senhora Urbí?
A frieza de Camus passou no ato. Boquiaberto, esperou que o marido continuasse:
— Espera só pra ouvir o que ela me contou!...
*************
Um mês antes
Não sabia se era dia.
Não sabia se era noite.
Naquela cela, incrustada em uma gruta profunda e plana, brilhava permanentemente a tênue luz de uma lamparina, cujo suprimento diariamente era checado pelos guardas que vinham trazer-lhe o alimento, e, semanalmente, fazer a limpeza da prisão. Por “limpeza”, entendia-se a manutenção do pequeno banheiro anexo, separado por uma espessa porta de madeira escura, e a troca das roupas.
Nada dispunha consigo além de um leito estreito, cobertores e mantas para suportar o frio glacial das Montanhas do Gelo Infindo – sim, por mais que fosse mais resistente àquele clima que um ser humano normal, a proteção não se fazia de todo descartável, óbvio... afinal, ali podia facilmente passar dos ˗ 60°... felizmente, não lhe fora proibido contar com seus poderes de fogo, de modo que ele ao menos podia deixar fogueiras crepitando nos piores “dias”. “Noites”.
Sim, isso era tudo. Sequer lhe era dado o direito de ler alguma coisa. Não. Distração não fazia parte de sua condenação, não poderia. Cada segundo, cada milésimo de segundo deveria fazer parte da punição, sendo salvo apenas nas parcas horas de sono. Conquanto nada tivesse para fazer, o sono era miseravelmente escasso. Por vezes, acreditava que em algum dia seu cérebro iria abandonar a faculdade de pensar, dada a ausência de pensamentos e de estímulos. Ledo engano. Isso não seria punição, seria misericórdia do destino. E como o destino seria misericordioso com um traidor de Asgard?
O tédio só era quebrado por eventuais “visitas” de asgardianos desejosos por vingar-se pela decepção de um de seus protetores haver se voltado contra Hilda e o Grande Odin. Ocupavam-se de esmurrá-lo, socá-lo, golpeá-lo de várias formas, sem que ele esboçasse qualquer reação. Tinha certeza de que a piedosa Senhora de Asgard não permitiria tal tratamento, contudo, a distância entre o castelo de Hilda e a prisão, além de alguns subornos aos guardas, possibilitava que alguns obtivessem a satisfação de torturar um Guerreiro Deus traidor.
Havia sido assim nos 40 dias que precederam o Julgamento, e, após este, a situação com certeza piorara sensivelmente.
Não importava.
Ele não podia se importar.
Ficaria ali para sempre. A tudo teria que suportar. Bem, não era sempre que ELES vinham. Embora, PARA SEMPRE...
Hilda certamente fora considerada piedosa em poupá-lo da morte, como queriam o Conselho dos Anciãos e a Cúpula dos Guardiães. O senhor Andreas apoiou-a de forma contundente. Os dois nunca poderiam imaginar que, na verdade, tinham-no condenado a uma sentença pior do que a “pior sentença”.
Não eram apenas a dor, o frio, o nada, a solidão, a tristeza.
Era aquela torturante partida do ódio.
Estranho como o ódio alimentara seu ser, como um combustível que alimentasse o fogo por ele produzido... não conseguia mais sentir ódio. Justo no momento da vida em que, supostamente, fosse mais lógico de senti-lo.
Tudo nascia de uma saudade. Uma saudade de algo que nasceu e morreu sem que ele pudesse, de fato, ter vivido. Provara-o. Sentira seu inigualável sabor, e, bem quando achou que poderia tê-lo...
“Derrick. Como será que ele está? Tenho certeza de que ele sobreviveu. Ele era tão forte... mesmo para um homem comum... tão vigoroso...”, pensava, os olhos marejando às lembranças do primeiro e verdadeiro amor.
O idiota do Escorpião não dissera idiotices daquela vez.
Sequer conseguia sentir raiva de Milo, de Camus. Tudo parecia estéril, sem sentido, vazio. Mais frio que o frio que fustigava a sombria gruta onde se encontrava cativo.
Em mais de uma ocasião, estivera perto de pedir à soberana de Asgard que lhe conseguisse notícias do jovem africano. Que Frodi ou Sigmund sondasse o que fora feito do sobrinho do terrorista... besteira. Não lhe atenderiam.
E mesmo que lhe atendessem... de que adiantaria?
Se soubesse que Derrick morrera... sofreria terrivelmente.
Se soubesse que Derrick sobrevivera... viveria em perene agonia por não poder encontrá-lo nunca mais.
Fechou os olhos, disposto a receber o sono que principiara a chegar. Não podia ter noção de que tratava-se, na verdade, de pura exaustão, pois havia mais de 40 horas que não dormia.
Abriu-os tão logo ouviu:
— Surtr. Acorde.
Sentou-se na cama. Olhou desinteressado para Frodi, que parara diante da cela. Um guarda destrancava a porta.
— A senhorita Hilda pediu-me que viesse buscá-lo. Levante-se, apronte-se logo.
— E por que motivo a senhorita Hilda iria requerer a minha presença abjeta diante dela? – Tentou não imprimir tom jocoso à indagação.
— Para o que mais seria?
Surtr assentiu, resignado.
— Resolveram mudar minha pena.
— Acertou. Agora vamos, apresse-se.
— Claro. Perdoe minha lentidão. Estou um tanto... danificado. – Riu o ruivo, levantando-se quase trôpego.
Aos olhos franzidos de Frodi não passaram despercebidos os hematomas e machucados do prisioneiro.
— A senhorita Hilda será informada sobre o que lhe fizeram. Diga quem foi e quem quer que seja, será punido.
Dando de ombros, Surtr retrucou:
— Não é algo que vai beneficiar alguém que receberá a pena de morte. Não se preocupe.
Com indisfarçável amargura na voz, o Guerreiro Deus de cabelos longos azuis marinho disse:
— Você foi avisado, Surtr. Mais de uma vez, Sig e eu o alertamos, na Cidade do Cabo, quando começou com seu comportamento irresponsável.
— É verdade. Fui um tolo em não dar ouvidos a vocês – Arrependimento algum, entretanto, refletia-se na fala mecânica. – Aliás, não tive oportunidade de parabenizá-los...
— Chega de falar. Está gastando sua energia – Não resistindo mais, Frodi foi amparar o ex companheiro. Passou o braço do cativo por trás de seu pescoço, chegou a pensar em carregá-lo. Como se tivesse adivinhado-o, Surtr disse, em um risinho curto:
— Nem pense em me levar no colo. Além de deixar o loirinho com ciúmes, iria me matar antes da hora... de vergonha.
— Você nunca deixa mesmo de ser um idiota.
— Ah, não. Nunca mesmo.
*************
As imensas portas douradas abriram-se, revelando o estonteante salão onde ficava o trono da Representante de Odin na Terra. A belíssima mulher de cabelos claros como a neve iluminada pelo sol do alvorecer ergueu-se, recepcionando seus Guerreiros Deuses.
— Frodi. Obrigada por ter trazido Surtr.
— Não há de quê, senhorita Hilda. – Ele fez uma mesura respeitosa.
Surtr viu que os demais companheiros de batalhas ali se encontravam. Com exceção de Fafner, de cujo destino já estivera a par: para pagar por seus crimes, usava seus conhecimentos médicos e farmacêuticos a serviço da Cruz Vermelha, em diversos pontos de conflito pelo mundo. Um leve constrangimento fê-lo querer que apressassem a sentença. Será que seria morto por um de seus parceiros de outrora?
— Surtr... você está todo machucado! Por um acaso... – Os olhos violeta da governante fremiram de revolta. – Exijo saber quem...
— Ele já disse que não revelará. – Adiantou Frodi.
— Isso mesmo. Não é necessário, eu mereci tudo que me fizeram.
— Mas a ordem era que sua integridade fosse preservada durante o cativeiro! – Hilda insistiu, nitidamente contrariada.
— Senhora, eu só desejo receber minha pena o mais rápido possível. Digo... mesmo que a morte NÃO seja rápida... que procedamos LOGO à sua realização.
— Nem mesmo o cativeiro tirou a sua arrogância – Indignou-se Sigmund. – Depois de tudo que fez, ainda se sente no direito de EXIGIR alguma coisa!
— Bem, certas coisas nunca mudam, não é o que dizem? – Surtr virou-se sorridente para o noivo de Frodi.
— Há pessoas que discordam disso, Surtr. E é por isso que nós mudamos sua condenação. – Anunciou Andreas, adentrando o salão acompanhado de pessoas trajando mantos com pesados capuzes de pele de carneiro.
— Senhor Andreas? Será por suas mãos que devo perecer? Será uma honra.
— Como todos aqui, ainda que demore, você vai perecer sim, Surtr. Mas não hoje. Sua pena deverá ser cumprida em VIDA.
— Então... – O jovem estava claramente confuso. – Por que fui tirado da prisão?
— Decidimos que você cumprirá sua pena em vida... e, a exemplo de Fafner, de forma ÚTIL para a humanidade. A mesma humanidade que você tencionou prejudicar.
— E-eu não estou entendendo...
Foi então que os recém chegados removeram seus capuzes. Tomado de vívido assombro, Surtr viu diante de si a presidente de Angola, Themba e a neta (ou era bisneta?) Zarina, dois jovens negros desconhecidos e... e... não podia ser...
— D-Derrick!... – Balbuciou, seu coração esmagado sob seu peito subitamente aquecido como uma rocha sobre as chamas.
O rapaz sorriu ternamente para ele.
— Surtr. Gostaria de dizer que você está ótimo. Mas...
— Mas seria uma baita de uma mentira – Lágrimas desceram imediatamente pelo rosto emocionado do condenado. – J-já você... v-veja só...
Ele estava belo como nunca, seu olhar luminoso como o sorriso que contrastava com a pele de ébano perfeito e lustroso. Claro que vestiam roupas tão pesadas, o clima de Asgard deveria ser um verdadeiro pesadelo para eles, que vinham de países da África!
Via-se que ambos esforçavam-se para não quebrar o protocolo diante logo de governantes de países como Hilda e Urbi. Não obstante, sem que nunca soubessem quem dera o primeiro passo, diminuíram a distância entre si; abraçaram-se com força, cedendo às lágrimas.
— Tive medo de que... de que...
— Cala a boca, me deixa falar antes que não consiga uma outra vez: eu te amo, Derrick.
— Será que poderiam manter um mínimo de decoro diante das senhoras Hilda e Kuarashí? – Repreendeu uma das outras mulheres africanas.
— Deixe de ser mal humorada, Kadija. Você sabe muito bem como é perder um ente amado, deixe-os.
— A diferença entre mim e eles, Ray, é que eu não era nenhuma criminosa!
— Silêncio, vocês dois. – Ordenou Zarina, arrancando um sorriso de Themba. Pelo visto, as personalidades fortes de Zarina e Kadija iriam se chocar algumas vezes no novo grupo antiterrorista formado pela presidente de Angola.
O Santo de Sagitário, que estava há um tempo trabalhando diplomaticamente em Asgard, cuidou da explicação, conforme fora ordenado por Hilda:
— A senhora Urbi Kuarashí lidera a mais influente frente antiterrorista no continente africano. Ter derrotado a organização terrorista Brilho da Honra, com a ajuda dos Santos de Atena, dos Guerreiros Deuses, e de inúmeros homens e mulheres como os aqui presentes Themba, Kadija, Zarina e Raymond, potencializou o alcance de suas ações e projetos, dentre os quais, seguir na luta contra as atrocidades cometidas por pessoas como o falecido Kulaita contra o já sofrido povo africano...
— Kulaita! – Surtr estremeceu, sentindo o tão saudoso ódio correr por suas veias. – Então ele morreu?
— Oficialmente, suicidou-se na prisão. – Respondeu Themba, em um inglês perfeito como jamais o asgardiano havia ouvido-o falar. – Porém, sabemos que isso pode não ser a verdade...
— E, se não for, temos muito trabalho a fazer. Por isso, precisamos de pessoas como VOCÊ para nos ajudar, Guerreiro Deus. – Urbi falou, fitando-o com gravidade e nenhuma sombra de rancor. – Pessoas que viram “o lado de lá”. Pessoas com talento valioso demais para ser desperdiçado em uma prisão no meio das montanhas geladas.
Andreas continuou:
— Já vínhamos pensando em algo parecido quando enviamos Fafner pelo mundo, sob constante vigilância de alguns de nossos Guardiães. Até porque UMA CERTA pessoa nos deu a ideia quando soube que a senhora Urbi seguiria firme na luta contra o terrorismo em seu continente.
— Uma “certa pessoa”, hã? – O ruivo deixou escapar um meio sorriso.
— Quando a senhora Kuarashí manifestou concordância com o plano, não vimos por que negar. É o mínimo que podemos fazer até para sanar os problemas causados por um dos nossos. – Hilda acrescentou, dirigindo a Surtr um olhar severo, mas de uma severidade curiosamente maternal.
Um breve silêncio instalou-se no recinto.
— Não vai dizer nada, Surtr?
— Hum... obrigado? – Encolheu os ombros.
— Quer dizer que concorda? – Andreas continuou.
— Quer dizer que tenho escolha?
— Na verdade, não – Admitiu Hilda, entre dois suspiros. – Adeus, Surtr. E... caso desonre essa sua nova chance, nem mesmo a vontade de Odin poderá salvá-lo, fique sabendo.
Ele mirou a governanta de Asgard com enigmática gravidade. E então, ajoelhou-se perante ela, quase encostando a fronte no chão gelado.
— Muito obrigado, magnânima senhorita Hilda. Muito obrigado, magnânimo senhor Andreas. Em nome de Odin, prometo não desapontá-los. – Ao erguer a cabeça, acrescentou: – E... por favor, agradeçam à “certa pessoa” por mim.
Os líderes de Asgard apenas assentiram. A comitiva africana fez uma última mesura antes de se retirar. A ninguém escapou o fato de que Surtr deixara a sala de mãos dadas com um dos visitantes, a quem chamara Derrick. Ambos sorriam docemente um para o outro.
*************
Ao término da narrativa de Milo, todos, inclusive o próprio, tinham os olhos cravados em Camus, que permanecia sentado, pernas cruzadas e uma long neck na mão, com o ar mais tranquilo do mundo.
— Achei que você fosse ficar radiante, mas parece que acabou de escutar a previsão do tempo.
— Engana-se, Milo. Estou bem satisfeito.
— Bem, é o jeito “Camus” de “ficar radiante”, vocês deveriam saber – Brincou Afrodite, dando de ombros.
— Acho que isso merece um brinde. – Conclamou o aquariano erguendo sua garrafa.
Eles concordaram e brindaram alegremente.
A reunião seguiu pela noite. Começaram a cantar no karaokê, presente de casamento de Seiya, notório entusiasta do negócio. Em dado momento, Camus voltou à cozinha para pegar mais bebidas para gelar. De frente à enorme pia, percebeu que era observado. Nem precisou se virar para trás para saber quem era.
— Aioria. Quer alguma coisa?
O leonino aproximou-se. Atirou, em voz baixa:
— Nem adianta dizer que isso NÃO tem dedo SEU, Camus.
Imperturbável, o francês apenas continuou emanando seu cosmo gelado sobre os baldes de long necks.
— E isso te incomoda? – Indagou, simplesmente.
— Não sei. É que não sei por que fez disso um SEGREDO pro Milo. Tipo... cês tão CASADOS. Não deveria mais haver SEGREDOS entre vocês, certo? Achei que isso fosse coisa do Camus do passado.
— Certas coisas nunca mudam...
— E VOCÊ está bem com isso? Não lembra de quantos sofrimentos vocês dois passaram por conta de seus SEGREDOS?
Camus voltou-se para o grego. Seu rosto permanecia impassível, embora nos olhos ardesse uma emoção indecifrável.
— Quando eu digo “certas coisas nunca mudam”, refiro-me a Milo também. Como acha que ele se sentiria sabendo que Surtr está solto aí, pelo mundo? Ao invés de estar preso para sempre, impossibilitado de tentar novas tramoias sobre nós?
— Inseguro. – Admitiu o leonino, sem qualquer hesitação.
— E, além disso...
— O idiota ficaria todo enciumado em saber que você intercedeu por Surtr.
— Não é à toa que você é o melhor amigo dele – Sorriu o aquariano. – Conhece-o tão bem quanto eu.
Apesar do barulho da cantoria, os dois continuaram a falar em voz baixa.
— Mas, Camus... você tá confortável com isso? De guardar segredo dele, MAIS UMA VEZ? Você mesmo já passou por maus bocados por isso.
— Hum, confesso que agora não é nada que me incomode. E, lembre-se do que você mesmo sempre disse: sou dissimulado. É meu jeito de ser.
— E de proteger. – Completou Aioria, dirigindo-lhe um sorriso cúmplice. – Pode deixar, seu segredo está bem guardado comigo.
Agradecido, Camus assentiu.
Junto à porta da cozinha, Milo a tudo escutara, sendo bem sucedido em ocultar seu cosmo. Não, não poderia condenar o esposo... até dava uma vontadezinha, no entanto... o orgulho que sentia do amado falava mais alto. Por baixo de toda aquela frieza, Camus sabia perdoar. Intercedera por alguém que tão mal lhes fizera, tão somente por botar a nobreza de um Cavaleiro acima dos sentimentos pessoais.
E... Camus se enganava.
Ele NÃO se sentia inseguro pela liberdade de Surtr.
Enxergara nos olhos do rival a autenticidade do amor despertado, que quebrara as amarras com as mágoas de um passado fatídico. De mais a mais, sua liberdade significaria a liberdade de milhares e milhares, pois que ele agora lutaria em prol da causa de Urbi Kuarashí, fortalecido por um novo ideal e pela união com o homem amado.
Gostaria mesmo de um dia poder voltar à África para ajudar os amigos que fizera e os próprios Surtr e Derrick na empreitada de extirpar do continente a exploração de tantos povos honrados. Mas por ora... sorria maliciosamente, pensando:
“De qualquer maneira, Camus, você merece uma PUNIÇÃO por isso... espere só até a festinha acabar e todos irem embora...!”
*************
Ele poderia jurar que jamais sentira algo semelhante. Mas não estivera tantas e tantas vezes no topo do prazer, levado pelas inacreditáveis habilidades do vigorosos Escorpião? O que havia de diferente desta vez?
O membro túrgido de seu esposo investia incessantemente sobre sua próstata, e ele, por mais que quisesse agarrá-lo pelos cabelos e puxá-los em sua louca agonia extática, era impedido pelas algemas que o prendiam nas colunas douradas do imenso leito. E, não, talvez nem se quisesse, AQUELAS ele não conseguiria romper: Milo fizera ALGUMA coisa naquele material. Talvez revestido de cosmo... não saberia dizer... mal podia pensar, tamanho torpor a que o enlouquecedor prazer lhe conduzia...
— Aaaah! Ahh, M-Milo... o que... o que você tem?
— Como assim? Que acha que tenho? – Deu uma mordidinha no lábio inferior do aquariano ofegante. – Tesão, que mais seria?
— É SÉRIO... t-tem algo diferente...
— Por quê? Não tá gostando?
— Ao contrário... estou gostando muito...
— Então tá diferente porque tá gostando muito? Quer dizer que não costuma gostar?
— N-não...AAAH!! MERDA! – A violenta estocada conseguiu fazer Camus xingar. – CLARO que não! D-digo... aaah... sempre... sempre é maravilhoso... mas... hoje...
Milo calou-o com um beijo profundo ao mesmo tempo em que aumentou a velocidade das estocadas. Sentiu o interior do amado contrair-se em volta de seu pênis incansável. Apertou-o ainda mais em seus musculosos braços, sugando-lhe ora o alvo pescoço, ora os lábios entreabertos, que de repente começaram a tremer, ante a aflita súplica:
— M-Milo... e-eu... eu vou gozar... aaah... me... m-me deixa gozar DESTA VEZ... EU NÃO AGUENTO MAIS...
— AGUENTA sim, amor. Estou certo de que aguenta...
— Milo, é sério!...
— ... você aguenta MUITA coisa, Camus...
— MILO, EU VOU GO...
Rapidamente Milo parou o que fazia, rindo sadicamente. Camus quase gritou de frustração. Estivera à beira do orgasmo por várias vezes e por várias vezes, Milo lhe negara! E a cada vez que se aproximava do novo, parecia mais poderosamente intenso o que estava prestes a experimentar... chegava a ter medo... um medo que obviamente potencializava-lhe a excitação. Suspirando, suando, comentou, mirando-o fundo nos olhos claros:
— Isto… isto está me parecendo uma PUNIÇÃO, senhor meu marido...
— Finalmente percebeu – O grego beijou-lhe de forma provocante nos lábios.
— E, afinal de contas, por que é que eu estou sendo punido?
Milo sorriu. Deu-lhe um sonoro tapa na nádega esquerda antes de responder, divertido:
— Isso, senhor meu marido, é um SEGREDO.
****** FIM ******
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