O Brilho da Honra
26 O único caminho para nós
Notas iniciais

— Isso é realmente TUDO que você tinha a nos dizer? – demandou Milo, os braços cruzados em uma postura intimidante.
— Sim... eu lhes contei tudo que aconteceu – confirmou Derrick, mirando os dois Santos de Ouro com profundo temor.
— Certo. Então você estava a serviço do Surtr nessa tramoia toda. Hah! – Aioria virou-se para Milo, com ar triunfante – Eu BEM DISSE a CERTAS PESSOAS que havia de ser uma tramoia, mas os cabeçudos acreditaram em mim? Nããão...
Ignorando o amigo, o escorpiano insistiu com o rapaz sentado à sua frente:
— Por que tenho a desconfiança de que você errou DE PROPÓSITO a dosagem da droga? Envolvido como você estava com o canalha do Surtr... acho que quis SE LIVRAR de Camus, porque achou que assim o caminho estaria livre para que você ficasse com o maldito...
O recepcionista balançou vivamente a cabeça em uma obstinada negativa.
— NÃO! Surtr mandou que pusesse cinco gotas do líquido no fundo da taça, e foi EXATAMENTE o que fiz! ELE que errou a dosagem! Ou achou que o amigo de vocês fosse mais resistente à substância que trouxe de Asgard... se Camus morresse, acha que Surtr me perdoaria?
Baixando o olhar enquanto esfregava de leve o ombro dolorido, o africano confidenciou, em tom amargurado:
— Eu fiz tudo por ele... mesmo sabendo o risco que corria... mas para mim, o risco que eu mais temia mesmo era perder Surtr... ainda que ele ame o Cavaleiro de Gelo, eu só queria fazer tudo por ele...
— Me poupe dessa conversa asquerosa, antes que eu te afogue no meu vômito – cortou Milo, menosprezando aquela magoada declaração. Caminhou pela sala de espera onde agora estavam apenas eles três: Saga havia obtido permissão para ficar no quarto de Camus, velando seu repouso; Sigmund e Frodi encontravam-se no quarto de onde Surtr fugira e para o qual retornara, em estado bem pior do que antes. Aioria e Derrick, sentados nos sofás, esperaram que ele dissesse mais alguma coisa. Entretanto, o escorpiano permaneceu em silêncio, parado diante dos quadros coloridos pendurados na parede verde-água. Parecia processar o que estava se passando. Leão voltou a se dirigir ao jovem sentado à frente dele.
— O intuito de Surtr era separar Milo e Camus. E o QUE ele esperava que acontecesse depois? Que Camus fosse se atirar aos braços dele, por acaso?
— É como eu disse a vocês: ele dizia que tudo que queria era separar Camus do namorado. Apenas isso.
— “Apenas” – repetiu Milo, a voz rouca de ódio.
O irmão de Aioros coçava a cabeça, intrigado.
— Isso não faz o menor sentido pra mim. Esse cara é LOUCO... tinha consciência de que Camus não o amava, que nunca o amaria, que amava outro, que ESTAVA com outro... e ainda assim, se prestou a essa canalhice toda! Não dá pra entender, ele tem que ser louco...
— Louco porra nenhuma, é um filho da puta PERVERSO mesmo... – contestou Milo.
Derrick se pronunciou, tentando parecer firme:
— Não, ele não é nem uma coisa nem outra...
— AH, NÃO?!? – vociferou o escorpiano, assustando o recepcionista – Pois eu te digo uma coisa, seu imbecil: Camus QUASE MORREU pelo que teu novo amiguinho fez! E neste exato momento, além de aguardar pela melhora dele, estamos esperando que os médicos nos digam se ele foi ou não VIOLENTADO por aquele desgraçado! E vocês podem ter certeza de que se isso for comprovado, eu vou...
— Não, não, Surtr NUNCA faria isso! Vocês não entendem! Por mais que o odeiem, por mais que condenem o que ele fez, e eu não tiro a razão de vocês por isso... Surtr AMA Camus. Nunca faria isso, NUNCA o machucaria!
— Se isso é amor, tenho real pena de quem o cabeça de abóbora odiar – ironizou Aioria.
— Amor!... aquele maldito não sabe o que é amor! – rosnou Milo, cerrando os punhos e dando outra volta pela sala.
— Vocês dizem isso porque não o viram como EU vi... eu o vi CHORAR compulsivamente por Camus... presenciei seu sofrimento mais de uma vez... o desespero de ver o amigo que amava ter olhos apenas para outro...
Milo e Aioria se entreolharam. Por mais que tais palavras fizessem revolver seus estômagos, aquele jovem parecia acreditar piamente no “amor” de Surtr, e relevar as razões que levaram o asgardiano a agir de maneira tão sórdida... estava MESMO envolvido pela teia tecida pela mente insana do Guerreiro Deus.
— Isso sinceramente não me interessa nem um pouco – disparou o escorpiano, impaciente.
— Não deveria ter se associado a uma pessoa desequilibrada como Surtr, cara. Dá pra ver que cê tá indo pelo mesmo caminho... e por conta disso, já arrumou um problemão – observou o leonino, cruzando os braços de novo.
— O que vão fazer comigo?
— Nós, INFELIZMENTE nada. Muito provavelmente você será indiciado pela polícia por ter drogado um hóspede do hotel em que trabalha. E não podemos nos meter em assuntos civis dessa natureza – respondeu o leonino.
Derrick abaixou a cabeça, sem saber o que dizer e o que fazer. Foi quando o médico de Camus entrou no recinto. Apontando a saída, Milo ordenou, controlando a vontade de pulverizar o recepcionista:
—Sai daqui, vai. Isto não te diz mais respeito. Some.
Sem hesitar nem por um segundo, Sirham obedeceu, as pernas bambas quase fazendo-o tropeçar. Depois que ele se foi, os Cavaleiros concentraram-se no profissional de saúde, ansiosos pelo que ele ia dizer.
— Felizmente não foi constatado qualquer indício de violência sexual contra o senhor Chermont.
— O senhor... o senhor tem certeza? Como podemos confiar nesse exame?
O médico encarou o escorpiano e respondeu-lhe:
— O suspeito encontra-se internado nesta unidade graças AO SENHOR... obtivemos a permissão da polícia para colher dele material genético e assim o exame pôde ser completo... e mais “confiável”.
Os dois Santos suspiraram, aliviados. Aioria segurou o ombro tenso do amigo, sorrindo-lhe.
— O companheiro de vocês que está no quarto do senhor Chermont já foi notificado, não apenas sobre o resultado dos exames... – disse, severo o doutor – como também pelas CONTAS que receberão do hospital.
— CONTAS? – fez Aioria, erguendo uma sobrancelha – A internação de Camus não é coberta pelo seguro?
— Não me refiro à internação do senhor Chermont... refiro-me à DESTRUIÇÃO de PARTE DO ANDAR DO HOSPITAL.
*************
As pálpebras de Camus tremeram além do normal, atraindo a atenção de Saga, sentado em uma poltrona de couro sintético, sempre atento ao paciente desacordado. Levantou-se e foi até o leito, observá-lo mais de perto.
— Camus...? – tentou, incerto. Fazendo uma careta, o aquariano moveu o rosto em uma careta.
— Saga? – ouvir a voz do outro o trouxera de vez à consciência.
— Graças a Atena! Que bom que acordou!
O francês mirou-o, confuso. O cheiro característico do lugar invadiu-lhe as narinas, causando-lhe uma discreta pontada na cabeça.
— Está tudo bem agora, você está no hospital.
— Não vejo a coerência nesse seu enunciado... – murmurou Camus, morosamente.
— Pelo visto está bem mesmo – sorriu o grego, ante aquela fina ironia, característica do companheiro de patente. Em seguida, tornou-se preocupado, e inquiriu – Você... sabe por que está aqui? Lembra-se do que aconteceu?
Com o olhar fixo no teto, o mais novo pareceu buscar a resposta em sua mente:
— Eu não sei... me lembro de ter jantado com Milo... e com você e Frodi, e Sigmund... e... e não sei. Acho que Milo estava bravo comigo.
— Só para variar – ironizou o geminiano – e... e do que mais se lembra?
Camus silenciou, empenhando todos esforços mentais em rememorar o que ocorrera. Gradativamente, a insatisfação substituía a confusão em seu semblante abatido.
— Depois fui ao apartamento de Surtr para conversar com ele... – encarou Saga – conforme VOCÊ sugeriu.
Gêmeos engoliu em seco. Aguardou por algum tipo de acusação; esta, porém, não veio. O paciente prosseguia em sua jornada em busca de lembranças recentes.
— Surtr – falou entre dentes, a ira tingindo-lhes as faces de vermelho – Ele... ele... ah! Eu deveria... MALDITO! Onde ele está?
— Não se preocupe com ele; está internado aqui mesmo neste hospital. Passou por uma cirurgia reparadora da face.
— O quê? Mas eu não... estranho, achei que tivesse controlado o meu...
Saga ergueu a mão, balançando-a.
— Você fez um estrago nele, é fato. Mas quem literalmente lhe quebrou a cara, e que o mandou pra mesa de operação foi o Milo.
— MILO?
— Sim… se bem que não foi só em Surtr que ele fez um ESTRAGO. A Fundação Graad recebeu ALGUMAS CONTAS de danos a CERTOS PATRIMÔNIOS aqui na África do Sul, sabe?
As bochechas de Camus ficaram ainda mais vermelhas.
— Ah... sobre o hotel... eu posso explicar...
— DEPOIS vou querer MESMO essa explicação, Camus, de vocês dois – cortou o grego, com severidade – por hora...
Suspirou, desfazendo o ar de reprovação:
— ... por hora, eu gostaria de te pedir desculpas. Foi por eu dizer que você tinha que conversar com Surtr para impedi-lo de fazer mais besteiras que você foi falar a sós com aquele maníaco...
— Isso não tem mais importância para mim do que o fato de você ter DUVIDADO do que eu falei sobre o que aconteceu lá – foi a réplica cortante e direta, na qual se identificava certa mágoa.
— Eu imagino que esteja magoado comigo e com Milo... fomos injustos contigo.
— Magoado, não, eu diria “decepcionado”.
— Aioria ainda tentou nos convencer de que provavelmente havia sido uma armação de Surtr.
— Aioria, é? O mundo dá voltas – sorriu, sem vontade.
— Sinto muito, Camus, muito mesmo... não sei o que posso fazer para que me perdoe. Talvez sequer deva esperar por isso. Por minha causa, você e Milo...
— Por favor, Saga – o aquariano interrompeu, sem emoção alguma na voz – não há culpados por uma imprudência cometida por MIM. Milo me avisou para não ir ao flat de Surtr. Fui... e ele pôs algo em minha bebida, unicamente porque fui para a “toca do lobo”. Havia outros lugares para conversar com o cretino.
— Na verdade, nem foi na bebida…
— Hã?
— Foi na taça... o funcionário do hotel que levou a garrafa e as taças para vocês estava a serviço de Surtr.
— Como é? – o francês arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— É isso mesmo, Camus: Surtr entregou a ele um frasco contendo uma droga sintetizada por Fafner, e o rapaz a pôs no fundo do cálice. Como é incolor, poderia ser tomada por meras gotas de água... e foi isso que te derrubou... cinco gotas.
— Fafner – murmurou, um amargo gosto de rancor subindo-lhe pela garganta. Jamais esqueceria a tortura a que fora submetido pelo cruel Guerreiro Deus em Asgard. (* capítulo 13)
— Você ficou muito mal... pensamos que iríamos te perder.
— Peço desculpas por esse meu imperdoável descuido.
— Pare, NÓS é que devemos te pedir desculpas! – o geminiano replicou, aflito ao ver que, como sempre, Aquário estava SE culpando.
Ainda que mantivesse aquela atitude pretensamente indiferente, havia poucas pessoas às quais Camus não conseguia enganar, e uma delas era o ex-Patriarca. Aproveitando-se de que o aquariano emudecera, este quis saber:
— E quanto a Milo?
— O que tem ele? – volveu, secamente.
— Bem, ele... está no hospital... em uma sala aqui do lado... posso deixá-lo entrar?
O francês não respondeu. Com as mãos no peito, virou o rosto para o lado da parede.
— Eu entendo que não queira perdoá-lo por ter duvidado de sua palavra, assim como eu fiz. Mas... ele está bastante... preocupado contigo – tentou Saga.
Vendo que o amigo não parecia disposto a falar mais, o grego se desculpou:
— Perdoe-me, eu não deveria ficar te forçando desta maneira, acabou de acordar. Vou chamar o médico.
Saiu do quarto e foi para a sala de espera, onde encontrou o profissional ainda conversando com Milo e Aioria.
— Doutor, Camus recobrou a consciência – anunciou.
— Oh, ótimo, irei imediatamente, obrigado.
Tão logo o médico deixou o local, Aioria indagou a Milo:
— Você não vai lá?
— Tá louco? Camus não deve estar querendo me ver nem pintado de ouro!!!
— Que isso, cara, aposto que quando ele acordou, tu foi a PRIMEIRA PESSOA por quem ele perguntou! Não tô certo, Saga?
— Bom… não exatamente...
— Eu não disse? – tornou o escorpiano, desalentado.
— Ele acabou de acordar, seja paciente... UMA vez na vida – exortou o geminiano.
O jovem ficou pensativo... se por um lado estava legitimamente envergonhado em aparecer diante do amado, por outro estava ansioso por vê-lo, por falar com ele, certificar-se de que estava bem.
A segunda aspiração sobrepôs-se à primeira, de sorte que ele pediu licença aos amigos e se dirigiu para o quarto de Camus. Esperou que o médico saísse e assim que isso ocorreu, entrou.
O aquariano não se alterou, ou pelo menos, não aparentou surpresa alguma ao vê-lo. Milo ficou incerto se isso seria um bom ou mau sinal.
— Oi – cumprimentou o grego, as mãos no bolso denunciando o constrangimento que tencionava ocultar.
— Oi.
— Como você está? Certo, que pergunta mais idiota pra se fazer a alguém que está...
— Bem.
— Ah… sente alguma coisa? Alguma dor?
— Não.
— Eu... droga, nem perguntei se eu podia entrar, saí entrando assim mesmo, tudo bem se eu...
— Sim.
Os olhos anis não abandonavam nunca o semblante perturbado do namorado.
— Hã... Camus... eu... eu fui horrível com você, que sempre foi íntegro comigo e... merda, nada do que eu disser vai justificar o que eu fiz... não sei nem como pedir desculpas. Não deveria ter duvidado de você. Me sinto um idiota.
— Se sente? – o francês sorriu, de leve – Você É um idiota.
— .......
— Mas eu TAMBÉM sou.
— Camus...?
Ele cerrou os olhos e prosseguiu, melancólico:
— Cair em uma armadilha tão primária assim... desse modo tão patético... o maior idiota aqui sou eu...
Milo sacudiu a cabeça.
— Não diga uma coisa dessas! Tudo que você quis foi resolver as coisas de um modo que ninguém mais se prejudicasse com as besteiras daquele imbecil! Para evitar problemas à missão!
— Só piorei tudo, não?
— Camus, o maior idiota aqui SOU EU. Depois de tudo que você contou sobre o que houve em Asgard... depois de mostrar que nunca deixou de ser merecedor de minha confiança... eu não tive confiança em você.
— Devo reconhecer que teve seus motivos – o francês tinha o rosto abaixado agora.
— De fato, foi algo muito duro de se ver. Naquele momento, tudo se apagou para mim... foi a quarta decepção que tanto temi, pela qual ESPEREI, de certa forma...
Camus olhou para ele, sem entender. Pesaroso, o escorpiano explicou:
—Eu sempre disse que por 3 vezes me decepcionei contigo. Que por 3 vezes você me fez sofrer como ninguém, nem mesmo UM INIMIGO o fez antes. A Batalha das 12 Casas... a farsa dos Renegados... Asgard... e... e então, eu vejo você e Surtr na cama... juntos...
— Pensei que tivéssemos esclarecido acerca da necessidade das minhas ações em cada uma dessas “três decepções”...
— E esclarecemos. Mas o que senti aqui – pôs a mão no peito – em cada uma delas... e o que dessa dor ficou, Camus... sempre me fez temer a próxima. Me fez temer a quarta...
— NÃO haverá essa quarta vez, Milo, eu prometo.
— COMO você pode garantir, Camus? A verdade é que você é IMPREVISÍVEL. Sim, não me olhe desse jeito. Você é frio, reservado, comedido, racional... ATÉ quando julgar que TEM de ser. Eu... eu tenho esta incômoda sensação de que se pode ESPERAR TUDO de você. E eu não sei mais viver com isso. São muitos anos...
— Um momento. Por acaso está querendo terminar nossa relação? É isso?
— SIM, Camus. Acho que é o único caminho para nós.
Atônito, o aquariano mirava o amante, sem conseguir acreditar naquelas palavras. Depois de alguns longos segundos, articulou:
—Você tem certeza disso?
— Nós fazemos MAL um ao outro – desabafou o grego, derrotado – Não vê? É melhor para nós dois nos afastemos.
— Se é o que quer, não farei objeções.
Milo arregalou os olhos, pasmo com aquela fala, dita de forma tão neutra.
— Não quero que sofra mais por minha causa, Escorpião – ajuntou, semicerrando as pálpebras, como que subitamente desinteressado em toda aquela conversa.
— E nem eu quero que sofra mais por minha causa.
— Não quer? – riu Camus – tem um jeito curioso de demonstrar isso.
— Camus...
Encarando-o fixamente, o francês declarou:
— Sabe o que lamento realmente, Milo? Que apesar de Surtr estar destroçado, em cima de uma cama de hospital, e isso graças à SUA intervenção... ele seja VITORIOSO nisto tudo.
— Como...?
— Pois que se nos separarmos, ele terá conseguido o que queria. O grande objetivo, pelo qual armou tudo... realizado. SUCESSO.
Eles se olharam longamente.
— Eu NÃO QUERO que ele vença, Milo.
O grego aproximou-se da cama. Abaixou-se e tomou delicadamente os lábios de Camus com os seus. E quando deles se separou, respondeu:
—Nem eu quero que ele vença, Camus.
Sorrindo de forma doce e triste, o aquariano acabou por despertar em Milo o desejo por beijá-lo outra vez. E assim o fez, em uma espécie de renovação de votos.
Um pacto sendo refeito.
Dois corações feridos que necessitavam um do outro para se curarem.
— Eu te amo, Camus.
— Então me beija de novo... idiota.
— É claro... idiota.
*************
No início da noite daquele mesmo sábado, muito graças à resistência tão característica dos Santos de Ouro, Camus teve alta do hospital. Retornou ao resort com seus companheiros, ao contrário de Surtr, que seguia internado, sedado após a cirurgia plástica à qual fora submetido. Foi preciso pôr o nariz no lugar, bem como alguns ossos faciais, e reconstruir parte danificada pela perda de tecido acima da sobrancelha direita. Vitalmente nada sério. Por outro lado, não se descartava modificações em suas feições, dada a potência com que o soco de Milo fora desferido, e também o impacto ao atingir a parede do andar hospitalar, e ali dentro ficar preso.
Frodi e Sigmund permaneceram no quarto do ruivo, sempre lamentando a escolha de Lorde Andreas ao tê-lo enviado àquela missão.
— Frodi, acho melhor você voltar ao hotel. Passou o dia todo aqui, e não revisou nada da comunicação que fará na segunda.
— Faço isso amanhã, não vou te deixar aqui sozinho.
— Mas está perdendo tempo neste lugar. Surtr não deve acordar tão cedo... vai acabar te atrapalhando. MAIS do que já o fez, quero dizer.
— Verdade. Ele já nos atrapalhou demais – resmungou o jovem, dirigindo ao paciente um olhar irritado – Acho que você está certo, Sig. Odeio ter que voltar sem você, mas...
— Não se preocupe – o loiro sorriu, aproximando-se e dando um suave beijo nos lábios do outro – deixemos para relaxar um pouco amanhã à noite, com tudo preparado e pronto.
— Parece o mais adequado. Por favor, qualquer problema me avise, certo?
Os namorados se despediram e Sigmund continuou como acompanhante de Surtr. Serviu-se de água, pegou uns jornais que comprara na cafeteria do hospital, e sentou-se para se distrair daquele marasmo.
Nesse meio tempo, Derrick retornara ao hotel a fim de pegar seu carro, estacionado lá desde que fora para a execução do plano do asgardiano que amava. Sequer entrou na propriedade arborizada cujas alamedas levavam à entrada do resort; de longe, viu um carro da polícia lá parado. Soube que estava ali por ELE.
Inclusive, com certeza seu emprego já era.
Seria indiciado, como previra um daqueles arrogantes Cavaleiros da Grécia.
Imediatamente afastou-se, dirigindo-se a passos rápidos para a estrada, onde fez sinal a um táxi. Entrou, apressado, e informou o endereço de sua residência.
“O que vou fazer? Está acontecendo exatamente o que Surtr temia... estamos CAINDO... estamos perdidos, eu e ele!”, pensava, agoniado, apertando a fronte com seus dedos rígidos.
A viagem parecera mais longa do que realmente fora. O automóvel enfim chegou ao condomínio e deixou Sirham em frente à sua casa. Paga a corrida, o rapaz pegou as chaves e abriu a porta, um peso enorme esmagando-lhe o corpo e a mente. Dores irradiavam-se em suas costas e pelos ombros; não ter fraturado nada por certo havia sido um milagre. Tinha dúvidas se havia sido sorte... ou se o asgardiano “pegara leve” ao atirá-lo contra a parede, quando o asgardiano escapou do quarto no hospital.
Atravessou o corredor de acesso à sala, desejoso de pegar uma bebida no bar. Qual não foi sua surpresa ao chegar lá... e dar com o TIO, sentado displicentemente em um dos bancos estofados, debruçado no balcão de mogno, a sorver calmamente um drink azul como o céu de verão?
O recepcionista pensou estar em um pesadelo.
— Derrick! Que bom que chegou, meu rapaz! Eu começava a me entediar...
Kulaita abriu os braços, demonstrando alegria em rever o sobrinho. Sorria largamente, os dentes perfeitos e muito brancos quase cegando o jovem, ainda paralisado.
— Não vai se juntar ao seu tio? Vamos, venha cá. Eu já estava com saudades, acredita?
— O que faz aqui? – ciciou o jovem, esforçando-se para não deixar transparecer tanto sua insatisfação, e muito menos, seu temor.
— A vadia da sua mãe não te deu uma educação lá muito primorosa, hã? – riu, debochado, terminando de tomar a bebida.
Ignorando aquele comentário deplorável, Derrick confessou:
— Eu estou com uns problemas, desculpe se pareci mal educado... mas são problemas sérios. Não acho que seja a melhor hora para...
— Mas é EXATAMENTE por ISSO que é hora; porque você está com problemas – o homem ergueu-se do banco, e foi para trás do balcão. Pegou a coqueleteira – “problemas”, aliás, é um eufemismo, garoto, você está COBERTO DE MERDA. Até o pescoço. E falta pouco para engolir.
O rapaz continuava imóvel, no mesmo lugar. Viu o tio pôr vodka e curaçao azul na coqueteleira. Enquanto cortava limões, o terrorista falava:
—Você e seu NAMORADINHO fizeram uma bagunça do caralho, hã? Puseram em risco a vida do nosso “Príncipe do Gelo”... em outras palavras – apontou a lâmina da faca para o sobrinho — puseram a perder os planos da “Brilho da Honra”.
Derrick sentiu-se gelado de medo.
Não havia parado para considerar o que significara o plano de Surtr para a organização criminosa... uma AMEAÇA.
Quase eliminaram o grande alvo da Brilho da Honra!
— F-foi um acidente... n-não era nosso objetivo... nós nunca quisemos arriscar a vida dele!
— Não...vocês doparam o moço, fizeram com que ele tivesse uma overdose, mandaram-no para o hospital, onde passou por uma lavagem estomacal... e NÃO quiseram arriscar a vida dele – ironizou Kulaita, virando a bebida azulada em dois copos bojudos.
— Como sabe de tudo isso? — indagou, espantado, o recepcionista.
O terrorista riu, finalizando o belo drink com soda. Respondeu:
—Como eu sei? Eu te pergunto: você acha MESMO que conseguiu escapulir do nariz da polícia? Que AINDA não puseram as mãos em você porque o grande Derrick é o mestre das fugas?
Embasbacado, o rapaz limitou-se a ouvir.
— Nossa organização tem seus meios de estar infiltrada em certos setores... obviamente, para tudo tem um limite. Sua bunda não estará a salvo para sempre. É o tempo necessário para que se decida. NÃO HÁ MAIS vida para você “aqui fora”, garoto. Nem para você, nem para o seu adorado ruivo.
— Como assim?...
Kulaita estendeu-lhe o copo:
— Blue Lagoon. Os rapazes dizem que é bebida de mulher. Mas eu gosto.
Sabendo que não teria como recusar, Derrick aceitou. Enquanto provava – e aprovava – o drink, ouviu o tio completar:
— Mesmo que não seja preso, emprego você não arruma mais. Sem referências, e com um processo nas costas, devido ao fato de ter dopado alguém em local de trabalho... sem contar que sairá do hotel sem direito algum, sabe disso. Quanto ao seu amigo, já está sob vigilância contínua dos companheiros do país deles. Com certeza, será punido pelo que fez.
— O que será que vai acontecer a ele?
— Pelas informações que tenho, as leis desses Guerreiros Deuses são bem rígidas também. E eles tinham um acordo de paz com os Cavaleiros de Ouro. Surtr rompeu isso, e deve, no mínimo, ser mandado de volta.
— Mandado de volta... para Asgard?!?
— Sim. O informante que tenho na polícia me disse que ele não será indiciado justamente por ter de responder à lei da terra do extremo norte...
Derrick encheu a boca, ansiando por sentir mais do álcool.
Surtr seria enviado de volta a Asgard para receber a punição por quebrar o Tratado de Paz... por ter atentado contra a vida de um Santo de Ouro... o que esperava por ele?
Talvez ser desligado da ordem dos Guerreiros Deuses?
Talvez ser aprisionado?
Talvez... ser EXECUTADO?
Não podia prever... não conhecia NADA acerca do país natal de Surtr!
— Derrick... há um jeito de consertar tudo. Colabore para que isso ocorra... e assim continue VIVO, e melhor: junto com seu amado Surtr.
Após virar de vez o líquido, o jovem passou a língua pelos lábios e fitou gravemente Kulaita, ao dizer, decidido:
— Sou todo ouvidos, meu tio.
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