O Brilho da Honra
25 O rugido dos Santos
Notas iniciais

— Senhor Surtr? Oh, Deus, senhor Surtr!!! – Derrick, que voltara ao flat após ouvir o estrondo que ecoou pelos andares, desesperou-se ao ver o ruivo ensanguentado no chão. Seguranças do hotel, alarmados da mesma forma que o recepcionista, acorreram ao local.
O africano foi impedido de chegar mais perto do homem caído, pois que sempre havia o mandamento de não se mexer na vítima até a chegada do socorro especializado.
— D-Derri... – balbuciou o asgardiano, em grande agonia. O gelo queimava-lhe horrivelmente os tecidos, e os impactos que sofrera possivelmente haviam fraturado-lhe alguns ossos.
— Senhor Surtr, o senhor vai ficar bem, eu prometo! – enunciava o jovem, contido com dificuldade pelos funcionários do hotel. Estes observavam o quarto, assombrados:
— Mas... o que aconteceu aqui?
— Tem gelo por toda parte... e que destruição.
— Deve ter sido um daqueles “gregos” do tal Santuário, não tem aquele cara do poder de gelo? O “Príncipe do Gelo”, ou algo do tipo?
— Achei que ele fosse um herói! Mas olha, ele podia ter matado esse aí...
Enquanto falavam, os paramédicos chegaram aos aposentos devastados. Puseram o ferido em uma maca, que ainda os ouviu dizer:
— Temos uma emergência médica no 5° andar também. Homem de cerca de 22 anos, encontrado sem sentidos na suíte, aparentemente com hemorragia nasal.
— Certo, temos duas ambulâncias, não?
“Grande Odin... será... será Camus?”, pensou Surtr, quase cedendo à inconsciência, mediante a medicação que lhe era aplicada na veia. Foi levado pelos profissionais, seguido por um angustiado Derrick.
Nesse meio tempo, socorristas removiam o Santo de Aquário do banheiro, em cujo piso ficaram manchas de seu sangue. Saga acompanhou-os e exortou Aiolia a comunicar Milo.
Enchendo-se de coragem, o leonino bateu à porta trancada do amigo. Como não foi atendido, elevou a voz junto ao batente:
— Milo, tá dormindo, cara? Acorda, é coisa séria!
Com o rosto inchado e os olhos vermelhos, o escorpiano surgiu, com cara de poucos amigos:
— Mas O QUE É que tu quer, Aiolia?
— Milo... é o Camus...
— Eu NÃO QUERO saber do Camus.
— Quer me ouvir?! Porra! O cara acabou de ser levado pro hospital!!!
Os olhos azuis ficaram subitamente vidrados. Balbuciou, incrédulo:
—O… o que você tá dizendo, Aiolia?
— O que ACONTECEU, seu imbecil. Anda, Saga foi com ele na ambulância.
— M-mas... mas o que houve com...
— Não sabemos. A gente encontrou ele caído no banheiro e... e...
Sem perceber, Milo o agarrou pelos ombros, ansioso.
— E O QUÊ, Aiolia?
— …ele… ele tava sangrando, cara… pelo nariz! Não sabemos o que...
— Por Atena... – murmurou Milo, aterrado.
— Vamos, só saberemos o que houve de verdade indo até lá...
— Com licença.
Eles se viraram na direção de Frodi, que se fizera anunciar, e de Sigmund, que vinha atrás ele.
— Desculpe por entrarmos assim, sem avisar... a porta estava aberta e...
— ... com toda a movimentação lá embaixo, logo achamos que tivesse acontecido algo por aqui também – Frodi completou, apreensivo.
— Movimentação? – Leão ergueu uma sobrancelha, confuso.
Então os dois asgardianos explicaram o ocorrido com o conterrâneo. O escorpiano contraiu os punhos, tremendo de raiva.
Partiram os quatro para o hospital, cada qual com mil conjecturas na mente.
*************
Saga, Aiolia e Milo aguardavam na sala de espera contígua ao quarto onde Camus estava hospitalizado. A qualquer momento deveria aparecer algum médico com informações acerca do francês.
Mantinham-se em silêncio, incertos sobre o que falar. Frodi e Sigmund apareceram timidamente no recinto. Saga ergueu-se do sofá para recebê-los.
— E então, como está... – começou, logo sendo interrompido por um irascível Milo:
— Por favor, Saga! Não interessa como aquele desgraçado está! EU não quero saber!!!
— Milo...
— Tudo bem, Saga – falou Frodi, constrangido. Entretanto, o geminiano replicou:
— Não, Frodi, pode falar sim. Afinal, entendendo o que houve com Surtr, talvez possamos entender o que houve com Camus.
— Ele tem razão, Milo – ajuntou Aiolia, tentando acalmar o amigo. O escorpiano estalou a língua, levantou-se e foi se postar diante da janela, mostrando que de forma alguma queria um boletim sobre o estado de seu odiado rival.
— Bem – o líder asgardiano iniciou, hesitante – Surtr recebeu em cheio o golpe congelante de Aquário... teve algumas queimaduras, luxações, e uma concussão mediana.
— Ele estava MESMO com raiva do “amigo”, hã? – fez o leonino, mirando Saga.
— Engraçado que antes estava NA CAMA com ele, e BEM RELAXADO! – disparou Escorpião, irritado.
Os dois asgardianos se entreolharam, sem entender. Gêmeos esclareceu:
—Eu e Milo… bem, nós... encontramos os dois na cama... juntos. Aparentemente, haviam...
— Mas isso não é possível – surpreendeu-se Sigmund.
— “Não é possível”, mas foi EXATAMENTE o que vimos – Milo não se esforçava nem um pouco para esconder sua mágoa. Ainda que estivesse preocupado com Camus, seu coração doía a cada vez que evocava a terrível cena de mais uma traição.
Aiolia ergueu as mãos, interrogativo:
— Certo! Se os dois tinham se entendido TÃO BEM assim, como explicar Camus ter atacado Surtr dessa forma? Nem em batalha ele se mostra tão feroz!
— E o que aconteceu com o próprio Camus? – questionou o loiro asgardiano.
O escorpiano mordeu o lábio inferior, tenso, dividido.
Anunciando-se com um discreto pigarro, um médico adentrou a sala de espera. Os guerreiros prontamente se mostraram atentos ao que o profissional viera revelar.
— Com licença... são amigos do paciente Camus Chermont?
— Somos sim – o geminiano se adiantou – Por favor, doutor, como ele está? O que ele teve?
— No momento ele está sedado. Seu estado não é grave, porém deverá permanecer em observação, já que passou por uma lavagem estomacal e...
— Lavagem estomacal? – estranhou Milo, aproximando-se enfim.
— Sim, é o procedimento padrão nesses casos...
— “Nesses casos”? Casos DE QUÊ?
O médico encarou-o, antes de responder, com naturalidade:
— Ora... em caso de OVERDOSE. Afinal, foi ISSO que o amigo de vocês teve.
— O QUÊ? – fizeram eles, a uma só voz.
Foi a vez de o médico parecer confuso:
— Achei que soubessem. Encontraram o rapaz desmaiado, sangrando pelo nariz... não sabiam do vício dele?
— VÍCIO? Do que está falando? Camus NÃO USA DROGAS!
— Calma, Milo! – pediu Aiolia, segurando-o pelo ombro.
— Ora, me perdoem – retrucou o médico, considerando os rapazes – Achei que fosse do conhecimento de vocês. Bem, nem sempre é fácil aceitar... mas enfim, foi o que aconteceu com o senhor Chermont...
— Uma overdose – disse Frodi, atônito – Eu não acredito nisso!
— Mas foi exatamente o que houve. E digo mais, quase que não conseguimos trazê-lo de volta – disse o profissional – não temos experiência com o tipo de droga que ele consumiu. Na verdade, jamais havíamos tratado intoxicação pela substância em questão. Foi necessário tentar um tratamento análogo a drogas de constituição similar...
— Espere um pouco. Afinal de contas, O QUE causou a overdose? Que droga foi essa com a qual vocês sequer tinham experiência em combater em um organismo?
— Um narcótico poderoso que NÃO é encontrado em nosso continente, só para começar: foi sintetizada a substância alcaloide da seiva da sequoia omnivirulae (*).
— Como? – perguntaram os Santos. Frodi foi quem explicou:
— Esse é o nome científico de algumas sequoias encontradas em Asgard... mais especificamente – olhou com gravidade para cada um dos rapazes – sequóias do Fimbulwinter... o Labirinto do Longo Inverno que cerceava a Yggdrasil.
Os Cavaleiros de Atena ficaram boquiabertos.
— Esse “labirinto”... fomos vítimas de alucinações quando estivemos nele – lembrou Aiolia – eu, por exemplo, vi Seiya diante de mim, atacando-me... lutei com a visão... e depois, Shura... se não fosse o próprio Shura ter aparecido, sabe-se lá o que teria acontecido. Era tão real!
— E eu vi Hyoga, como se ele estivesse REALMENTE ali na minha frente!.. – Milo também se lembrou, intrigado.
— Aldebaran e Dohko da mesma forma viram Shun e Shiryu... ilusões bastante convincentes – ajuntou o geminiano, de acordo com o que ouvira dos companheiros.
Aiolia assentiu.
— Lyfia chamou aquelas ilusões de “uma sombra traiçoeira que buscava desviar do caminho da Yggdrasil”.
— “Frustração leva à vulnerabilidade”... foi justo nessa ocasião que Dohko... o Grande Mestre atual, disse isso!
“Camus ainda se sentia frustrado...”, pensou Milo, entre a melancolia e o entendimento.
O médico olhava de um para o outro, sem compreender. Saga enxugou um suor furtivo da testa, ao recordar:
— Camus chegou a alegar, antes de passar mal, que Surtr havia posto algo na bebida dele...
Eles se entreolharam, cada qual chegando a uma conclusão. Sigmund teceu a tese que se desenhava na mente de cada um:
— Estão achando o mesmo que eu? Se o Labirinto possui o poder de fazer as pessoas terem alucinações com outras que elas conheçam... sintetizada a seiva das árvores que o formam, seria possível um narcótico que reproduzisse o efeito verificado no lugar... talvez com o tal efeito potencializado, e direcionado para mostrar aquilo que mais se quer ver... ou o que mais se teme ver...
— O próprio Andreas disse que, por vezes, o Labirinto fazia refletir a escuridão mais profunda dentro do coração da pessoa – completou Frodi. Aiolia assentiu e disse, apontando Milo:
— “O que mais se quer ver”, “o que mais se teme”, “a maior escuridão no coração de uma pessoas”... em relação ao Camus, tudo isso parece se relacionar a este cabeça-dura aqui!
— Fafner é mestre nesse tipo de coisa, Frodi... e ele e Surtr são bem próximos. Aposto que ele fez essa droga pro Surtr... que canalhas – Sigmund revoltava-se.
Saga proferiu, muito sério:
—Resumindo: Surtr drogou Camus, e Camus viu Milo diante de si. Por isso, se deu a situação que eu e Milo presenciamos... ou melhor... o DESFECHO dela.
Deixando-se cair pesadamente sobre o sofá, o escorpiano cobriu o rosto com as mãos, em desespero.
— NÃO... não pode ser! E eu... eu duvidei dele NOVAMENTE! Camus... eu sou um IDIOTA mesmo!!! – declarou, com voz embargada. O leonino sentou-se junto a ele, tentando animá-lo:
— É um idiota, sim, mas NÃO DESABE agora, Milo. Ele precisa de você FIRME neste momento, ouviu bem?
Milo concordou, os olhos marejados, fazendo força para seguir o conselho do amigo. Saga comentou, pesaroso:
—Eu também errei com ele. Nos deixamos levar pelo que estava diante de nossos olhos. Foi um erro primário a ser cometido por Santos de Atena.
— Antes de serem Santos de Atena, vocês são humanos – Frodi opinou, empático – sob efeito da tal droga, Camus estava certo de que era o namorado que estava com ele e... bom, foi inevitável que vocês pensassem outra coisa, ao encontrar, como disseram, os dois juntos na cama...
Neste final, a voz do Guerreiro Deus fraquejou. Fez-se um silêncio sepulcral, que foi quebrado pelo médico:
— Se bem entendi o que disseram, o amigo de vocês foi drogado e... provavelmente MOLESTADO por quem o dopou. Caso concordem, pedirei um exame para comprovar se houve o abuso.
Grossas lágrimas rolaram pelas faces congestionadas de Milo, que rangeu os dentes ao ouvir aquilo.
— Nós agradecemos – concordou o geminiano, quase inaudivelmente.
— Afinal de contas, agora é de um possível crime que estamos falando – sentenciou, muito sério, o profissional de saúde.
Eles assentiram, sob enorme peso. O homem pediu licença e se retirou.
— Saga, Milo, Aiolia, eu prometo: medidas serão tomadas. Eu prometo.
— Não antes de eu PARTIR a cara dele, Frodi.
— Milo – disse o mais velho, ao que o escorpiano logo volveu:
— E QUERO VER QUEM VAI ME IMPEDIR.
Ele saiu da sala, sendo imediatamente seguido por um aflito Aiolia. Os asgardianos abaixaram as cabeças, consternados.
— Não fiquem assim. Não são culpados pela má índole do companheiro de vocês. Eu SIM... falhei como líder e como amigo...
— Saga, cada um de nós falhou em algum ponto. TODOS NÓS, sabe – Frodi cortou-o, amargo – Cada um de nós vai ter que arcar com essa responsabilidade. Mas vamos dividi-la, está bem? Precisamos levar nossa missão adiante.
O geminiano assentiu, agradecido.
Do lado de fora, Milo apressava o passo, distanciando-se da sala de espera, tentando escapar do leonino que vinha atrás.
— Milo, esfria essa cabeça, vai. Precisamos estar lá quando o médico voltar com os laudos.
— É exatamente DISSO que tenho medo, Aiolia. Eu não sei se vou aguentar saber que Camus foi... foi...
Em um ímpeto veloz, Leão surgiu em sua frente, os olhos esverdeados fulminando-o com a mais alta reprovação. Disparou, quase sem pausa alguma:
—Você, você, VOCÊ, SEMPRE VOCÊ! Dá pra parar de pensar em VOCÊ por alguns segundos e pensar no cara que você DIZ amar? Que tá aqui, num quarto deste hospital, apagado porque foi tentar resolver tudo sozinho?!?
— A... Aiolia...
— Shhhh, senhores, por favor! – uma enfermeira sinalizou, pedindo silêncio. As pessoas olharam feio para os jovens, que se recompuseram.
Quase em um sussurro, porém, o leonino prosseguiu:
— Eu só não quebro essa tua cara porque precisamos de você ACORDADO pra amparar o Camus, caso o PIOR seja comprovado. Será que DÁ PRA VOCÊ ENTENDER ISSO?
Envergonhado, Milo balançou a cabeça.
— Você tá certo – assentiu, desolado – Camus quis ficar sozinho com o maldito justamente por este meu temperamento de merda. Eu tenho que mudar.
— Eu não diria tanto – o outro sorriu tristemente – afinal, o picolé te ama, cabeçudo desse jeito aí mesmo. Mas você precisa se manter firme... centrado... pelos dois... e passar a pensar MAIS NELE, Milo. O amor não se sustenta “só” com AMOR, entende?
Vendo que o amigo fitava-o interrogativo, o leonino pôs-se a explicar:
— Eu e Marin somos assim. Não nos sustentamos apenas sobre amor e bons momentos, ou o que dá certo. A vida NÃO é assim o tempo todo. Haverá frequentemente OUTROS momentos, Milo, momentos em que você deverá ser “o outro”, e não “você”. Precisa aprender a confiar, e não somente se satisfazer com o que estiver de acordo com seus padrões.
— Por Atena... desde quando você ficou sábio como o Saga? Desde que passaram a respirar o mesmo ar no quarto?
— Não, foi desde o instante que precisei enfiar juízo na cabeça do meu melhor amigo, pra ele parar de caçar sofrimento.
— Deve ser um curso que preciso fazer – Milo enxugou uma lágrima que escapou. Sorriu levemente – Certo, vamos voltar.
— Assim que se fala – deu batidinhas nas costas do escorpiano – Que tal pegarmos uns cafés, antes? Pros outros, também.
— Certo. Agora, Aiolia... eu posso QUEBRAR a cara dele, se eu tiver oportunidade, não posso?
— Se você pode? – o leonino riu, maroto – Se você tiver a oportunidade e não fizer isso, EU que quebro a TUA cara!
*************
Não muito longe dali, mais especificamente no andar logo acima, um paciente com a cabeça e pescoço enfaixados, e com curativos pelos braços e rosto, ergueu-se do leito sem o menor aviso, arrancando de si tubos de soro de de medicamentos. Seu acompanhante, que saía do banheiro, espantou-se com aquilo.
— Senhor Surtr, o que está fazendo?
— Eu preciso ir até o Camus – respondeu ele, como se não estivesse fazendo nada de mais.
— Por favor, volte para a cama, olhe o seu estado...!
— Que importa meu estado? – vociferou – Derrick, eu PRECISO saber como ele está!
O africano tentava contê-lo, com cautela.
— Senhor Surtr, o senhor está ferido, eu te peço, volte para a...
— Você NÃO entende, Derrick? Frodi disse que ele foi encontrado desmaiado na suíte do quarto... que sangrava pelo nariz! Pelos deuses, SABEMOS O QUE aconteceu... – havia genuíno pavor no semblante do ruivo – Vou seguir o cosmo dele e ir até onde ele está.
— É só me apontar a direção, EU vou até lá e trago a informação ao senhor, mas por favor...
O asgardiano fuzilou-o com o olhar maníaco.
— Saia da minha frente, não quero te machucar. Mas preciso saber como ele está. Foi a DROGA que VOCÊ PÔS NA TAÇA! Você pôs demais! Admita, quis MATÁ-LO!
— Se-senhor Surtr, eu pus a dosagem que O SENHOR mandou...
O jovem teve a nítida impressão de que o ruivo lhe deu um mero empurrão, no entanto ele foi com tudo parar num canto do quarto, por pouco não se ferindo seriamente ao se chocar contra a parede. Assustou-se com a força do asgardiano e viu que não poderia impedi-lo.
Assim que Surtr chegou à porta, foi surpreendido por dois enfermeiros, que prontamente tentaram contê-lo... sem sucesso. Foram igualmente rechaçados pelo paciente, caindo sem sentidos pela força empregada.
Erguendo-se com dificuldade, segurando o braço contundido, Sirham ainda suplicou:
— Se... senhor Surtr, n-não!
Teve que se limitar a segui-lo à distância. O Guerreiro Deus ia derrubando quem quer que se metesse em seu caminho, como se espantasse moscas. Seguindo a cosmoenergia ativa, porém desequilibrada de Aquário, ele se dirigiu para o andar de baixo, pela escada. O recepcionista hesitou, e foi mancando em seu encalço.
Quando ganhou o iluminado andar inferior, e um pouco menos movimentado, soube para onde ir. E, aproximando-se do local de onde sentia a presença de Camus, deu de cara com Milo e Aiolia, que vinham da direção oposta, rumo à sala de espera... ao lado de onde o francês estava internado. Os três paralisaram, encarando-se longamente.
— VOCÊ – rosnou o escorpiano.
— Milo – balbuciou Surtr, surpreso; imaginou que, acreditando-se traído, o namorado de Camus não estivesse ali. Ledo engano.
Que em nada impediria seu intento.
Por trás dele surgiu Derrick, se escorando na parede. Foi a vez de Aiolia se surpreender:
— VOCÊ... não vi tua cara direito... mas aposto que era VOCÊ no carro, naquela noite!
O rapaz engoliu em seco.
— Então, estavam mesmo saindo para tramar algo. As peças se encaixam – completou o leonino, como que analisando a presa.
Surtr encarou Milo, nada intimidado. Não era nenhum ser indefeso, muito pelo contrário. Era um GUERREIRO DEUS, ferido ou não!
— Não tenho nada a tratar com você, Escorpião. Soube que Camus passou mal e foi hospitalizado aqui. Só quero saber como ele está – proferiu, confiante.
O Santo apenas devolveu-lhe o olhar, só que faiscante de ódio.
— Acho que você entendeu, não? Não tente me impedir. Conhece pessoalmente a extensão de meus poderes – sorriu o ruivo, irônico – já sucumbiu a eles, aliás.
Deu dois passos na direção da porta; Milo anunciou, com uma voz profunda, quase rouca:
— Você NUNCA MAIS chegará perto de Camus, Surtr de Eikthyrnir. Aproxime-se mais um milímetro que seja dessa porta, e fará parte das paredes deste hospital.
A resposta do ruivo foi um novo sorriso, debochado desta vez. Mais um passo, mão esticada rumo à maçaneta da porta... e foi surpreendido por um soco tão potente quanto uma avalanche, que explodiu-lhe em cheio no rosto. Seu corpo voou a uma velocidade incrível, a ponto de se ouvir um zunir no ar, indo chocar-se contra a parede verde-água, que quebrou como casca de ovo. E ali, como um saco de detritos, enfiado no buraco repleto de cimento, ferros retorcidos e fios partidos, ficou o asgardiano já inconsciente, o rosto uma massa sanguinolenta e disforme.
Mais pela fúria desencadeada do que propriamente por esforço, Milo bufava, o punho ainda em riste. Pessoas apavoradas caíram de joelhos ante a terrível cena, e não foi diferente com o recepcionista.
— Essa não, quando tu falou que ia quebrar a cara dele, não achei que seria de modo TÃO literal – zombou Aiolia, de braços cruzados. Displicentemente, caminhou até o jovem em choque ajoelhado no chão, que balbuciava:
— Se... se... senhor... senhor Su...Surtr!...
Derrick foi erguido pelo braço pelo leonino, como se seus quase 100 kg de músculos bem trabalhados nada fossem.
— Volta a aprender a falar, garotão, porque vai ter uma CONVERSINHA com a gente.
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