O Brilho da Honra
8 Meros deveres
Notas iniciais
Camus e Milo ficaram se encarando longamente no hall do Centro de Convenções, alheios a toda a movimentação interna e à balbúrdia externa. O francês permanecia imóvel, já de pé, em frente ao amado, que acabara de salvar sua vida.
— Obrigado... Milo – conseguiu dizer, num tom baixo e emocionado.
O escorpiano notou um arranhão no rosto do ex-amante. Sem perceber, levou a mão até ali, sem encostar no sangue que dele saía, grosso e incrustado. Provavelmente havia se machucado ao ter caído no chão, quando se jogou sobre ele. Ficou a tocar sua face com delicadeza e preocupação. Prontamente o aquariano levou sua mão àquela que o acariciava.
— Mesmo assim, eu te machuquei... – murmurou o grego, sentido.
Balançando a cabeça em negativa, o francês contestou, energicamente:
— Não diga isso. Você que se feriu por minha causa...
Surtr veio até eles, gesticulando dramaticamente enquanto falava alto:
— Pelo menos reconhece isso, não é, Escorpião? Grande “guarda-costas”, pra proteger o Camus, faz esse estrago aí, e logo no ROSTO!
Antes que Milo lhe dirigisse uma saraivada de impropérios, uma equipe de paramédicos chegou ao saguão.
— Senhor, não se mexa, está muito ferido! – uma enfermeira ordenou, acercando-se do escorpiano.
— Eu tô bem, não há necessidade de...
Aioria considerou as costas do amigo:
— Cara, tá sangrando bastante.
— Precisa fazer um curativo – ajuntou Saga.
— Um “curativo”? – balbuciaram os enfermeiros.
— Ah, qualé, cês tão brincando né? – riu Milo, tirando a mão do francês – um arranhãozinho destes...
— Mas... mas como... esse homem foi atingido por um pedaço do carro bomba... – um dos paramédicos assombrava-se com o fato, presenciado pelas câmeras internas do prédio.
— Carro-bomba? – surpreendeu-se o geminiano – Achei que se tratasse de uma manifestação de populares.
— Pelo visto, terroristas se infiltraram no protesto – observou Frodi, pensativo. Sigmund, aflito, questionou:
— Será que há civis feridos?
— CAMUS está ferido, isso é o que importa! – tornou Surtr, irritado com aquela permanente preocupação do loiro com os quais chamara “pobres diabos”.
— Que exagero, Surtr, só ralei de leve a pele – disse Camus, com enfado.
Enquanto eles discutiam, os paramédicos contemplavam, espantados, o jovem atingido pelo pesado detrito, e em alta velocidade. Qualquer um teria morrido, ou pelo menos ficado gravemente ferido... no entanto, aquele rapaz não apenas simplesmente viera andando e carregando outro no colo, como estava ali, de pé e falando normalmente!
Cheia de receio, uma jovem de cabelos trançados aproximou-se de Milo.
— S-senhor... por favor, nos acompanhe... precisa ser atendido, com urgência... – insistiu.
— Vai, Milo, tem que fazer um curativo. E o teu terno tá arruinado – disse Aioria, conduzindo o amigo à maca.
Os atendentes estavam boquiabertos. Eles pareciam se referir àquilo como se fosse um simples corte!
— Fala sério, Oria! Sabe que eu preciso...
— Eu cubro a tua parte até você voltar – o leonino garantiu, entendendo a que ele se referia.
— Eu vou com ele – anunciou Camus, indo em direção aos paramédicos, que tentavam a todo custo que o teimoso grego deitasse na maca.
— Você não pode abandonar sua missão – Saga advertiu-o, rígido. O aquariano virou-se para ele, indignado:
— Milo acabou de me salvar! Não vou deixá-lo...
— Milo acabou de CUMPRIR O DEVER DELE. Para que VOCÊ CUMPRA O SEU – Gêmeos o interrompeu, ainda mais duro.
Aquilo fez todos se calarem.
Saga sabia como ninguém ser extremamente assertivo... contraindo os punhos, Camus soube que ele estava certo. Para cortar aquele clima, Milo se jogou na maca, e cruzou os braços sobre a cabeça, displicente, enquanto falava, despreocupadamente:
— O Saga tá certo, Camus. Eu apenas CUMPRI COM MEU DEVER. Nada mais. Não vai ser de serventia alguma você me acompanhar.
Tais palavras caíram como pedras sobre o francês, que ainda tentou:
— Mas...
Frodi postou-se em sua frente.
— Eu acompanharei Escorpião até a enfermaria. Meu pronunciamento não será hoje. Vá em paz, Aquário – falou o Guerreiro deus, mostrando uma empatia que comoveu o Santo.
— Frodi... obrigado – assentiu, calmamente.
— E quanto ao Camus, ele não vai ser atendido não? Ele foi ferido por aquele ali – vociferou Surtr apontando para Milo, que fez menção de se levantar da maca:
— Ora, seu...!
— Eu já disse que isto não é nada – repetiu o francês, cobrindo o pequeno machucado com a mão.
— Pelo menos me deixa te ajudar a limpar esse seu lindo rosto, meu amigo – e o ruivo tencionou conduzi-lo – vem, te acompanho até o banheiro...
Aquilo envenenou o grego levado pelos paramédicos, e antes que os perdesse de vista, ainda presenciara Surtr chegar perigosamente perto do rosto do aquariano, como a averiguar o ferimento. Quis saltar da maca e deixar o asgardiano num estado MUITO MAIS MERECEDOR que ele de ir para o ambulatório...
Não chegou a ver Camus se esquivar de Surtr, incomodado:
— Pare com isso. Posso muito bem me limpar sozinho.
E passou por Saga, sem olhar para ele e para mais ninguém.
— Estarei lá em 10 minutos – anunciou, simplesmente.
O geminiano assentiu com a cabeça, confiando nele. E tomou o caminho da câmara. Aioria e Sigmund observaram o ruivo ir atrás de Camus, mesmo por ele tendo sido dispensado.
— Isso ainda vai dar merda... – comentou o leonino, coçando a cabeça.
— Surtr é mesmo um inconveniente. Eu peço desculpas por ele... quisera eu que Lyfia tivesse enviado Balder conosco, e não Surtr.
— Tudo bem, Sigmund, não fica assim não. Bom, dá licença, preciso ir com o Saga. Pelo menos o cabeça de abóbora zela pela segurança do picolé... espero, né – alegou, correndo até o geminiano.
O loiro permaneceu ali, em dúvida se seguia os dois Cavaleiros de Ouro ou se ia atrás de Surtr. Presenciara o que o compatriota havia feito com a amizade, ou melhor, o relacionamento amoroso daqueles dois homens, como fizera-os lutar entre si mediante suas manipulações sórdidas. Sigmund, ao contrário dele, não era dissimulado, e dissera mesmo, com todas as palavras, daquela vez em que o asgardiano chegara ao cúmulo de preparar uma armadilha para Milo que não se agradava de truques sujos. E Surtr era mestre nisso. Acabou decidindo pela reunião que iria iniciar, já que a mesma começaria sem nenhum Guerreiro Deus caso ele não entrasse logo. Já haviam faltado ao primeiro dia, não seria adequado. Só lhe restava torcer que Aquário cuidasse daquilo... e de uma forma que não provocasse maiores problemas.
No banheiro, Camus deparou-se com o reflexo ao espelho, estudando o que deveria fazer: limpar o rosto, ajeitar o cabelo, tentar limpar suas roupas o suficiente para se apresentar de maneira minimamente digna.
— Surtr, eu disse que não precisava de sua ajuda – proferiu, ao ver a imagem do ruivo surgir no espelho.
— Por que está me evitando dessa forma? Achei que fôssemos amigos – quis saber o asgardiano, exprimindo sua frustração.
O francês fechou os olhos, tentando suavizar seu tom.
— Não estou evitando você.
— Não é o que parece. Desde que nos encontramos, não tem um momento em que você não se dirija a mim sem desprezo. Pensa que não reparei?
— Surtr… desculpe. Não foi minha intenção. Não tenho tido momentos muito... tranquilos, ultimamente...
— Por causa do Escorpião?
Abrindo a torneira, o aquariano pôs-se a lavar suas mãos antes de realizar os procedimentos.
— Por favor, agora não. Preciso estar na Cúpula em dez minutos.
— Nem parece o mesmo homem que tomou minha mão antes de morrermos juntos – declarou – Pensei que havia me perdoado. Você salvou minha alma pelo preço de nossa amizade?
— Surtr…
— Se não posso sequer te ajudar neste momento, como você explica isso?!? – aproximou-se do amigo.
Camus abaixou o olhar, pousando-o nas manchas de sangue em seu terno cinza.
Sangue de Milo.
Sangue que Milo vertera para salvá-lo.
— Permita-me – disse o outro, tomando-lhe delicadamente as mãos. Estudou-as, vendo que o pior eram os punhos da camisa branca. Aparou um pouco de água, molhando-os, e em seguida, esfregando sabonete líquido neles.
Em silêncio, o aquariano mantinha o olhar num azulejo lustroso. Surtr limpou as partes mais sujas, ficando ainda assim bastante escurecido.
— Sangue é a mancha mais difícil de ser removida, sabia? – comentou, estudando o rosto indiferente do francês.
— Eu cuido do resto, obrigado.
— O que tanto teme?
Camus virou-se para ele.
— Como assim?
— Teme que seu Escorpião não te queira mais por me dar atenção? Pretende me ignorar e me rejeitar para consegui-lo de volta?
— Não diga bobagens.
— Pois eu digo mais: ele NÃO TE QUER de volta – disparou o ruivo, sério.
Sentindo o coração disparar, o aquariano tentou se desvencilhar dele. Surtr pôs as mãos sobre a pia de mármore caramelo, como a prendê-lo.
— É isso mesmo. Você está esnobando seu melhor amigo em vão. Porque Milo não vai voltar para você. ELE ME DISSE.
— O... o quê?
Surtr aproximou-se ainda mais do dele, e continuou, quase encostando a boca nos lábios entreabertos do Santo:
— É isso mesmo que ouviu. Tivemos uma agradável conversa na piscina do hotel esta manhã. E ele disse algo muito interessante... você quer saber o que foi?
— Não.
Pego de surpresa pelo tom gélido daquele que há instantes parecia abalado, só lhe restou repetir:
— Não? Mas…
— Surtr de Eikhthyrnir, se não me deixar sair agora, terei que usar a força com você – ameaçou, sombrio — A missão que me aguarda É mais importante que sua amizade. Portanto...
O ruivo se afastou, erguendo dramaticamente as mãos.
— Certo, certo, não precisamos perder a civilidade – sorriu, dando-lhe passagem. O aquariano passou por ele – o tempo de convivência com alguém de cabeça quente como Escorpião tem mesmo feito estragos em sua elegância habitual.
Antes de sair do banheiro, Camus encarou-o com gravidade.
— Não importune mais o Milo, por favor.
— Como desejar, meu amigo... hã... posso te chamar assim ainda, não?
Sem responder, preparou-se para sair, detendo-se ao ouvir:
— Por mais que esteja rechaçando minha amizade, eu me considero seu amigo. Em uma hora mais propícia, te direi o que Milo me ofereceu...
Hesitou por, talvez, 5 segundos. E enfim, deixou o local. Surtr continuou sorrindo. Virou-se para o espelho, a fim de se recompor. Havia de estar impecável. Passou os dedos pelos fios vermelhos, agora livres do adorno que pertencera à sua irmã Sinmone. Ajeitou o terno chumbo, e terminou por segurar o colar que acabara indo para fora da camisa verde clara. Considerou-o, sorrindo mais ao olhar o pequeno medalhão, cuja pedra lapidada que o ornava era de um azul tão escuro que de longe parecia preto.
— Sim... Milo me ofereceu... e eu VOU TOMAR – falou, colocando o cordão novamente por dentro da camisa.
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— Uuuungh... CA-CARALHO... aaahhh! Calma aí!
— Para um guerreiro que aguentou o impacto daquele destroço, você está se saindo um tanto chorão, Escorpião – riu Frodi, de braços cruzados, vendo o enfermeiro apertar as ataduras pelo torso do Cavaleiro após o ferimento deste ser tratado.
— M-me desculpe senhor... mas é que tem que ficar bem apertado...
— Isto foi pior que receber aquele treco nas costas – resmungou o grego, apertando os olhos.
— E-eu realmente não entendo como... como ficou superficial assim... era para ter atravessando o pulmão do senhor, no mínimo...
— E por isso quer me deixar sem ter como respirar agora, hã?
O guerreiro deus segurou uma gargalhada. Dirigiu-se ao rapaz, verdadeiramente assustado, que fazia o curativo:
— Ele é um dos Santos de Ouro da Deusa Atena. Ter ficado assim foi até um deslize por parte dele.
— Eu me distraí, tá legal? – rosnou o escorpiano.
— Um dos... dos Santos de Ouro de Atena??? Uau!!! Pode... pode me dar um autógrafo? Nossa, nem vão acreditar que eu toquei num Cavaleiro de Ouro!!!
— Ei, não fica espalhando por aí que tocou em mim não, ô garoto, eu sou comprometido! – brincou; na mesma hora, seu semblante se transformou, ao se dar conta do que acabara de dizer. Cabisbaixo, aceitou o papel e a caneta e assinou seu nome, sem entender a utilidade daquilo.
— Um dos Cavaleiros de Ouro vai falar à audiência agora, né? Ah, como queria ver de perto... só posso ver depois, pela gravação. Ouvi dizer que ele é um grande mestre! – animava-se o jovem, admirando o autógrafo recém conquistado.
— Um grande mestre? – estranhou Frodi.
— Sim, você não sabia? – o enfermeiro respondeu a pergunta com outra.
— Ele deve estar se referindo ao fato de Camus, quando adolescente, ter treinado dois meninos para se tornarem Cavaleiros, Hyoga de Cisne e o General Marina Isaak – esclareceu Milo, e, curioso, voltou-se para o rapaz – mas como sabe disso?
— Foi noticiado nos jornais. Costumam falar um pouco sobre os palestrantes do dia, como uma biografia, sabe?
— Ele logo chamou a atenção da mídia local por ser muito jovem... e muito bonito – ajuntou uma enfermeira, sorrindo e mostrando dentes perfeitos.
— Hum. Grande, ficando famosinho, agora – resmungou o grego, mexendo os braços para se acostumar àquela sensação de estar enfaixado. Ergueu-se e olhou para sua camisa e paletó, em péssimo estado, já prestes a serem descartados.
— Droga! Como vou entrar na Cúpula assim agora? Sem roupa pra usar?
— A organização já disponibilizou algumas peças para o senhor, estão naquela sala. Pode experimentar e escolher o que ficar melhor – a moça apontou para uma porta nos fundos do ambulatório.
— Uau. Que bom, não quero perder o discurso do Camus – e logo disfarçou a euforia ante os olhares de Frodi e dos dois atendentes – quer dizer, preciso estar lá para cuidar da segurança dele. É o meu dever, né...
— O senhor tem certeza de que está bem mesmo para andar?
— Até pra correr! Mas... escutem – se fez sério – disseram que o que me atingiu foi o destroço de um carro bomba... isso é verdade?
— A perícia está sendo realizada neste momento, mas é o que parece até então – respondeu o enfermeiro, recolhendo os itens hospitalares.
Milo e Frodi se entreolharam, intrigados.
— Nos foi dito que se tratava de uma manifestação popular. Um carro bomba não se encaixa nesse tipo de ocorrência – o asgardiano considerou, ante o menear de cabeça do grego.
— Verdade, isso foi um ato de terrorismo, isso sim!
Os dois atendentes demoraram um pouco a responder.
— Não costuma ocorrer isso aqui. Pode ser que tenha sido uma bomba caseira disparada acidentalmente. Poderia ter implodido o carro no qual era transportada – o sorriso da jovem se fora, momentaneamente.
— Sempre há os manifestantes que se excedem, em qualquer lugar do mundo. Provavelmente foi esse o caso – o colega corroborou, fechando o armário – o senhor pode ir trocar de roupa agora.
— Ah, sim, está certo!
E Milo entrou na sala contígua. Não levou muito para ele sair... com uma camisa azul turquesa e um paletó bem antiquado marrom. Que não combinavam nada com a calça preta.
— Você está ridículo – declarou Frodi, neutro.
— Que que eu vou fazer, foram as únicas peças que me serviram! – e passou rapidamente por eles – Valeu por tudo, hein, tchau pra vocês!
— Senhor, espere, precisa saber acerca dos procedimentos posteriores e...
— Ele vai ficar bem, obrigado – assegurou o Guerreiro Deus, também deixando a sala.
— E esse aí, quem era? – perguntou o jovem enfermeiro.
— Não sei... mas era bem bonito também – respondeu a moça, rindo.
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— Escorpião, não deve se apressar assim, tudo bem que esse ferimento não foi grande coisa para você, porém talvez fosse melhor não fazer movimentos bruscos – opinou Frodi, alcançando-o
— Eu sei, mas perdi muito tempo aqui! E se Camus já tiver começado?
— Não teve tempo de começar ainda, mal se passou uma hora.
— Droga, malditos exames, me tomaram uma hora!!! – de fato, antes de receber os curativos definitivos, tiveram que realizar ultrassonografia e outros para averiguar se não haviam danos internos de gravidade. Ele teve ainda que receber o parecer de um médico que lhe fez mil perguntas!!!
Algumas pessoas que transitavam pelo vasto corredor afastaram-se para dar passagem aos dois jovens que adentraram o acesso à Câmara Principal. Após se identificarem, receberam a permissão de entrar. Tão logo o fizeram, depararam-se com a imagem de Camus no telão.
O coração de Milo deu um salto olímpico no peito. Pelo menos era o que lhe parecia.
Diante de todos, silêncio – salvo os inevitáveis pigarros – a magnética imagem do jovem Cavaleiro de Atena, diante de dezenas de microfones devidamente posicionados para receber sua fala. Flashes iluminavam-lhe o rosto mas nem assim ele piscava, talvez por mantê-los semicerrados e abaixados. Como se esperasse que aquilo acabasse. Ergueu lentamente a cabeça, seus olhos índigos tal qual o mar profundo pareceu tragar a todos da plateia, perdidos em seu semblante plácido, malgrado um pequeno ferimento ainda ensanguentado lhe maculasse a suavidade da face.
— Camus – balbuciou o grego, hipnotizado pela imagem. Súbito, o Santo que detinha todas as atenções deteve a sua em um único ponto; dir-se-ia que ouvira Milo chamar seu nome. Viu-o bem de longe. Seu olhar luziu de forma inédita.
Enquanto os dois guerreiros entravam e seguiam em direção para seus lugares, o escorpiano não deixava de reparar no ex-amante. Os longos cabelos soltos, naquele exótico tom de azul cobalto... a franja parecia um pouco bagunçada, provavelmente pela movimentação no Pavilhão. Longe de passar ideia de desleixo, parecia até mais sexy...
... ora, o que estava pensando?
Recriminou-se por ser tão leviano num momento como aquele.
Ao contrário do dia anterior, seu lugar estava mais perto do palco. Separou-se de Frodi, que foi para o lado oposto. Sentou-se, após passar, um pouco constrangido, pelos que já estavam acomodados. Voltou a fitar o ex-namorado, agora concentrando-se no próprio, e não mais no telão.
— Senhoras e senhores. É com imenso prazer que passo a palavra, a partir de agora, para o senhor Camus Chermont Duchamps, um dos Santos de Ouro de Atena na Grécia, o Cavaleiro de Aquário – o presidente da ONU anunciou, solenemente.
As palmas que inundaram a plenária se juntaram à palpitação desenfreada de Milo, contribuindo para deixá-lo zonzo. Seu sangue parecia afluir violentamente ao cérebro, entorpecendo-o de súbito. Confuso, mirou o aquariano, querendo entender o que acontecia consigo... suas mãos suavam, e ele sentiu uma onda de calor a alternar com o frio que percorria-lhe a espinha.
As palmas não cessavam.
Camus cravara nele seus olhos misteriosos.
Seria o ferimento?
Não. Na mesma hora, compreendeu o que o acometia...
... receio... insegurança... medo.
Um... pressentimento... não saberia precisar. Não saberia classificar. Apenas não o apreciava.
Por si? Por Camus? Pelos dois?
Mas o que de mais trágico estaria destinado a eles... que não o que ELES mesmos teceram?
O francês aproximou mais o belo rosto ferido... começaria a transmitir, via mundial, a mensagem de Atena por ele trabalhada.
“Oh, Deusa. Guie meus passos. Ilumine minhas palavras. Dê-me a Sua Sabedoria para que eu possa conduzir o coração do homem à Sua razão”, elevou sua prece a Ela, contrito. Foi quando ouviu alguém falar diretamente ao seu cosmo...
...uma voz amada. Grave. Máscula. Quente. Macia.
“Camus.”
“Milo!”
“Boa sorte. Estou aqui. Todos nós. E os que estão em nosso lar, na Grécia, também estão aqui com você.”
“Você está bem mesmo, Milo?”
“Não se distraia. Apenas mostre ao mundo ao que você veio, Camus. Revele a mensagem de Atena.”
E um discreto sorriso foi tudo que Aquário distinguiu naquele segundo, por entre o mar de rostos, de todas as cores e formas.
Milo SORRIA para ele.
Assentiu, encorajando-o.
Enchendo-se de novo fôlego, carregado de esperança, o francês entreabriu os finos lábios para se fazer ouvir...
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