O Brilho da Honra

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Notas iniciais
Olá, pessoal, eeer... então... hã... é, demorei bastante a atualizar "Brilho", e desde já peço desculpas. O fim de mestrado arrancou meu couro, e o final de ano letivo, meus ossinhos, e, não vou negar, "Dame" tem me absorvido mais, pois demanda muitíssimas pesquisas. Mas de jeito nenhum abandonarei esta, e creio que não haja mais espaços tão longos entre as atualizações, agora que o mestrado terminou o/ Muito obrigada aos que continuam firmes e fortes apoiando esta fic, e agradeço aos que deixaram seu comentário e seu favoritinho :) Capítulo curto, e de transição, entre a "calmaria" e... bem, vocês verão (ain, verão, odeio, socorro, caloooor) Ah... o "Camye" (vão entender no decorrer do capítulo) foi uma ideia da PeixeGay. Até que enfim, o Camye apareceu, Dyyyyh xD Créditos da fanart: Feta Min Pixiv ID: 57590320 Member: ふぇたみ Nome da obra - "Deixe-me te mostrar um modo diferente de amizade" (tradução aproximada) Boa leitura!

Ele acordou antes mesmo que o despertador tocasse no horário programado, às sete da manhã. Nem seria necessário que se levantasse tão cedo, já que apenas partiriam para o Centro de Convenções South Star por volta das 10 horas. Porém, gostava de correr na praia para se exercitar e, eventualmente, dar um mergulho. Garantia aquela energia gostosa para mais um dia de missão.

Gostaria que o namorado o acompanhasse, mas, por mais que fosse também afeito à prática de tais atividades físicas, Camus se via sempre ocupado antes de irem para as conferências, às voltas com questões burocráticas, ou apresentando relatórios à Fundação. Preparar os discursos, de igual maneira, exigia bastante dele, bem como mediar acordos e negociações entre o Santuário e os demais centros de poder mundiais. Em tais funções, demonstrava com louvor a notável capacidade diplomática pela qual se fazia tão conhecido.

Pensando nisso, contemplou-o, repleto de orgulho; o francês ressonava tranquilamente, recostado em seu peito. Não sabia se o sono pesado resultava de cansaço ou da medicação tomada no hospital. Sorriu, e abraçou-o de forma protetora. Pôs-se a acariciar levemente os cabelos macios do aquariano. Este acabou por abrir os olhos índigos.

— Camus! Desculpe... acordei você, né?

— Hum... – remexeu-se, lânguido.

— Me perdoa. Não resisti a te fazer um carinho... você tava tão lindo dormindo...

— Não tem problema, eu tinha que acordar mesmo – falou, sonolento.

— Como está se sentindo?

Camus achegou-se mais a Milo, o que enterneceu o escorpiano.

— Nunca me senti tão bem em toda minha vida – a voz saiu abafada, pois afundara o rosto junto ao pescoço do amante. A respiração cálida naquele local sensível provocou arrepios no grego.

Ah, se não fosse pela promessa de “poupá-lo” por alguns dias...!

— Tá com fome?

— Sim.

— Vou pedir que nos tragam o café da manhã, certo? – deu um beijo carinhoso na testa do francês, que por pouco não resmungou quando o calor daquele corpo amado o deixou. Sem ter escolha, dirigiu-se até a suíte, enquanto Milo chamava o serviço de quarto.

Após fazerem a refeição, trocaram-se: Milo vestiu uma camiseta branca por sobre uma Bermuda preta e calçou tênis e meias, pois pretendia dar sua corrida matinal com Aioria. Camus vestiu a calça de um terno preto que escolhera para aquela segunda na Cúpula, e pôs uma camisa branca social de linho. Planejava terminar alguns relatórios e o discurso para o dia seguinte, quando iriam participar do evento no Estádio South Sports.

Estavam prestes a trocar um beijo de despedida quando a campainha tocou.

— Será que é o Saga? – perguntou Milo, indo atender. O francês ouviu-o trocar algumas palavras com alguém cuja voz não reconheceu. O namorado retornou com um embrulho nas mãos. Começou a abri-lo, empolgado.

— Uau, enfim chegou!

— Encomendou alguma coisa? – quis saber o aquariano, observando-o com curiosidade.

— Siiiim, com uma excelente artesã local! Que demais...!

— Artesã?

Do agora amarfanhado papel cinza surgiu uma espécie de bicho de pelúcia. Estranhando aquilo, o aquariano aproximou-se para ver melhor. Foi então que percebeu que era um pinguim de pelúcia, com um gorrinho e um cachecol brilhantes, em um tom azul igual ao de seus cabelos...

Oras. Realmente PARECIA cabelo.

— O... que... é... isso? – perguntou, espantado, apontando o boneco.

— É o Camye. Gostou?

— Eu nem sequer entendi.

— Ele não é legal?

— ….

— Lembra de quando você cometeu o crime de cortar seus cabelos?

— Eles estavam na metade das minhas coxas, Milo.

— Pois então, das mechas que guardei, mandei fazer um gorro e um cachecol pro Camye, e ele sempre me trará um pouco de você quando você não estiver junto de mim, quando estiver lá grudado no Saga ou ocupado com alguma missão...

— Milo. De TODOS os absurdos que você cometeu, esse, seguramente, é o MAIOR de todos – disparou, franzindo as sobrancelhas bifurcadas.

Rindo a valer, o grego abraçava o brinquedo, provocando o namorado que, muito sério, lhe deu as costas, balançando a cabeça em desaprovação.

— Não me diga que tá com ciúmes do Camye, Camus!

— Vai correr, Milo, antes que EU te ponha pra correr.

— Huuuum, sabe que falar assim comigo me dá um tesão da porra... – abraçou-o por trás, mordiscando-lhe a orelha.

— Pare com isso.

— Vamos, que outras maldades pretende fazer comigo? Espero que seja algo BEM QUENTE...

— Continue, e vai ser algo BEM FRIO.

— Se for assim, troco você pelo Camye...

— Faça bom proveito.

— Caaaamus...

A campainha tocou novamente. Eles se entreolharam, entre o abraço.

— Será algum funcionário do hotel de novo?

— Mais um brinquedo seu? – Camus arqueou uma sobrancelha, malicioso.

— Tenho uns interessantes para usar em você, assim que estiver "liberado para acesso"...

— Bom, VOCÊ está liberado para acesso. Podemos utilizá-los já.

— VAI SONHANDO.

Mais um toque. Eles se desvencilharam; o grego foi conferir quem era.

— Vocês...? – estranhou a chegada repentina de Saga, Aioria, Frodi e Sigmund. Iriam se encontrar em poucas horas, por que a pressa em...?

— Ufa, que alívio. Já que estão devidamente vestidos, podemos entrar, né?

— AIORIA! – ralhou o escorpiano, percebendo que Camus logo fez um muxoxo ante a gracinha do leonino.

Os quatro adentraram a sala, ainda escura devido às venezianas fechadas.

— Aconteceu alguma coisa, Saga? – o francês indagou, notando os semblantes preocupados dos recém chegados.

— Ao que parece, sim. É o Surtr. Ele...

— Ah, qualé, Saga, alguém aqui pediu o boletim médico daquele babaca? Nos poupe, né!!!

— Não é isso, Milo, ele sumiu.

— Sumiu? – fez Camus, sem entender.

— Na verdade – Sigmund parecia extremamente incomodado – ele foi levado...

— Há, espero que tenha sido levado pro colo do capeta.

— Milo!

— Camus, eu disse que VOCÊ não deveria odiar o cara. Daria rugas nesse seu lindo rostinho. Mas EU tenho todo o direito de...

— Será que vai nos deixar falar ou não? – reclamou o geminiano, cerrando os olhos azulados.

Milo ergueu as mãos, interpondo-se entre o namorado e os amigos.

— O que faz vocês pensarem que alguma coisa relacionada àquele filho da puta pode nos interessar? – quis saber, irritado.

— Acontece que essa “alguma coisa” pode NÃO ser relacionada APENAS ao Surtr – Frodi tomou a palavra, sério.

Os amantes se olharam, confusos.

— Expliquem o que aconteceu – demandou o aquariano.

— Se o Milo deixar... – chasqueou Aioria.

— OK, vou ficar quieto. Desembuchem, cacete – cruzou os braços, aborrecido. Será que viria mais chateação daquele miserável?

— Contarei de maneira resumida o que houve – Sigmund, visivelmente constrangido, pôs-se a esclarecer – Eu estava como acompanhante de Surtr, quando uma enfermeira e dois colegas vieram buscá-lo para fazer um exame. Acontece que o médico disse que não havia exame algum marcado àquela hora da noite, e que também não havia nenhuma funcionária no hospital como o nome pelo qual ela se apresentou a mim... Zarina...

— E ele foi levado para onde, afinal? – inquiriu Camus, recebendo um olhar atravessado do namorado.

— Camus... ele obviamente foi sequestrado — Sigmund murmurou, sem jeito.

— Sequestrado? Quem iria querer sequestrar um bosta mais quebrado que arroz de terceira... – zombou o escorpiano.

— Graças às nossas credenciais do governo, tivemos acesso às filmagens do circuito interno de segurança. As imagens mostram a tal mulher, que se apresentou a Sig como Zarina, acompanhada por dois homens, igualmente vestidos como enfermeiros, que levavam Surtr em uma maca. Eles tiraram-no do quarto e levaram-no até o andar térreo. Uma ambulância esperava por eles... e assim, escaparam – contou Saga, rememorando cada cena vista.

— Fomos averiguar o número da placa do veículo e, adivinhem? – gesticulou Aioria – Não há NENHUM registro dela, em TODO o país!

— Mas como...? – murmurou Aquário, atônito.

— Não me diga que tá preocupado com ele – Milo deixou escapar todo seu azedume.

— É CLARO que me preocupo.

— O quê?

— Me preocupo sim, com o que pode ter acontecido com ele. Pois, conforme nossos companheiros estão desconfiando, isso pode ser sinal de uma trama muito mais escusa do que pensamos. Como você mesmo perguntou, Milo, PARA QUE alguém iria querer sequestrar o Surtr?

Calando-se de súbito, o grego mordeu o lábio, indignado. Mas não com o amado, e sim consigo mesmo. Lá estava ele demonstrando a maldita falta de confiança nos sentimentos de Camus outra vez! Será que não aprenderia nunca?

Longe de se aborrecer, o francês fitou-o, compreensivo. O caminho que teriam que trilhar era realmente longo! E disso ele TINHA sua culpa. Entretanto, o que importava é que estariam juntos.

— Entendo – murmurou Escorpião. E, virando-se para Saga – e então, o que devemos fazer?

— Penso que deveríamos procurá-lo. Mais do que um sequestro, fico pensando se não é um RESGATE.

— Um resgate? – repetiram todos, quase a uma só voz.

— É só um pensamento que me ocorreu. Mas não percamos mais tempo conversando aqui.

— Sim, temos cerca de uma hora até que precisemos ir para a Conferência – ajuntou Frodi.

Eles menearam as cabeças em concordância e, com suas velocidades sobre-humanas, partiram em busca do desaparecido. Olho humano algum poderia distinguir a passagem daqueles que poderiam guerrear contra deuses, zarpando pelos espaços. Concentraram seus poderes no afã de sentir alguma presença, algum cosmo... vasculharam montanhas, cidades, campos, vilas...

Nenhum sinal de Surtr.

Por algum motivo desconhecido, nem mesmo os companheiros asgardianos puderam contactá-lo!

Às nove e meia, retornaram ao hotel. Balançaram negativamente as cabeças um para o outro.

— Só nos resta deixar que os agentes de Asgard continuem a procura.

— Tem razão, Frodi. Bem... precisamos nos trocar para a Cúpula.

— O que vai acontecer se Surtr não for encontrado?

Os dois asgardianos apenas encararam Camus, sem saber o que responder.

Coube a Saga fazê-lo, apreensivo:

— Não sabemos. Mas quanto a mim... não tenho um bom pressentimento sobre isso.

*************

Como que emergindo das profundezas de um mar escuro e revolto, Surtr despertou.

Uma dor martelante pelos membros cuidou de acordá-lo por completo. Suas memórias se reorganizavam, montando o quebra-cabeças de suas últimas horas.

Estava internado após ter sido, em sua concepção, atacado pelo fascínora do Escorpião. Cerrou os punhos com força, tamanha irritação que tal lembrança lhe trouxera. Péssima ideia: a dor mordeu-lhe os antebraços, e também os dorsos da mãos, cada qual com um tubo ali inserido. O teto forrado com papel decorativo em tons pastéis e estampado com folhas levou-o a perceber que não mais se encontrava no hospital.

Oh, sim.

Havia sido retirado do quarto hospitalar por uma enfermeira e dois enfermeiros. E depois... e depois...

— Até que enfim o senhor acordou!

Derrick!”, pensou o ruivo. Sentia-se indisposto demais para falar. Sua língua parecia uma gravada dobrada e enfiada dentro de sua boca.

— Como o senhor está? Sente alguma dor?

O asgardiano tentou balançar a cabeça em uma afirmativa, mas aquilo lhe trouxe ainda mais desconforto. Cerrou os olhos com força, seu rosto contorcendo-se em agonia. O africano revoltou-se:

— Aquele maldito! Como pôde fazer isso com o senhor? E se diz um guerreiro que luta pela justiça!

— O-onde...es...tou... – Surtr balbuciou, fracamente.

— Digamos que em uma de nossas bases de operação.

Quem respondeu não foi Derrick, e sim um homem negro mais velho, incrivelmente ainda mais corpulento que o forte ex-recepcionista. Acompanhavam-no cinco homens, aparentemente todos africanos, trajando roupas casuais como jeans e camisetas escuros, alguns de casaco, como o que falava, que vestia uma jaqueta de couro marrom. Surtr percebeu que estava num quarto de aparência requintada, provavelmente uma residência de alto padrão.

— Quem são vocês? – ainda não era muito fácil falar, tanto pela boca seca e pesada quanto pela pressão da atadura que descia-lhe pelo maxilar.

Kulaita parou de frente ao rapaz enfaixado, que estava sobre um grande leito de cabeceira alta e dourada.

— Bem, não é mais hora de rodeios, já que está aqui quem nos auxiliará a manter em nosso poder aquele que queremos: somos a Unidade Revolucionária Brilho da Honra.

— A... Brilho da Honra? – espantou-se o ruivo, mirando todos do grupo – Fala da... daquela organização terrorista separatista?

— Essa é a definição dada pelos bárbaros colonizadores – rebateu Kulaita, sem se perturbar – Não somos separatistas, ao contrário. Estamos unificando povos abandonados à própria sorte, oferecendo a eles salvação da exploração dos impérios que se enriquecem com o sangue africano.

Boquiaberto, o asgardiano virou-se para Derrick, o dedo apontado para os criminosos.

— Derrick... você... você conhecia essa gente?

— Não antes de conhecer o senhor.

— Mas como? E o que eu…

— Fique calmo, por favor, senhor Surtr. Explicarei rapidamente: Kulaita, que é um dos líderes da organização, é MEU TIO, e...

— O QUÊ? Ora, seu… disse que não os conhecia! – começou a se agitar, acreditando ter sido enganado pelo jovem – Então resolveram me sequestrar e VOCÊ os ajudou, não foi?

— Calminha aí, rapaz – demandou Kulaita, sereno – Derrick NÃO está mentindo. Ele realmente não sabia da minha existência, e pode ser que nunca viesse a saber... se não tivesse te conhecido.

— Hein?

— Até se envolver pra valer com você – repetiu – só então, vimos a serventia no meu sobrinho.

Pôs a mão no ombro do ex-recepcionista, que encarava o asgardiano de maneira quase envergonhada.

— Serventia, hã? – rosnou Surtr, erguendo meio corpo, apoiando-se com dificuldade nos travesseiros – Entendo. Acharam que chegariam até mim através de Derrick, e é por isso que estou aqui, não? Não sei com que intuito me raptaram, mas NÃO SABEM com quem estão lidando! Eu vou...

— Engana-se, garoto – Kulaita interrompeu, agora enérgico. Surtr chegou a se assustar com o timbre profundo, quase gutural – Sabemos EXATAMENTE com quem estamos lidando. E é por isso que precisamos de sua ajuda para pôr as mãos em quem realmente queremos.

— E quem seria?!?

— Camus de Aquário.

A menção daquele nome paralisou o ruivo.

— Justamente por ser você um Guerreiro Deus, dotado de habilidades similares às de um Santo de Ouro, é que nós o trouxemos para cá.

— Camus...? O que vocês querem com Camus?!

— Ele será o principal instrumento de nossa luta pelo alvorecer de uma nova nação, soberana e justa.

Surtr olhava pausadamente cada um deles, como se estivesse diante de loucos.

— Esperem... querem SEQUESTRAR o Camus? E acham que EU vou ajudá-los nisso?

— Nós temos certeza.

— E o que faz um bando de bandidos como vocês terem a certeza de que EU, um guerreiro honrado e AMIGO de Camus, vou ajudá-los a raptá-lo?!?

Um sorriso trocista antecipou a resposta tranquila de Kulaita:

— Você NÃO é nem mais um guerreiro honrado e nem mais amigo de Camus de Aquário, Surtr de Eikthyrnir.

Aquela réplica fez o asgardiano ficar sem ação. Aproveitando, Kulaita continuou:

-Daquele hospital, meu caro Surtr, você sairia algemado e acorrentado de volta para seu país, por ter traído o acordo entre Asgard e o Santuário. NADA MAIS tem a perder.

Como eles sabiam de todas aquelas coisas? O atônito paciente aguardou que o homem prosseguisse:

— E é quando a Brilho da Honra surge; para lhe restituir a liberdade e para lhe dar a chance de uma NOVA VIDA, coberta de riquezas e glórias, à frente de nosso governo emergente. Basta que colabore conosco. Penso que oferecemos até MUITO, para quem, agora, tem MENOS QUE NADA.

Trêmulo, Surtr ouvia-o, como preso a um efeito alucinógeno. Havia, no entanto, uma vivacidade convincente nas trevas abissais dos olhos de Kulaita!...

— Deixe-me ver se entendi – sua voz saiu baixa, mas pelo menos firme, e não tremida como temeu que saísse – querem usar Camus em sua guerra e, para “pôr as mãos nele”, precisam de mim. E para isso, me oferecem salvação, dinheiro e posição de destaque em seu... “governo emergente”.

— Quase tudo correto – interveio um outro homem, usando uma boina verde escura – Como pôr as mãos no Cavaleiro nós JÁ sabemos. Há muito foi planejado, e o sucesso da missão seria certo.

— O problema que tínhamos nas mãos era com relação à forma pela qual MANTERÍAMOS o Santo em nosso poder, sem que ele se comunicasse com os companheiros. Sabemos que os Cavaleiros de Ouro têm essa habilidade, através do que eles chamam de “cosmo”. Algo como uma telepatia – completou o tio de Derrick – e é ISSO que precisamos evitar. Quanto a fazê-lo VIR conosco... dispomos de um método bem convincente.

— Que método? – preocupou-se o ruivo.

— Não pretendemos fazer mal a Aquário, se é o que teme.

— Como se vocês pudessem – riu Surtr.

— De forma INDIRETA, é possível, sim.

O riso do asgardiano cessou imediatamente.

— Bom, o que querem que EU faça, então? Falem logo – disse, entre dentes.

— No tempo certo, você saberá – o líder do grupo fechou o rosto, tencionando conduzir a uma conclusão – Por hora, basta que saiba que o “Príncipe de Gelo” não será machucado. Pelo contrário; tanto ele quanto você, assim como o Derrick aqui, viverão no mais absoluto luxo e poder. Serão igualmente abençoados com nossa ascensão. E então, Surtr... nos ajudará ou teremos que devolvê-lo aos asgardianos?

Enfim, chegara o ponto decisivo.

— Não é como se eu tivesse escolha, hã?

— Escolha você tem – retrucou Kulaita, assertivo – Ocorre que uma delas te levará à glória e à salvação. A outra te levará à desonra e ao cativeiro.

Surtr fitou-o, não muito convencido. Sabia, contudo, que o tio de seu amante estava certo acerca das escolhas.

Não havia como voltar para Asgard.

Voltar como um PRISIONEIRO? Um TRAIDOR de Odin.

Não, jamais!

Inadmissível.

E tendo ainda a chance de ficar com Camus... onde quer que fosse... disse, por fim:

— Estou de acordo.

O terrorista abriu um sorriso largo, assustador em sua perfeição.

— Eu sabia que era um cara inteligente – disse, satisfeito.

O ruivo olhou para Derrick e viu que o rapaz se alegrava com aquela decisão.

— Muito bem, amanhã efetuaremos a operação – anunciou o homem da boina verde-escura.

— E sobre ela, eu posso saber como será?

— Claro, Surtr – respondeu Kulaita – Mas acho que antes, precisa de um alívio para as dores que está sentindo.

— Hum?

— Themba! – chamou, elevando a voz.

Foi então que surgiu um ancião negro, de cabelos e barbas tão brancas quanto as nuvens do céu. Era levemente encurvado, e seus olhos muito negros pareciam conter enigmas. Havia algo intimidante naquele velho, mais até que no próprio Kulaita.

— Este é Themba, o curandeiro mais influente de Angdar.

— Um curandeiro?

— Ele cuidará de suas feridas, Guerreiro Deus.

— E-ei... como assim? – sobressaltou-se o ruivo, vendo o ancião se aproximando dele.

— Themba é intermediário entre Deus e os homens. Os tesouros terapêuticos que a Natureza oferecem não são segredos para ele – esclareceu um dos criminosos.

— Themba fará por você o que a Medicina dos homens não foi capaz de fazer – ajuntou um outro, preparando-se para sair do recinto. Os outros o seguiram.

— Eu “ajuda” o senhor a se “despe” – anunciou Themba, com um sotaque rascante, diferente de todos os presentes ali.

— QUÊ? Nem pensar que eu vou deixar…

— Senhor Surtr, confie nele. Sarou minhas feridas, veja – garantiu Derrick, mostrando o braço já livre de tipoia e ataduras.

A despeito de tudo que estava acontecendo, a confiança no amante permanecia inabalável. Acalmou-se e fez-se solícito.

— Está bem. Façam o que acharem necessário. Eu TENHO como neutralizar a ação de Camus que vocês temem tanto. Com ISTO aqui... – mostrou o medalhão do colar que trazia ao pescoço. Que sorte que lembrara logo dele ao acordar no hospital, e pedira ao tolo do Sigmund para que lhe entregasse!

— Assim imaginávamos, Guerreiro Deus – disse Kulaita, virando-se em seguida para o curandeiro – Themba, cuide bem dele. Bom trabalho.

E caminhou para a porta, os demais acompanhando-o, com exceção de Derrick; este declarou, amavelmente:

— O senhor vai ficar bem.

O ruivo apenas meneou a cabeça, concordando. Então viu o ex-recepcionista sair do quarto.

Com a ajuda de Themba, removeu a roupa hospitalar que ainda vestia. Não teve vergonha de sua nudez, tinha era desconfiança do que havia nos potinhos de cerâmica que o velho dispôs sobre o criado mudo. E a desconfiança aumentou quando o curandeiro começou a rezar, em uma língua desconhecida, diante dos recipientes. Passou sobre cada um deles um raminho verde, agora cantarolando baixinho.

— Ei... que você tá fazendo?

Themba não respondeu. Finda a prece, pôs a retirar a atadura de um dos antebraços do paciente ressabiado. Com dois dedos ossudos, esfregou vigorosamente sobre a região contundida um creme amarelo malcheiroso. Surtr trincou os dentes durante a massagem, e estava quase soltando um palavrão quando:

— “Esticar” o braço – ordenou o velho.

Fazendo um “hunf”, o ruivo obedeceu. Esticou e...

— Hã?

— Aqui – Themba deu duas batidinhas com os nós dos dedos no braço do asgardiano – aqui parou de “dor”, “num” é?

Surtr constatou, com estupor, que não sentia dor alguma no local, engordurado pelo unguento.

— Como... como fez isso?

— Agora, Themba vai “faz” o mesmo nas suas costas – anunciou, tranquilamente, e começou a tirar as ataduras do torso do paciente.

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Notas finais
É, o momento da ação mais ousada da "Brilho da Honra" aproxima-se. Conseguirão eles capturar Camus? E, afinal de contas, o que tanto querem com o "Príncipe do Gelo"? E qualé desse "medalhão" do Surtr? (Acharam que tinha esquecido dele? Hehehe) Muita ação nos espera no próximo capítulo. Aguardo vocês lá. Forte abraço!