O Brilho da Honra
15 Intermezzo
Notas iniciais
Camus deixou o prédio principal e atravessou uma alameda arborizada até a cafeteria do hospital, similar a um restaurante.
Antes de entrar para comprar sua refeição, pegou o celular no bolso da calça e ligou para Gêmeos.
— Oi, Saga, tudo bem? Estou ligando para avisar que ficarei aqui no hospital com Milo, até ele sair amanhã de manhã.
— Nem precisava ligar, isso era evidente para mim – brincou o geminiano, o que fez o francês revirar os olhos.
— Bom, achei melhor deixar avisado, de qualquer maneira.
— Claro, claro. E ele, como está?
— Bem, muito bem, foi como você falou…
— E vocês, se acertaram?
— SAGA!
— Só pelo seu tom, entendo que sim – riu o grego, gesticulando para Aioria, que estava com ele no restaurante do hotel, esperando o almoço enquanto saboreavam as entradas. O leonino fez uma expressão de curiosidade.
— Que foi? – perguntou.
— Camus e Milo se acertaram, enfim.
— UAU, eles TRANSARAM no hospital?!?
Como falara alto, o aquariano conseguira ouvir.
— Droga, não fiquem falando essas coisas desse jeito – reclamou, incomodado.
— Isso é bem inesperado de você – disse Saga, divertido – Camus, sempre tão regrado e correto...
— Eu não disse nada, vocês é que estão colocando palavras na minha boca!
— O importante é que se reconciliaram, finalmente. Ficamos muito felizes por vocês, meu amigo – falou o geminiano, sorrindo.
— Hunf... certo, obrigado – fez o francês, já ruborizado.
Despediu-se após mais algumas palavras e desligou o aparelho. Guardou-o e entrou na cafeteria.
Do lado de fora estivera observando-o, a longa distância, um homem negro de meia idade, cabelo grisalho. Fumava um cigarro enquanto acompanhava os movimentos do Santo. Tão logo terminou de fumar, desfez-se da guimba e pegou um celular. Após efetuar a ligação, pôs-se a falar, em um idioma que não era nem inglês nem o africaneer:
— Ele ainda está no hospital. Acabei de vê-lo entrar na lanchonete. Sim, na certa ficará como acompanhante do companheiro que salvou. Não, ao que parece, não com gravidade, está com um dos braços enfaixados acima do cotovelo e só. Entendido. Até mais tarde.
Desligou e saiu dali, indo para o interior do prédio hospitalar.
*************
— Mas isso merece um brinde! Aqueles dois cabeças-duras enfim se acertaram! – rejubilou-se Aioria, abrindo um sorriso radiante.
— Nada disso, meu amigo, lembre-se de que você acabou de prestar depoimento e a qualquer momento, alguém da Polícia Federal pode querer contactá-lo. Não seria adequado falar com eles depois de ingerir álcool, concorda?
— Droga, Saga, quando foi que você ficou tão velho? – resmungou o leonino, fatiando a carne tenra em seu prato.
— Em relação a vocês eu SEMPRE fui velho – sorriu o geminiano, fazendo gesto de brindar com seu copo de suco de laranja.
— Por Atena, você só tem 35 anos. Não é nenhum Mestre Ancião.
Não, ele não era.
Contudo, o que havia vivido... amadurecera-o mais do que o tempo...
— Achei muito vagas as respostas dos agentes. Quer dizer, OK, quem tinha que responder perguntas era eu, não eles...
Saga considerou o companheiro:
—É natural que não queiram adiantar muita coisa. Durante um processo de investigação podem não querer divulgar o que descobriram, a fim de não atrapalhar os esforços empreendidos.
— E cá entre nós, você acha que descobriram mesmo algo?
— Sinceramente? Por vezes acho que SABEM do que se trata. Porém, pela ordem pública... recusam-se a falar.
— Um problema local antigo?
— Talvez nem tão local – respondeu Gêmeos, arrumando o guardanapo para iniciar a refeição principal.
Viram Frodi e Sigmund adentrarem o luxuoso salão e acenaram para eles. Vestindo jeans e camisetas nas cores preta e branca, respectivamente, os asgardianos pareciam bem mais joviais. Foram até a mesa dos Cavaleiros, próxima a uma janela panorâmica que dava para o estonteante mar azul.
— Olá, como estão, meus amigos? – Saga os saudou, amistosamente. Já detinha grande admiração dos mais novos, que responderam quase em uníssono:
— Tudo bem, e vocês?
— Estamos bem, também. Não querem se sentar conosco? – convidou Aioria, simpático.
Os dois concordaram e tomaram assento.
— Obrigado. Como você está, Leão? – perguntou Frodi.
— Não se feriu mesmo, não é verdade? – inquiriu Sigmund.
— Nada, relaxem, não sofri nem um arranhãozinho sequer.
O garçom entregou o menu aos recém chegados: Aioria já estava na metade de seu almoço e Saga comia tão devagar que mal o iniciara de verdade.
Enquanto procurava escolher um prato, Frodi perguntou:
— E quanto ao Escorpião?
— Ele foi ferido mas sem gravidade. Só que como foi naquela cabeça dura dele, vai ficar em observação no hospital até amanhã de manhã – respondeu Aioria.
— Camus também se feriu, não? Pelo visto, ainda está no hospital... – observou Sigmund, como a apontar pela ausência do aquariano.
— Ah, ele... também está bem. A razão de ele ter ficado no hospital é outra; para ser acompanhante de Milo – sugeriu Saga, com um discreto sorriso de canto.
— Oh – fez o loiro, constrangido. E sorriu também, de forma leve – Compreendo.
Assim que fez a escolha da refeição, Frodi comentou:
—Chega a ser difícil de acreditar que o ferimento de Escorpião não tenha sido grave! Pelas imagens que vimos na TV...
— É , ele parecia bem mal... – completou Sigmund, igualmente fazendo sua decisão.
Saga e Aioria se entreolharam.
— “Imagens na TV”? Como assim? – indagaram quase a uma só voz.
— Vocês não viram ainda? – Sigmund pareceu surpreso.
— Não passa outra coisa na televisão – ajuntou o outro asgardiano.
O leonino teve que tomar um belo gole de suco de abacaxi com hortelã para desentalar.
— Peraí. Cês tão dizendo que a TV tá passando IMAGENS do Milo sendo socorrido pelo Camus? Do Camus carregando ele no colo?!?
— Bom, havia inúmeras equipes de reportagem cobrindo o incidente... a ação de vocês foi amplamente filmada e documentada – esclareceu Frodi – e, sim, inclusive o resgate do Escorpião... aliás, Aquário está sendo chamado de “Herói de Gelo”.
Sufocando um riso nervoso, Aioria levou a mão à boca:
— Ai, caramba, isso não vai prestar...
— Não mesmo, quando Milo souber disso... – refletiu Saga, olhando para o teto.
Os dois asgardianos ficaram sem entender. Não conheciam a fundo a índole orgulhosa do escorpiano...
— Mas o que acha disso, hein, Saga? Eu tava lá, trabalhei com Milo para salvar aquelas pessoas, e ao que parece, quem ganhou um nome bonito foi apenas o senhor Iceberg! – brincou o leonino.
— Ele ganhou de você nos quesitos visuais, por certo.
— Que tal falar logo que ele é o bonitão?
Eles riram.
— Não falo disso, tonto. Falo da manifestação do poder dele. Vocês protegiam as pessoas em meio ao fogo, e isso deve ter sido impressionante, mas as imagens de um desconhecido chegando lá do nada e emanando aquelas rajadas de gelo para todos os lados devem ter roubado um pouco a atenção pelo elemento visual, não? – Gêmeos explicou, entre risos.
— De fato, foi uma entrada dramática – concordou o leonino, rindo – o que o amor não faz... eu nunca havia visto ele daquele jeito...
As entradas dos asgardianos chegaram. Aioria aproveitou e pediu mais um prato.
— Bom, pelo menos estão todos bem – falou Sigmund, servindo-se de sua salada de polvo com caviar.
— Isso é verdade – disse Saga – mas, se me permitem... e Surtr, onde está? Não vem almoçar com vocês?
Agora foi a vez de os Guerreiros Deuses se entreolharem. Pareceram um tanto desconfortáveis, ainda mais face àquela união que testemunhavam haver entre os Santos de Atena.
Frodi pousou a colher com que começara a tomar a sopa de vôngoles e ostras e respondeu:
— Surtr e nós... não somos exatamente ligados, como vocês são entre si.
— Sim, ele nos evita – completou Sigmund.
— Ele parece ser um cara bem complicado – Aioria não se conteve em comentar.
— Surtr tem uma personalidade bastante difícil... arredia, autossuficiente... é egoísta demais para a posição que ocupa em nosso país, mas... é um dos Guerreiros Deuses de Odin – contou Sigmund, balançando levemente a cabeça, num sinal de reprovação interna – Mesmo assim, não foi a melhor opção para nos acompanhar nesta missão... ainda mais por Camus também estar aqui.
Lembrava-se de desde o início perceber a obsessão do ruivo pelo forasteiro quando de sua chegada na base em Asgard.
Seu companheiro de cabelos azuis ajuntou, sério:
— Eu só espero que as... QUESTÕES PESSOAIS dele... as quais conhecemos muito bem... não comprometam nossas operações. Mas... – lembrou-se da cena presenciada na madrugada, quando o ruivo foi praticamente levado por um completo desconhecido – temo que esta minha esperança seja vã.
— Não se preocupem, vamos nos articular e tudo dará certo – o geminiano animou-os. E isso teve imenso valor, a julgar pela mudança nos semblantes dos jovens guerreiros.
Os pratos principais deles e o extra do leonino chegaram. Aioria sentenciou, alegremente:
—Isso aí. Agora vamos comer, que de barriga vazia nada se resolve. Mais tarde podemos fazer uma bela caminhada pela praia até o Parque Reserva Nacional aqui perto, que acham?
Todos sorriram, em concordância. Um passeio por uma terra mais cálida como aquela seria uma novidade para os dois asgardianos.
— E amanhã de manhã há um passeio de escuna pelas ilhas, saindo aqui mesmo da praia. Podemos combinar isso também – sugeriu Saga, antes de saborear seu rosbife com ervas.
Sigmund chegou a abaixar a cabeça, em uma reverência de formal agradecimento.
— Parece ótimo. Muito obrigado pela amizade de vocês, Guerreiros de Atena.
— Sim. É curioso que possamos nos dar melhor com vocês do que com nosso próprio compatriota... bom, digo isso pela situação em si. Não pelo que ele seja... – suspirou Frodi, por fim.
*************
Camus retornou ao quarto de Milo com algumas sacolas nas mãos. O escorpiano havia terminado de almoçar, assim o francês pôde tirar dali a bandeja e depositá-la em uma mesa.
— O que você vai comer? Tenho certeza de que será um banquete perto do que acabei de comer – resmungou o grego, de olho comprido nas bolsas do aquariano.
— Nada de mais... trouxe café expresso duplo com creme, sanduíches de queijo com rosbife e pasta de espinafre, uma torta salgada de shiitake e brie, uns muffins de chocolate...
— Hunf. Como eu disse: UM BANQUETE – chegou a fazer um “bico”.
— Eu sabia que você estaria com essa atitude, portanto... – e estendeu para o paciente uma grande barra de chocolate que tirara de uma das sacolas.
O rosto de Milo se iluminou como o de uma criança que recebe um presente de Natal sem por ele ter esperado. Simplesmente ADORAVA chocolates! E ganhá-los de Camus... claro que lhe conferiam um sabor extra, todo especial.
— Uau!!! Obrigado! Sabia que eu te amo??? – pegou o doce, empolgado, lendo atentamente a embalagem antes de abrir.
— Sei sim... – sorriu o francês, indo se sentar no sofá.
— E isso prova que você me ama.
— Ou que quero você ocupado o suficiente para não ficar de olho na MINHA comida – respondeu, irônico, começando sua refeição.
“Chocolate 60 % de cacau com nozes”, pensava Milo, “é o meu preferido. Será que ele se lembrava disto ou foi apenas uma coincidência?”
Pensou em perguntar. Viu-o abocanhando seu sanduíche, distraidamente.
Besteira.
A resposta era óbvia... pelo menos PARA ELE... e isso bastou para pôr-lhe um sorriso nos lábios.
Saboreou o chocolate, de ótima qualidade, aliás.
O aquariano terminou de comer, descartou as embalagens e foi até o banheiro. Voltou e dirigiu-se ao leito, reparando o semblante cansado do amado. Que, óbvio, não dava o braço a torcer sobre isso.
— Milo, agora vá ao banheiro, faça o que tem que ser feito, e durma. Você precisa descansar.
— Você também precisa, Camus – retrucou, enquanto descia da cama para fazer conforme o sugerido.
— Eu vou sim – mentiu o francês. Claro que ele não poderia dormir na parte da tarde sendo acompanhante de alguém no hospital; possivelmente viria um médico ou enfermeiro verificar o paciente, e tinha que estar desperto. Somente pela noite poderia efetivamente repousar... no entanto, preferiu não dizer isso a Milo. Concluída sua higiene, o escorpiano voltou a se deitar. Camus sentou-se numa cadeira ao lado da cama e pôs-se a acariciar, com extrema delicadeza, os cabelos de Milo. Ficaram assim, longos minutos, mirando-se amorosamente.
— Isto parece um sonho... – murmurou o grego — às vezes acho que aquela bala atingiu meu cérebro, e que eu tô aqui em coma sonhando com tudo isto...
— Não fale besteira. Não gosto nem de lembrar de quando me disseram que você havia sido baleado e que... que estava...
Milo esperou, mas o amante não pôde concluir. Tão somente declarou:
—Esperei muito por isso, Milo.
— Eu sei. E sinto muito por isso. Eu sinto tanto por não ter...
— Shhh – o dedo do amado pousou suavemente sobre seus lábios, impedindo-o de continuar – Não vamos mais falar sobre isso, está bem? Em uma outra hora talvez, se você quiser. Apenas descanse... por mim.
De fato, os olhos do escorpiano pesavam e suas pálpebras fremiam. Contudo, era como se lutasse para ficar ali, mirando incessantemente seu grande e regresso amor. Internamente, Camus ria daquela teimosia pueril. Ao cabo de alguns minutos, enfim, devido à paz instaurada e àquelas doces carícias, os olhos de Milo não mais se abriram. Um leve ressonar denunciou a vitória do sono. Sorrindo satisfeito, Camus afastou uma mecha, inclinou-se sobre ele e o beijou ternamente os lábios bem feitos e entreabertos. Sussurrou, emocionado:
—É bom estar de volta... meu amor.
Ergueu-se da cadeira, deu uma bela espreguiçada e voltou para o sofá. Pegou outro copo de café; iria precisar.
Cruzou as pernas e preparou-se para ler um dos jornais que trouxera consigo da cafeteria. As manchetes de capa, como não poderia deixar de ser, sobre o atentado à boate Sound Season. 33 mortes.
Lamentável, muito lamentável...por mais que eles tivessem salvado muito mais pessoas do que perdido...
Abriu o jornal, consternado. Não obstante, genuína surpresa substituiu aquela consternação em sua expressão. Por dentro do jornal, legendando fotos...
“O incêndio foi aplacado pelos fabulosos Santos de Ouro do Santuário na Grécia”
“Guerreiros participantes de Conferência da ONU salvam mais de trezentos"
— Ora essa... – murmurou, cada vez mais surpreso ao ver menção a eles. Ocupados como estavam, nem se deram conta de como eram fotografados e filmados no momento.
“Surge o Herói de Gelo para apagar o fogo externo”
“Herói de Gelo surpreende ao dominar o frio e a neve”
— “Herói de Gelo”? – fez uma careta, arqueando uma sobrancelha.
Não se sentiu nada à vontade com aquilo.
Folheou mais o jornal, quase ansioso. Deparou-se com uma foto enorme dele carregando nos braços o Escorpião desacordado, os cabelos ao vento, a feição tensa e obstinada, o sangue de ambos mesclando-se dramaticamente. Legenda da imagem:
“O momento em que o Herói de Gelo resgata um companheiro ferido”
Camus bateu com o jornal contra a própria testa.
“Ai, ai... Milo não vai gostar NADA disso”, imaginou, enfiando um muffin na boca.
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Surtr esgueirava-se pelo corredor de seu apartamento em direção ao banheiro. Achou que fosse vomitar, mas fora um alarme falso. Um enjoo monumental tomava conta dele, porém não passava disso. Até sua cabeça havia parado de doer. Realmente, os remédios deixados por Derrick ajudaram de forma deveras eficaz.
Despiu-se e enfiou-se debaixo do chuveiro, deixando a água correr livremente por seu corpo pesado. As imagens do dia e da noite anteriores voltavam como flashes ofuscantes à sua mente enfraquecida:
Camus no banheiro do Centro de Convenções, de frente para ele, com olhar gelado, recusando sua aproximação.
Camus perdido nas vagas do mar, mais uma vez rejeitando-o.
Camus com o braço suspenso no ar, após esbofeteá-lo, dirigindo a ele o olhar mais repleto de frio e ira de que se lembrava.
— Camus... – rangeu os dentes, a cabeça baixa sob a forte pressão da ducha morna. Virou-se contra a parede e cerrou os olhos com força para não chorar. Crispou os punhos nos azulejos finamente trabalhados.
“Odin te trouxe para mim! Milo deu você para mim! Não haverá outra saída para nós... por que não pode entender? Não... eu VOU ter que fazer você entender...”, pensava, a mente escurecida por planos difusos e nefastos. Terminou o banho apenas quando achou seus dedos enrugados demais.
Saiu do box, enxugou-se rapidamente e vestiu-se com o roupão branco do hotel. Dirigiu-se para a cozinha, sentindo-se melhor.
“Não deixe de se hidratar bastante, é o mais importante.”, lembrou-se das palavras de Derrick.
Derrick.
O filho da mãe era até atencioso, não havia como negar.
Claro que seria tudo por dinheiro.
Mas... ainda assim...
Lembrou-se do cheiro do jovem. Do apoio em suas costas, mal roçando-lhe o corpo, tamanha deferência. Do cuidado para com ele, que só lhe desferia impropérios.
Dinheiro... dinheiro comprando até uma sensação única, inédita em sua vida. Sorriu, amargo e cético.
Pegou uma garrafa de água da geladeira duplex e foi para a sala de estar. Beberia aquela água e depois pediria o serviço de quarto. Não encontrava a menor disposição para descer e almoçar em algum dos restaurantes do resort.
Olhou para o telefone. Desviou o olhar, sorvendo a água com certa ânsia. Voltou a fitar o aparelho e, após estalar a língua, ligou para o apartamento de Frodi e Sigmund.
— Sim, pois não – atendeu Sigmund.
— Sigmund, sou eu, Surtr...
— Surtr, como está? Sente-se bem?
— Sim, sim, muito bem – mentiu, fitando o mar da ampla varanda.
— Que bom, ficamos preocupados com você.
“Quanta falsidade”, pensou Surtr, apertando os olhos magentas.
— Não havia necessidade.
— E você, já almoçou?
— Hum, vou pedir almoço aqui no flat.
— Ah, perfeito. Escute, se quiser se juntar a nós, daqui a uma hora faremos uma caminhada pela praia até o parque ecológico aqui perto. É uma oportunidade única, não acha? Nós, que vivemos cercados de neve e gelo o tempo todo.
— Verdade – aquele palavrório de Sigmund estava quase lhe trazendo de volta o enjoo já controlado – E... quem vai?
— Iremos eu, Frodi, Saga e Aioria – informou, a animação patente em sua voz.
— Hum... então... Camus não vai com vocês.
— Ele ainda está no hospital.
— O quê? – assustou-se o ruivo, deixando-se cair sobre uma cadeira de junco – Eu… achei que ele não tivesse se ferido com seriedade! Vocês falaram que ele estava bem!
— Mas ele ESTÁ bem...
Em vão. O ruivo já principiara a se descontrolar. Disse, atropeladamente, muito irritado:
—Vocês não quiseram me contar a verdade! Oras, se ele ainda está no hospital, é porque ele se MACHUCOU mesmo... por Odin... preciso ir até lá e...
— Surtr, acalme-se – pediu o loiro, firmando bem a entonação – Ele não está no hospital como paciente. Está como acompanhante de Milo.
Por uns instantes, Surtr chegou a paralisar. Piscou os olhos, incrédulo.
— Como... como acompanhante? – balbuciou.
— Sim – suavizou o tom – e, olha… ele vai ficar lá até o Escorpião receber alta amanhã de manhã.
— Eu não acredito nisso – seu rosto contorceu-se num riso nervoso – Milo nunca iria querer o Camus por perto! Eles... eles...
Ouviu um suspiro abafado do outro lado da linha.
— Bom, mesmo que você não acredite, é um fato. Camus ficará no hospital até amanhã. Com Milo.
Com Milo.
Com Milo.
O enjoo retornava com força total.
O súbito emudecimento de Surtr não foi nada inesperado para Sigmund. O loiro chegou mesmo a sentir certa pena do companheiro. Ousou aconselhar, em voz baixa, empático:
—Surtr. Esqueça o Camus. Por você. Por ele. Por nossa missão.
— ..........
— Por que não passa a tarde conosco? Vai te distrair um pouco, e também...
— Obrigado, Sigmund.
E desligou o telefone na cara do outro.
Escorregou mais na cadeira, sob um peso ainda maior do que o que sentira antes. Malgrado seus olhos pairassem sobre o oceano, nada mais via.
“Camus vai ficar com Milo até amanhã... vai passar a noite no hospital com ele” refletia, ignorando até a cefaleia que voltava sorrateiramente.
“Surtr. Esqueça o Camus.”
*************
— Surtr? Surtr? – o loiro ainda chamou, até perceber que o compatriota cortara a ligação.
Pôs o telefone na mesa, um tanto consternado.
— E ele, como está? – quis saber Frodi, sentado numa poltrona à frente dele, de olho nas notícias da TV local. Os Santos de Ouro estavam ficando famosos, ele ria.
— Na minha opinião, nada bem. E acho que ainda vai piorar – respondeu Sigmund, passando o dedo sobre o queixo, pensativo.
O jovem de cabelos azuis considerou-lhe o semblante reflexivo.
— É engraçado como você vive se achando à sombra do seu irmão mais novo quando nem se dá conta que é tão nobre quanto ele – comentou, de supetão, arrancando genuína surpresa do loiro.
— Como assim? – indagou, sem entender.
— Eu estava vendo você falar com Surtr. Mesmo ele sempre sendo ríspido e arrogante conosco, ou simplesmente nos evitando e ignorando, você consegue ter paciência com o sujeito. Acho isso louvável.
— Bom, podemos ter nossas diferenças, mas ele é um de nós... somos companheiros de grupo – tartamudeou o loiro, sem jeito – Eu só queria que as coisas não fossem tão estremecidas entre nós.
— Eu sei. E admiro muito isso em você, meu amigo. Eu não tenho essa paciência toda, não. Minha vontade é estapear Surtr até ele pôr a cabeça no lugar e lembrar de que não estamos aqui pelos probleminhas sentimentais dele. Escute o que estou dizendo, Sigmund, Surtr ainda vai nos trazer problemas GRAVES aqui.
Sigmund assentiu. Sorriu ao dizer, fitando o amigo:
— Você fala assim mas foi capaz de se tornar amigo do Leão, mesmo depois... depois de tudo. Também é nobre.
Frodi deu de ombros:
—O que mais eu poderia fazer? Se por nossas lutas, descobrimos depois que nosso inimigo era o mesmo e nos aliamos. Se por Lyfia... eu não poderia controlar os sentimentos dela, já totalmente pertencentes a Aioria. Ela o amou de um jeito que nunca pôde me amar. E se quer saber... sei que ainda ama. Acho que meu ódio por Aioria no início formou-se bastante a partir dessa frustração também. Mas ele é bom e gentil, e seu coração já pertence a outra mulher. Seria irracional eu ainda ter ressentimentos para com ele.
— Entendo. Foi assim comigo e Saga também. Eu estava cego por um ressentimento infundado, uma vez que Siegfried nem ao mesmo foi realmente morto por um Cavaleiro de Atena. Ao contrário, entregou sua vida de bom grado para aliar-se a eles... e por isso...
— Sigmund...
Ele sorriu para espantar aquela aura de tristeza que principiara a rondar. Continuou, após respirar fundo e adquirir expressão renovada:
—Mas Saga abriu meus olhos justamente quando mais precisei… eles são pessoas boas, não são, Frodi?
— De fato, muito alegra que estejamos em paz com eles, e que, mais que aliados, estejamos nos tornando amigos. São boas pessoas, sim – concordou, cruzando as pernas e mirando fixamente o loiro – Assim como você, meu caro, Sigmund. Sua admiração por Saga, aliás, salta à vista...
O loiro corou violentamente. Uniu as mãos sobre as pernas.
— B-bom... ele... não sei. Algo nele me lembra meu irmão, talvez seja por isso.
— Saga te lembra Siegfried? – Frodi ergueu uma sobrancelha.
— Não sei explicar. A grandeza. A sabedoria. A força... a calma... a... a...
— A beleza?
O rubor do pobre asgardiano apenas aumentou.
— Sabe que ele é comprometido com um outro Cavaleiro de Ouro, não? O irmão mais velho de Aioria – apontou Frodi, atento às reações do compatriota, que suspirou longamente antes de responder:
— Eu sei. Não é como se eu fosse tentar algo, ou como o que eu sinto seja relevante em vista de minha função neste mundo.
— Sua função no mundo não anula o fato de que você procura alguém para amar – Frodi sentenciou, ele mesmo sentindo-se aquecer-se ante as próprias palavras.
Grandes e límpidos olhos azuis muito claros voltaram-se para ele.
— E você, Frodi? Desistiu mesmo de Lyfia?
— Digamos que… — fitou o loiro, com certa gravidade – que estou conhecendo uma pessoa mais a fundo do que conhecia há algum tempo... e penso que ela está começando a ocupar o lugar de Lyfia.
Ambos se encararam longamente, sem entenderem bem o que estava se desenvolvendo ali.
O que quer que fosse... trazia um calor agradável a seus âmagos normalmente destituídos daquela sensação.
Frodi levantou-se da poltrona, subitamente animado.
— Vamos? Nossos amigos nos esperam.
Assentindo afirmativamente, Sigmund levantou-se também, sorrindo.
— Vai ser um evento único em nossas vidas, hein? Mal posso esperar para sentir esse clima cálido a nós eternamente negado... – e junto com o amigo, deixou o flat.
*************
A tarde avançara. Milo dormia tranquilamente, enquanto Camus ora lia os jornais, ora ficava em seu celular, ora conversava com os funcionários do hospital foram verificar o paciente. Sozinho no quarto, ficava ao pé da cama, velando o sono do amado, passando de leve os dedos por sobre o curativo. Tremia só de lembrar do momento em que achou que ele havia perdido a vida. Sacudiu a cabeça, acariciando-lhe os cachos sedosos.
Sentou-se na cadeira e pousou sua mão sobre a mão do grego. Inclinou-se para beijá-la, como em uma reverência.
Sua alma encontrava-se tão leve... todas as dores, todas as frustrações, todas as tristezas pelas quais passara pareciam vagas e distantes só em poder tocar aquela pele, só em ter aquele homem diante de si, mais uma vez dele.
Os dedos em sua mão se apertaram suavemente.
— Hey.
— Oh, você acordou.
— E você não dormiu, não é?
— Eu cochilei um pouco.
— Que mentiroso. Eu te conheço... você não iria baixar a guarda, seu francês orgulhoso.
— Não estou com sono – sorriu Camus, deslizando seus dedos pelo rosto perfeito do grego.
Discretas batidas à porta. Era o jantar de Milo. A enfermeira deixara dois comprimidos para que ele tomasse após a refeição.
O aquariano arrumou a bandeja para que ele se alimentasse e aproveitou para comer a torta salgada que trouxera mais cedo da cafeteria.
Findas as refeições de ambos, eles se limparam e conversaram enquanto a noite caía. Camus já não conseguia conter os bocejos com a mesma eficiência de antes. Percebendo sua fadiga, Milo sugeriu:
—Eles jé me trouxeram o jantar e os remédios da noite. Ninguém mais deve voltar, Camus, a menos que haja um chamado... tranque essa porta e venha deitar aqui comigo.
— Não, que absurdo! Não posso ficar aí deitado – retrucou o francês, como que admirado com aquela ideia.
— Por que não?
— Porque não é adequado.
— “Não é adequado”, “não é adequado”, por Atena, não é adequado você ficar aí que nem um zumbi com uma cama grande destas aqui... e com um namorado preocupado com seu cansaço.
A palavra “namorado” foi como uma melodia esquecida que voltou a enternecer os sentidos de Camus. Ele pareceu pensar um pouco, e por fim, foi até a porta e virou a chave.
Não queria admitir, mas a ideia de deitar-se num colchão após mais de 36 horas acordado lhe parecia sublime. Ao lado de seu escorpiano então...
Ainda que não muito à vontade, apagou a luz e juntou-se a ele no leito. Milo fez com que se achegasse mais a ele. Cobriram-se com o lençol, sorrindo como dois meninos. Aquilo remetia-os aos tempos de criança, uma vez que, naquele momento, aquela união não possuía qualquer conotação erótica.
— Pode deixar que não vou te atacar, tá bom? – brincou o grego, pousando um beijo carinhoso na testa de seu aquariano, e em seguida nos lábios, que corresponderam brevemente.
— Não sei se posso confiar em você – o francês replicou, dando um bocejo.
Milo passou seu braço sobre o namorado, deixando-se ainda mais próximo. De frente um para o outro. Beijou-lhe a testa novamente.
— Espero que daqui em diante... sempre... sempre confiemos um no outro – murmurou Milo.
Não demorou para que Camus se entregasse ao sono reprimido. Ainda que ele também sentisse sono, Milo observou, por muito tempo antes de também sucumbir, o amado dormir placidamente em seu amplexo. A paz que invadiu-o não encontraria precedentes nem que alcançasse o galardão após sua morte, estava certo disso...
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