Notas iniciais
Hey... chegando a jato, graças a meu afastamento forçado do trabalho (primeiro greve e agora doença, afff) o capítulo 16 de "O Brilho da Honra". Quero agradecer do fundo do coração o apoio maravilhoso que vocês vêm dando à fic, seja lendo, favoritando e, principalmente, comentando, o que além de muito me alegrar e estimular, colabora mesmo para a própria história, muitas vezes. Ah... aviso aos navegantes: >>>>>>> CONTÉM LEMON

Sábado, 15:24

O homem tombou exausto por sobre os travesseiros que recendiam a lavanda e cedro. Gemeu longamente, após aspirar o ar com sofreguidão. Ficou ali, muito ofegante e vermelho. Saindo de dentro dele, indubitavelmente satisfeito, Derrick Sirham sorriu, mascarando a comicidade com pretensa doçura.

Sempre achava engraçado como certos homens ficavam naquela tonalidade de leitões fervidos após o ato que lhe enchia substancialmente os bolsos. Deus, esse então... estava era rosa, do pescoço à testa, da cara às orelhas, contrastando com o corpo leitoso. Parecia que iria explodir a qualquer instante.

— Ga-garoto... você... você é um verdadeiro deus do sexo, maldição – balbuciou o estrangeiro, em inglês britânico.

— Fico feliz em saber que apreciou nosso reencontro, Mr. Hughes. É sempre um prazer para mim também, acredite-me – respondeu o jovem, acariciando a face suada do cliente.

— É sério... eu... você acabou comigo – viu Derrick se levantar do grande leito e se dirigir à suíte do luxuoso quarto de motel que ocupavam, às margens de um lago nas montanhas. O cavalheiro soube que ele logo partiria e ficou gelado só de pensar nisso.

Mesmo com a porta encostada, ele disse, esperançoso:

— Tem mesmo que ir trabalhar? Queria… queria que ficasse mais comigo.

— Isso não é possível, Mr. Hughes, estou quase no horário do meu trabalho. Preciso ir voando para lá.

O som da ducha foi ouvido, e logo um insidioso aroma se espalhou pelo aposento.

Após alguns minutos, o sul-africano saiu do banheiro, com a toalha enrolada na cintura, os rijos músculos úmidos à mostra atraindo um olhar sequioso de Edward Hughes, renomado político do parlamento inglês. Não se furtou a contemplar o jovem se enxugando um pouco mais antes de se vestir; um espécime divinal, inesquecível. Não apenas na beleza como também na arte de dar prazer... Derrick era único, e muitíssimo superior a todos os rapazes com quem Hughes se desvencilhava das amarras sociais que cerceavam seus verdadeiros anseios.

— Derrick, por que insiste nesse emprego? Trabalhar em um hotel, você? Poderia estar ganhando rios de dinheiro na Europa. No mínimo, dominar o mercado de filme pornô... não teria para ninguém! – comentou, como sempre embasbacado com os “dotes” do recepcionista.

Vestindo uma calça jeans que evidenciava os notáveis contornos de suas pernas e glúteos, Derrick respondeu, carismático:

— Não faço o tipo exibicionista, Mr. Hughes, me conhece há um bom tempo e sabe disso. Prefiro trabalhar honestamente e, por fora, dar e sentir felicidades de vez em quando. Além do mais, sei que estou muito próximo da gerência do resort.

— Gerência... poderia ter o mundo aos seus pés.

Assemelhando-se a um gato negro, ele ajoelhou-se sobre o colchão e praticamente se debruçou sobre o inglês.

— O senhor deixaria sua esposa para ficar definitivamente comigo? – indagou, os olhos de um negror faiscante acuando o cliente, mesmo sendo sensual.

— M-mas... mas... ora... você sabe que isso... isso nunca seria possível... entretanto, eu... – foi calado por um beijo estalado nos lábios finos. Surpreso, viu Derrick se afastar, divertido, e pegar a camiseta branca que deixara sobre uma cadeira.

— Viu só? Eu NÃO teria o mundo, se não posso ter um homem – riu o jovem, vestindo-se – Nunca terei o mundo. Não de algum de VOCÊS.

Malgrado o teor da mensagem, não havia ali qualquer ressentimento.

Falava quase alegremente.

Pegou uma garrafa de água do frigobar e dela bebeu, com vontade. Ao saciar-se, completou:

—Não, senhor Hughes, o meu mundo serei EU a construir... – conferiu o relógio – Oh, tenho apenas quinze minutos. Preciso ir.

— O dinheiro está no envelope perto de sua mochila, na cômoda. Se quiser contar...

Derrick apenas pegou o envelope e o enfiou na bolsa, sem mais se virar para o parlamentar.

— Como se eu desconfiasse da usual generosidade com que me presenteia, Mr. Hughes. Bem, até uma próxima!

E saiu do quarto. Desceu pelo elevador até o estacionamento no subsolo e entrou em sua imponente Lamborghini. Saiu cantando pneus pela estrada rumo ao resort. Seu horário de trabalho naquele dia seria de 16:00 às 04:00, e ele estava em cima da hora… mas não poderia deixar de atender os suplicantes apelos daquele figurão, já cliente antigo. Sempre que em terras africanas, estivesse onde estivesse, Edward Hughes fazia de tudo para encontrar o rapaz, fosse indo até ele, fosse mandando-o buscar. Além de incrivelmente generoso, fazia o gênero pacífico e apaixonado, que não exigia muito além do que Derrick fazia com uma mão nas costas: dominar um homem com maestria. Dinheiro fácil e sem complicações.

O sol quase poente incidia em seu rosto. Um lindo dia, de fato, em todos os sentidos. Encontrava-se satisfeito, e como.

Sem saber por que, pensou no tal Surtr, a quem conduzira até o apartamento ainda de madrugada. Como será que ele estava?

“Um cara bonito daquele ferrado como o diabo”, refletiu, lembrando do triste estado do estrangeiro. Deveria ter sérios problemas.

Chegou ao hotel às 16:00 em ponto. Por mais que gozasse de privilégios perante o staff por sua beleza, simpatia e eficiência, não gostava de abusar da sorte. Por isso, foi rapidamente ao gerente anunciar sua chegada, para se justificar por ainda estar indo se trocar. O senhor Walker, que no início não ia com a cara do jovem, mas agora como todos se rendia a ele, não fez caso daquilo, pediu apenas que se apressasse: um dos recepcionistas da noite caíra doente e a recepção estaria desfalcada até o dia seguinte. Súbito, o gerente pediu:

—Será que teria como você “dobrar”, Derrick? Ou pelo menos ficar até meio dia de amanhã?

— Meio dia! São oito horas a mais... eu não estava preparado...

— Você folga na terça, que tal?

O jovem fingiu dúvida: adoraria aquela folga ao preço de mais oito horas de trabalho ao invés das usuais doze. Disposição ele tinha. E para quem almejava uma promoção, mostrar-se solícito sempre fazia parte.

— Tudo bem, senhor Walker, eu faço uma forcinha pelo senhor – concordou, com um sorriso de desarmar qualquer um.

— Vai me salvar a pele, Derrick, você é o melhor aqui e sabe disso.

Ele balançou a cabeça negativamente, fingindo modéstia. Despediu-se do superior a fim de colocar sua roupa de trabalho, um terno bem alinhado azul escuro, camisa branca e gravata vermelha. A jovialidade e o frescor de seus 22 anos davam lugar a uma aparência mais madura e intimidante. Não obstante seu sorriso se conservasse sempre gentil, havia algo de incisivo e duro nos profundos olhos negros.

— Oi, Derrick, e aí, como é que tá? – cumprimentou um colega de posto, assim que ele chegou.

— Tudo bem, Mark, puxa, me desculpe, me atrasei um pouco.

— Não esquenta, o movimento tá meio parado neste finzinho de sábado.

Uma recepcionista veio mostrar algo para eles em seu celular, eufórica:

— Olha, estão passando de novo a matéria sobre os “Anjos de Ouro”!

— De novo? A TV, sempre repetitiva... – resmungou Mark.

— “Anjos de Ouro”? – estranhou Derrick.

Mark se virou para a colega, meio aborrecido:

— Você não se cansa de ver isso não, Selma? Tá vendo o dia todo! Acho que é mais porque se apaixonou pelos gringos do que admiração pelo que fizeram.

— Eu, hein, imagina, aqui tem coração pra tudo! – riu a garota, quase rodopiando.

Arrumando umas pastas sob o balcão, Derrick confessou:

— Estou por fora do que vocês estão falando.

— Então você tava fora do planeta, cara, foi a coisa mais noticiada o sábado inteiro! Não viu televisão nem leu nenhum jornal, não?

Sirham riu baixinho. Ele lá ia ficar se ocupando de notícias que não lhe diziam respeito? Teve sua cama maravilhosa até meio dia, uma hora de exercícios puxados na academia instalada em sua bela casa, um belo almoço e sexo rentável com um moleirão branquelo. O mundo que explodisse...

— Sabe a boate que pegou fogo, né?

— Foi um ataque terrorista, Selma...

— Deixa eu falar, Mark, ele não sabe! Então, mais de 300 pessoas foram salvas por uns caras de fora, que tão participando dessa Conferência da ONU. Eles tavam lá na hora e, cara, que FODA, que fodas eles foram... salvaram as pessoas com os poderes deles!

— Você é uma moça, caramba, não deveria ficar usando essa linguagem...

— Vai se foder, Mark!

— Mas como assim, “poderes”? Então eram os tais Cavaleiros de Atena ou aqueles de Asgard? – Derrick havia ouvido sobre a participação de homens especiais na Cúpula, vindo daquelas terras onde se adoravam outros deuses e deles obtinham habilidades fora do comum.

— É, É, olha! – a jovem quase esfregou a tela do aparelho no rosto de Sirham – Olha as fotos que salvei deles, olha como são lindos, são demais!

— E desde quando isso – ia dizer rindo porém ficou sério – me interessa?

Selma havia baixado várias fotos dos Cavaleiros de Ouro em ação, retiradas de inúmeras reportagens pelas quais zapeara durante o dia todo, conforme dissera o colega. Prontamente reconhecendo-os, observou, estupefato:

—Mas esses caras tão AQUI no hotel!

— Viu, eu não falei que o queixo dele iria parar lá no chão? – riu a garota para o outro rapaz, que suspirou, enfadado.

— Tá bom, tá bom, quando eles passarem por aqui por que não pede um autógrafo pra eles, ou tira uma foto com os tais, já virou tiete mesmo!

— Claro que vou fazer isso, eles são incríveis... e muito gatos, hahahaha!

Alheio à conversa dos outros recepcionistas, Derrick passava as fotos, assombrado. Deteve-se com particular atenção nas imagens de um jovem que soltava rajadas misteriosas das mãos que brandia em direção às chamas. Em uma delas, um close; não havia dúvidas.

“É o homem que o senhor Surtr mandou vigiar.”, confirmou em pensamento.

Havia uma foto em que ele carregava um dos “Anjos de Ouro” (a imprensa inventa cada nome para vender notícia!, pensou) nos braços. Um registro digno de prêmio jornalístico. Não apenas pela impressionante cena, com o Cavaleiro cercado por belos e suspensos cristais de gelo, como também por sua expressão voltada para o jovem desacordado, repleta de angústia e um outro sentimento...

Um sentimento muito, muito evidente.

“Entendo. Então é por isso que o senhor Surtr...”

Foi arrancado de seus pensamentos pela pequena discussão instaurada ali atrás do balcão.

— Chega, Selma, se você falar mais deles eu juro que peço demissão! Não há quem aguente, caramba!

— Pois peça, quem se importa? Você não acha o máximo eles terem salvado aquelas pessoas???

— Claro que acho, mas a gente tem que trabalhar e você já tá me enchendo o saco com isso!

— Isso é inveja tua, tá? Tô nem aí que você se demite – e debruçou-se, sonhadora, no balcão, apoiando o queixo com as mãos – o importante é que eu continue vendo esses deuses gregos passando por aqui... vou ver se consigo tirar umas fotos deles sem que percebam, hihihi...

— Pois pede pros “deuses gregos” te darem carona pra casa, porque EU não dou mais, ouviu bem?

— Não falei que tava com inveja? Isso é golpe baixo, hein, Mark, daqui a pouco você vai...

— OK, vocês dois, parem já com isso – interveio Derrick, autoritário. Eles se calaram imediatamente.

— Não devem ficar discutindo assim em pleno horário e local de trabalho. A recepção está parecendo um ringue de luta. O que vão pensar os hóspedes? E se Walker vir uma balbúrdia destas aqui? Componham-se.

Eles se aprumaram, sem jeito.

— Tem razão, Derrick, desculpe – falaram quase a uma só voz. Respeitavam-no por demais e nunca que iriam querer se indispor com ele.

— Muito melhor – abrandou o tom – Vamos, ao trabalho, caras. E minha jornada é longa hoje, vou “dobrar” porque Kwame inventou de ficar doente. Não quero aborrecimentos.

— Foi mal, Derrick.

— Desculpa.

— Beleza – e não se falou mais sobre o assunto, ainda que na mente de cada um dos três não continuasse a figurar outra coisa.

*************

Sábado, 22:52

Milo começava a acordar. Talvez pelo frio que passara a incomodar a ponto de espantar-lhe o sono. O ar condicionado do hospital se fazia mais sentir mais potente agora à noite. Malgrado tivesse o corpo do namorado bem junto a si, apenas um fino lençol cobria os dois.

Estudou o rosto adormecido do amado com profunda paixão. Tão perfeito... seus traços delicados, seus contornos, seus lábios, seu nariz afilado e levemente arrebitado, aristocrático e um tantinho arrogante, exatamente como aquele adorável francês.

Aproximou mais seu rosto do dele para sentir na boca a respiração compassada. Roçou seus lábios muito de leve nos lábios do aquariano, apenas testando-lhes a suave textura, a doce calidez. Passeou por eles, já sentindo o coração disparar.

— Humm... – fez Camus, em meio ao sono. Remexeu-se um pouco, ficando ainda mais próximo. Era como se estivesse sonhando com aquilo, e àquilo tencionasse corresponder. Milo sentiu uma breve fisgada no baixo ventre. O membro de Camus encostava em sua coxa e de repente, pôde distinguir um discreto pulsar ali... Camus... Camus estava se excitando em seu sono! Aquela constatação pôs mais lenha no fogo que subia pelo interior de Milo.

Levou a mão para a cintura do aquariano, insinuando-se por baixo da camiseta. Acariciou-lhe a pele fria, enquanto sua boca fechava-se vagarosamente no canto dos lábios do amante.

— Camus...

— Huum...

Não sabia se ele estava desperto ou só aproveitando aquela deliciosa preguiça, no entanto, não poderia mais evitar: pôs-se a beijar-lhe sutilmente o pescoço, aspirando o inebriante cheiro do francês. A mão passou para o abdômen bem definido, e logo rondava o ventre plano do jovem adormecido.

Deveria estar muito cansado!

Deveria deixá-lo descansar!

DEVERIA!

Poder?

Não poderia. NÃO MESMO.

Seus dedos iniciaram carícias circulares por sobre a delicada região. Acariciou-lhe em volta do umbigo, angariando arrepios na pele sensível.

A essa altura, o frio já tinha ido para bem longe...

Seus dedos foram descendo, descendo, aventurando-se por sobre a virilha e o volume ali já pronunciado...

— Aahn... – Camus gemeu mas não abriu os olhos. Milo não sabia se ele dormia ou não.

Bom, agora isso era irrelevante.

Abriu o zíper da calça do namorado e alcançou a ereção que despontava imperiosa. Começou a manipular o órgão bem devagar, muito devagar, atento às reações faciais do “belo adormecido”. Uma carícia mais aprofundada e ele pôde ver as sobrancelhas bipartidas franzirem. Firmou mais seus toques e deixou o ritmo mais constante e rápido. Sentiu as pernas do outro se contraírem. Viu sua boca entreabrir-se em busca de ar. Teve vontade de beijá-lo mas observar as nuances de prazer no rosto do amado era muito excitante. Seu falo pulsou vivamente ante aquela visão, e ante os estímulos sonoros que configuravam a respiração alterada do francês... seus gemidinhos bem baixos, sufocados... o grego lambeu os próprios lábios, as ondas de calor intensificando-se e dirigindo-se para sua masculinidade, estacionando-se incomodamente ali.

— Camus... – murmurou, deslizando a mão pela extensão túrgida, acariciando-lhe por fim a glande intumescida.

— Aahh... Milo... Milo...

Isso foi o bastante para que acelerasse o ritmo da masturbação no namorado semidesperto; nenhum dos dois poderia esperar muito mais… colou seus lábios no dele, certo de que agora não teria volta. Um devorava o outro, e gemiam entre aquela batalha, sentindo seus corpos se aquecerem violentamente. O escorpiano libertou totalmente o membro da calça jeans e bombeou-o com habilidade, até que um suspiro profundo pontuou a proximidade do ápice de Camus. O francês retesou ante o fervor em suas entranhas, mordeu o lábio inferior de Milo quando queria morder o seu próprio, a fim de conter o que poderia ter sido um grito no momento em que o orgasmo chegou como um raio do céu.

— Uhhnn..ahnn!!!

Gozou fartamente entre espasmos, lambuzando a mão incansável do grego. Gemeu baixinho quando sua semente enfim cessou de jorrar, e emendou um dos gemidos no nome do amado. Este o beijou ternamente, segurando-o pelo queixo. Em seguida, ergueu-se num ímpeto e arrancou as vestimentas do aquariano, ainda zonzo pelo clímax. Virou-o de bruços. Sem lubrificante à vista, resolveu usar sua língua e seu amor. Separou bem as nádegas do francês e ganhou acesso àquela abertura rosada já piscante para ele. Pressionou maravilhado sua língua ali, arrancando um profundo suspiro do aquariano. Deu-lhe um verdadeiro banho ali, lambendo, chupando, salivando com gosto e luxúria, a ponto de excitar-se ainda mais. Os ruídos molhados conferiam mais tesão à situação, ambos gemiam... Milo sugou-lhe a entrada, percebendo-a convulsa e ansiosa.

— Aaah... M-Milo!... – desesperava-se o francês, agarrando os lençóis, tenso, queimando de prazer.

O escorpiano preparou-o com seus dedos, alargando um pouco aquela estreita cavidade para que abrigasse seu sexo extremamente dilatado.

— Espera, amor, eu tô muito duro...

— Rápido... rápido, e-eu não aguento... mais... – sussurrou Camus, agoniado.

— ... vou te machucar...

Camus praguejou, deixando bem evidente sua urgência. Milo posicionou seu membro rígido como rocha no anel do amado, procurando ao mesmo tempo virá-lo de lado. Ergueu uma das pernas trêmulas do aquariano e ajoelhou-se. Então iniciou a penetração, equilibrando cuidado e necessidade. Foi bem aos poucos, contudo, ainda assim o francês sofreu de início. A bem dizer, não estava mais acostumado com aquilo, e o escorpiano quase lhe teve piedade. Contudo, o próprio Camus puxava-o nervosamente, querendo mais que tudo as sensações divinais que viriam a seguir. Levou a mão ao próprio sexo, masturbando-se com olhar fixo no homem que o invadia. Aquilo varreu os últimos pensamentos racionais e cuidadosos de Milo, que arremeteu-se com ímpeto selvagem dentro dele.

— AAAH! – Camus jogou a cabeça para trás, sensualmente. Milo agarrou-o pela cintura, beijando-o quase com rudeza. Esfregava seu rosto naquela pele intoxicante, querendo a ela fundir-se...

Totalmente aceito pelo interior ardente do amante, o grego estocou e estocou, seguidamente, nunca largando-o, respirando com sofreguidão desmedida. Gemia seu nome em sua boca, em sua orelha, em seu pescoço, alucinado, num crescente de furioso deleite. Suas coxas chocavam-se ruidosamente e ele quis substituir a mão de Camus pela sua no membro viscoso de fluidos incessantes. Seria ELE a sentir mais uma vez aquele quente derramamento, aquele tributo ao amor descomunal que norteava o sublime momento.

— Huung! – fez Milo, ao sentir os músculos internos do namorado esmagarem impiedosamente seu pênis já prestes a liberar o gozo. Mais um gemido de Camus, a visão do francês perdendo o controle abaixo de si, e do sêmen que escorria abundante por entre seus dedos, foi o que faltava para que também ele gozasse ensandecidamente, mordendo os lábios com força para não gritar.

— Uhn... aahn...!!

Camus sentiu-se inundar-se daquele calor, arqueando seu corpo suado. Abraçou seu escorpiano até que cessasse o fluxo... trouxe-o, atordoado, para junto de si. Milo colou sua fronte úmida à dele, os cílios tremulando.

— Eu te amo – murmurou, ofegante.

— Eu também te amo – respondeu o francês, num fio de voz, uma lágrima descendo furtiva pelo rosto rubro.

Fitaram-se embevecidos e trocaram um beijo arrebatado. Então ficaram ambos ali, deitados, um de frente para o outro, restabelecendo-se aos poucos.

— Por Atena... Milo... você... ah, nem sei o que dizer...

— Eu poderia ficar fazendo isso o dia inteiro... você me enlouquece, Camus... me enlouquece – sussurrou-lhe ao ouvido, mordiscando-o e provocando uma discreta risada do outro.

Após deliciarem longamente com aquela comunhão pós-coito, resolveram se banhar. Juntos.

Retornaram ao leito, ali ficando bem abraçadinhos.

— Camus, você tem mais daquele chocolate?

— Claro que tenho, eu te conheço... é uma formiga.

— Eu quero. Me dá.

— Tem um preço.

— Qual?

Levantando-se sem responder, Camus foi pegar o doce na sacola e voltou para a cama. Abriu a embalagem e pôs a barra diante dos lábios de Milo. Quando este ia abocanhar, o aquariano retirou-lhe do alcance.

— CAMUS!

— Eu disse que teria um preço – elucidou, apoiando o rosto com uma das mãos para encará-lo, malicioso.

— Qual?!?

— Uma mordida, um beijo.

— Seu francês aproveitador...

Obviamente Milo não se importou nem um pouco em “pagar” por cada pedaço que saboreou...

*************

Sábado, 23:06

Sam era barman no piano bar do Cape Town International Palace Hotel há doze anos. Por mais que o ambiente fosse requintado, lidar com alvoroços provocados por hóspedes que passavam dos limites alcoólicos constava como um item básico de seu currículo. Ainda assim, fitava ressabiado o homem ruivo que não parava de virar uísques, debruçado no balcão do bar. Mesmo com tantas mesas e lugares no deck, não saía dali por nada. Não seria caso de preocupação não fosse o homem em questão o mesmo que além de protagonizar cenas desconfortáveis no fino local na noite anterior – e com direito a uma agressão – fora levado por Derrick antes que desmaiasse ali mesmo durante a madrugada.

E eis que mais uma vez, o sujeito estava ali. Se excedendo...

— Que que foi? Tem alguma coisa estranha na minha cara?

Sobressaltou-se com a pergunta dura do ruivo.

— Não... absolutamente, senhor – prontamente respondeu, pretextando arrumar alguns copos.

Surtr sorriu, sarcástico.

— Claro que não... na SUA cara é que tem algo estranho... cara escura... preta... tropeçou e caiu na lama, foi? – e riu de se sacudir todo.

O barman bufou. Pronto, agora o bêbado ia ficar de piadinha racista para cima dele.

— Vocês negros é que são estranhos... de onde eu vim não tem um negro sequer, sabe? Então para... para de ficar me encarando como se EU fosse estranho – falou, quase cuspindo, os olhos injetados e semicerrados.

— Eu só pensava que talvez o senhor preferisse ficar no deck para pegar um ar marinho. Mando seus drinks para lá.

— Você não manda em mim, NEGRO – retrucou, grosseiro – Eu sou o hóspede aqui, fico onde quiser.

— Como queira, senhor, foi só uma ideia – Sam engoliu a raiva para responder o desagradável freguês. Felizmente novos clientes surgiram e ele pôde deles se ocupar.

Surtr desabara sobre o balcão do bar, maniacamente no mesmo lugar que ocupara com Camus na noite anterior. Mirava a TV, perdido nas imagens que corriam o país e tiravam-lhe o pouco da razão.

Aioria. Milo. Camus.

Os “Anjos de Ouro”.

Gargalhou até babar. Alguns clientes olharam-no com repulsa. Enxugou a saliva que escorria e apertou os olhos diante da imagem do francês. Riu ainda mais da legenda: “O extraordinário Herói do Gelo”.

Ah, não.

Essa não.

Chegou a se engasgar de tanto rir. Os hóspedes olharam para ele, entre curiosos e indignados.

— Que é, tão olhando O QUÊ? – desafiou em voz alta, ao perceber os olhares. O pequeno grupo preferiu ignorá-lo, pegando suas bebidas e saindo dali rapidamente.

— Isso, isso mesmo, saiam daqui, seus bostas – resmungou para eles. Voltou a mirar a TV.

Camus.

Tão lindo!

Era dele!

Foi dele!

Mas eis que lá estava, com Milo em seus braços.

E o que era aquele cuidado? Aquele olhar, aquela expressão de quem tem nas mãos o mais valioso tesouro de sua vida?

“Surtr, esqueça o Camus.”

— Não... não, isso não está certo. Odin trouxe ele pra mim... pra mim... por que ele apareceu logo NA MINHA base?

“- Alguém que te faz sofrer assim não merece seu amor – sentenciou.

— Eu o amo. Não é algo que consiga controlar.”

Passou os dedos nervosamente por entre as mechas vermelhas.

— Por que você o ama, Camus? Por que ele e não a mim? – murmurou, de cabeça baixa.

As imagens eram setas pontudas em seu peito.

— Não é possível que ele tenha te perdoado por causa de uma bobagem dessas. Você salvaria qualquer um, QUALQUER UM! É um Cavaleiro de Atena – nem se dava conta do monólogo ébrio que efetuava, e que chamava atenções negativas para si.

Brandiu seu copo para Sam. O barman suspirou, preocupado.

— Se me permite observar, e o faço unicamente pelo seu bem, o senhor já bebeu demais... que tal dar uma volta ou...

Inesperadamente, Surtr bateu o copo no balcão, com violência, espatifando-o. O barulho fez com que outras pessoas mais uma vez olhassem em sua direção.

— Heh... hehehehehehehehe – riu loucamente, erguendo a mão ensanguentada diante de seu rosto – Bom, agora mesmo que não queira... vai ter que me dar outro copo, cara. Este aqui já era.

O barman recuou, assustado. Os outros dois barmen também ficaram sem ação. Uma jovem loira que estava por perto ousou se aproximar do asgardiano, chocada com o que acabara de acontecer.

— Moço, por Deus! É melhor você ir fazer um curativo!!

— E é melhor você cuidar da SUA VIDA, vadia.

Junto com outros, ela soltou uma exclamação de horror, e se afastou, estupefata, dando passos para trás. O acompanhante da moça, porém, não teve a mesma reação.

— Quem você chamou de “vadia”, cara? – rosnou, acercando-se dele.

— Hum? – virou-se, procurando a mulher. Apontou-a – oh, AQUELA VADIA ali.

O homem, um senhor alto e forte de seus quarenta e poucos anos, agarrou o ruivo pela gola da camisa, furioso.

— Eu sei que você está bêbado como um gambá, mas VAI PEDIR desculpas a ela!

— Eu vou? – encarou-o debochado, sem se perturbar – Você e quantos MAIS vão me obrigar?

Dois seguranças postaram-se diante deles.

— Senhores, por gentileza – o clima no recinto pesava mais e mais.

— “Por gentileza” o quê? Esse desgraçado insultou a minha mulher!!!

— Mulher? Hahahaha, olha pra você... tem idade pra ser pai da vadia... defendendo quem tá com você por INTERESSE? Hahahahahahaha! Que surpresa sem razão, a minha... TUDO nesta vida é interesse!

— Seu FILHO DA PUTA! – o homem foi contido pelos dois enormes seguranças; debatia-se colérico, como um peixe fora d’água.

Surtr ria, despreocupado. Ele era um Guerreiro Deus, oras... um peteleco e todos voavam longe. Mas estava gostoso provocar, se fazer de “normal”; aliviava a dor. Divertia.

— ME LARGUEM, eu vou acabar com esse moleque!!! – vociferava o senhor, ainda coibido pelos seguranças. Curiosos já achegavam.

Quando ia gargalhar, o ruivo sentiu uma vertigem monstruosa se abater sobre si. Deitou novamente a cabeça, sorrindo debilmente enquanto o “circo pegava fogo”.

Sam foi até o telefone do bar.

— Oi, Mark, aqui é o Sam. Passa pro Derrick, RÁPIDO – ordenou, nervoso. E então – Derrick, é você, cara?

— Oi, Sam, sou eu, fala.

— Cara, pelo amor de Deus, arruma um jeito de sair da recepção um pouco e vem já pra cá!

— Hã? Por quê? O que houve, Sam?

— Sabe aquele ruivo encrenqueiro que tu tirou daqui mais cedo? Cara, ele tá aqui... e tá armando a maior confusão no bar... vê se tira ele daqui...

“Senhor Surtr!”

— OK, vou ver o que posso fazer, porque hoje eu tô...

— Não, cara, VEM LOGO, ele já tá até ferido, e vão cair de porrada em cima dele porque o... alô? Derrick? Alô?

Só de ouvir aquilo, o jovem desligou o aparelho e virou-se para os seus colegas.

— Vocês me cobrem aqui, pessoal? Sam precisa da minha ajuda lá no piano bar.

— Claro, Derrick, mas o que...

Não ficou para ouvir o questionamento. Correu para o lugar. Não sabia muito bem o porquê da pressa... claro que queria ajudar Sam, que inclusive lhe arrumara o emprego no hotel, e por isso muito lhe devia. No entanto, era o ruivo que norteava sua ação... talvez não quisesse perder a fonte de dinheiro mais fácil no momento? Porque é o que aconteceria se ele fosse expulso do resort...

Não obstante, algo na fala de Sam o incomodou mais que isso.

“(...)ele já tá até ferido, e vão cair de porrada em cima dele(...)”

Algo nessa declaração o incomodou sobremaneira.

Adentrou o piano bar; descendo as escadas iluminadas, viu logo uma pequena aglomeração em torno do bar principal. Abriu caminho entre as pessoas, acenando para um angustiado Sam. O barman fez um sinal de agradecimento com as mãos.

— Com licença, com licença... senhor Surtr! O que está havendo?

— Você de novo! Meta-se com a sua vida, garoto! – balbuciou, azedo.

— O senhor vai arrumar problemas se ficar aqui, venha comigo.

— Conhece esse cara, Derrick? – indagou um dos seguranças, que ainda seguravam o hóspede revoltado.

— Sim, vou levá-lo daqui, não se preocupem. Avisem o Walker, tá?

— Pode deixar.

O senhor contido gritou, ultrajado:

— Nada disso, eu vou ARREBENTAR a cara desse desgraçado, me LARGUEM!

Surtr apenas ria. Derrick reparou-lhe a mão ensanguentada. Abaixou-se para falar em seu ouvido.

— Por favor, senhor Surtr, venha comigo, precisa inclusive fazer um curativo nessa mão.

— Ah, é, esqueci que o RECEPCIONISTAZINHO aqui acha que é MÉDICO – zombou, angariando ainda mais hostilidade de quem assistia à cena. Mais pessoas tencionaram ir até ele. Outro segurança chegou ao local. Derrick sentiu a tensão crescente à sua volta. Sussurrou de forma que só o asgardiano pudesse ouvir, segurando seus ombros com delicadeza:

— Eu ajudei o senhor mais cedo, não foi? E agora o senhor precisa de mais ajuda ainda. Venha comigo, ficará em paz longe daqui, eu prometo.

Aquele toque, aquela voz grave e rouca em seu ouvido, enviou arrepios à espinha do ruivo.

— Paz... – murmurou, apático.

O calor do hálito em sua orelha, o posicionamento do corpo do outro como a estabelecer uma barreira entre ele e aqueles vis idiotas que ousavam perturbá-lo...

Derrick sentiu a hesitação e o início do desarmamento; fechou mais as mãos nos ombros frementes, ensaiando conduzi-lo.

— Venha comigo, senhor Surtr, vai ficar tudo bem, eu prometo – disse, baixo e doce.

O asgardiano fitou-o com os olhos quase tão vermelhos quanto seus cabelos bagunçados, e quase tão úmidos quando a boca pateticamente aberta. Parecia passar de agressivo para atordoado. Ao se levantar, vacilou e foi firmemente amparado pelo sul-africano.

— Não, ele não vai embora NÃO, eu vou...

— Senhor, olhe para ele, mal se aguenta em pé. O que quer que tenha lhe dito, o senhor sabe que foi devido a este estado – argumentou Sirham, segurando o ruivo cambaleante pelo braço.

— NÃO INTERESSA! Ele...

Deu vários solavancos para se livrar dos seguranças ao ver o outro ser retirado dali. Sem sucesso, claro. Derrick fez o mesmo trajeto efetuado na madrugada daquele dia.

Se bem que o estado de Surtr estava bem mais crítico.

Levou-o até o quarto 401 pelo elevador de serviço. Passara um braço do ruivo por sobre seu pescoço, segurando-o por ali com uma mão, e com a outra, segurava-o pela cintura. A cabeça do estrangeiro pendia quase inerte para a frente, e ele nada mais dizia. Ao chegar no quarto andar, porém, sentiu o homem mais pesado; seu corpo dobrou para trás e ele foi obrigado a segurá-lo totalmente para não cair. Percebeu que o ruivo havia perdido os sentidos.

— Senhor Surtr? – deitou-o no chão acarpetado – Senhor Surtr!

Deu-lhe batidinhas no rosto. Nenhuma reação. O ruivo desmaiara mesmo.

— Merda – praguejou o rapaz, pegando a chave do flat no bolso da calça do jovem desacordado. Tinha que ser rápido, antes que aparecesse algum hóspede, que escândalo não seria... correu até o apartamento, destrancou a fechadura e deixou a porta escancarada. Voltou e tomou o homem inconsciente nos braços, carregando-o até o interior do apartamento. Deitou-o no sofá de couro negro e foi fechar a porta, trancando-a.

Parou diante do asgardiano, respirando fundo. Coçou a cabeça. Que grande problema! Por onde começar?

A mão!

Pelo menos apagado daquele jeito podia ser que não empregasse tanta resistência a que limpasse o ferimento. Oh, sim, porque cuidar daquele estrago iria doer...

Havia muito sangue, o que impossibilitava uma visão acurada dos danos. Tinha que lavá-la bem com sabão e água corrente antes de qualquer coisa. Mas com ele desmaiado...

Pegou-o com muito cuidado no colo e levou-o até o banheiro. Sentou-o no piso, encostado à banheira, pegou sua mão e a pôs para dentro, direcionando ali a mangueirinha até tirar todo o sangue. Despejou sabonete líquido sobre a palma ferida e pôde ver enfim alguns cacos entranhados. Fez uma careta de nervoso e jogou mais água, abundantemente, até que ficasse limpa. Observava Surtr atentamente, ainda desacordado. O álcool não o deixava sentir a dor ainda, entretanto... com certeza não seria assim quando tivesse que tirar os fragmentos da carne... pegou uma caixa no armário do banheiro que continha artigos do hotel tais como shampoo, condicionador, sabonete, pente, pasta e escova de dentes, fio dental, um saquinho com duas pinças... abriu-o e segurando-a firmemente, preparou-se para o pior.

Ajoelhou-se ao lado do ruivo desfeito e, após olhá-lo novamente, estudou a palma machucada; por sorte, o copo não estilhaçara tanto, havia uns quatro ou cinco fragmentos de vidro ali, não tão pequeninos. Segurou-lhe a mão com firmeza e com muita perícia, pôs-se a tirar os caquinhos. O primeiro não foi nada difícil, Surtr apenas suspirou, incomodado. No segundo porém, ele gemeu e acordou.

— Aaah... o... o que...

— Senhor Surtr, fique calmo, estou tirando os vidros de sua mão. Não vai demorar.

— Uhn... urk.

Mesmo embriagado, sabia que seria pior mexer a mão, então controlou-se como podia, querendo mais que tudo que aquilo terminasse. A pinça agarrou o terceiro caco e ele sentiu horrivelmente ao puxão.

— Aaahhh! – gemeu, sob forte dor.

— Só mais um pouco, o senhor está indo muito bem! – animava-o o jovem, retirando o vidro e depositando-o na lixeirinha.

— Uhn... hung... – Surtr franzia os olhos, tentando conter as lágrimas que assomavam.

— Tem mais dois. São maiores. Não mexa a mão, senhor Surtr, senão a pinça não vai agarrar direito.

— R-rápido...

— Está acabando – e Derrick procedeu ao que se propôs. Surtr cerrou os dentes, entre gemidos e grunhidos aflitivos, mas fez exatamente conforme ordenado. Não era fácil, mesmo imóvel, por vezes a pinça escorregava pela superfície lisa, e Sirham tinha que recomeçar seu trabalho, até poder puxar com os próprios dedos.

— Aaaah!! – não pôde suprimir um gemido alto quando o último finalmente foi extirpado.

— Pronto, acabei. O senhor foi ótimo, senhor Surtr. Vou lavar mais uma vez, enxugar e envolver sua mão com gazes, tudo bem? Aguenta mais um pouco?

O asgardiano só conseguiu menear a cabeça, fraco.

Segurando sua mão e olhando aquele rosto lívido, Sirham pensava em como o homem comumente tão arrogante e cheio de si agora mostrava-se tão frágil e trágico. Terminou o curativo, sempre atento às reações faciais do ruivo. Segurando ternamente a mão enfaixada, anunciou:

— Certo, agora venha, o senhor vai tomar um analgésico e...

Surtr deu um solavanco para frente, cobrindo a boca com a outra mão, em agonia.

— Oh, tudo bem, venha – entendendo o que viria a seguir, levou o ruivo até o vaso sanitário, que foi por ele praticamente abraçado. Vomitou e vomitou.

Derrick segurou-lhe a cabeça e amparou-o pelo peito, dando a sustentação necessária para que ele não se sufocasse em meio ao vômito. Após livrar-se do que o afligia, Surtr tossiu nervoso, convulso.

— Isso foi tudo, senhor Surtr?

— A-acho que s-sim – as palavras saíam com dificuldade. Levantou-se, ajudado pelo rapaz e limpou-se na pia. Derrick apoiando-o sempre, segurando-lhe os cabelos para que não os molhasse em demasia.

— Pronto, senhor Surtr, agora o senhor deve começar a se sentir melhor. Mostre-me onde é seu quarto...

— Não, não, quero ficar na sala – replicou o asgardiano, balançando a cabeça molemente.

— Tudo bem.

Surtr sentou-se no sofá; viu, no entanto, que não se aguentava sentado. Escorregou e ficou deitado, tapando os olhos com as mãos. Derrick, que havia ido à cozinha pegar uma garrafinha de água, aproximou-se dele com a bebida, mas Surtr a recusou, virando o rosto. Tremia um pouco.

— Tudo bem, daqui a pouco o senhor bebe. Relaxe – disse Sirham, procurando transmitir-lhe calma.

Estudou as reações faciais de Surtr; este fechou os olhos com força, vertendo grossas lágrimas. O rosto pálido avermelhava-se dramaticamente no nariz. Tinha os dentes cerrados, como a sufocar os soluços que subiam-lhe pela garganta convulsa.

Derrick não poderia entender o que se passava com aquele homem. Súbito, percebeu que não entendia o que se passava dentro de SI MESMO.

Nunca havia visto um homem daquela maneira.

Nunca havia visto NINGUÉM daquela maneira.

O estrangeiro cruzou os braços em torno do próprio corpo, em uma vã tentativa de conter os tremores que o sacudiam. Aquilo mexeu com o sul-africano... mexeu muito. De uma forma inédita.

Ousou levar a mão aos cabelos vermelhos revoltos e a acariciá-los de leve, já esperando alguma rejeição ou reprimenda.

Que nunca vieram.

Aproximou-se do jovem em agonia, cujo peito fremia pelo esforço de segurar o pranto.

Sem deixar de acariciá-lo, ajoelhado diante dele, extremamente comovido, Derrick inquiriu, muito baixo:

— Senhor Surtr... por que sofre tanto?

— Uhn... uh... AAH! – quase num grito, Surtr enfim libertou o choro, tendo que se erguer um pouco para não se sufocar. Projetou o corpo para frente e, temendo que ele caísse, Derrick cedeu ao impulso de abraçá-lo.

Ao contrário do que pensou, não foi repelido.

Surtr simplesmente não estava em condições de fazê-lo. Agarrou-se ao jovem, presa de violenta crise nervosa. Gemia alto, envolto em puro desespero que já não podia mais represar.

— É o Cavaleiro de Ouro que faz o gelo e a neve, não é? O senhor o ama – sussurrou o jovem, envolvendo-o em seus braços.

— Ele... ele não me ama! Ele ME ODEIA! E EU O AMO TANTO! Por quê? Por quêêê??? Eu só queria que ele me amasse um pouco que fosse! Só um pouco! Nem precisava ser como EU O AMO! Ah, ele... ele... Camus... Camus!!!

E sob doridos gemidos, chorou copiosamente nos braços do recepcionista, que o apoiava firmemente, já sentado no sofá. Soluçando ainda, o ruivo perguntou:

—V-você... você o viu, não viu? V-viu ele na TV...

— Vi sim.

— E-ele... ele não é lindo? – indagou, quase delirante – Estão chamando eles de... de "A-anjos de ouro"... Ele não é lindo? N-não é o anjo mais lindo que você já viu?

— Ele é muito bonito, senhor Surtr, realmente – neste momento, Derrick afastou-se um pouco para fitar Surtr, bem fundo nos olhos encharcados – mas NÃO. Ele não é o anjo mais lindo que já vi.

O ruivo mirou-o, confuso; balbuciou, quase sufocado pelos soluços infindos:

— Não é?...

— Não. Não mesmo.

Sua face foi acariciada pela grande e aveludada mão negra. Por uns instantes, o tempo pareceu parar.

— O senhor, senhor Surtr... o senhor é o anjo mais lindo que eu já vi. Na verdade, é o único anjo que vi nesta vida – sentenciou Derrick, gravemente.

E, diminuindo a distância entre seus rostos, tomou os lábios úmidos do asgardiano, num beijo tão inesperado quanto profundo.

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Notas finais
EITA! Quem apostou num estreitamento entre Derrick e Surtr ACERTOU lindamente... o que virá a seguir? Será essa aproximação algo de redentor para o asgardiano enlouquecido de frustração? Ou o reforço de uma aliança que significará alguma ameaça a Camus e Milo? E no meio de tudo, mais uma limonada com o casalzinho de ouro... após tantas tempestades, um pouco de calmaria vai bem. Resta saber se dura... Muito obrigada por prestigiarem. Até o próximo capítulo!