O Brilho da Honra

4 Corações feridos


Notas iniciais
Vejam só que atualização mais rapidinha! Em dois dias! Mereço bastantes comentários de recompensa, né? ^^ Obrigada a vocês que estão acompanhando. Boa leitura... e... snif, snif, sentem o cheiro de treta? Tá quase pronta... servidos?

A lua cheia reinava no céu limpo, vestindo um halo que indicava um amanhã ensolarado como o dia que se fora. Camus contemplava-a da janela do ônibus que retornava ao hotel. Lembrava de quando ela era a única iluminação nas noites das distantes terras siberianas. De quando sob sua pálida luz ele caminhava pelas planícies geladas, pensando em seu amor então distante.

Gostaria de voltar para a Sibéria. Muito mesmo. Seria tão bom se fosse novamente designado para treinar aspirantes a cavaleiro lá! Daria paz a Milo, e quem sabe, assim também teria a sua paz.

“A quem estou enganando? De que me adiantam pensamentos escapistas? Surtr está vindo para cá. Se minhas chances com Milo eram diminutas, com a presença de Surtr elas se tornarão NULAS”, refletia tristemente, levando a mão à boca. Saga notou-lhe o semblante carregado.

— Não fique tão chateado com ele.

— Hum?

— Está assim por causa do que Milo disse – deduziu o grego, bem baixo. Olhou para Milo e Aioria, do outro lado do corredor: ambos ouviam música com fones de ouvido, relaxados.

— Eu não estou...

— Está quieto assim desde que ele falou aquelas coisas, que foi sarcástico. Sei que é difícil não se deixar abater por isso, mas você sabe como ele é...

Hesitante, o francês apertou as próprias mãos:

— Eu... não estou assim pelo que ele disse. Bom, em parte sim, mas... há algo... mais preocupante.

— E o que poderia ser?

O aquariano respirou fundo antes de responder:

— Saga. Há uma comitiva de Asgard vindo para a Conferência.

— De fato. Ao que parece, atrasou-se por problemas no voo.

Estupefato, mirou o geminiano, abrindo muito a boca.

— Você... você SABIA que Asgard participaria da Cúpula?

— Sabia.

Literalmente boquiaberto, Camus sussurrou:

-Por que não me contou?

— E de que lhe serviria essa informação? – retrucou Saga, imperturbável.

— Não sei! Talvez por EU ser um dos palestrantes, tivesse DIREITO a ela – rosnou o aquariano, sem acreditar em tal pouco caso.

— Camus... desculpe. Não foi o que quis dizer. Eu só achei que... você não fosse querer ouvir falar em Asgard tão cedo – esclareceu, atencioso.

— Não me diga que Poseidon vai enviar uma comitiva também! – ironizou, nitidamente nervoso.

— Poseidon não se mete em assuntos terrestres, você sabe bem disso. Quer dizer, não mais, depois da trégua.

Camus recostou em seu assento, pesadamente. Uma breve risada irritada irrompeu de seus lábios finos.

— Qual o problema, Camus?

— Você tem coragem de me perguntar isso?

— Bom, não entendo no que Andreas possa ser tão ameaçador a você para que fique desse...

— NÃO É Andreas que virá!

Saga considerou-o, subitamente confuso.

— Não é? Mas como…

— Eu ouvi no banheiro. Dois homens falavam que Andreas não viria. Hilda ainda está muito doente e ele precisou continuar cuidando dela.

Agora quem se mostrava estupefato era o mais velho.

— Então... quem vem? A informação que eu tinha até então é de que seria ele.

— Não. Não será ele – murmurou o francês, levando a mão à testa. Esfregou-a sob tensão. Revelou por fim:

— Enviaram três Guerreiros Deuses: Frodi, Sigmund e… e Surtr.

— O quê?! Surtr está vindo para cá?

Fatigado, o aquariano apenas assentiu.

— Agora entendo por que está assim – disse Saga, simplesmente.

Ficaram uns minutos em silêncio, até que o geminiano pontuou, em voz baixa e neutra:

— Só não se esqueça de que acima de seus problemas pessoais estão as ordens de Atena.

— Eu sei. Cumprirei meu dever sem deixar que isso me afete – retrucou, cansado.

O grego suspirou.

— Camus. Vai ter que CONTAR a Milo.

Desespero espelhou-se nas íris de azul índigo.

— Eu não posso fazer isso...!

— Você PRECISA – insistiu o amigo – será MUITO PIOR Milo dar de cara com Surtr do nada. Por mais que eu confie em Milo como um Cavaleiro que leva seus deveres a sério... isso vai ser demais para ele. Ver Surtr diante dele, sem aviso! Não esqueçamos de que Milo é um guerreiro exemplar, mas também emotivo e impulsivo.

— Eu sei – tartamudeou o francês: parecia que sua cabeça iria explodir.

— Quer que eu fale com ele?

— Não. Eu... eu falarei...

SABIA que era mentira.

Não havia como fazê-lo!

Vendo-o tão angustiado, o geminiano teve verdadeira compaixão. Pôs sua mão sobre a do amigo, que abaixara o rosto, derrotado.

Neste exato momento, aproveitando a escuridão no interior do ônibus, Milo lançou um olhar de lado... e viu aquele contato suspeito, de relance.

“Ora, ora... parece que minhas desconfianças não eram assim tão infundadas, afinal”, pensou, mordido por uma sensação quente e dolorosa. Apertou os olhos claros e vislumbrou a mão de Saga apertando a de Camus, praticamente com o rosto grudado no dele. Virou-se para Aioria: o idiota cochilava e não via “o cunhadinho” tomando aquelas liberdades.

Fingiu que dormia também, remexendo-se de forma a deixar a franja sobre os olhos. Assim poderia observar a cena vergonhosa com mais comodidade.

Foi então que percebeu algo que mudou totalmente seus pensamentos.

Algo brilhava no rosto de Camus, iluminado pela lua.

Lágrimas.

Ele não chorava de soluçar. As lágrimas apenas vertiam-lhe pela face, sem que ele nem ao menos estremecesse. Viu-o enxugá-las rapidamente com as costas da mão livre... comprimia os lábios, provavelmente salgados pelo pranto incessante.

Algo em si mudou.

O calor do ciúme deu lugar a um frio no coração, na alma... tal que se sentiu mal pelo que dissera. Na certa era a razão daquela dor. Envergonhou-se dos pensamentos que tivera para com Saga. Não teria como o geminiano ficar indiferente àquilo! A ver um amigo chorar daquela maneira! Que direito tinha ele de recriminar aquela ação, sendo que fora ELE que atirara o aquariano àquela tristeza. Sim, Camus merecera. Merecia até mais! No entanto...

... vê-lo sofrer... vê-lo chorar...

Percebeu que haviam chegado ao hotel. Continuou fingindo que dormia e viu o ex-namorado passar os dedos pelas pálpebras. Saga ajudou-o a enxugar o rosto.

Todos deixaram o veículo e se dirigiram para a entrada do resort. Ao invés de entrar, Camus deteve-se, atraindo a atenção dos companheiros.

— Vou caminhar um pouco na praia – anunciou.

Saga franziu o cenho.

— Acho que seria melhor você subir e descansar.

— Não se preocupe. Não levará mais que quinze ou vinte minutos. Eu subo logo.

Dito isto, deu-lhes as costas e desceu a escada lateral que dava para a faixa de areia fina e branca. Os três o observaram um pouco, até que decidiram entrar. Ao passar pelo jardim frontal, porém, Milo estacou. Gêmeos e Leão viraram-se para ele.

— Milo? – chamou Aioria.

— Eu… eu vou daqui a pouco, bichano. Tenho a outra chave – e tomou o caminho oposto, indo em direção à área externa do hotel.

— Ué, mas aonde...?

— Você ainda pergunta? – sorriu Saga, de leve.

O mais novo sorriu de volta.

— Enfim... vamos torcer!

*************

Milo apressou o passo em direção ao aquariano, que rumava para o quebra-mar.

— Camus! – chamou, ao se aproximar.

O outro virou-se para ele, os cabelos escuros cobrindo seu rosto pela ação do vento.

— Milo... – murmurou, tirando-os da face.

O escorpiano parou de frente ao jovem surpreso; escolhia as palavras, o que instituiu momentâneo silêncio entre eles.

— Camus... eu... eu quero te pedir desculpas.

O francês arregalou os olhos, sua surpresa aumentando.

— Eu não deveria... bom, desculpa pelo que falei de você no jantar.

— Não precisa se desculpar, Milo. Você não falou nada de mais.

— Falei sim – ele insistiu – fui grosseiro e deixei você mal. E isso bem na véspera de sua apresentação nesta Conferência. A culpa seria minha se você se prejudicasse em tão importante tarefa.

Comprimindo os lábios, o aquariano desviou o olhar.

— É só POR ISSO que veio me pedir desculpas?

— Bom... sim... não quero comprometer a missão que você recebeu da nossa Deusa. Precisa estar com a cabeça tranquila, livre de tais atribulações.

— Se é por isso – visivelmente irritado, Camus virou-se de costas para o escorpiano – já pode ir, Milo. Aceito suas desculpas, não se preocupe.

Começou a caminhar em direção oposta, sob o luar. A brisa marinha soprou mais forte.

— Camus! Não é melhor você voltar?

— Por quê? – não se deteve.

Seguindo-o, o grego explicou:

— Deveria descansar para amanhã. Tivemos um dia cheio.

Com a expressão vazia, o francês parou; tornou o olhar para o outro, que agora chegara bem perto.

— Está preocupado comigo ou com a minha missão? – quis saber, fleumático.

— As duas coisas não se separam.

— Não sou uma coisa – disparou, mordaz.

— Você me entendeu – volveu o escorpiano, já um pouco impaciente.

Como o francês não se pronunciou mais, ele respirou de forma profunda, soltando o ar sonoramente.

— É claro que me preocupo com você, Camus.

— Verdade? – ergueu uma das sobrancelhas bipartidas, desconfiado.

— Claro. Você é, antes de um companheiro de batalhas e missões... um amigo.

Que palavra intragável. “AMIGO”.

— Obrigado pela consideração. Fico profundamente comovido – o aquariano ironizou, amargo.

— Qual foi? – o grego indignou-se com aquela reação – Eu tô aqui numa boa falando contigo, e você...

O vento soprou de repente, chegando a uivar. O escorpiano deu uma vacilada para trás. Abaixou a cabeça, subitamente. Levou a mão ao rosto:

-Uhnn!!

— Milo? O que foi? – indagou, preocupado ao vê-lo incomodado daquele jeito.

— Aahh... m-merda! Areia... – respondeu, agoniado, esfregando um dos olhos.

— Entrou areia no seu...? – num reflexo, o francês estendeu as mãos para ele.

Desesperado, Milo esfregava as juntas dos dedos por cima da pálpebra com vigor, enquanto praguejava, furioso:

— QUE INFERNO! De manhã foi areia no cabelo, e agora areia no meu OLHO! Esta praia não foi com a minha cara, puta que pariu!!!

A vontade de rir invadiu Camus de tal forma que ele teve que morder os lábios. Milo continuava se desesperando pelas coisas mais ínfimas! Aquilo aqueceu seu coração: Escorpião não mudara de todo, afinal! Talvez... nem... disfarçou o riso e aproximou as mãos do rosto do ex-namorado.

— Pare de esfregar assim... – falou, fitando-o amorosamente.

— FALAR É FÁCIL! – resmungando, os olhos fechados com força.

— ...calma...

— Mas esta bosta tá...

— ... deixe-me ajudá-lo.

Tocou cada uma das faces do grego com as palmas das mãos, como a imobilizá-lo. Milo estava tão incomodado com o corpo estranho em seu globo ocular que sequer se importou com o fato de que estava sendo tocado por Camus. Este comandou, com a voz aveludada mais baixa ainda:

-Abra os olhos.

O grego fez conforme ordenado. Gentilmente, o aquariano soprou, direcionando para a órbita irritada um pouco de ar gelado. Milo piscou várias vezes seguidas, sentindo as lágrimas descerem. Camus amparava seu rosto, mirando-o com ternura e paixão. Enfim o grego parou de piscar e seus olhos claros encontraram os escuros.

— Acho que saiu – balbuciou, sem conseguir se desvencilhar daquele contato.

— Que bom.

Eles se encararam longamente, as pulsações retumbantes... olhos nos olhos... as mãos de Camus ainda a segurar o belo rosto de Milo... o conflito na alma deste, a esperança na alma daquele... Milo sabia que deveria afastá-lo! Ou pelo menos, afastar-se...

...mas aquela boca já estava perto demais.

Aqueles olhos já o subjugavam demais.

Suas respirações se mesclavam demais.

Aquela respiração de encontro à sua...

Camus fez um movimento mais incisivo, e estava prestes a ganhar os lábios de Milo, quando grego, trêmulo, murmurou:

— Camus... não...

Chegou a sentir a irradiação do corpo que por tantas vezes foi seu... e ao qual tantas vezes também pertencera... antes que aqueles lábios pudessem roçar os seus e levá-lo irremediavelmente à perdição, virou o rosto para o lado, repetindo agora com mais veemência:

— Não.

O aquariano apenas interrompeu sua trajetória; continuou muito perto do ex-amante, sondando-o com um olhar suplicante, a esperança ainda bombeando seu sangue.

— Camus... é melhor não – conseguiu dizer, quase sufocado.

Consternado, o francês se afastou. Sentindo-se horrivelmente humilhado, sorriu sem jeito. Balbuciou, tão somente:

-M-me desculpe.

— Tudo bem – foi a resposta automática.

Aquário crispou os punhos, mirando o mar negro.

Não.

NÃO estava tudo bem.

— É melhor a gente voltar. Você precisa descansar – sugeriu o escorpiano, igualmente sem graça. Pôs-se a caminhar rumo ao hotel.

— Certo – concordou o outro, seguindo-o. Não fosse ele um Santo de Atena, e em plena missão, correria para o oceano e lá se atiraria para sempre.

Não aguentava mais. Será que nunca teria Milo de volta? Por mais que isso fosse inconcebível no fundo, sim, pois que sempre houvera a pálida chama da fé... era o que o desenrolar dos fatos demonstrava. E Saga que havia dito ser o período naquele lugar uma oportunidade única para que se acertassem. Milo, porém, obviamente, ainda não o perdoara; não havia se esquecido de todas as vezes em que havia sido ferido por ele. Especialmente em Asgard...

Asgard.

Por Zeus!

SURTR.

Esquecera por completo.

“Eu preciso contar!”, pensou, aflito.

Mas como?

Enquanto isso, à sua frente, o escorpiano andava resoluto, a mente fervilhante como as faces há pouco tocadas pelo aquariano.

“Por que fez isso, Camus? Estive a ponto de me perder! Sim, porque amar você é o mesmo que me perder. Não posso, não devo... não quero”, pensava, respirando pesadamente, “Ah, Camus... eu queria tanto que esse sentimento tivesse sido aniquilado quando você feriu meu coração!”

Subiram as escadas que davam acesso ao deck térreo do hotel. Passaram pelo jardim, silenciosos e pesados.

Uma limousine estacionada defronte à entrada era cercada por funcionários. As bagagens eram por eles retiradas. O peito de Camus congelou-se sob um pressentimento ruim. Diminuiu o passo, ao que o grego o olhou, sem entender.

— O que foi? Algum problema? – perguntou, ao ver que o francês parara de súbito.

— Nada. Vamos – retomou o caminho, apreensivo.

Recriminou-se secretamente por entregar-se àquela ansiedade sem propósito. Que tolice. Aquele não era o único hotel da Cidade do Cabo! Contudo... havia TANTOS participantes da Cúpula hospedados nele!...

Mas nem todos, por certo.

Deveria haver algum outro hotel conveniado. Talvez um mais perto do Centro de Convenções, ou num bairro mais movimentado...

Suas esperanças foram varridas quando, ao adentrarem o hall, se depararam com três homens fazendo check-in na recepção. À primeira vista, Milo não os reconheceu por causa das roupas civis, casuais. Aqueles cabelos de fogo, entretanto, atraíram sua atenção, mais que os loiros médios, um tanto arrepiados e... espere, quem teria um cabelo azul escuro enorme daquele jeito? Não havia dúvidas!

-Milo? – chamou Camus, vendo que ele paralisara perto do balcão revestido de nácar diante do qual estavam os três recém chegados.

Ouvindo aquela voz tão familiar, o ruivo virou-se para os dois Cavaleiros e seus grandes olhos magentas cintilaram.

— Camus?!? – falou, incrédulo.

— S-Surtr...

*************

Notas finais
É, povo... o Surtr surtado surgiu. Surreal... e agora??? Quase que saiu um beijinho, né? ain :ccc Obrigada por lerem, e até o próximo capítulo ;)