O Brilho da Honra

21 "Como alguém que me amasse"


Notas iniciais
Peço desculpas pela demora da atualização, eu viajei no feriadão, e quando voltei, estava sem Internet... levou exatamente uma semana para a operadora mandar a assistência técnica aqui em casa (vieram hoje, em pleno domingo). Isso acarretou em 2 semanas entre o último capítulo e este :'( Então, sem muito papo, vamos logo a essa... "Convenção das Bruxas", como disse Alexiel_chan, hehehehehe. Crédito da fanart ao fanartista Boa leitura!

O quarto dia da Conferência Pela Paz na África transcorreu tranquilamente para os Santos de Ouro de Atena e para os Guerreiros Deuses de Asgard. Nenhum deles teve que discursar neste dia, e não houve surpresas desagradáveis como protestos e ataques perigosos, tampouco desconfortos causados por alguma conduta inapropriada, como a ausência de Surtr no dia anterior, ou rusgas entre Milo e Camus. Estes dois, aliás, estavam no melhor dos mundos... realmente, o dia mais tranquilo até então.

A única novidade foi o convite que os Santos de Ouro receberam para um grande evento esportivo anual na próxima semana, que reuniria equipes de futebol de várias escolas do país. Antes mesmo de a Cúpula se iniciar, falou-se deles em matérias jornalísticas acerca dos participantes da Conferência, e só com isso já haviam se tornado uma espécie de celebridades. Agora eram verdadeiros heróis, verdadeiros ídolos, pela atuação no ataque terrorista à boate Sound System. O presidente estaria presente, bem como várias personalidades influentes da cena política local, era um convite irrecusável, ainda que Camus tivesse ficado incomodado em seu íntimo. Não lhe agradavam aqueles holofotes, tampouco o fato de estar em um lugar com tanta gente. No entanto, apenas sorriu amavelmente, e, polido como jamais deixava de ser, prometeu comparecer juntamente com seus amigos.

Quanto aos Guerreiros Deuses, Frodi e Sigmund acompanharam com discrição a conduta de Surtr durante o dia. O ruivo parecia estar tomando juízo, finalmente, após o susto da noite anterior, quando não foi enviado de volta para Asgard por um triz: não se atrasou, muito pelo contrário, estava diante do ônibus pela manhã antes mesmo deles; bem alinhado, completamente refeito do ar doentio dos últimos dias; parecia concentrado nos pronunciamentos, com um ar sério e compenetrado, em momento algum se distraindo ou olhando para os Santos de Ouro. Os dois compatriotas suspiraram, aliviados, ante aquela mudança, torcendo para que durasse...

Na hora do almoço houve hesitação, tanto da parte dos guerreiros de Atena quanto dos de Odin, em ocuparem a mesma mesa. Contudo, Frodi achou melhor manter aquela naturalidade, e assim o fizeram. A despeito do desconforto inicial, causado pela inédita presença do ruivo em uma mesa de que todos partilhavam, nada de ruim aconteceu. Claro que nehum deles estava plenamente à vontade. Saga trocava olhares com Frodi, olhava de soslaio para Camus e Milo, e Frodi para Surt; Aioria não fez as costumeiras gracinhas com Milo, que permaneceu quieto a maior parte do tempo, nitidamente incomodado, ainda que fizesse um esforço para disfarçar; Camus mantinha-se aparentemente indiferente, por vezes falando algo sobre negócios e política com Saga e Frodi; Sigmund estudava Surtr, discretamente, satisfeito pelo ruivo estar fazendo valer o voto de confiança que dele recebera.

Ao final do dia, retornaram ao hotel, combinando de jantarem juntos. Surtr não se preocupou com aquilo, ao contrário dos outros, já que não estaria presente... tinha um encontro com Derrick.

Sentiu-se ridículo ao se lembrar disso.

E mais ridículo ainda com a indecisão sobre como se vestir... empurrava os cabides, cogitando este ou aquele visual. Não sabia como era o restaurante a que o sul-africano o levaria...

O telefone tocou. Atendeu-o.

— Surtr, estamos descendo para jantar...

— Obrigado por avisar, Sigmund, mas não vou jantar com vocês.

— Não? Mas achei que… bom, certo. Só acho que não deveria ficar sempre só...

— Não ficarei só – disse, com uma inesperada ponta de orgulho – vou sair com uma pessoa.

— Vai sair com uma pessoa? Um encontro, você diz? – surpreendeu-se o loiro, cujo tom não passou despercebido. O ruivo prontamente respondeu, um tanto arrogante:

— Sim, sei que parece inacreditável para você que exista alguém que queira a minha companhia, mas existe.

— Não foi o que quis dizer, só achei curioso que conhecesse alguém por aqui, já que nem tem saído do hotel.

— Bom, eu o conheci aqui mesmo, no hotel – confessou, amenizando o tom.

Sigmund pensou que poderia ter sido durante as idas do colega ao piano bar ou a outros lugares do resort.

— Ah, sim. Bom, espero que se divirta.

— Obrigado, Sigmund. Você também.

— E... Surtr. Desculpe por me meter mas... você esqueceu mesmo o Camus?

Ele abaixou o olhar, sentando-se no sofá.

— Não teria como esquecê-lo tão rápido. Mas estou tentando seguir adiante.

— Que bom, Surtr. Vai ver que será melhor para você. Sei do que estou falando – de fato, Sigmund estava fazendo o mesmo em relação a Saga, vendo-se cada vez mais envolvido com Frodi.

Um sorriso cínico se desenhou no rosto do ruivo, tornando-se, porém, amargo, ao responder:

— Eu sei que será. Obrigado, Sigmund... desejo sorte a você.

— Eu desejo o mesmo.

Desligou o telefone e foi se banhar, envolto em tantos pensamentos que neles se perdia.

*************

— Camus, isso não é hora de ficar trabalhando! – ralhou Milo, vendo o aquariano na frente do notebook, fazendo anotações, com vários livros abertos.

— Eu preciso adiantar os preparativos para o debate, Milo.

— É semana que vem, que coisa, pra que essa pressa?

— Pressa? Isso tem que ser feito com antecedência, caso haja necessidade de corrigir ou acrescentar algo.

— Hunf. Vai acabar perdendo a hora do jantar – resmungou, colocando a jaqueta de couro, já pronto para descer.

— Não vou não, temos quarenta minutos ainda.

— Bom, já que você vai ficar aí, eu vou descer e tomar uma cerveja com o Oria.

— Tudo bem. Logo logo eu saio daqui – concordou o francês, sem tirar os olhos do monitor.

O escorpiano suspirou e saiu. Seu namorado não tinha jeito mesmo, sempre tão metódico! Bem, amava-o assim mesmo, sorriu. De mais a mais, seria bom passar um tempo com seu amigo Aioria também.

Os dois se encontraram no térreo e se dirigiram ao bar que ficava ao ar livre, de frente para a praia, acima da entrada do hotel. O tempo ameno e o céu límpido encorajavam-nos àquilo, e pensaram em chamar os demais para tomarem alguns drinks ali após o jantar, ao invés de ficarem dentro do restaurante o tempo todo.

Sentaram-se perto da murada baixa, admirando a vista. O vento soprava gentilmente, fazendo as folhas das palmeiras balançarem.

— E aí, Milo, tá tudo certinho mesmo entre você e o Camus?

— Tá sim, Oria, até que enfim... nem acredito. Parece um sonho.

— Que bom, meu amigo, fico feliz por você.

— A gente nem teve tempo de brindar a isso, né? – lembrou o escorpiano, sorridente.

Erguendo a tulipa no ar, o leonino conclamou:

— Bom, antes tarde do que nunca!

Bateram de leve as bordas cristalinas e viraram a bebida, animados.

— E você, cara? Deve estar com saudade da Marin, né? – Milo riu, malicioso.

— Hah, nem me fala... aquela ruiva me deixa maluco, em todos os sentidos... hehehe.

— Também, quando você voltar, vai ser aquela recepção, hein!

— Hum. Ela se faz de durona, mas é só apertar no lugar certo que se derrete na minha mão... – gabou-se o leonino, tomando um longo gole.

O escorpiano riu, divertido.

— Sei como é, o Camus é igual, hehehehe.

— Eles nos matariam se nos ouvissem falando isso deles.

— Camus e Marin são meio parecidos, eu acho, hein... se fazem de sérios, compenetrados, frios...

— Esses são os “piores”, venenoso, os piores... se bobear, têm mais fogo que a gente...

— HÁ, fale por você, GATINHO – deu uma cotovelada no amigo, provocando-o – o fogo aqui é infinito, falou, não tem pra ninguém, não!

— Quem muito fala... – e quase levou outra, rindo, sem completar o dito popular.

De repente, parou e olhou, curioso, para baixo, pelo vão da sacada, cujas barras eram bem espaçadas.

— Que foi, pulguento?

— Olha lá embaixo, não é o Surtr?

O outro grego seguiu o olhar do amigo e distinguiu o asgardiano perto da escadaria da entrada. Encontrava-se no canto direito da visão, em relação a onde estavam no andar superior.

— É ele sim... droga, será que ele vai jantar com a gente? Olha como tá arrumadinho, o desgraçado.

De fato, o ruivo estava irretocável; trajava uma calça social cinza clara slim fit, que, sem ser justa demais, modelava as longas pernas, camisa de manga comprida social preta, sapatos pretos muito bem polidos.

— Ele parece muito formal pra quem só vai jantar com a gente no hotel – observou Aioria.

— Hunf, deve estar querendo impressionar o Camus, o babaca – Milo franziu as sobrancelhas, sentindo raiva só de ver o “rival”.

— Não sei não, pra mim parece mais que ele tá esperando alguém...

Poucos minutos depois e a impressão de Aioria revelou ser a verdade: um imponente automóvel prata conversível parou diante dele, com a capota já abaixada. Surtr ficou um tanto atônito: não sabia que o carro era conversível, e na verdade, nunca havia estado em um. Deu a volta e entrou no carro, para a surpresa dos dois Santos que o observavam, sem que disso ele tivesse se dado conta.

— Quem é aquele?

— Sei lá – respondeu o escorpiano, intrigado; daquela distância, e sendo de noite, não podiam ver os detalhes da fisionomia do recém-chegado. Perceberam apenas que era um homem negro.

— Não imaginava que Surtr tinha amigos na África, ainda mais ricos. Porque esse cara aí obviamente é rico. Com esse carro... – estranhou o leonino.

— Bom, eu não imaginaria sequer que o cretino tivesse amigos.

— Obviamente ele conhece alguém.

Observaram o carro dar a partida suavemente, ainda intrigados com a cena.

— Não sei por que, Oria, mas isso me parece mais estranho do que deveria ser.

Nem mesmo Milo sabia por que dizia aquilo. Alguma coisa naquilo o incomodara, de uma forma incompreensível. Aioria percebeu-lhe o semblante carregado, tenso:

— Que foi?

— Eu sei lá, cara. Sei lá. Um pressentimento esquisito, sabe.

— Pressentimento?

Ele virou a cerveja, tentando espantar o súbito mal estar.

— Deixa. Deve ter sido a mera visão daquele pulha. Ainda me tá engasgado na garganta...

— Esquece ele, Milo, você e Camus estão bem agora, é o que importa – o outro tentou aliviar o clima.

— É. É o que importa. Estamos bem – confirmou, estranhamente não se sentindo NADA BEM ao fazer aquela declaração.

*************

Ao entrar no carro, não foi bem um “boa noite” que Derrick ouviu:

— Sorte sua ter chegado logo, eu já estava quase subindo de volta para o meu quarto.

— Boa noite, senhor Surtr – sorriu o rapaz – mas o senhor não o fez porque ainda não são nem 21:00, não é?

Ele deu de ombros.

— Estava tão ansioso pelo nosso encontro que chegou ao local combinado antes da hora – Sirham analisou, divertido.

— “Encontro”? – o ruivo fechou ainda mais a cara – Ansioso... hunf, eu apenas me adiantei para tomar um pouco de ar.

O outro assentiu, reparando com o canto dos olhos como o mais velho estava bem arrumado.

— O senhor está muito bonito.

Surtr agradeceu a falta de luz ali, pois sentia pelo calor das faces que ruborizava.

— É realmente um belo carro, este. Não entendo como um reles recepcionista de hotel pôde adquirir algo assim – comentou, vendo o hotel se distanciar pouco a pouco, enquanto o veículo subia a estrada.

— Tenho meus negócios.

Tentando se convencer de que aquilo em realidade não o interessava, o asgardiano indagou:

— E para onde é que nós vamos?

— A um restaurante que considero possuir a combinação do que o senhor precisa no momento: requinte e liberdade.

O asgardiano não compreendeu como ambas coisas poderiam coexistir e resolveu se calar. Pôs-se a observar a vista noturna em silêncio, secretamente se sentindo bem com o vento em seu rosto, com cheiro de mar e de natureza em profusão.

Sirham respeitou-lhe o silêncio, vendo-o tão absorto naquela contemplação. O semblante do ruivo até suavizara, o ar defensivo e prepotente sendo substituído por um plácido e relaxado. Satisfeito, o recepcionista sorriu. Dava-lhe mais confiança de atingir seu intento naquela noite.

Ele dirigiu até Camps Bay, não muito distante de onde ficava o hotel: uma badalada região litorânea encravada entre formações rochosas que possuía intensa vida noturna, em plena harmonia com as belezas naturais locais. Tomou um caminho ascendente até o alto de um morro, angariando a atenção de Surtr, que quebrou o silêncio:

— Para onde estamos indo? – estranhou o caminho escolhido, deixando para trás as luzes da orla.

— Para o restaurante.

Antes que o ruivo retrucasse, percebeu que entre os contornos escuros da vegetação surgiu uma tênue iluminação, que foi se intensificando, até que se distinguisse uma mansão de curiosa arquitetura circular e vitoriana. Estacionando à frente da antiga porém bem conservada casa, logo um manobrista foi se encarregar de seu Lamborghini. Derrick desceu do veículo e foi abrir a porta para seu acompanhante. Uma senhora foi recebê-los.

— Senhor Sirham?

— Sou eu.

— É um prazer tê-los aqui esta noite. Por favor, acompanhem-me, eu os levarei até o seus lugares.

Surtr estranhou aquela deferência, entretanto acompanhou-os sem nada proferir. Ela os levou para uma das mesas localizadas ao ar livre, em um jardim extremamente bem cuidado. Via-se logo que tratava-se de um estabelecimento fino, que, não obstante, ostentava uma atmosfera leve e despojada. Situado nas encostas de uma montanha conhecida como Lion’s Head, oferecia uma vista magnífica da cidade iluminada, permeada pelo mar. O asgardiano ficou encantado, e ao mais novo isso não passou despercebido. Tomaram seus lugares. Um garçom postou-se diante deles, aguardando seus comandos.

— Enquanto escolhemos, que tal um champagne, senhor Surtr?

— O que quiser está bom – respondeu, desinteressado.

— Certo – virou-se para o funcionário – traga-nos um Bollinger Special Cuvée, por gentileza.

— Excelente escolha, senhor – o garçom fez uma mesura, retirando-se; não demorou muito, retornava com a garrafa. Serviu os dois jovens e deixou-os, mais uma vez.

Derrick fez menção de fazer um brinde. Surtr correspondeu, tocando de leve a borda se sua taça de cristal na do outro. Ao provar da bebida, pareceu bastante satisfeito. Permitiu-se mesmo um breve sorriso.

— Gostou do lugar? – indagou o sul-africano.

— É bonito – respondeu simplesmente, sem assumir que estava positivamente impressionado.

— Que bom que gostou.

— Parece um lugar bem caro.

— De fato, está entre os dez melhores restaurantes da Cidade do Cabo, não sei se em quarto ou quinto lugar... mas para mim, a vista daqui o faria merecedor do primeiro lugar.

O ruivo sorveu mais a bebida. O jovem sul africano mirava-o, sem se deter demasiado: não estava se enganando. Tampouco enganando Surtr.

Estava feliz por estar com ele.

Estava apaixonado por ele.

No início não compreendera o que havia acontecido. Achava que amor, paixão... todas essas coisas... eram para as outras pessoas. Não para ele, cuja vida fora moldada para ser um grande lucro. Seu corpo fora um grande lucro. Com ele, e com seu cérebro, claro, havia saído da miséria e galgado o que era uma glória para alguém de sua origem.

Mas Surtr o conquistara de um jeito inédito e misterioso. A dor, o desespero, a solidão que emanava de sua figura quase trágica... a exótica beleza... o olhar arrogante e ao mesmo tempo carregado de angústia... o amor que possuía por alguém inatingível dando-lhe fogo perverso e, simultaneamente, gélido descaso em relação a tudo o mais que não fosse seu grande objeto de desejo.

Camus.

—Seu carro com toda a certeza é bem caro, também – comentou o estrangeiro, terminando sua taça. Derrick serviu-lhe mais.

— Hum... hoje está na faixa dos 250, 300 mil dólares. O que deseja comer, senhor Surtr?

— Qualquer coisa está bom.

— Posso pedir então as entradas que conheço?

— Sim, sim, deixo em suas mãos – gesticulou o asgardiano, aparentemente enfadado.

— Perfeito. E de prato principal, o senhor prefere carne, peixe ou...

— Carne vermelha – cortou, um acento de impaciência na voz. Para ele, o que importava era beber. E nada mais.

Bom. HAVIA SIM, algo a mais. Que muito o revoltava que quisesse...

Um mero menear de cabeça de Derrick e o garçom ali estava, recebendo os pedidos do jovem. Ele obviamente conhecia de longa data o restaurante, notou o ruivo, procurando sondá-lo com um olhar perscrutador. Novamente a sós, foi a deixa para o ruivo perguntar, sem rodeios:

— Você vende seu corpo, não é isso? É um tipo de... prostituto?

Ao contrário do que poderia se supor, a pergunta não fora feita em tom acusatório. Parecia mesmo neutro.

— Eu prefiro o termo “acompanhante”, pois, como o nome diz, nem sempre os encontros envolvem sexo. Por vezes, os clientes apenas querem conversar, ou receber uma massagem durante um drink... ou simplesmente, companhia, propriamente dita – respondeu o rapaz, o ar simpático nunca abandonando-lhe as feições.

— Compreendo.

— O senhor não parece se preocupar com isso.

— E por que me preocuparia? – o ruivo deu um meio sorriso.

— Bem, nós transamos.

— Eu sei.

— E eu... não usei preservativo com o senhor.

— Me disse que era a primeira vez que fazia aquilo sem proteção.

Derrick arregalou os olhos.

— E o senhor simplesmente acreditou assim? – perguntou, admirado.

— Eu sei quando estão mentindo para mim, e sabia que você não estava.

— Como sabia disso?

— Hunf. Faz parte de minhas capacidades. Eu sou um guerreiro, assim como os Cavaleiros de Ouro.

Apoiando o queixo com a mão, o mais novo ouvia, um tanto maravilhado.

— Sim, um dos Guerreiros Deuses de seu país Asgard...

— Andou pesquisando sobre mim? – o ruivo ergueu uma sobrancelha.

— Eu coordeno a recepção; além dos nomes dos hóspedes, tenho acesso a suas ocupações.

Notando que a taça do outro esvaziara, ele prontamente a encheu. O asgardiano bebia rapidamente, como se quisesse logo se servir do efeito relaxante da bebida.

— Os Guerreiros Deuses são... de fato... deuses? – perguntou, o olhar curioso rejuvenescendo-o mais ainda. Surtr achou aquela expressão cândida tão atraente que, sem se dar conta, suavizou a sua, e foi com voz branda que respondeu:

— Não seja tolo, como seria eu um deus? – chegou mesmo a sorrir, discretamente – Somente recebemos essa alcunha por termos recebido armaduras sagradas de tempos imemoriais, diretamente do deus Odin. Assim como os Cavaleiros de Ouro servem Atena e dela recebem sua força, nós, Guerreiros Deuses, servimos Odin e dele recebemos nosso poder.

— Isso quer dizer que o senhor tem habilidades semelhantes aos dos Cavaleiros de Ouro? Qual o seu poder?

— Eu manipulo o fogo... controlo chamas com uma espada que possuo.

— O fogo! É completamente o oposto do Cavaleiro de Aquário – observou o africano, surpreso.

— É. Por assim dizer...

— Vocês, Guerreiros Deuses e Cavaleiros de Ouro, são todos amigos, aliados...?

— Houve um tempo que não... fomos inimigos por duas vezes... hoje somos aliados. Existe um acordo de paz entre Asgard e o Santuário na Grécia.

— Por isso o senhor diz que a vingança contra seu ex-amigo poderá pôr muita coisa em risco? Atacando-o atacará um aliado.

Surtr fuzilou-o com o olhar.

— Camus NÃO É um “ex-amigo”. Para mim ele continua sendo tão meu amigo quanto antes. Até mais. Porque agora sei que o amo de verdade – disse, petulante.

Ante o olhar interrogativo de Derrick, dignou-se a explicar:

— Mesmo tendo sido humilhado, rechaçado, machucado por ele... eu AINDA o amo. Camus vai me odiar pelo que vou fazer. Mas vai livrá-lo de alguém que não tem por ele o sentimento que EU tenho. O amor de Milo é frágil. Não resiste a ataques contra seu orgulho. Diferentemente de mim, seu ego é mais importante que Camus. E vou provar isso.

— O senhor então já sabe realmente o que vai fazer...

— É claro.

O garçom chegou trazendo as entradas. Tudo fino e saboroso, como era de se supor. Bem como os pratos principais que chegaram depois da degustação inicial, acompanhada do champagne. Surtr ficou positivamente impressionado com o fato de que Derrick acertara em cheio, mesmo sem conhecer seus gostos alimentares.

Após esvaziar mais uma taça, o asgardiano indagou, displicentemente:

— Por que acabou virando um garoto de programa?

Por sorte, estavam afastados de outras mesas, sob o magnífico luar que banhava as colinas ao longe. Poderia ser que o rapaz ficasse sem graça com aquele questionamento. Hesitando, Sirham largou os talheres e terminou sua bebida. Fixou o olhar sereno no homem à sua frente.

— Eu nasci aqui na África do Sul, mas meus pais são imigrantes. Vieram de outro país africano, o Congo, fugindo da guerra civil que assolava a região onde moravam. Familiares morreram, outros foram mutilados... meu pai mesmo perdeu um braço quando...

— Eu perguntei por que você virou um puto, não pedi a biografia de sua família – interrompeu o ruivo, ríspido.

Uma sombra passou pelas íris já escuras do jovem. Em suas córneas algo brilhou.

— Desculpe, não era minha intenção, só queria explicar desde o início...

— OK, sua família fugiu da guerra, e então você foi vender seu corpo?

— Não foi tão rápido assim, eu não havia nascido ainda – replicou o rapaz, um tom de amargura na voz. Contudo sorria, ainda que um sorriso ferido – Eles se instalaram nas favelas, sempre com muitas dificuldades para sustentar os seis filhos sobreviventes...

— Sobreviventes?

— Sim, três outros haviam morrido nos conflitos... e um foi perdido para a doença... bem, nasci tempos depois. Sobrevivíamos com sacrifícios, e... certo, encurtando a história... – riu brevemente – após um determinado evento, eu comecei a vender meu corpo, pois percebi que assim ganhava muito mais dinheiro do que ajudando meu pai a catar papelão pelas ruas da cidade.

— Que evento?

Derrick parou, incrédulo com aquela súbita curiosidade.

— Não quero entediar o senhor. Esta é a minha resposta. Comecei a me prostituir com 14 anos ao perceber que eu agradava aos estrangeiros e soldados do...

— Que evento? – o ruivo repetiu, fitando-o sério.

— Por que quer saber?

— Porque ESTOU entediado – argumentou, sorrindo cinicamente – Quero saber o que o levou a esse caminho. Você é diferente dos pretos maltrapilhos deste continente. É inteligente, culto, bem apessoado, poderia fazer qualquer outra coisa. Bom, não que neste fim de mundo se tenha muita oportunidade, eu imagino.

— Eu fui estuprado.

O sorriso de Surtr se dissipou. Encarou-o, procurando qualquer sinal de mentira ou farsa.

Não encontrou.

— Foi estuprado? Quem… você... você tinha 14 anos!

— Treze, para ser exato – corrigiu, com naturalidade. Serviu o ruivo, e despejou por fim em sua própria taça a última dose daquela garrafa.

Fez sinal para que o garçom lhe trouxesse outra. Surtr ainda mirava-o, esperando a conclusão.

— Os detalhes não vêm ao caso. O fato se deu, e tempos depois fui aliciado pelos mesmos agressores, recebendo, por fim, algum dinheiro. Que foi bem mais que o meu pai ganhava em um mês. Não é difícil entender porque sendo eu praticamente um estrangeiro, pobre e analfabeto... pobre não – riu de novo – MISERÁVEL... acabei por me entregar àquela atividade.

— E... seus pais... sabiam? Aprovavam essa… atividade? – não se importou em dar à palavra uma ênfase negativa.

— Meu pai era bastante violento, o que me obrigava a ficar dias pelas ruas... não só eu como alguns de meus irmãos. Ele foi assassinado quando eu tinha 15 anos, em circunstâncias nunca esclarecidas. Ainda que tenha sido, de certa forma, um alívio para a família, eu preferi sair de casa de vez e ajudar minha mãe e meus irmãos a distância. Os vizinhos já estavam desconfiando demais, e eu temia pela integridade da minha família... poderia ser escarnecida ou até mesmo perseguida pelo meu... “trabalho”. Acho que tanto por moralismo como por inveja, já que eu tirava mais dinheiro que vários adultos juntos. Aos 16 anos vivia disso, aqui na cidade. Graças ao dinheiro que recebia, pude estudar, fazer cursos de idiomas, me profissionalizar.

— Foi de fato um investimento – avaliou o asgardiano, inexpressivo.

— Exatamente.

— Deve ter conseguido uma extensa clientela. Não deve ser comum chegar ao seu patrimônio meramente por vender o corpo.

— Ah, sim, não demorei a ser “autônomo” e parar de pagar quase metade do que ganhava aos meus “chefes”. Tive sorte em conseguir clientes ricos e influentes... estrangeiros... afinal, falo 4 idiomas, sou estudado...

“E muito bonito”, pensou o ruivo, estudando-o atentamente, “mais que isso... bem gostoso.”

O garçom retornou com outra garrafa e prontamente serviu os dois. Após se retirar, Surtr declarou, monocórdio:

—Foi assim que chegou a trabalhar em um lugar tão elegante.

— Sim, e creio que em breve chegarei à gerência.

— Mas não deixou de fazer seus... “programas”, não é? Afinal… aquele carro… este jantar…

— Isso o incomoda, senhor Surtr? – indagou o negro, cravando nele um olhar enigmático.

Em meio a uma risada seca, quase malvada, o asgardiano retrucou:

— Por que eu me incomodaria com isso?

— O senhor parece muito interessado em minha história.

— Hunf, mero entretenimento para esta noite – sorria cinicamente, brandindo a taça como a propor um brinde – que está deveras agradável, devo admitir.

— Fico feliz que esteja apreciando, senhor Surtr.

O ruivo o olhou, longamente. Abaixando o olhar, perguntou:

—Você... se ressente dos rumos que sua vida tomou?

— De maneira alguma – não houve a menor hesitação – porque esses rumos me conduziram ao senhor.

Pôs sua mão sobre a mão do ruivo, que engoliu em seco. Tão quente... tão pesada... a mesma mão que distribuía fogo por seu corpo...

Eles se encararam, iluminados pelas velas cujas chamas tremulavam sobre a mesa.

Ao término da refeição, Derrick pagou a conta, fazendo Surtr se sentir estranho... mas este não se pronunciou, fora um convite e levaria aquilo até o fim com dignidade. Caminharam até o estacionamento em silêncio. Uma suave brisa soprava, e o asgardiano se viu sem vontade alguma de retornar ao hotel. Como se adivinhasse seus pensamentos, após entrarem no automóvel, Derrick propôs:

— Se o senhor não estiver com pressa de voltar ao hotel, posso levá-lo até o alto da montanha; a vista lá de cima da cidade iluminada é linda.

— Hum. Certo – assentiu, simulando indiferença. A ideia, porém, parecia-lhe sedutora, à medida que iam galgando a estrada.

O jovem parou o carro perto de um cânion, valendo-se dos faróis do veículo. Estando em um conversível, permaneceram no interior do automóvel. O som longínquo das ondas batendo violentamente nas altas falésias se fazia ouvir. Miríades de estrelas jaziam no límpido céu, atraindo a admiração de Surtr, recostado no assento, entregue àquela contemplação. Derrick mostrava-lhe as constelações visíveis, as quais não eram avistadas no gelado país de onde seu acompanhante viera. A tudo o ruivo acompanhava, interessado... e absorto naquele momento, talvez o primeiro de verdadeira e absoluta paz que experimentava em muito tempo. Um vento frio fustigou-os, fazendo o mais novo oferecer seu blazer de linho cinza para o mais velho. Este riu, divertido, e não sarcástico, como de costume.

— Eu vim de um reino onde a neve impera durante todo o ano, e o sol quase nunca vem nos visitar – comentou, explicando por que não precisava daquela gentileza. Ainda que internamente... tivesse apreciado-a.

Muito.

— Parece terrível.

Ele suspirou.

— A vida não é nada fácil por lá. Eu pelo menos sou considerado um nobre... sou da elite guerreira e possuo inúmeros privilégios e confortos. Mesmo assim, exige muito viver num lugar de condições tão duras.

— Gostaria de viver em outro lugar, senhor Surtr?

— Hum. Nunca cogitei isso. De mais a mais... não creio que me adaptasse a nenhum outro lugar.

— Por que não?

“Nunca me adaptei sequer entre os meus”, pensou o ruivo, optando por guardar para si aquela constatação. Olhou para Derrick, reparando-lhe as feições de tal forma que o jovem riu e perguntou:

— O que foi?

— Seu rosto.

— O que tem?

Após uns segundos escolhendo as palavras, Surtr deixou que elas viessem à vontade:

— É tão... expressivo. Bem feito... seu sorriso é o mais belo que já vi, não só por causa dos seus dentes perfeitos, mas porque contrasta de uma maneira impressionante com essa sua... cor. Sua pele...

Levou as mãos aos primeiros botões da camisa branca do rapaz, que chegou a prender a respiração, surpreso com aquela ação. Surtr desabotou, até deixar o peito musculoso do africano à mostra. Hipnotizado pelo que via, deixou seus dedos passearem lentamente pela superfície tão suave quanto se lembrava.

— Sua pele... é tão acetinada. Tão macia. Essa cor... é... eu não sei... nunca tinha visto ao vivo, antes de vir para cá...

— Não há negros em Asgard, não é?

Surtr balançou a cabeça, negativamente.

— Eu... não sabia que era assim. Há algo de aveludado em sua pele. Parece emanar um cheiro doce... a cor é tão linda... uniforme e intensa... – murmurou, sem tirar os olhos daquele torso esculpido.

Derrick sorriu suavemente, mantendo-se em silêncio. De repente, o asgardiano corou, como que dando-se conta do que falava. Empertigou-se, envergonhado, retirando suas mãos do corpo do outro.

— M-me desculpe, eu... devo ter bebido um pouco além da conta – apressou-se em dizer, irritado.

Entretanto, sua mão foi agarrada pela mão do recepcionista. O ruivo arregalou os olhos.

— O senhor pode apreciar minha cor... minha pele... meu corpo... o quanto quiser – sussurrou-lhe ao ouvido, diminuindo a distância entre eles.

— Humm... – suspirou o asgardiano, ante aquele contato. As mãos de Derrick estreitaram-se em sua cintura, enquanto ele distribuía-lhe beijos pelo pescoço.

— Já a sua pele, senhor Surtr, tem uma voz... e ela clama por carinho... carícias...cuidado... ela clama por mim...

— D-Derrick...

O rapaz parou o que fazia, mirando o mais velho, que quase nunca o chamava pelo nome.

— Derrick – sussurrou, os olhos cerrados, as mãos espalmadas sobre os ombros fortes.

— Sim, senhor Surtr.

— Será que... que poderíamos... quero dizer... será que pode parar de me chamar de “senhor Surtr” enquanto... bem...

— Enquanto...?

— Hum…só enquanto transamos, eu queria que não me chamasse de “senhor”... queria que falasse comigo como... como alguém que me amasse.

Sirham chegou a ficar boquiaberto. O arrogante e prepotente asgardiano tinha o rosto voltado para o lado, visivelmente constrangido; ainda assim, agarrava-se nele como a desejar um resgate. Derrick tocou-lhe a face com adoração, tornando-a para si. Murmurou em resposta:

—Isso não é problema. Afinal... eu REALMENTE amo você... Surtr.

Os olhos magentas se revelaram, confusos e incrédulos. Tencionaram sondar a veracidade daquelas palavras nos olhos negros diante de si. Não obstante, a urgência de seu coração o lançou de vez naquele amplexo que já o tragava.

Suas bocas se uniram com langor. Em segundos, suas roupas abandonaram seus corpos sequiosos daquela comunhão. Diferentemente da primeira vez em que fizeram sexo, o ruivo se comprazia em lamber a pele que tanto o seduzia, indo do pescoço aos ombros e até o peitoral. Distribuía beijos incessantes, tremendo todo ao perceber como aquilo o excitava. Derrick jogou a cabeça para trás, exultante com tal ação. Gemeu baixo ao sentir a língua do asgardiano brincar com seus mamilos.

— Surtr... você é maravilhoso nisso...

— Que posso fazer? – indagou, provocante, salivando por sobre o mamilo mordiscado – Você me deixa assim... fora de mim...

Sussurrando assim, terminou por esfregar seu rosto avidamente naquela carne. O jovem agarrou-o pela cintura, somente isso fazendo o mais velho se arrepiar. Suas mãos desceram até o volume pronunciado na boxer marinho, reconhecendo o fascínio que exercia. O que sentia não era diferente. Realmente... realmente... jamais se sentira assim com ninguém.

Mordendo o próprio punho, Surtr tentava conter seus gemidos ao receber estímulos tão habilidosos. Sentiu que a última veste lhe era arrancada, e suspirou, quase com medo. Nunca havia se sentido daquela forma antes... temia perder o controle... e sentia que o perderia, quando a língua do rapaz percorreu-lhe a base do pênis, indo de cima a baixo, até brincar na pontinha. A glande foi devidamente umedecida pelas sucessivas e provocantes lambidas.

Virou a cabeça para o lado, tentando se conter. Cerrou os dentes, consciente de que por mais que sua mente não aceitasse que ele estava ali, aberto e palpitante para um quase desconhecido... um garoto de programa... um recepcionista de hotel... por mais que sua mente gritasse que era com Camus que ele queria estar – e ESTARIA EM BREVE, se seu plano funcionasse... e iria funcionar... por mais que sua mente tentasse fazê-lo voltar... era tarde.

Mas... como? Por quê? O que faria a seguir?

— Aaahhn! – as ponderações foram suprimidas pela suprema delícia de ter seu membro dentro da boca de Sirham. Jogou-se mais para ele, precisando ser contido em sua afobação. Suas pernas ficaram por cima dos ombros vigorosos do negro enquanto a felação prosseguia, potente, arrebatadora.

Atingido por uma violenta corrente que desceu por sua espinha, ele arqueou os quadris e gemendo mais demoradamente, desmanchou-se em meio a fortes espasmos. Derrick sorveu, deliciado, o gozo, sem deixar de mirar aquela bela face extasiada.

— Hum... foi rápido. Devia estar bem excitado já, não? – comentou, sorridente.

— Hah... hah... n-não seja tão... convencido...

O jovem riu e subiu até ele, para beijá-lo nos lábios. Surtr fez uma expressão de repulsa. Era SEU sêmen ali, oras!

— Pare... o que pensa que vai...

— Eu não penso, eu VOU – rebateu Derrick, tomando os lábios renitentes à força. Surtr gemeu entre o beijo, a princípio um grunhido de indignação, logo substituído por um de prazer.

Afastaram-se, quase sem ar.

— Disse que não era virgem antes de eu te comer.

— Como...? Sim… não era... apenas... “daquele jeito”.

— Pois bem, o que quer desta vez? Quer me comer? Ou quer que eu o coma? – indagou, com voz baixa.

— Não me agrado desse linguajar...

— Que se foda, “senhor Surt” – retrucou, cravando nos olhos fúcsia os seus muito escuros – o que vai ser? Quer me foder? Ou…

Maliciosamente, seus dedos voltaram a percorrer a virilha do ruivo, em seguida insinuando-se por baixo dos testículos.

— ... quer que eu te foda?

— Aahhn... eu... não... a-aceito essa linguagem... v-vulgar... hum! – não pôde prosseguir, pois a língua de Derrick voltara a passear pelo local. Inconscientemente, ergueu um pouco as pernas, dando mais acesso àquela boca quente e macia.

— Estou esperando a sua resposta – dito isso, passou a língua inadvertidamente pelo períneo do ruivo.

— Ahh!! E-eu...

Sucederam-se minutos em que Surtr julgou-se à beira da loucura; Derrick umedecia sua entrada com a língua, massageando suave e deliciosamente a região. Apertando-lhe os glúteos de forma a roçar por vezes os polegares no saco, o africano pôs-se a estocar-lhe o ânus piscante com a ponta da língua, alternando a velocidade de acordo com a profundidade dos gemidos do asgardiano. Sem obter a resposta – pelo menos, VERBALMENTE – após torturá-lo bastante, introduziu um dedo no orifício molhado. Forçou-o um pouco. O ruivo não conseguiu aguentar e gritou:

— AAH!!!

— Acalme-se, é assim mesmo... dói...

— Aaahh... m-muito...

— Mas depois melhora... lembra?

Acariciou-o por dentro, de quando em quando estimulando-o frontalmente com sua boca. Surtr mordeu os lábios, segurando novos lamentos. A inserção de um segundo dedo frustrou sua tentativa.

— AAAH! D-Derrick...

— Sim? Quer que pare?

— Nngg… — encontrava-se dividido; como aquela sensação era ambígua, ambíguo era seu coração.

Os dedos giraram dentro de seu canal, então pareceram abrir e fechar, e tempos depois, a dor cedia espaço cada vez mais... e cada vez mais crescia aquela vontade. Que SEMPRE estivera ali.

Ela só se fazia imperiosa agora.

Consumia-o, déspota. Exigente.

— Derrick...

— Sim.

— Me fode. Me come, seu desgraçado, maldito, me fode, me fode agora!!! – disparou, enlouquecido com o efeito daquela massagem interna.

Sorrindo triunfante, o rapaz fez conforme lhe fora pedido... aliás, ordenado.

Os dois se amaram noite adentro, as horas escoando enquanto seus corpos se entrelaçavam em uma dança lúbrica, ardente, explosiva.

Seus orgasmos, quase simultâneos, pareceram comprovar a estranha sintonia desenvolvida entre eles, e seus gritos e gemidos uniram-se ao marulhar do oceano.

O ruivo deixou-se apoiar no peito ofegante do jovem, que enlaçou-o com aqueles braços fortes. Surtr aspirava-lhe o aroma viril, enlanguescido como nunca. Sem mais se importar em disfarçar qualquer coisa, envolveu o mais novo também com seus braços. Derrick beijou-lhe docemente a fronte, e ele suspirou, imerso em uma sensação de proteção e calor sem igual.

Percebendo o avanço da madrugada, a muito contragosto o recepcionista disse:

— Está tarde. O senhor tem que acordar em algumas horas para ir à Conferência.

— Voltou a falar “senhor” – riu o asgardiano, acariciando o largo peitoral. Estava claramente obcecado por aquele peitoral, sem nenhuma dúvida!

— O senhor pediu que não usasse o tratamento “só enquanto estivéssemos transando” – respondeu, acariciando de volta a mão que distribuía carinhos em sua pele.

— Hunf. Você é sistemático como Camus.

— Não sei se gosto de ser comparado com ele, senhor Surtr.

— Não sabe se gosta? Deveria ter orgulho.

O sorriso de Sirham se desfez. Ergueu-se um pouco, tirando de si a mão do amante.

— Bom, e quanto ao plano que tem para conseguir “seu Camus”? – indagou, neutro – Ainda não conversamos sobre ele.

Surtr também ficou sério, ajeitando-se no banco estofado. Manteve-se silencioso por longos instantes, mirando o horizonte. E então...

— É uma cartada na qual irei arriscar tudo, Derrick. Eu pedi que me ajudasse...

— E eu vou ajudar o senhor.

— Não. NÃO QUERO mais a sua ajuda.

O africano ficou literalmente de boca aberta, olhando-o sem entender.

— Por quê? O que fiz de errado?

— É bem o contrário. Eu não quero que se afunde na desgraça.

Considerando a expressão de dúvida do rapaz, Surtr contou o que planejava.

De fato, oferecia um alto grau de risco, porém...

— Minha próxima folga é na sexta-feira. Arrumaremos todo o cenário – falou Derrick, como se não fizesse caso do perigo oferecido pelo estratagema que acabara de ouvir.

Virando a cabeça para o outro lado, o ruivo rebateu, tomado de irritação.

— Tem consciência do que está prestes a fazer? Se descobrirem... não poderei salvá-lo, pois estarei perdido também.

O negro segurou-lhe o rosto e o fez voltar para sua direção.

— Ninguém vai descobrir, senhor Surtr.Não precisa temer essa queda.

Demorou um pouco para que o semblante do asgardiano desanuviasse. Ele, enfim, correspondeu ao sorriso.

— Eu iria dez vezes ao inferno de bom grado para ver o senhor sorrir assim.

— Você diz coisas engraçadas, garoto.

— Que tal provar novamente o que este “garoto” tem para o senhor?

— Sim... me sirva... serviçal... – ergueu o queixo, prepotente.

— Não me entendeu, senhor Surtr – replicou o africano, segurando a base do pescoço do mais velho enquanto mostrava o próprio sexo.

Aturdido com o que via e com aquele tom de voz, Surtr pareceu levar tempo para entender o que o jovem queria.

E viu que era o que TAMBÉM ELE queria.

Ainda não o havia provado daquela maneira...

Abaixou-se até a virilha de Derrick, cerrando os olhos ante a expectativa de saboreá-lo... mas também temendo não abrigá-lo em sua boca, pois que era um exemplar... impressionante.

— Agora vai me chupar até eu gozar em sua boca, senhor Surtr – declarou, fazendo o outro estremecer. Ousou empurrar o rosto do ruivo contra seu membro novamente desperto.

— E se eu não quiser que goze em minha boca?

— Por que não?

— …..

— Quer que eu goze nesse seu cuzinho rosadinho, não é? – provocou-o, como um gato lambendo seus lábios até a ponta do nariz. Surtr quase gemeu somente com aquilo. O ar suspenso, admitiu:

— Quero...

O jovem riu sedutoramente.

— Não se preocupe... Surtr. Posso fazer as duas coisas, eu te garanto...

*************

Nuances de anil já se pronunciavam no limiar do horizonte quando Derrick deixou Surtr no hotel. Ao contrário de quando chegou para buscá-lo, desta vez a capota do carro estava abaixada, pois esfriara bastante. Despediram-se antes de chegarem na entrada, com um beijo profundo, o qual nenhum dos dois queria realmente terminar. O asgardiano desceu do automóvel, e, sem olhar para trás, adentrou apressadamente o hall. Tinha as roupas amarfanhadas, o cabelo desgrenhado, e certamente tinha marcas comprometedoras que exigiriam maquiagem no decorrer do dia.

O recepcionista dirigiu até sua residência; morava em um condomínio de classe média, a meio caminho do centro da cidade. As casas duplex se distribuíam por alamedas arborizadas. Estacionou em sua garagem. Ao sair do automóvel, sentiu o cansaço enfim atingir seus músculos. Tomaria um banho morno e se entregaria a um longo sono.

Entrou na casa, sorrindo ao perceber que se sentia como um adolescente apaixonado voltando de um encontro amoroso. Não se lembrava de experimentar aquilo em seus 22 anos de vida.

Ao trancar a porta, um barulho chamou-lhe a atenção, ao mesmo tempo em que ele acendia a luz da sala. Virou-se; seus batimentos cardíacos quase entraram em colapso ante a visão de vários homens armados diante de si. Os canos das armas de grosso calibre estavam todos voltados para ELE. Suas pernas bambearam, e ele foi obrigado a se encostar na porta branca para não cair. Deixou a boca aberta para respirar melhor, esforçando-se heroicamente para não gritar.

Eram oito homens corpulentos; vestiam-se com roupas e jaquetas escuras, todos com “toucas ninjas” a ocultar-lhes os rostos.

— O que... o que querem? Se é dinheiro, eu não tenho dinheiro em espécie em casa... mas... podem levar o que quiserem... e o carro...

— O que queremos vale muito mais que isso tudo... Derrick Sirham.

Ele franziu a testa ao ouvir seu nome pronunciado por um dos bandidos.

— Como sabe meu nome...? – indagou, perplexo.

Um dos invasores se adiantou até ele, apavorando-o mais ainda. Contudo, abaixou a arma, ao responder:

— Como eu não saberia o nome do meu próprio sobrinho?

— O quê?

O homem retirou a touca e Derrick puxou o ar, assombrado ao ver a face de seu pai à sua frente.

Não. Não de seu pai... entretanto... tão parecida!

— Q-quem... quem é você?

— Se eu disse que você é meu sobrinho... – sorriu, sarcástico — ... então só posso ser SEU TIO, oras.

— M-meu... meu...

— Sou irmão de seu pai, garoto. Banta era meu segundo irmão mais velho.

O jovem olhava-o, sem acreditar, tremendo sem parar. Tornou os olhos assustados para os demais que ainda apontavam as armas em sua direção.

— Banta fugiu de nós, mas enfim!... A família se reúne novamente – escancarou ainda mais o sorriso, tão branco que parecia brilhar – Ele também não teve culpa. A barra pesou... queria viver sua vida com a mulherzinha... não houve jeito. Se continuasse em Angdar, não seria só o braço esquerdo que teria perdido.

— An...Angdar... como assim? M-meu pai veio do Congo…

Houve uma súbita explosão de risadas que apavorou Derrick talvez até mais do que uma rajada daquelas metralhadoras.

— Do Congo? Foi o que ele te contou? – perguntou o tio, divertido.

— Nem para mentir que era de um país mais decente – zombou um dos mascarados, provocando mais risos.

— Mentir...? – murmurou o rapaz, quase em choque.

— Banta nunca foi muito criativo, eu não duvidaria – chasqueou – por isso, é compreensível. Meu nome é Kulaita. E eu vim te oferecer a glória, garoto. Mas antes, você tem que relaxar... vamos, pegue umas bebidas pra gente conversar.

Trêmulo, o recepcionista foi buscar garrafas e copos para os invasores, que se instalaram confortavelmente pelo sofá e pelas poltronas do ambiente.

— É uma bela casa, Derrick. Mas um barraco fétido perto do que te espera em Angdar... se aceitar nossa proposta, claro.

Ele servia os homens, atento às palavras do tio. Seria tio mesmo? Bom, sabia seu nome e de seu pai… era tão parecido com seu pai, mas… disse que sua família viera de Angdar.

Angdar.

Um dos quatro países que formavam Shamallah.

A nação rebelde.

Virou-se, atônito para o que se dizia ser seu tio. Considerou o armamento que os invasores portavam.

— N-não me diga que... vocês são... da Brilho da Honra...

— Olhem isso! – riu Kulaita, elevando o vozeirão – o garoto puxou a inteligência do tio!

Riram ruidosamente mais uma vez, virando avidamente as bebidas.

Agora Derrick estava MESMO aterrorizado.

— O que querem de mim?

— Um serviço, meu rapaz – Kulaita parou de rir e fitou-o sério – Você teve uma noite divertida com um jovem muito interessante...

Cerrando os punhos, o jovem sentiu o sangue afluir às faces.

— Não sei do que está falando.

— Sabe, sim... um belo estrangeiro, ruivo, de olhos exóticos, vindo de um país frio e...

— O QUE QUER COM ELE? – o medo abandonou-o ao ouvi-lo falar de Surtr.

— Não exatamente com ele. Com um AMIGO dele.

Derrick relaxou os punhos e mirou-o, aturdido.

— Um amigo dele?

— Sim. Um dos “Anjos de Ouro”. O “Herói do Gelo”, pra ser mais exato.

Sentindo a garganta constringir, o recepcionista aguardou, mudo, pelo esclarecimento do guerrilheiro. Sim, sabia agora, estava diante de guerrilheiros... e seu tio era um... ao que parece... SEU PAI fora um!

— Eu prefiro chamá-lo... “Mago do Gelo”... como ele realmente é conhecido no lugar de onde vem, não acham, rapazes? – virou-se para os outros.

— As mulheres chamam ele de “Príncipe de Gelo”, acho que combina mais com ele – disse um deles, bem risonho, virando o copo todo de uma só vez.

— Deixe de ser efeminado pelo menos diante do nosso “herói” aqui – rosnou Kulaita, de brincadeira, causando novos risos odiosos.

— Se bem que, com o perdão da palavra, meu caro, teu sobrinho também é um! – lançou um deles, zombeteiro.

Kulaita apontou a arma para o companheiro, em tom brincalhão:

— Todo mundo tem uma “ovelha negra” na família, amigo!

— Vocês... se referem ao Cavaleiro de Ouro? Mas... o que isso tem a ver comigo? E com Surtr? – perguntou Derrick, temeroso.

Kulaita passou o braço por sobre os ombros tensos de Sirham, ao explicar, em tom dramaticamente paternal:

— Vamos ao nosso quebra-cabeças, garoto, junte as peças: você é amigo do ruivo, que é amigo do Cavaleiro...

— Eles não são amigos.

Súbito, o pescoço do rapaz foi apertado fortemente em uma gravata.

— NNG!

— Não queira nos atrapalhar, Derrick. Pelo bem do meu país eu posso tranquilamente acabar com você – ameaçou.

— Huung!!

— Vou explicar de uma forma bem simples, meu sobrinho: queremos o Cavaleiro do Gelo. Que ele virá até nós, é fato. Se você disso se beneficiará, vai depender se sua inteligência... e obediência... — soltou o recepcionista, bruscamente.

— O... o quê? Do que está... f-falando? – balbuciou, ainda que livre da pressão em seu pescoço.

— Queremos o Mago do Gelo. Ele será mais valioso que nossos diamantes. Ele é o verdadeiro Brilho de nosso movimento. Seu poder e sua honra erguerão nosso país. Seremos invencíveis. E você nos ajudará a capturá-lo.

*************

Notas finais
............ Sei nem o que dizer. Espero vocês no próximo capítulo, espero que tenham gostado, mas também se não tiverem gostado, falem... hehehehe. Obrigada por lerem, tenham todos uma excelente semana. Beijo grande!