O Brilho da Honra

13 CAPÍTULO ESPECIAL (Extended Version) - Revelações


Notas iniciais
Olá, mes amis. Hoje com vocês um capítulo especial... "Revelações", como o nome diz, enfim vai desvendar muitos mistérios sobre o que aconteceu de fato com Camus em Asgard. O que o levou a fazer o que fez, além da promessa feita a Surtr. Como virou uma história enorme, preferi deixá-lo como capítulo único, ao invés de ficar dois, três capítulos de memórias empatando a trama principal. Sei que para alguns pode ser cansativo, mas é só dar aquele "break" e depois voltar aqui ^^ O que foi criado como justificativa para as ações de Aquário prestam-se tão somente à história DESTA FIC. Como autora de sorte que sou, tenho leitores inteligentes e críticos, que em seus comentários fazem análises que muitas vezes servem à narrativa. Correndo o risco de parecer injusta, pois foram muitas pessoas que deram opiniões preciosas, gostaria de citar a Sheilinha e a Haleth_Jhaeion, cujas teorias sobre o ocorrido em Asgard me ajudaram muito a construir o argumento de Camus, bem como o cenário psicológico do momento. Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos ao lindo apoio que estão dando a esta fic. Vocês são maravilhosas! Boa leitura! :)

— Senhor... não está sentindo dor?

— Perdão? – fez Camus, sendo trazido de volta de seus devaneios pela pergunta da enfermeira; a expressão de espanto dela combinava com a frágil compleição física.

— Não está sentindo dor?

Ele olhou para o braço recém ferido que estava sendo tratado: a moça literalmente costurava a ferida que ia desde abaixo do ombro até quase o cotovelo. Seriam nada mais nada menos que 40 pontos, e ali estava ele, com a face plácida, mirando um ponto aleatório da sala de emergência. Ela não percebeu sequer um franzir de testa, um crispar de sobrancelhas daquele homem, que malgrado o incômodo procedimento, mantinha-se silencioso e sereno.

— Estou sim, é bastante doloroso – respondeu ele, fleumático.

— Nossa... não parece... o senhor está com cara de quem está tendo as unhas cortadas.

O aquariano não pôde suprimir um risinho discreto. CLARO que sentia dor. Acontece que os Santos de Atena eram treinados para suportá-la, e Camus sequer demonstrava que a sentia, graças a seu condicionamento físico e psíquico. Não se sentia no direito, fora erro dele, não manter a cabeça fria, não manter o controle...

...mas ouvir que Milo estava morto o havia desestruturado de uma forma inédita.

Realizado o curativo, envolveram seu braço com ataduras. Ele vestiu uma camiseta preta sem mangas trazida por Saga, a fim de ficar mais arejado o local tratado. O geminiano entrou na sala, com ar preocupado.

— Já terminou? – indagou.

— Sim. Desculpe a demora.

— E como você está, meu amigo?

— Estou bem, obrigado por trazer esta camiseta.

— Seu amigo é a pessoa mais forte que já vi, levou mais de 40 pontos e não fez uma única careta de dor – comentou a jovem, olhando-os com curiosidade.

O grego sorriu para ela. Em seguida, virou-se para o francês:

— Acabei de vir do quarto onde Milo está internado.

Camus sentiu a espinha gelar. Tentou não encarar o geminiano ao perguntar, esforçando-se por parecer impessoal:

— O estado dele... é grave?

Saga chegou a rir brevemente.

— Você sabe que não.

— Eu não sei – retrucou – havia tanto sangue e ele... estava desmaiado.

— Ele desmaiou justamente pela perda de sangue. O projétil resvalou graças ao seu cosmo. Mas foi como uma pancada bem forte. Difícil foi explicar isso aos médicos. Estranharam o fato de um projétil de arma de grosso calibre, como são essas de artilharia militar, não provocar danos significativos.

— Saga, ele não deveria ter sido sequer atingido por ela. Assim como o que aconteceu na manhã de ontem. O que está acontecendo com ele? – inquiriu o aquariano, muito sério.

Recebeu uma olhada igualmente séria... como se Saga quisesse sugerir que SIM, Camus sabia o porquê de aquilo estar acontecendo.

Obviamente, a enfermeira acompanhava aquela conversa com ar de quem não estava entendendo nada. Eles perceberam e Aquário perguntou:

—Isto é tudo, senhorita?

— Hã? Ah! S-sim, é sim... c-cuide-se, qualquer problema, volte, por favor... e o senhor tem que tirar os pontos em 10 dias, sim?

— Entendido. Muito obrigado – agradeceu, polidamente, e deixou a sala com Gêmeos. Enquanto caminhavam pelo corredor do hospital, Saga pôs-se a falar:

— Você não estava presente quando nossos companheiros avançaram rumo à Yggdrasil, em Asgard, a fim de destruí-la.

Engolindo em seco, Camus abaixou a cabeça, constrangido.

— Naquela ocasião, Dohko disse que “a frustração traz vulnerabilidade” – completou.

O aquariano estremeceu ligeiramente. O que ele queria dizer?

Milo estava vulnerável devido ao seu caótico estado de espírito? E... caso fosse assim... quem o causara... seria o maior responsável por isso...

— Não pense que estou te culpando – o sábio geminiano prontamente adivinhou o que ia nos pensamentos do mais novo – Mas a situação de vocês está definhando a ambos, de formas diferentes.

— Como ele está agora? – interpelou, querendo fugir do assunto. Saga percebeu, mas limitou-se a responder:

— Estava dormindo. Quer ir até lá?

Ainda caminhando, o francês apenas fez que “sim” com a cabeça. Prosseguiram até os elevadores e foram para o andar onde o escorpiano se encontrava. Chegando lá, se depararam com Aioria saindo do quarto.

— Ah, oi. Como está seu braço, Camus?

— Está tudo bem, Aioria, não foi grande coisa.

— Não parecia quando eu vi.

— É, sangrou bastante, mas realmente não foi nada grave, só levei pontos mesmo.

— É, mas a médica disse que você terá que fazer uma cirurgia plástica reparadora daqui a umas semanas – lembrou Saga.

— Putz... sério? – surpreendeu-se o leonino.

— Eu não ligo para cicatrizes – atinou o aquariano, indiferente – isso não me será necessário.

— Hum, SEI. Pra mim você tá é com medo da operação – brincou o irmão de Aioros, provocando risos daqueles dois Santos tão sérios.

— O que exatamente aconteceu naquele lugar? – inquiriu o aquariano ao leonino.

Eles se fizeram sérios, subitamente.

— Eu estou indo agora mesmo prestar depoimento à polícia federal, justamente para dar o meu testemunho – Aioria elucidou – com certeza foi um ataque terrorista e muito bem coordenado. Terroristas se infiltraram tanto como frequentadores quanto como funcionários da casa. Por isso as portas foram trancadas e ninguém conseguia sair.

— Que coisa terrível – murmurou Saga – Graças a Zeus vocês estavam lá, ainda que Milo tenha se ferido no processo.

“...a frustração traz vulnerabilidade.”

Camus respirou fundo lembrando das palavras do geminiano. Perguntou:

—Mas quem ordenou um ataque tão horrível e covarde, e por quê? Ninguém assumiu a autoria, até agora?

O leonino balançou a cabeça negativamente:

— Há suspeitas entre três grandes grupos terroristas, mas são suposições baseadas na fala dos assassinos ao alto-falante da boate. Dois são grupos separatistas de países que exigem a retirada de forças da ONU de seus territórios. E há um terceiro de cunho fundamentalista.

— Por que iriam exigir tanto assim a retirada da ONU de suas fronteiras? Por mais que cometam erros, é evidente que sua presença não demanda tamanho rechaçamento – ponderou Camus.

— Pode ter relação com tráfico local. Bem ou mal, a ONU concentra atenção internacional para a região onde se encontra, e isso pode ser prejudicial também para tais atividades – Saga respondeu, sabendo que o aquariano continuaria o raciocínio:

— E muitas vezes nem mesmo a população deve enxergar isso como algo bom, já que paradoxalmente as ações humanitárias sufocam as chances de ela se auto-sustentar, ao impedir desenvolvimento local...

— Mas isso são somente suposições. Em se tratando de um continente tão vasto, pode ser até uma outra coisa, ainda não considerada... o que acho estranho é essa ausência de pronunciamento de quem cometeu os ataques.

— “Os ataques”? – estranhou Aioria.

— Me parece quase evidente de que o que aconteceu diante do Centro de Convenções também tenha sido um ataque terrorista. Agora se do mesmo grupo... muitos devem estar insatisfeitos com a iminência de difusão das ações da ONU – respondeu Saga.

— E certamente há muita coisa escondida pelos governantes... fica difícil desarticular algo tão emaranhado e complexo assim – o francês emendou, segurando o queixo.

O leonino considerou-os, preocupado:

— Cês acham que isso pode continuar acontecendo?

— Enquanto durar a conferência... sim – o geminiano respondeu, sombrio.

— Cara, que merda... não tem nada que a gente possa fazer quanto a isso, Saga? Não podemos apenas ficar esperando eles agirem, ou esperar que a polícia faça algo. Foram dois ataques em um único dia!

— Conversaremos sobre isso no hotel, aqui não é apropriado – o mais velho encerrou o assunto, olhando ao redor. Os outros dois assentiram num entendimento mútuo e silencioso.

Enfim, Leão percebeu o olhar tenso de Camus para a porta do quarto do escorpiano.

— Ele tá acordado, Camus. E... quer ver você – anunciou.

A boca do jovem secou. Gêmeos disse:

—Bom, eu e Aioria já o visitamos. Só falta você, Camus.

— Espere, vocês vão embora?

— Ele vai ter alta amanhã, relaxa. Não precisamos ficar aqui. Além do mais, não é conveniente ficar tanta gente no quarto – respondeu Leão.

— Eu não vou me demorar – falou o francês – Esperem por mim, volto com vocês.

Os dois o fitaram com reprovação estampada nos rostos.

— Do que tem medo, Camus? – perguntou Saga. E aquela pergunta lembrou a que Camus tinha feito a Milo... horas antes de todo aquele horrível acontecimento.

Como ele não esboçasse resposta, Aioria se aproximou dele, colocando a mão em seu ombro:

— Escute, sei que você não queria isso... mas eu CONTEI a ele que foi VOCÊ quem o salvou.

— Aioria... por quê? – não se preocupou em demonstrar seu desagrado. O leonino se juntou a Saga e ambos se afastaram dali, simplesmente acenando e dizendo:

— Até mais, Camus, estaremos no hotel.

Ele bufou um pouco, porém, ao se virar para a porta, suspirou. Estava nervoso, não havia como negar. Mas havia como disfarçar.

Sempre havia.

Pôs a mão na maçaneta dourada e girou-a, silenciosamente. Fechou a porta atrás de si, com as mãos para trás, tenso. À sua frente, no espaçoso quarto branco e frio, a enorme cama na qual repousava o Santo de Escorpião. Este virou-se para ele. Malgrado fosse um Cavaleiro do Gelo, Camus sentiu-se congelar.

— Oi – cumprimentou o paciente.

— Oi – respondeu ele, aproximando-se lentamente – Eu... vim ver como está.

— Estou ótimo. E você? — apontou para o braço enfaixado do aquariano — Se machucou feio, pelo jeito.

— Não é tão sério quanto aparenta. Só levei pontos.

— E isso por ter ido me salvar.

O francês notou certo fastio na afirmação, no entanto, não saberia dizer se era pela medicação. O grego tinha faixas a envolverem-lhe a cabeça por baixo dos fartos cabelos arroxeados. Usava a roupa hospitalar, no mesmo tom dos lençóis, verde-piscina. Como o outro não dizia nada, insistiu:

—É sério. Aioria me contou o que você fez. Muito obrigado, Camus.

— Que bobagem – fingiu pouco caso – Você salvou minha vida ontem. Era o mínimo que eu podia fazer.

— Foi só por isso que foi atrás de mim? Para ficarmos quites?

A visão de Milo naquela cama perturbava-o sobremaneira, ainda que ele estivesse bem. Os olhos escuros de Camus fugiram dos claros dele.

— Sente dor? – foi tudo que conseguiu perguntar.

O grego sorriu levemente.

— Nenhuma. Eu sinto que poderia ir embora agora, mas... querem que eu fique uma noite em observação, fazer o quê... tenho que cumprir o protocolo, né?

— Entendo – murmurou o francês, sem saber muito o que fazer.

Eles se fitaram por uns instantes, até que Milo começou:

— Escuta... desculpa pelo que eu fiz no piano bar. Eu...

Balançando as mãos, o aquariano interrompeu-o:

— Por favor, você não tem que me pedir desculpas por nada! Não pre...

— Camus – cortou-o, gravemente – senta aqui, vem.

— Sentar...onde? – ele fez cara de quem não entendeu. E... de FATO, não havia entendido.

A mão de Milo bateu levemente no colchão forrado, indicando o local:

— Aqui. Senta aqui.

— Mas tem um sofá ali e...

— Mas você vai sentar AQUI.

— Milo, isso não é apropriado. Eu posso levar contaminação ao tecido que está em contato com você e...

— Por Zeus – o grego revirou os olhos, dramaticamente – Não estou em isolamento hospitalar ou coisa parecida. Anda, vem cá.

Sem encontrar outra saída, fez conforme o escorpiano ordenava: sentou-se na beirada da cama, muito sem jeito, ficando de frente para ele, elevado pelo leito retrátil e travesseiros.

— Eu quero pedir sinceras desculpas por aquilo. Eu... talvez você não acredite mas eu nunca iria te machucar – falou Milo, encarando-o corajosamente.

— Eu sei.

— Eu perdi a razão pelo que você disse.

— E eu peço desculpas pelo que dis...

— Quer me ouvir? Para. Você não disse nenhuma inverdade.

Eles ficaram em silêncio mais uma vez. Maquinalmente, Camus olhou o relógio na parede do quarto; marcava 11 horas. Havia perdido a noção do tempo. Nem percebera que estava há tanto tempo no hospital. Deveriam ter chegado por volta das 3 da manhã. Ele havia levado muito tempo fazendo exames e depois os curativos.

— Mesmo assim... não deveria ter falado daquele jeito com você – murmurou o aquariano, desviando o olhar.

Milo observou-o por uns instantes. Tomando ar longamente, proferiu:

—Eu quero ouvir.

— Hum?

— O que você sempre quis me dizer e eu nunca quis escutar. Eu quero ouvir.

Franzindo o cenho, Camus ergueu-se da cama, resoluto.

— Não tem que fazer isso só porque eu “salvei” você.

— Você é surdo? Eu QUERO ouvir!

— Não! – negou-se, firme – Você só estará fazendo isso pelo que aconteceu, não porque realmente quer e...

— Eu sempre quis.

O francês parou, aturdido. O outro prosseguiu:

—Eu sempre quis saber. Só tinha medo de te dar a abertura de se explicar. Como eu te disse, você não disse nenhuma inverdade naquele bar.

— Milo... não acho que seja o momento... talvez uma outra hora...

— Sente-se e me conte. Vou ficar aqui até amanhã de manhã. Será minha distração – ousou brincar.

Após hesitar por uns segundos, o aquariano sentou-se novamente no colchão macio. Quis tanto aquela oportunidade, e agora... não sabia por onde começar. Pigarreou levemente antes de falar:

—Você sabe da dívida que eu tinha para com Surtr, não sabe?

— Claro. Você me contou... quando foi lutar comigo em Asgard.

Um gosto amargo invadiu a boca de Camus. Sem olhar para o seu interlocutor, prosseguiu com a voz um tanto arrastada:

— Exatamente. À época de meu treinamento na Sibéria para me tornar Cavaleiro, meu mestre me levou para Asgard a fim de que eu passasse um ano treinando lá, um lugar onde ele tinha amplos contatos. Conheci Surtr, que treinava na mesma região para se tornar um guerreiro daquele país, e nos tornamos amigos...

— É, eu conheço o resto da história. Você tava treinando, provocou uma avalanche e matou a irmã dele sem querer. Daí então deu a sua vida pra ele – ditou Milo, lutando para não deixar transparecer a raiva que tinha daquela recordação. Considerava o asgardiano um grande aproveitador, servindo-se de um acidente provocado por uma criança para aprisionar perpetuamente um homem pela consciência.

— Não é bem assim. Minha vida pertence à Deusa Atena. Eu prometi sim que usaria minha vida para lutar por Surtr quando o momento em que ele precisasse disso chegasse.

— E aí... o momento chegou. EU apareci – o tom repleto de mágoa do escorpiano constringiu a garganta do francês. Contudo, ele NÃO iria parar. Esperara meses para explicar o que ocorrera em Asgard... o que DE FATO ocorrera em Asgard.

— Sim, foi isso.

— E o que você tem pra me contar de diferente? Digo... você sempre disse que havia mais coisas para me dizer, mas...

— ...mas você nunca quis me escutar – completou o aquariano, tranquilo.

— Bom, agora vou escutar – prometeu o grego, ajeitando-se na cama, ficando um pouco mais ereto – não vou mais te interromper, eu prometo.

Camus assentiu com a cabeça. Permaneceu um pouco cabisbaixo, reunindo forças para contar. Milo respeitou-lhe o silêncio. Podia ser o que fosse mas ele NUNCA quebrava uma promessa. Sentindo-se arrebatado para aqueles dias sombrios, Aquário iniciou seu relato...

*************

... a primeira sensação que o assaltara fora o frio. O que o perturbou sobremaneira. Desde quando ELE, um Guerreiro do Gelo, sentia frio? Em seguida, a dor. Uma dor que irradiava pelos seus membros superiores e inferiores. Aquilo o despertou por completo; deu-se conta, porém, de que não podia se mover. Abriu mais os olhos e percebeu que estava preso pelos pulsos e pelos tornozelos. Havia algo firmemente enroscado neles, sólido, ainda que um tanto maleável. Forçou um pouco, tomando consciência de que seja lá o que fosse também o prendia pelo peito, coxas e cintura. Seus braços estendiam-se para os lados, abertos como estavam suas pernas, afastadas um da outra. Ao olhar para eles, viu que estava a uma altura de cerca de um metro e meio do chão negro, no qual espalhavam-se cilindros de metal e estruturas semelhantes a raízes de árvores. Engoliu em seco, buscando identificar onde estava: uma câmara sutilmente iluminada, sendo por todos os lados permeada por aqueles cilindros de metal e as tais raízes grossas, emaranhadas pelas paredes escuras. Um estranho cheiro metálico se fazia presente, o qual nem se concentrando muito ele pôde descobrir o que era.

Estaria no Inferno?

Ele havia morrido no Submundo, ao usar sua vida, juntamente com seus companheiros de Ouro, para destruir o Muro das Lamentações, a fim de que os Santos de Bronze partissem para os Elíseos em busca de Atena.

Sim. Recordava-se bem.

Então estava aprisionado no Inferno. Malgrado o tivesse feito em nome de sua Deusa, havia desafiado um Deus. E àqueles que assim o faziam estava destinado o Inferno, era o que sempre havia ouvido, desde os tempos de seus estudos para se tornar um guerreiro.

Ouviu passos se aproximando. Um homem muito magro e pálido, de cabelos desgrenhados brancos, entrara em seu campo de visão, seus olhos negros e apertados fixos nele. Vestia um longo colete verde escuro bordado a ouro por sobre uma comprida túnica negra.

— Então você acordou. Enfim posso começar meus experimentos – disse ele, arreganhando a boca enorme num sorriso sinistro.

— Quem é você e onde estou? – Camus perguntou, calmamente.

O homem franziu o cenho e o sorriso morreu. Estendeu a mão e uma esfera vermelha como sangue começou a levitar diante dele. Bastou esticar os longos dedos para que do artefato raios rubros surgissem. Os feixes luminosos serpentearam pelo ar rumo ao Santo imobilizado, atingindo-o em cheio. Ao sentir algo como uma potente corrente elétrica perpassar seu corpo, gritou:

— Aaaaahhh!!!

Esse tormento durou uns 20 segundos, mas para o jovem foi como se tivessem passado 2 horas.

— EU faço as perguntas aqui, garoto. Espero que isso tenha lhe ensinado boas maneiras – riu o desconhecido, zombeteiro. Aproximou-se do Cavaleiro, que ainda tremia ressentido por aquela forte carga. Levantou o braço muito comprido e ossudo e segurou-o pelo queixo, forçando-o a encará-lo.

— Onde estão os outros? – indagou o homem, apertando de forma a quase cravar as unhas na delicada pele do francês.

— Os... outros?

— Sim, os outros Cavaleiros de Atena!

— Eu... eu não sei – não era mentira.

— Hum. Não sabe, hein?! Bem, reconheço que foi muito engenhoso da parte de vocês chegaram aqui e se separarem...

Camus sequer sabia onde era “aqui”.

— Aqui... não é o Inferno? – indagou, desorientado. Foi grosseiramente esbofeteado pelo estranho.

— O que falei sobre “quem faz as perguntas aqui”, seu moleque? – gritou, primeiramente zangado e depois logo esboçando outra vez aquele hediondo sorriso – Mas como gostei de você, vou te responder só essa; se aqui é o inferno? Vai depender de como vai se comportar comigo... hehehehehe...

Sem esboçar o menor desconforto, o aquariano cuspiu o sangue. Dirigiu ao seu agressor um olhar profundo, no qual não se distinguia uma réstia de medo. O outro chegou a ranger os dentes enormes.

— Sabe, eu NÃO gosto desse seu olhar... nem um pouco – rosnou, afastando-se dele. Súbito, virou-se e fez com que a energia atormentasse de novo o prisioneiro. Desta vez pelo triplo do tempo. Enquanto o cativo gemia e gritava dolorosamente, o homem sorria, fazendo anotações, erguendo os olhos do papel por vezes para observar aquela cena, deveras agradável para ele.

Comprazia-se com o sofrimento alheio mais do que qualquer coisa.

Suspendeu a emanação energética. Camus deixou pender a cabeça, exausto, esforçando-se para manter os olhos abertos. Sentia-se queimar por dentro, e seus músculos se contraíam de forma que ele precisava ofegar para respirar.

— Hum, a carga utilizada em você foi trinta vezes superior à que uso com minhas cobaias humanas comuns, e você sequer desmaiou – parecia falar mais consigo mesmo do que propriamente com o aquariano – Então ESSE é o poder conferido pelo cosmo dourado, hã? Será de grande valia para a Árvore do Universo, sem dúvida.

“Árvore do Universo?”, pensou o Santo, tentando se lembrar de onde ouvira aquele termo.

Estava bem difícil pensar, na realidade.

— Se me responder adequadamente, deixarei que sofra por apenas dois minutos. Mas se for teimoso, serão cinco minutos. É proveitoso unir o útil ao agradável – riu maldosamente – ao mesmo em que o interrogo para o Senhor Andreas, prossigo meus experimentos enfim com uma COBAIA DE VALOR... e, óbvio, me divirto deliciosamente!

Camus respirou mais rapidamente; apenas um minuto… não, apenas SEGUNDOS sendo atingido por aquela energia era horrível! Não tinha certeza de suportar tanto tempo.

— Onde estão os outros Cavaleiros de Ouro? Ou melhor, para onde foram?

— Eu não sei nem que lugar é este.

— Não sabe onde está? – surpreendeu-se o estranho.

— Já disse que não – respondeu Camus, secamente.

O homem murmurou, ameaçador:

—Eu NÃO acredito nisso, garoto.

Sob grande tensão, o francês esperou que a tortura recomeçasse. Outra pergunta, porém, lhe foi dirigida:

— E os outros Cavaleiros de Ouro, onde estão?

Uma gota de suor escorreu pelo rosto impassível de Camus.

— RESPONDA!!! – berrou seu algoz.

— Quer uma resposta repetida? Eu não sei. E mesmo que soubesse, para que revelaria a um covarde como você?

— O... o quê? – o outro parecia golpeado por aquele tom gélido.

— Solte-me e enfrente-me em iguais condições de combate. Então verá meu real “valor” – desafiou, a voz baixa destilando profundo desprezo.

O homem pálido estremeceu de ira. Furioso, ergueu os braços para os lados.

— Foi você quem pediu! Não serão cinco minutos, será o tempo que for até que você IMPLORE PARA QUE PARE!

Então os feixes de energia subiram pela câmara, ainda mais extensos e carregados, e atingiram o corpo já fragilizado de Camus:

— AAAAAAHHH!!!

— HAHAHAHAHAHAHAHAHA, vamos, onde está a empáfia de antes, hã? Só consegue gritar, agora, huum? Hahahahahahaha!!!

A noção de tempo extinguiu-se quando o mundo de Aquário converteu-se em apenas dor. Não poderia precisar se foram 10, 20, 30 minutos... talvez fossem horas... se ao menos estivesse trajando sua armadura dourada... ela poderia isolar grande parte daquela carga. Contudo, desprotegido como estava, com suas roupas civis de sempre, só poderia contar com seu cosmo, o qual por algum motivo encontrava-se bastante enfraquecido.

Foi quando um jovem de cabelos vermelhos como o fogo, trajando uma longa túnica vinho e usando inúmeros colares irrompeu pelo lugar, bradando, autoritário:

— Pare já com isso, Fafner! Já chega!!

— O quê?? – perturbou-se o homem, interrompendo o que fazia.

Ainda assim, sob dores excruciantes, Camus sentiu a consciência abandoná-lo aos poucos; agarrou-se ferrenhamente a ela, como um náufrago a uma tora no mar. Ainda sentia espasmos pela energia residual em si.

— Quem te deu a permissão de tomar o MEU prisioneiro para realizar seus experimentos? – demandou o ruivo, altivo.

— “Seu” prisioneiro? – ironizou Fafner – Ele é prisioneiro de Asgard, isso sim!

“ASGARD?!” Ao ouvir aquilo, o aquariano ficou ainda mais confuso.

Então estava em Asgard? Isso não fazia o menor sentido! Ele MORRERA no Submundo! Por que estava em Asgard?

—Eu conheço esse homem, ele é um antigo amigo meu. Exijo que o solte agora mesmo.

Atento àquelas palavras, Camus ergueu o rosto na direção de quem as proferira. Arregalou os olhos índigos, estupefato.

“Não pode ser... SURTR?!”

Surtr, seu amigo de infância... o que fazia ali? Não fora difícil reconhecê-lo, conservava as mesmas características...

Fafner deu um risinho sarcástico e disse:

— Hum, você o quer, hein? Claro. Um “espécime” belo como esse... quem não iria querer? – e mirou Camus, maliciosamente.

Surtr não respondeu. Cravou no mais baixo um olhar quase tão gélido quanto o do homem preso.

— Se ele te agrada tanto assim, vai gostar de vê-lo gritar, é maravilhoso, ouça! – e ativou novamente a esfera que irradiava a energia que consumia o Cavaleiro:

— AAAAAAHHH!!!

— Viu só? Ouça, ouça! Não é lindo? Huhauhauhahahahaha!

— SOLTE-O AGORA MESMO, Fafner de Nidhogg, ou reportarei sua insubordinação ao Senhor Andreas!

— E-ei, c-como assim?

— Obtive a permissão do Senhor Andreas para que ele ficasse sob MINHA responsabilidade. É meu amigo, e a partir de agora, será nosso aliado. Solte-o JÁ!

Dominado pela dúvida, Fafner ora olhava para Surtr, ora olhava para o jovem torturado, que se debatia em vão, gemendo para não gritar, por vezes falhando miseravelmente.

— Não mandarei uma quarta vez. Se não me deixar tirá-lo daí, irei imediatamente ao Senhor Andreas.

Dois guerreiros subordinados do ruivo entraram na câmara, cada qual com cerca de dois metros de altura. Encararam o cientista de modo intimidante. Ele estalou a língua, aborrecido, e fez cessar a corrente de energia.

Um dos guerreiros aproximou-se de Camus e arrancou as estruturas que o mantinham suspenso. O francês caiu nos braços do subordinado de Surtr, que o ajeitou para carregá-lo dali. Antes de sair, o ruivo virou-se para Fafner e disse:

— Se quer tanto assim fazer experimentos com um Santo de Atena, eu fui informado de que Áries foi visto na floresta rumo à localidade onde fica o seu outro laboratório.

— É verdade?!? – Fafner animou-se vivamente com aquela notícia.

“Áries... não, Mu!”, Camus ainda pensou, preocupado, antes de perder os sentidos.

******

Detendo-se para respirar, o aquariano perguntou a Milo:

— Posso pegar uma água no seu frigobar?

— Claro – murmurou o escorpiano, nitidamente impressionado. Comentou, distraidamente – Eu... eu não sabia que você havia... havia sido torturado em Asgard... por que nunca me con...

Parou de súbito, consciente do absurdo que iria perguntar. Um sorriso triste desenhou-se no rosto de Camus, que em seguida tomou generosos goles de água antes de responder a pergunta não concluída:

— Como poderia ter contado?

Milo sentiu-se apunhalado no peito. Crispou os punhos no lençol, presa de sentimentos incômodos e confusos.

— Bem... posso continuar? – quis saber o francês, depositando a garrafa sobre a mesa ao lado da cama.

O outro assentiu com a cabeça, consternado.

— Pelo menos o imbecil do Surtr fez algo de bom por você. Continue, por favor.

Mais uma vez, Camus deixou-se transportar para aqueles dias, perguntando-se se após contar o que veio a seguir deixaria Milo com a mesma opinião...

******

Acordou horas depois, num amplo aposento ricamente ornado e mobiliado. Ergue-se do imenso leito de dossel e viu-se com outra vestimenta:usava uma longa túnica azul celeste com bordado de ouro e cravejada de pedras preciosas. Desnorteado, olhava tudo ao redor. Seu cabelo... úmido... alguém não apenas havia o vestido com aquelas finas roupas, como havia o banhado!

Como não sentiu nada de estranho em seu corpo então, procurou não se deter tanto naquele insólito fato. Precisava procurar os outros. Se Mu estava em Asgard... se Fafner mencionara os outros Cavaleiros de Ouro no país do gelo eterno... Milo também havia de estar lá! Milo e os demais companheiros. Alguém os trouxera de volta à vida... mas com que propósito?

Não era um feito de sua Deusa.

Então boa coisa NÃO poderia ser.

Sem se importar em calçar as botas estofadas com lã deixadas ao pé da cama; dirigiu-se resoluto para a porta. Ao abri-la, porém, espadas e lanças foram apontadas para ele, que sequer piscou.

— O senhor não tem permissão de sair – avisou um dos guardas.

Quando o francês já concentrava seu cosmo em uma das mãos, ouviu a voz de Surtr ecoar:

— Parem com isso, ele é MEU convidado. Não há necessidade de tamanha indelicadeza! – vinha pelo corredor iluminado por archotes.

Obedecendo, os homens abaixaram as armas.

— Camus! Que bom que despertou. Eu vinha justamente verificar se havia acordado para jantarmos – saudou o ruivo, sorridente.

O aquariano, não obstante, não retribuiu o sorriso: encarou-o friamente e indagou tão somente:

— O que significa tudo isto, Surtr?

— Hum?

— Exijo saber o que está acontecendo, como vim parar aqui?

— Fique calmo. É natural que esteja confuso.

— Não há NADA natural aqui – retrucou, na defensiva.

O ruivo suspirou, condescendente.

— Você precisa se alimentar, Camus. E eu também estou com fome. Então porque não vamos conversar enquanto fazemos uma boa refeição?

Camus balançou a cabeça, obstinado.

— Eu deveria estar morto... o que estou fazendo aqui? Por que estou aqui? Quem era aquele...

As mãos do asgardiano tocaram seus ombros de leve.

— Está desnorteado, e entendo isso perfeitamente. Permita-me explicar tudo. Você não quer saber tudo, Camus? Não quer entender?

Assentindo um tanto quanto cansado, o aquariano concordou.

— Antes de mais nada... Odin... o Grande Odin, o Pai dos Deuses, trouxe você de volta para mim.

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Após uma lauta refeição, como há muito não desfrutava, Camus acompanhou Surtr até uma extensa varanda que dava vista para as infinitas planícies geladas de Asgard.

— Nada do que me disse ainda faz sentido para mim, Surtr. Por que fui encontrado inconsciente diante de sua base, com a caixa da armadura ao meu lado, se, conforme lhe contei, encontrei a morte no Submundo?

— Para alguém que dedicou a vida a uma Deusa que reencarna de 200 em 200 anos na Terra você me parece muito cético a aspectos concernentes às divindades, meu caro – respondeu o ruivo, sorvendo vinho num cálice de ouro branco. Prosseguiu:

— Mas embora o idiota do Fafner tenha sido grosseiro com você ao fazer tantas perguntas estúpidas, uma coisa é certa: os Cavaleiros de Atena ressurgiram aqui em Asgard com um propósito, isso é fato. E esse propósito não é desconhecido do senhor Andreas. O animal queria apenas um pretexto para te machucar. É o hobby dele, embora seja uma mente brilhante.

Camus não respondeu. Permitiu-se acompanhá-lo no vinho, cujo sabor lhe era bem saudoso, não podia negar. Sabia que Surtr falaria mesmo que ele não perguntasse.

— Sentiu algo de diferente no seu cosmo, Camus?

— Sim. Ele parece enfraquecido.

— Correto. É por causa dela... vê? – apontou para uma imensa árvore que subia aos céus, como que abrindo-o, cercada pela névoa. Uma visão um tanto assustadora.

— É a Yggdrasil.

— A Yggdrasil? – estranhou o aquariano – Mas ela não era tão gigantesca quando eu era criança...

— Ela está assim graças ao Senhor Andreas.

— Quem é esse Andreas de quem vocês tanto falam?

— Vai conhecê-lo em breve. Ele é o representante de Odin honorário, pois que a Senhorita Hilda caiu enferma... a ação da Yggdrasil tem possibilitado muitas maravilhas inéditas a Asgard. Campos outrora estéreis florescem e dão frutos a nosso povo. Mesmo o intenso frio diminuiu significativamente depois que ela se desenvolveu daquela maneira. A população tem se beneficiado com uma fartura que nunca antes nossos antepassados conheceram.

— E por que disse que sou aliado seu? – indagou o francês, mirando fixamente a misteriosa árvore.

— Porque nós, Guerreiros Deuses, iremos lutar contra os Santos de Ouro que invadiram nossa terra santificada.

Camus não hesitou em perguntar, de modo impessoal, como se ele mesmo não fosse um dos Cavaleiros de Atena:

— Alguma razão concreta para isso?

— O senhor Andreas acredita que vocês foram enviados para impedir o desenvolvimento total da Yggdrasil.

— Quais os fundamentos para tal crença? Pois eu sequer sei o porquê de ter revivido aqui em Asgard. Acredito que os demais estejam em similar situação.

— Possivelmente a consciência de que missão trouxe guerreiros de volta à vida pode demorar um pouco. A julgar pelos relatórios de Frodi, o Cavaleiro de Leão já despertou para sua “missão”, pois que o enfrentou, e lutou ferozmente.

— Leão? – surpreendeu-se — E... e quem é Frodi?

— Um dos sete Guerreiros Deuses. Nós recebemos as sagradas armaduras guarnecidas com as safiras de Odin, que nos concedem poder além do imaginado. Nossa missão no momento é evitar que cheguem até a Árvore do Universo, e, preferencialmente, abatê-los como os blasfemos que são. Eles não podem ameaçar o grande projeto de Lorde Andreas.

— Se, como você diz, Andreas fez a Yggdrasil se desenvolver em prol da prosperidade de seu povo, por que acham que seria objetivo dos Cavaleiros de Ouro impedir isso?

Surtr o considerou gravemente. Pareceu hesitar, mas por fim, respondeu:

— Ele ainda vai anunciar a todos os Guerreiros Deuses. Mas a algum de nós ele revelou que foi Hades e Atena que reviveram vocês conjuntamente a fim de que viessem destruir a Yggdrasil. Eles temem o poder da árvore; inclusive haviam enganado Hilda, fazendo-na acreditar que se tratava de algo maligno.

O aquariano chegou a balançar a cabeça, algo um tanto incomum de ele fazer... é que aquilo era absurdo demais!

— Isso é impossível. Hades mantinha Atena prisioneira no Elíseos. Foi para isso que morremos, para que outros guerreiros pudessem ir até lá para salvá-la. Não haveria como ambos aliarem-se para tal propósito!

— O nosso tempo não é absoluto nos diversos planos da existência, Camus. Você tem a sensação de ter vindo para cá tão logo pereceu. Mas o tempo dos deuses é diferente... pode ser que isso tenha sido há mais tempo. Que os dois tenham enfim selado algum acordo... e que agora buscam impedir que Asgard torne-se mais poderosa que os reinos deles.

Tudo aquilo parecia completo absurdo... não era possível, de forma alguma. Porém, ainda que sua cabeça rodasse com tantas conjecturas, o aquariano registrara obsessivamente uma informação: os Guerreiros Deuses iam lutar com os Cavaleiros de Ouro.

Sorvendo calmamente o vinho, Camus comentou, neutro:

— Não creio que seja uma empreitada tão simples. Nosso poder não é algo que deva ser subestimado.

— Sim, eu concordo. No entanto, vocês se encontram em desvantagem... justamente por causa da Yggdrasil. Talvez possa confirmar o que estou dizendo, não, meu amigo?

O aquariano continuou fitando o horizonte preenchido pela funesta silhueta. De fato, sentia seu cosmo instável, enfraquecido por alguma influência maligna... mas se Surtr dizia que a tal árvore tantas dádivas estava dando ao sofrido povo daquele extremo norte europeu!

Não, não se enganava.

Era algo MAU. PERNICIOSO.

Seus companheiros então, como ele, não se encontravam no domínio pleno de suas forças?

— Ao manifestar intensamente o cosmo, tudo apenas piora. A árvore apenas o suga mais.

— Então... é mesmo ela que...

Os Guerreiros Deuses, contudo, tinham seus poderes, já superiores mediante aquilo, potencializados pelas safiras de Odin.

Seriam lutas EXTREMAMENTE desiguais.

Talvez... PERDIDAS.

— Mas VOCÊ não precisa se preocupar, Camus. Está comigo. Se continuar como nosso aliado, será generosamente agraciado por Lorde Andreas.

— Isso significa que terei que lutar contra meus companheiros – replicou o Santo, sentindo um súbito frio na espinha ao imaginar... imaginar como seria ter que lutar com eles.

De novo.

Aquilo era extremamente doloroso. E pior...

Como seria se tivesse... se tivesse que lutar contra Milo?

Não, mais uma vez NÃO.

Ele não poderia suportar! Nem ele... NEM MILO.

Teve um horrível pressentimento.

O vinho pareceu converter-se em fel.

— Não são mais seus companheiros. Vocês morreram. Não estão mais sob domínio de sua Deusa Atena. E você... você só tem a MIM agora. Você VEIO até mim. Como explica esse acontecimento? Como uma “coincidência”?

Ele não poderia explicar. Realmente... não apostaria em coincidência.

O que sabia era que sua condição não diferia muito da de um prisioneiro.

Se tentasse fugir naquele estado seria facilmente capturado, ou mesmo eliminado. Ou talvez usado por aquele cientista tenebroso. O que foi que Fafner havia dito?

“Então ESSE é o poder conferido pelo cosmo dourado, hã? Será de grande valia para a Árvore do Universo, sem dúvida.”

— Surtr, através de que processo Andreas está fazendo a Yggdrasil crescer, já que nem mesmo Hilda o fazia? Além da própria intervenção dele, claro.

— Da energia vital de diversos seres e organismos... e notadamente, agora, do cosmo dos Cavaleiros de Ouro.

— Então é por isso...

— Lorde Andreas percebeu que o cosmo dos Santos de Ouro passou a nutrir a Árvore substancialmente, mais do que qualquer outra coisa. Andreas é a representação de um Deus. De maneira menos direta, vocês também são.

— Entendi. Será como “se livrarem de dois coelhos com uma cajadada só” – atinou o francês, quase irônico.

— Perdão, acho que não entendi.

— Vocês receberam ordens de lutar com os Cavaleiros de Atena por estarem aqui supostamente para deter o crescimento da Yggdrasil. Eles obviamente utilizarão seus cosmos para tal e, curiosamente, o cosmo dos Cavaleiros de Atena é exatamente o que mais a fortalece.

— Tudo que Andreas quer fazer é em benefício de nosso povo, há muito sofrido por tão duras condições de vida – rebateu o ruivo, agora sem sorrir – É a missão que recebemos de Lorde Andreas, e se é uma ordem dele é uma ordem do nosso pai Odin.

Suavizou a expressão, olhando para o outro, que preferia permanecer em silêncio. Serviu-lhe mais vinho, dizendo:

—Mas nós dois não temos que ser inimigos, Camus. Certamente houve um propósito em você ter aparecido perto de onde eu estava. Eu NÃO quero ser seu inimigo. Você quer ser meu inimigo?

“Tempo. Eu preciso de tempo. Para entender melhor. Para me informar melhor.

Para LUTAR melhor”, pensava o francês, saboreando o vinho. Olhando para o fundo da taça, respondeu:

— Não. Eu não quero ser seu inimigo.

Inesperadamente, Surtr o abraçou.

— Eu fico tão feliz, Camus... tão feliz que não tenha esquecido da sua PROMESSA... minha IRMÃ ficaria tão feliz! – declarou, emocionado.

Camus estremeceu ante a menção de Sinmone.

Perturbado, reviu na neve o pequeno Surtr com Sinmone nos braços, chorando alto, chamando em vão por ela... após a avalanche provocada pelo treinamento daquele egresso do Santuário de Atena... a pobre criança nunca mais poderia responder seu irmão mais velho...

...Sinmone estava morta.

Em troca da vida que sua imprudência ceifara, Camus prometeu lutar por Surtr quando ele disso precisasse. Daria sua vida nessa ocasião, assim como levara a da menina.

E pelo visto, chegara o momento.

Ainda que significasse ficar contra seus companheiros... como fugir à tal promessa? E por que retornara logo para onde estava Surtr? Não seria exatamente para isso? Não seria seu destino?

Mas… e Atena? Ele jurara servi-la… e isso significava durante sua vida, e mesmo após ela... não fora assim quando se tornara um Espectro?

No entanto... ali era outro tempo, outro lugar... não recebera ordem alguma de Atena. Não era correto lutar contra seus companheiros... tampouco era correto fugir àquela promessa. E poderia ganhar algum tempo para sondar o que de fato ocorria... mas poderia trair Surtr? Poderia trair seus companheiros? Poderia trair MILO?

“Mais uma vez...”

Sentiu-se muito confuso, embora não o demonstrasse. Mais que sua habitual frieza, isso o impedia de corresponder àquele abraço. Surtr parecia não se importar. Ter o amigo em seus braços já parecia ser ventura suficiente.

— Ela ficaria tão feliz em saber que você voltou... por mim... e para mim... – murmurou, bem próximo ao seu ouvido. Camus sentiu as lágrimas quentes de encontro ao seu pescoço.

— Fique comigo, Camus... como era no passado. Nós dois juntos alcançaremos a glória por Odin... nunca mais nos separaremos. Eu nunca esqueci daqueles dias, meu amigo, eu nunca fui tão feliz!

Enfim correspondendo ao abraço, ainda que bem menos efusivamente, o aquariano assentiu. Foi ainda mais apertado pelo ruivo, completamente entregue à emoção.

— Surtr...

— Ah! Não diga nada – sussurrou, enleado – Apenas me deixe ficar assim... há tanto sonho com isso!

O Santo nada mais proferiu. E durante aquele amplexo, pensou no que faria.

Não parava de pensar em Milo.

Onde estaria o escorpiano? Encontrara diante de si algum Guerreiro Deus? Temeu por isso. O amado era tão impulsivo! Certamente atacaria com tudo, e NESSE MOMENTO...

“Ao manifestar intensamente o cosmo, tudo apenas piora. A árvora apenas o suga mais.”

Um grande peso se apoderou dele. Estranhamente, como a adivinhar-lhe os pensamentos...

— E... me diga, Camus, você tem alguém?

O Santo disfarçou a surpresa que aquela pergunta lhe causara.

NÃO poderia falar de Milo!

Seria o primeiro a ser caçado!

— Alguém no Santuário, talvez? Sim… depois que você voltou para lá... cerca de um ano após trocarmos cartas, você parou de me responder... perdemos contato por completo – o ruivo continuou.

E mais uma vez postando-se ao seu ouvido, indagou, com voz baixa:

— Uma amazona de Atena? Quem é? Quem é a mulher que conquistou seu coração?

— Não há ninguém – mentiu, num tom firme e destituído de emoção.

— Eu não acredito – sussurrou, correndo as mãos suavemente pelas costas do Santo – sinto você longe daqui... porque seus pensamentos estão em quem você ama...

— Não há ninguém, já disse – repetiu, impaciente, sem contudo levantar a voz.

O ruivo fitou-o nos olhos, sorrindo.

— Então... talvez você não terá problemas com ISTO...

E pousou seus lábios sobre os do francês, sentindo-lhes avidamente a estrutura aveludada, a doçura prometida. O aquariano permaneceu imóvel, o que foi um sinal para que o asgardiano ousasse aprofundar o toque, introduzindo sua língua sequiosa na boca do amigo. Camus correspondeu, a bem de sustentar sua negativa. Manteve-se impassível, ainda que o outro provasse a sua boca com total langor, segurando-se a ele, quase ofegante, magnificado por aquele momento. O ruivo chegou a gemer baixinho, dentro da cavidade que explorava com ardor.

O frio, porém, estava ali.

Era quase como beijar uma estátua.

Os olhos azuis escuros permaneciam abertos. Não havia nenhuma entrega. Surtr, muito ruborizado, apartou-se dele, a fim de encará-lo, interrogativo.

— Não há ninguém – enunciou Camus, friamente.

— Você mente mal, meu amigo – sussurrou, enquanto lambia aqueles lábios tentadores e obstinados.

Afastou-se do francês, considerando-o gravemente.

— Invejo essa pessoa. Seria capaz de matá-la, sem pestanejar – declarou, sorrindo de lado.

— Surtr...

— Relaxe! – riu, pegando a taça de novo – É só uma maneira de falar. Não se preocupe com sua amada.

Um servo alto e muito magro aproximou-se da varanda onde estavam, anunciando:

— Senhor Surtr, perdoe-me pela intromissão; o Senhor Andreas deseja falar-lhe… e ordena que leve esse forasteiro.

— Certo, nós já vamos – resmungou o ruivo, ainda sentindo sua boca dormente.

Acompanharam o servo até uma carruagem e partiram para o castelo do Grande Líder.

Já em seu suntuoso interior, encaminharam-se para o salão onde encontrava-se o substituto temporário de Hilda. Ambos fizeram uma mesura respeitosa diante do representante de Odin. Era um homem bem alto, de feições gentis e joviais, longos cabelos avermelhados e um olhar penetrante; trajava uma longa túnica branca sob uma capa azul presa por um adorno e ombreiras de puro ouro. Ele dirigiu-se aos recém chegados de forma branda e amistosa:

— Seja bem vindo, Cavaleiro Camus de Aquário. Sou Andreas Lise, atual representante de Odin, enquanto nossa amada Lady Hilda estiver enferma. Embora no momento os Cavaleiros de Ouro enviados por Hades e Atena infelizmente encontrem-se contra nós de Asgard, eu o recebo como um valoroso aliado, a pedido de meu fiel Surtr de Eikthyrnir.

— Eu agradeço imensamente sua generosidade, grandioso Senhor Andreas – disse Surtr, fazendo nova mesura. Camus apenas abaixou a cabeça em concordância e proferiu:

— Assim como ofereci minha vida para lutar por meu amigo Surtr, eu a ofereço a seu líder, Lorde Andreas.

— É muito gratificante presenciar tal prova de lealdade – anunciou Andreas, sorrindo – Justamente por ser você um homem tão leal, creio que não se furtará a aceitar se submeter a uma prova de fidelidade total e irrestrita a seus novos companheiros de batalha.

Surtr ergueu para Andreas seus olhos curiosos. Ousou se meter:

—Uma prova de fidelidade, senhor? No que consistiria?

— Sei que os Santos de Ouro podem comunicar-se entre si através de seus cosmos – e fixou seus olhos, que eram curiosamente da mesma cor dos de Surtr, em Camus – E embora eu não creia que nosso novo aliado se servisse de tão leviano artifício, não posso garantir a mesma segurança nos corações dos demais Guerreiros Deuses.

— O que quer dizer, senhor? – o ruivo sabia que não era adequado interpelar tanto o líder supremo de Asgard, no entanto, não estava gostando do rumo daquela conversa. Aquelas palavras deixavam-no apreensivo sobre o que pretendiam com Camus.

— Guerreiro Deus Fafner de Nidhogg – chamou o soberano, para estranheza de ambos. O aquariano controlou-se para não deixar visível sua vontade de desferir-lhe um Pó de Diamante, no mínimo, no cientista, que adentrava o imenso recinto.

— O que ele faz aqui? Achei que tivesse ido atrás de Áries – disse Surtr, intrigado.

— EU o chamei até aqui. Depois de fazer o que pedi, estará livre para ir buscar a “cobaia” que quiser – respondeu Andreas, nunca abandonando a serenidade – Fafner vai implantar um dispositivo em Aquário que informará telepaticamente a todos vocês, Guerreiros Deuses, o momento em que ele porventura se comunicar com os antigos companheiros através de seu cosmo dourado.

— O quê? – surpreendeu-se Surtr – Eu pensei que o senhor confiasse nele… eu já disse que Camus é meu amigo desde a infância, e me prometeu...

— E eu já disse que não é por mim, e sim pelos demais Guerreiros Deuses – desta vez Andreas mostrou-se um pouco mais duro, como a advertir o ruivo diante de si – Ele não estará impedido de usar o cosmo, muito pelo contrário, uma vez que lutará por você e por mim. Entretanto, caso se comunique com nossos inimigos através do cosmo, saberemos imediatamente. Não posso permitir que meus Guerreiros sintam-se inseguros quanto ao seu amigo, meu nobre e distinto Surtr, isso é prejudicial para o espírito de luta e para o elo que une vocês nesse ideal... será que estou sendo mais claro agora?

O ruivo travou a mandíbula, tenso. Lutava arduamente para não deixar transparecer sua revolta.

— Eu compreendo, Senhor Andreas... acontece que... – hesitou um pouco antes de continuar — ...acontece que nós sabemos como são esses implantes de Fafner... como exigem do corpo humano e... como podem ser DESAGRADÁVEIS. De que nos valeremos se Camus...

— Você exagera, meu caro Surtr – o cientista interrompeu, uma expressão vitoriosa iluminando seu rosto repulsivo – Não é tão horrível assim. O processo do implante é sim bem doloroso, não nego, porém o incômodo passa rapidamente... e depois pode ser que ele apenas manifeste uma febre... estará novinho em folha em algumas horas.

O aquariano a tudo ouvia, obviamente apreensivo, ainda que sustentando sua fachada imperturbável. Escutou o ruivo argumentar:

—Essas horas em que ele ficar FORA DE AÇÃO poderão ser decisivas! E se justamente nesse período de tempo aparecer um dos Santos na base onde estamos...?

— Surtr – Andreas cortou o jovem, indelicadamente – haverá, além de você, Sigmund de Granyl, um dos mais fortes de vocês, irmão do lendário Guerreiro Deus Siegfried. Não há razão para sua preocupação. A menos que isso seja um pretexto para não acatar minhas medidas...

— Não possuo objeção alguma quanto ao procedimento, Lorde Andreas – finalmente Aquário se manifestou, convergindo sobre sua plácida e austera figura a atenção de todos.

— Camus... — murmurou o ruivo, receoso.

— Agradeço sua preocupação, meu amigo. Contudo, me disponho integralmente ao que desejar o Senhor Andreas. Compreendo suas intenções e acato sua ordem com total tranquilidade.

O semblante de Andreas há pouco escurecido por uma contida irritação iluminou-se.

— Não me enganei acerca de você, Aquário. De fato, é tão valoroso como me informou Surtr. Sua obediência causa grande impressão em minha pessoa, e eu o agradeço por isso – anunciou, o sorriso sereno de volta ao rosto magnânimo.

Camus assentiu, fleumático. Fafner aproximou-se do Santo, ante o olhar tenso de Surtr. Trazia nas mãos uma caixa de couro cru, da qual tirou uma seringa já preparada com o micro dispositivo. Depositou a caixa num dos bolsos de seu colete verde escuro. O Cavaleiro ficou à espera do procedimento; rapidamente, Fafner injetou-lhe no pescoço o implante, seu sorriso alargando-se ao testemunhar a expressão de dor do jovem.

— Unngh!! – gemeu, ante a sensação de dezenas de agulhas incandescentes concentrando-se num só ponto de sua carne.

— Camus!!! – Surtr correu para ele, amparando-o. Não chegou a perder a consciência, porém sua percepção pareceu abandoná-lo por uns segundos. Aceitou o apoio do ruivo, tentando a todo custo manter-se controlado.

— Muito bem, Aquário. Realmente admirável. Em geral, quem recebe meu implante desmaia assim que a agulha é retirada. No entanto, a dor passa em alguns segundos – e para Surtr – Ele vai ter febre nas próximas horas. Não lhe dê medicação alguma, é apenas adaptação de seu organismo ao corpo estranho.

— Sim... entendido – assentiu, franzindo as sobrancelhas.

— Mais uma vez obrigado por seus préstimos, Fafner. Surtr, Camus, podem se retirar. Surtr, cuide bem do Cavaleiro, faça com que descanse bem. E Camus, desejo-te um pronto restabelecimento. Não esquecerei de sua prova de lealdade.

Eles fizeram uma breve reverência e partiram; de fato, a dor estava passando rapidamente, mas o francês sentia-se zonzo. Vertigens o acometiam, e ele não pôde recusar o apoio de Surtr como tencionara. Entraram na carruagem e voltaram para a base no meio das montanhas geladas.

—-------

Envolto em puro perfume e maciez, ele se permitiu esticar os membros, quase espreguiçando. Havia algo como uma nuvem avolumando-se em sua mente, atordoando-o, ainda que a sensação não fosse necessariamente desagradável.

O calor revezava com o frio para possuí-lo, rendido àquele torpor. Um som contínuo de água corrente, ecoava, tão distante e tão presente... ele arqueou o corpo, jogando a cabeça para trás, e foi como mergulhar no oceano, submergindo, submergindo, tendo acima de si o céu azul pro trás do espelho móvel ma margem tremulante... o céu azul... azul da cor dos olhos de Milo...

...da cor dos olhos de Milo...

...não...

...ERAM os olhos de Milo...

...distinguiu diante de si o rosto amado, tão belo, tão nobre como sempre se lembrara... as íris tão claras a contrastar com o bronzeado daquele filho da Grécia, sob cujo sol crescera e se tornara o homem a quem entregara sua alma. Pois que a ele pertencia, somente a ele.

Os macios cachos arroxeados desciam como sedosas cortinas sobre suas faces, e seu coração palpitou quase dolorosamente. Seus lábios carnudos entreabertos laçaram sua atenção e não pôde prender-se a mais nada. Só de ver aquela boca úmida tão perto da sua sentiu os olhos úmidos. Tinha tanta saudade dele! Em seu peito mesclavam-se saudade, dor, desejo, frio, calor, angústia, urgência. Ele arqueou mais as costas e seu corpo não mais tocou a água e sim um outro corpo. Aquele encontro fez com que também entreabrisse os lábios, precisava de mais ar, mais ar... não queria submergir... queria Milo, queria aportar em Milo... Milo estava ali com ele..

... para o total desenfreamento de seus sentidos a boca de Milo roçava a sua, esfregando-se com suavidade de um lado a outro, respirando sobre a delicada carne, fazendo com que ele abrisse mais a boca para receber mais daquele hálito doce, vivificador. O corpo do grego ajuntou-se mais ao dele, e para seu desespero, pousava sobre ele, fazendo-o sentir todos os músculos, todo seu vigor... Milo agora lambia provocantemente sua boca, e por mais que ele a abrisse, convidando-o, ansioso, o escorpiano maldosamente lambia, chupava e mordiscava seus lábios.

— Humm... – gemeu, a palpitação saindo do normal de vez. Suas mãos trêmulas ousaram tocar os cotovelos de Milo, flexionados de forma a permitir que ele ficasse sobre si, maldosamente roçando sua masculinidade onde já sentia aquecer e pulsar... sim, era muito tempo... não poderia evitar...

Milo enfim invadiu-lhe a boca, aprofundando aquele beijo, levando-o a um saudoso deleite. Beijava-o como no passado, e era como se nada nunca tivesse os separado, nem a morte havia sido maior que o amor deles, e aquele sublime momento o provava...

— Milo...

Milo parara de súbito, provavelmente para provocá-lo ainda mais. A pressão em sua virilha denotava a excitação do amado.

— Milo... – um chamado, um gemido, uma súplica – Milo...

— Quem é Milo?

— Mi…Milo?

— QUEM É MILO?

Que brincadeira era aquela de Milo, agora? Camus abriu os olhos... na verdade nem percebera quando os havia fechado... e diante dele não havia mais o azul do céu por sobre as águas... e sim íris violetas... não... magentas... cor curiosa...

Súbito, como um raio, a percepção; ergueu-se, esquivando-se para trás, em defensiva.

À sua frente, sobre a cama na qual se encontrava, com expressão de ódio... SURTR!

— O... o que... – balbuciou Camus, confuso: a primeira medida foi verificar a si mesmo.

Ainda estava vestido. A mesma roupa com que havia ido até Andreas.

Graças a Zeus.

Mas o que havia acontecido? Levou a mão até os lábios; sentiu-os levemente inchados... úmidos... não, não podia ser! Olhou atordoado para o ruivo, que o fitava sinistramente.

— Você teve uma febre bem alta... estive o tempo todo ao seu lado; já que Fafner disse que não poderia tomar remédio algum, eu precisava pelo menos acompanhar seu estado. Confesso que não resisti a como você se apresentou durante um de seus... delírios... – passou a mão sobre a face ainda quente do francês — ... estava irresistível. Condene-me se quiser, mas não poderia aguentar tê-lo ao meu lado gemendo e arqueando seu corpo daquela maneira...

Camus desvencilhou-se dele, ultrajado. Levantou-se do leito, tomado de asco arrepiante.

— Eu não imaginava que fosse esse tipo de pessoa, Surtr! – vociferou – É assim que diz que é meu amigo?

— Quem é Milo?

Detendo-se, o aquariano balançou a cabeça, aturdido.

— O quê?

— Quem é Milo? Você repetiu esse nome durante seu delírio. É o nome da pessoa a quem você ama? – demandou o ruivo, autoritário.

Vendo-o calado, Surtr insistiu, irritado.

— É isso, não é? O nome de quem possui seu coração. Milo. Milo... repetia-o com tanta paixão...

Ergueu-se do leito também, andando pelo quarto.

— Espere, eu me lembro desse nome. Estava nos relatórios que Lorde Andreas nos entregou. É o nome de um dos Santos de Ouro... Milo de Escorpião. Estou certo? – virou-se para ele, adquirindo um jeito maníaco – Milo de Escorpião... Cavaleiro de Ouro Milo de Escorpião! É ELE o seu amante, Camus?

Sem nada proferir, o Santo respirava pesadamente, levemente zonzo pela febre que partia.

— Por que mentiu para mim? Por que disse que não havia ninguém?

— Eu não menti – respondeu o aquariano, gélido – Realmente tive um relacionamento com o Cavaleiro de Escorpião, porém isso foi há muito tempo.

— Sim, sim, porque você perdeu a vida para o seu pupilo naquela estúpida luta, quando a Atena desta era retornou ao Santuário, não é mesmo? Eu soube dessa historinha patética. E desde então não teve mais “o seu Milo”... mas a julgar por seu ARDOR de há pouco tempo... ele ainda está aí no seu coração...

— Eu já me desfiz de sentimentos do passado, Surtr – retrucou, firme e seguro – um delírio de febre não é algo a ser considerado. E mesmo que fosse, eu jurei lealdade a Asgard. Caso não o quisesse ter feito, teria permitido que me implantassem um rastreador psíquico?

Ante tal argumento, o ruivo se calou. Mordeu o lábio inferior, aparentemente sob forte dilema. Cerrou os olhos com força, e deu-lhe as costas, indo se apoiar numa mesa de carvalho. Murmurou:

—Camus, eu…

— Senhor Surtr! Senhor Surtr! – bateram à porta, ruidosamente.

— O que é? – rosnou ele, sem se preocupar em abri-la.

— Um Cavaleiro de Ouro está se dirigindo para esta direção! Está no caminho das montanhas, nas imediações do rio Yngeer.

— Temos informação de quem seja ele?

— Sim, senhor. É o Santo de Escorpião, senhor.

A respiração de Camus manteve-se suspensa. Surtr mirou-o, atento às suas reações faciais.

— Escorpião, hein...

— Mandamos soldados atacá-lo, mas não obtivemos sucesso.

— Claro que não... imbecis. Retornem a seus postos! EU cuido disso – ordenou o ruivo.

— Eu posso ir enfrentá-lo. Conheço seus ataques – Camus se ofereceu, a máscara da indiferença fixa no belo rosto.

— Sim, imagino que conheça – frisou, sarcástico – e isso é um grande trunfo para nós. Mas... acha que será conveniente ir ao encontro dele... para LUTAR com ele?

— Você e eu recebemos ordens do senhor Andreas. Vai ficar atrasando tudo por suas inseguranças?

Surtr chegou a assobiar com aquela resposta atravessada.

— De acordo, meu amigo... você passou por uma prova de lealdade... com certeza essa será outra. Bem mais difícil.

— Não haverá dificuldade alguma. Acabarei rapidamente com ele. O elemento surpresa estará a nosso favor – respondeu o francês, indo pegar sua caixa de Pandora.

— Hunf, isso com certeza. Vá. Deixo Escorpião a seu cargo.

Sem expressar emoção alguma, Camus meneou a cabeça em concordância.

—---------

A neve caía incessantemente, e mesmo ele podia sentir um pouco daquele frio cortante. Protegido por um longo manto marrom com capuz, Camus ia pelo caminho referido, notando o profundo despenhadeiro que desembocava no rio mencionado pelos soldados de Surtr. Podia sentir claramente o cosmo de Milo se aproximando.

Sempre imprudente... vinha resoluto, o espírito de batalha já plenamente elevado. Milo amava os combates. No passado, aconselhara-o a respeito dessa euforia, que conquanto tivesse sua serventia em algumas lutas, contra um inimigo mais estratégico poderia colocá-lo a perigo.

Acontece que tal inimigo nunca surgira. Radamanthys não contava, a barreira do Castelo de Hades afetara seriamente os cosmos dos Santos que lutaram com o Juiz. Dispunham de apenas 10% de seu poder. E Milo revivera tal qual nos velhos tempos, em que se dirigia para o combate certo de sua superioridade.

No entanto, a situação era diferente agora.

O grego NÃO deveria manifestar seu cosmo intensamente. Não enquanto Camus não descobrisse mais acerca da Yggdrasil. No momento oportuno, sim, que perdessem as vidas novamente, e certamente era esse o destino deles... mas iriam queimar seus cosmos até o infinito em defesa do que deveria ser feito. Não deixaria Milo esperdiçar sua vida de forma tão banal. Havia dois Guerreiros Deuses prontos a defender a base para a qual ele rumava, fortalecidos pelas tais safiras de Odin... ao passo que ele se enfraqueceria caso queimasse o cosmo. O francês sentia em si mesmo o efeito da Árvore do Universo. Será que Milo não estava sentindo o mesmo?

Tinha que tirá-lo de ação, fazer com que deixasse aquele lugar... mas como?

E tinha Surtr.

Camus SABIA que o asgardiano o seguiria. Não se tratava nem mesmo de sentir sua presença, Camus era exímio leitor das emoções humanas, poderia prevê-las... viu no olhar de Surtr, antes de deixá-lo, que ele viria verificar o embate entre os dois amantes.

Melhor seria dizer... ex-amantes.

Isso era tão estranho.

Considerou o vale pronunciado sobre o qual erguia-se a montanha. Talvez...

...não houve mais tempo.

Adiante dele... os longos cabelos azulados ao sabor do vento que zunia ruidosamente. Ele nem ao menos se preocupara em usar o capuz do manto com o qual se protegia!

Seu coração disparou. Tão logo o outro parou, ele também deteve seus passos.

— Então havia mesmo um Santo de Ouro por aqui. O que aquele fracote disse era verdade – falou o escorpiano, visivelmente satisfeito, indo em direção à figura. A mesma expressão confiante e orgulhosa. Neste momento, uma rajada mais intensa de vento fez voar a manta que ocultava o Santo de Aquário.

Como sempre, o semblante sério e fechado.

Nada de diferente. Nada que despertasse suspeitas.

Passou por ele, que continuou parado no mesmo lugar.

— Vamos, Camus. Soube que a base deles fica logo em frente. Vamos arrancar a verdade dos Guerreiros Deuses – conclamou, certo de que também o amado queria saber o que acontecia.

Foi quando sentiu a base da manta pesar. Gelar. Surpreso, porém rápido, desfez-se dela antes que também congelasse. Saltou para uma distância segura, entendendo imediatamente o que ocorria.

Camus... seu amado Camus... O ATACARA!

— O que há com você?!? – inquiriu, revoltado.

Finalmente o francês voltou-se para ele.

Nada em seu rosto denotava qualquer sentimento... qualquer um.

— Ainda não entendeu, é? – Uma voz. Do alto.

“Maldição”, pensara o francês. Surtr mostrara-se mais rápido do que imaginou que faria. Camus SABIA que ele o seguia, mas sinceramente achou que ficaria na surdina para avaliar a conduta do amigo.

— Eu sou o Guerreiro Deus Surtr de Eikthyrnir. E o Cavaleiro de Ouro Camus é nosso aliado, ele luta do nosso lado – anunciou o ruivo.

— Guerreiro Deus, você disse? – surpreendeu-se Milo. E para o Santo à sua frente – Camus! Quer dizer que você traiu Atena? Mas por quê?!?

Mais uma vez ouvir aquilo.

Seu coração sangrou. Seu rosto, porém, não traiu o tormento interior. Usou aquele momento para mais uma vez analisar o desfiladeiro... a posição de Milo. Seria muito arriscado. Usaria uma técnica mais básica, à qual SABIA que o grego sobreviveria. Tinha que ser agora, antes que Surtr...

— Não há necessidade de você saber – e o recém chegado brandiu a espada subitamente envolta em intenso fogo – Você será fritado pelas minhas chamas!!!

Disparou contra ele um golpe de fogo.

“Não!”, pensou Camus, já concentrando seu cosmo.

O escorpiano paralisou, sem que ele mesmo percebesse. A estupefação deixou-o momentaneamente sem ação. Por que Camus estava do lado de quem o atacava? Aliás... por que CAMUS O ATACARA, em primeiro lugar?

Ele, que dominava a velocidade da luz...

... ficou ali à mercê daquele ataque.

— PÓ DE DIAMANTE!!! – Camus bradou, lançando contra ele seus poderosos cristais de gelo.

A rajada gelada atingiu-o pouco antes das chamas famintas do Guerreiro Deus, envolvendo-o por baixo do fogo. Foi alçado no ar, seu grito ecoando nas montanhas nevadas, partindo a alma do aquariano em mil pedaços. Viu o amado cair precipício abaixo, desaparecendo em meio à escuridão do abismo...

Saltando de onde estava, Surtr pousou onde Camus estava, o olhar fixo no breu abaixo de si.

— Hunf. Ele caiu no rio.

— Deve estar morto a esse momento. Nem mesmo um Cavaleiro de Ouro resistiria após dois golpes combinados, ainda mais enfraquecido como ele estava – opinou o aquariano, num tom neutro.

— E se não tivesse morrido com isso, estaria no mínimo inconsciente. Logo, irá se afogar nas águas geladas do rio Yngeer – raciocinou o outro, procurando desvendar algo no semblante desprendido do amigo.

Não parecia haver nada. Nenhum remorso, nenhuma preocupação... nada.

— Vamos voltar. Você ainda não está plenamente restabelecido e acabou de usar seu cosmo. Ordenarei que os soldados procurem pelo corpo dele.

—-----------

De volta à base, horas depois coordenavam as buscas pelo Cavaleiro desaparecido. Surtr inquiriu a um soldado que viera até eles, enquanto caminhavam por um corredor até a sala de reuniões:

— E o cadáver do Escorpião?

— Nenhuma notícia ainda – respondeu o homem, que usava um capacete com grandes cornos de metal.

— Então continuem procurando – ordenou o ruivo, sem sequer olhar o subordinado.

— Sim, senhor!

E deixou-os, apressadamente.

— Por um acaso você não deu um golpe mais forte de propósito... Cavaleiro de Ouro de Camus de Aquário? – perguntou Sigmund, encostado displicentemente na parede, à frente dos dois. Lançava ao Santo de Atena um olhar de lado, desconfiado.

— Pare com isso, Sigmund – Surtr falou, incomodado com aquela atitude.

O loiro adiantou-se a eles, parando bem de frente a Camus, numa postura de enfrentamento. O aquariano sustentou a mesma postura, sem contudo nada dizer.

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— Não dou a mínima se é amigo de Surtr. Eu não confio em você como um aliado – declarou, duramente. E retirou-se.

O ruivo acompanhou-o com o olhar, e em seguida, sorriu para o aquariano:

— Desculpe por isso, Camus. Sigmund... perdeu o irmão mais novo em uma batalha contra Cavaleiros de Atena. Por isso, odeia a todos Santos.

— O mesmo aconteceu com você, não, Surt? A vida de sua irmã mais nova também foi tirada por um Cavaleiro.

— Aquilo foi um acidente. Eu não tenho esses sentimentos ruins para com você, Camus.

O francês mencionou, encarando-o fixamente:

— Eu não vou quebrar a promessa que fiz a você.

— Eu acredito nisso. É que... sabe, naquela hora, o seu golpe congelante deve ter anulado efeito de minhas chamas... fico me perguntando se isso não poderia ter salvado a vida de Escorpião.

A garganta de Camus constringiu-se, mas ele resistiu a engolir aquele ar. Franzindo as sobrancelhas e sorrindo de forma diferente de instantes atrás, o ruivo parecia estudá-lo atentamente. Estreitou os olhos magentas e continuou:

—Claro que acho que foi uma coincidência...

O francês manteve seu silêncio, mirando-o sério. Foi quando ouviram um grito:

— Senhor Surt!

— O que é?

— O Cavaleiro de Ouro apareceu... Milo de Escorpião! – anunciou, afobado, um soldado portando uma enorme lança.

— Então ele sobreviveu...

— Eu vou acabar com ele – Camus declarou, despretensiosamente. E deixou Surtr, indo em direção à saída.

******

— OK, eu já odiava esse Surtr. Depois de ficar sabendo disso tudo, eu realmente adoraria estraçalhar aquela cara arrogante dele – percebendo uma pausa de Camus, Milo não se conteve.

O outro aproveitou para beber mais água.

— Por isso Shaka me disse que não era hora de lutar... era o que você fazia também... como Shaka, estava analisando tudo – rememorou o grego, pensativo.

— Sim.

— Então... o seu golpe... foi pra me proteger do golpe de Surtr?

— Até mesmo Sigmund e Surtr perceberam isso – um sorriso condescendente acompanhou a resposta.

— Você até se arriscou por isso... se tivessem levado isso adiante como uma denúncia a Andreas...

— Fafner teria uma diversão e tanto comigo.

— Grrrrrrr, esse é outro que eu preciso ESGANAR... enfiar minhas Agulhas nas fuças dele até ele expelir seus intestinos pelo...

— Ele não é exatamente alguém agradável, claro. Mas sob a influência maléfica da Yggdrasil de forma tão direta, tornou-se realmente ensandecido. Surtr me disse que ele agora usa suas habilidades para curar as pessoas.

— Não quero saber. Se eu encontrar com esse cara alguma vez na minha vida...

Camus abafou um risinho.

— Que foi? – indagou Milo, piscando, intrigado.

— Não... não é nada. Ou melhor... – suspirou, nostálgico – faz tempo que não ouvia essas suas demonstrações protetoras. Quer dizer, ontem você me protegeu. Mas eu falo desses rompantes, entende? Eram engraçados.

— Você sempre parecia se aborrecer com eles.

— No fundo achava-os um tanto cômicos.

— Legal saber que enquanto eu me preocupava com você, tu tava me achando um palhaço de circo – sorriu também, debochado.

— Também não era assim – riu o francês.

Milo emudeceu, maravilhado. Há quanto tempo não via Camus rir...

Abaixou a cabeça e lançou:

— E então... eu apareci pela segunda vez.

— É. Bem... àquela altura, eu não poderia mais usar o Pó de Diamante. Ficaria evidente que estava facilitando para você. Por isso, confiando em seu...

— Me diz uma coisa, Camus – interrompeu-o, já fatigado.

— Hum?

Em um tom inseguro como poucas vezes o grego usou na vida, indagou:

— As chamas... a armadilha de Surtr em frente à base deles... você sabia que ele havia preparado uma armadilha para mim?

— A resposta faria alguma diferença a esta altura?

— Eu... eu não sei – confessou, um tanto cansado – Mas... acho que gostaria de saber.

Camus cerrou os olhos e uniu as mãos sobre os joelhos:

— Não. Eu não sabia. Nem mesmo Sigmund sabia, e até o condenou por aquilo...

— Entendo – murmurou o escorpiano.

— Graças a Atena, Saga apareceu.

— Por isso Shura não lhe guarda rancor... — apontou Milo, olhando o teto.

— Como?

— Bom – riu levemente o grego – Estamos falando do Shura. Ele está em um nível diferente do meu, não é? Sempre esteve... ele é mais sensato e analítico do que eu, hã? Eu não duvidaria que ele até entendeu suas razões reais, ao passo que eu...

— Milo...

— Ele me disse que concentrou a maior parte do golpe na estátua... e que mesmo assim você não o matou... que foi o desgraçado do...

— A essa hora, Surtr estava totalmente tomado pela influência maligna da safira de Odin, que na verdade... mostrou ser proveniente das artimanhas de Loki. Não quero que pense que o estou defendendo, é apenas o que aconteceu a todos os Guerreiros Deuses que chegaram ao limite durante as lutas. Pode confirmar isso com Aioria, Aldebaran e...

— Não, eu acredito em você – Milo balançou a cabeça. Como ele poderia duvidar? Ele sequer chegara a lutar contra um Guerreiro Deus. Sua impulsividade fora sua única nêmesis. A dor de acreditar-se traído por Camus. Shaka o aconselhara. Saga o aconselhara. Mu o aconselhara. Até mesmo Camus, de forma sutil, o fizera, ao mencionar sobre o perigo de dirigir-se à Árvore do Universo despreparado.

— Você parece cansado, Milo. Talvez esta conversa o tenha exaurido.

— Não. Ela apenas me proporcionou alívio. Eu sinto muito por nunca ter permitido que você me contasse tudo... Camus.

— Eu compreendo perfeitamente seus motivos. E eu sinto muito por não ter encontrado uma forma de evitar nosso confronto.

— Como você poderia?... – o escorpiano contraiu os punhos, com raiva de tudo por que Camus passara, com raiva de Surtr, com raiva de si mesmo – Você foi praticamente chantageado pelo seu... “amigo”... foi torturado... recebeu um maldito implante de rastreamento telepático e... ei, Camus! E o implante? Ainda está em você?

O francês levou os dedos até a área do pescoço em que fora injetado o micro dispositivo.

— Não. Quando despertei a Armadura Divina, ele desapareceu de dentro de mim... naquele momento, ele foi consumido pelo meu cosmo magnificado.

— Depois da... morte de Shura, não é.

— Uhum.

— Ele deve ter percebido que você estava sendo “controlado”. Deve ter tentado se comunicar contigo pelo cosmo. E ao ver que não era possível, deu-se conta de que você não era o inimigo que pretendia aparentar ser... que havia algo de errado e...

— Milo. Chega – pediu o aquariano, ao perceber certo descontrole na fala atropelada do ex-namorado. Sem perceber, ao fazê-lo, pôs sua mão sobre a mão dele.

Contudo... não pôde tirá-la dali.

Tampouco Milo balançou sua mão para afastar a outra. Ao contrário, virou-a para cima, entrelaçando seus dedos nos finos dedos do francês. Este teve um leve sobressalto, mirando o escorpiano.

— Por que foi atrás de mim mesmo depois de todas as coisas horríveis que te falei... depois daquilo que fiz no piano bar do hotel... depois de eu te rejeitar e te evitar todos estes...

— Você SABE a resposta.

Eles se fitaram fixamente, imersos no longo silêncio que foi quebrado por Milo:

— Camus. Posso te pedir uma coisa?

— Sim – respondeu num fio de voz – O que é?

— Um beijo.

O aquariano arregalou os olhos. Sua mão tremeu na mão de Milo, e este a segurou com mais força ainda. Inclinando-se sobre o paciente, Camus pousou seus lábios naqueles lábios saudosos, obedecendo sem pestanejar.

*************

Notas finais
Bom, espero que não tenha ficado muito irreal... eu realmente condenei MUITO Camus em soul of Gold, mas sempre achei muito rasa aquela desculpa da "promessa ao amigo". Então taí a versão de "Brilho". OK, até eu fiquei com vontade de fazer "movimentos estranhos" de Watanuki (XXXHolic), porque, GOOD LORD, POR ATENA, POR ZEUS... 13 capítulos pra sair UM BEIJO!!!!! E... e acaba assim, tia Melinda? >:( Acaba... então... já imaginam como começará o próximo... e o que acontecerá a seguir, né? (Aquela carinha) :) Obrigada por prestigiarem, beijo grande! :x