O Berço dos Esquecidos - Rebelião em Ascenção
1 1: O Grande Lorde Avô Henry
Notas iniciais
-Josh! O jornal já chegou, preguiçoso! Levanta esse traseiro gordo da cama e pega pra mim! – acordo com meu avô gritando. Ele nem sempre é bom em termos de gentileza.
— Tá bom, vô! – grito de volta, ainda meio grogue. – Tô levantando!
Arrasto-me para fora da minha cama e visto um short jeans qualquer. Calço meus tênis all star pretos de sempre e uma camisa com os escritos: “Keep Calm and Carry On” verde berrante (não faço ideia do porque de eu gostar dessa camiseta), que ganhei do meu avô no natal passado. Historinha ridícula:
— A garota da loja disse que vocês estão usando coisas desse tipo hoje em dia. – disse ele naquele Natal, querendo ser gentil, o que o deixava estranho. – Acabou que o espírito juvenil em mim acabou despertando e eu comprei uma para mim. – então ele tirou uma blusa igual a minha de uma sacola e a vestiu, e ela ficou justa e ridícula, nada a ver com ele, arrancando risos meus e de alguns poucos familiares. Meu avô costuma ser legal uma vez por ano, que é no natal.
Bem, seria bom se vocês conhecessem a pessoa de quem estão ouvindo toda essa baboseira. Meu nome é Josh Daniel, e tenho quinze anos. Moro em Moony City, uma cidade pequena e pacata com uns 14.000 habitantes, onde todo mundo fica sabendo de tudo. Monet City é o nome original da cidade, mas o fundador da cidade era um artista pensador e todos o achavam um lunático, fazendo a cidade pegar o apelido e mais tarde ter o nome como oficial. Vivo com meu avô viúvo, Henry Daniel, que está na casa dos setenta anos. Meu hobby é escrever, e até sou bom nisso, mas isso se funde com meu péssimo hábito de começar e não terminar, o que resulta num quarto cheio de papéis com livros nunca terminados e personagens nunca lembrados. E isso também resulta em eu sendo o escravo limpando tudo sozinho.
Depois de me vestir e fazer a higiene pessoal desço para a cozinha para fazer as vontades do Grande Lorde Avô Henry.
— Bom dia, vô. – digo, sem esperar uma boa resposta do rabugento.
— Dia. – diz ele, mordendo uma maçã e fazendo uma careta em seguida. – Que droga de dentes sensíveis! Se você tivesse um emprego, quem sabe eu poderia fazer um tratamento!
— Se você não fosse tão rabugento talvez eu tivesse um pouco de energia para querer procurar um. – retruco, passando um pouco de geleia de uva numa fatia de pão.
— Me respeite, rapaz! – diz ele, sempre caçando brigas. – Hum, depois de tomar café, quero que vá as compras. Já fiz a lista. – ele aponta um pedaço de papel na mesa. – Quero que faça as coisas direito. Da última vez, eu pedi três pacotes de açúcar e...
Ignoro o monólogo dele de como eu confundi a quantidade de sal e açúcar na última ida ao supermercado e tomo meu café nas escadas em frente a minha casa. Pego meu celular e reproduzo a minha senha o mais rápido que posso (não sem errá-la umas três vezes antes). Vou direto para o AddToon – um chat popular na nossa região — conversar com Lisa Brandon, minha melhor amiga do colégio. Ela responde dois milissegundos depois.
Josh: Oi.
Lisa: Oi :) Como vai de férias?
Espero um tempo antes de responder. Nas férias, Lisa sai de viagem com sua boa família para lugares legais e divertidos, enquanto eu fico por aqui, apodrecendo, em Moony City. Decido falar a verdade.
Josh: Uma droga. Meu avô fica me dando tarefas. “Levanta esse traseiro da cama e vai no supermercado, moleque!”, com aquelas benditas maçãs na mão. Ele só come maçãs?
Lisa: Então está irritado porque um senhor de setenta anos fica comendo maçãs e te pede pra ir ao mercado?
Josh: Você não entende. Ele age como se fosse um tipo de Grande Lorde Avô Henry -_-
Lisa: kkkkkkkkkkkkk Grande Lorde Avô Henry? Cara, você precisa relaxar. Olha, a gente só vai viajar daqui uns dias. Vamos andar de bicicleta na avenida, a vazia e sem movimento.
Josh: Huuuuum... Tudo aqui é sem movimento. E não sei se você tem a dignidade de sair comigo.
Lisa: É, afinal você é o filho do Grande Lorde Avô Henry.
Josh: Kkkkkkk. Tá bom, Lisa Brandon. Te encontro lá três da tarde, ok?
Lisa: Pode ser. Tchau, Josh Daniel Filho do Grande Lorde.
Josh: Tchau, Lisa Brandon.
Bloqueio o celular e logo o Lorde Supremo está gritando a plenos restos de pulmões.
— Josh! Quanto tempo você demora pra tomar essa droga de café?
*****
Ao chegar ao Lukebrothers Market, um dos três supermercados de Moony City, sou recebido pelo Luke Um na porta. Os jovens da cidade o chamam assim para distingui-lo do seu irmão gêmeo, outro Luke. Ambos são os donos do supermercado.
— Oi Luke Um. – digo, entrando no mercado.
— Oi Josh! – diz ele, energético. – O que vai querer hoje? Quer ajuda? Lembre-se de sempre levar mais e mais. Parece que vai ter um temporal e ninguém vai sair de casa. Então...
— Estou bem, Luke. – digo, cortando-o. – Obrigado!
Luke é um ótimo ajudante e está sempre disposto, mas é um chato, tenho que dizer. Pego a lista de meu avô. Uma dúzia de maçãs, pêssegos em calda enlatado, milho enlatado, sardinha enlatada... Meu Deus! Por que gente velha gosta tanto de comida enlatada?
*****
Ao voltar do supermercado, abro a porta da minha casa e ela range. Ninguém nunca se importou de consertar.
— Por que não pede para o seu pai consertar? – perguntou Lisa na primeira vez que veio aqui. Tínhamos uns sete anos.
— Ele está viajando. Minha mãe também. – eu respondi, talvez depressa demais. Mas eu menti.
Desde que eu me entendo por gente, moro com meu avô. A história que me foi contada diz que eu fui abandonado com meu avô, quando ele tinha acabado de ficar viúvo. Meus pais ficaram assustados, pois não tinham me planejado e não tinham condição de me proporcionar nenhuma qualidade de vida.
— Entenda, Josh. – disse meu avô, quando me contou. – Eles só queriam o melhor para você. Eles queriam que você tivesse uma oportunidade. Não conviva com essas lembranças. Há coisas que devemos somente... Esquecer. – e foi a única vez que me lembro de que meu avô disse algo que não fosse uma reclamação.
— Ô garoto! Quanto tempo vai ficar aí parado na porta? – volto à realidade com meu avô gritando.
— Desculpa, vô. – digo. – Trouxe sua feira de enlatados.
— Deixe de frescura, garoto. Se não quer comer isso, vá trabalhar. – diz ele, seco. Decido não responder. A melhor maneira de derrotar um bruto é não revidando. Aliás, eu estou longe de passar fome.
Subo as escadas e atravesso o corredor, entrando no banheiro. Combinei com a Lisa daqui uma hora. Enquanto tomo banho, penso no meu próximo livro. Desde os dez anos eu estou tentando escrever um. Diversas histórias, maioria boas ideias, mas nunca finalizadas, com exceção de algumas ficções de fã. Isso deve ser um tipo de problema meu. Seria exagero chamar de doença, mas deve ser algo assim. Ultimamente, minhas ideias para um novo livro não duram nem quinze minutos. Logo acho algum ponto que me faz desistir. Será que meus pais também foram tão rápidos em achar esse ponto em mim?
*****
— Hey, Josh! – ouço a voz de Lisa. Olho pela janela e ela está em frente a minha casa com sua bicicleta lilás. – Vamos logo, sua lesma!
Desço rápido e saio de casa, subindo em minha bicicleta. Logo, Lisa está pedalando muito a minha frente.
— Lisa! – grito. – Você não consegue ir mais rápido? – falo isso e uso aquela incrível velocidade masculina, ultrapassando Lisa.
Lisa se veste sempre da mesma forma, e as únicas coisas que mudam são estampas. Ela sempre usa uma dessas blusas que se apoiam num só ombro e deixam a alça do sutiã a mostra. Shorts jeans curtos, que até hoje só notei diferença nos tipos de botão, e seus all star cano longo de sempre. Os cabelos ruivo-escuros estão sempre presos num rabo de cavalo. Gosto de Lisa porque ela não é uma dessas garotas que estão sempre preocupadas se as unhas estão bem feitas, se aquela banda pop água com açúcar lançou uma nova música ruim ou quantas curtidas sua foto teve no Facebook. Ela simplesmente tenta se divertir, como agora, andando de bicicleta comigo.
— Seu idiota! – reclama ela, atrás de mim. Lisa não é muito boa em aceitar derrotas. – Diminua e me siga.
Diminuo a velocidade e Lisa passa na minha frente, virando uma das ruas da avenida, e imediatamente sei que ela está indo ao Moony City Zoo, o zoológico aonde sempre vamos.
— Para onde vai esse ano? – digo, conseguindo pedalar ao lado de Lisa.
— Não sei ainda. – diz ela, ofegante. – Talvez em algum resort como sempre.
— Hum. – digo. Passamos por cima de um buraco no asfalto. – Você não gosta de sair com sua família?
— Eu até gosto, mas aquele espírito de férias me deixa louca. – diz ela. – “Hei, Lisa, coloque esta blusa florida para todos nos vestirmos iguais.” Minha mãe força muito a barra.
Decido não falar nada. Um assunto que envolva família com certeza não me serviria muito, além de me fazer pensar sobre meus pais. Lisa sempre foi assim, meio durona. Já a vi com alguns garotos, mas ela não parece muito interessada nessas coisas. Ela usa gírias antes permitidas só para nós, garotos, e esse é um dos motivos pelo que com quinze anos eu nem penso em namorar Lisa Brandon. Lisa parece totalmente inalcançável nesses termos “namorativos”, e a única vez que pensei em Lisa assim foram com uns nove ou dez anos. Suspeito que nossa friendzone é eterna, e não sei ao certo se quero sair dela.
— Chegamos. – diz ela, e desce da bicicleta, prendendo-a a uma dessas barras para bicicletas. Faço o mesmo.
— O que você planeja? – pergunto. Lisa não é de somente olhar os animais.
— Vamos comprar um pouco de sorvete. E daí vamos até os macacos.
— Você é surreal.
— Eu sou surreal.
*****
Depois de comprarmos sorvete de morango, o nosso preferido em comum, e gargalharmos por muito tempo das caretas dos macacos ao congelarem o cérebro, – até os guardas nos mandarem para longe por um triz de nos envolvermos em algo sério – eu e Lisa estamos sentados num banco de pedra próximo ao habitat das girafas. Percebo que gosto dessa sensação de dor na barriga pelo motivo certo e não por um sanduíche estragado.
- Então... – digo. – Já que todo o sorvete foi para os macacos, te encontro na sorveteria as oito?
— Me convença. – diz ela. Então ergo minhas mãos de um modo dramático e faço cócegas na barriga de Lisa. Ela só ri, porque isso é normal entre nós, não esquentamos a cabeça perguntando se isso é um flerte ou não. Mas eu mesmo penso se posso estar flertando com Lisa Brandon.
— Ai, chega. – diz ela, rindo. – Tudo bem, eu me rendo a me entupir de mais sorvete.
— É assim que se diz. – digo.
*****
— Então até mais tarde. – diz Lisa quando estamos em frente à porta de sua casa.
— Até. – e é então que o meu sistema entra em crise. Lisa não me dá um soco amigável no braço, mas me abraça. E sem ver, eu retribuo o abraço. Antes de Lisa entrar, ela me oferece o melhor sorriso de todos os sete anos.
Uma colônia gigante de borboletas explode dentro de minha barriga. Eu estou apaixonado por Lisa Brandon. Estou?
*****
Quando chego à sorveteria de noite estou morrendo de frio. Minha blusa azul de moletom e minhas calças jeans fazem metade do serviço de me esquentar, e meus pés estão congelados dentro do meu tênis. Definitivamente não é uma boa noite para sorvetes.
Sento-me numa das mesas do lado de dentro. A mulher que fica por detrás do balcão extenso de sorvetes me cumprimenta. Enquanto espero Lisa chegar entro no AddToon pelo celular.
120 mensagens novas
Meu Deus! Quem pode ter me mandado tantas mensagens assim? Abro o aplicativo e descubro quem enviou tantas mensagens. Vinte mensagens são de um grupo, e o resto é de minha fanática admiradora: Emma Goodwin.
Emma Goodwin é caidinha por mim desde que eu me lembre. E isso seria legal, claro, se ela não fosse Emma Goodwin. Acredite, Emma é a garota mais fanática de Moony City. Ela faz de tudo – tudo – para chamar a minha atenção. Acredito que se vista sempre de azul por ela ser a minha cor favorita. Claro, ela não é feia; longe disso. Tem cabelos castanhos na altura dos ombros, olhos azuis com cílios perfeitos, além de estar sempre bem vestida. Mas ela nunca diz coisa com coisa quando nos encontramos. E, como exemplo de seu fanatismo, metade das vezes em que eu e Lisa nos encontramos ela estava nos observando, escondida, e muitas vezes com a câmera do celular ligada em nossa direção. Lisa tentava ser simpática com ela, quebrando seu visual de durona por algum motivo incompreensível, e acenava para ela. Emma saia correndo imediatamente.
Oi Josh.
Josh sabia que você fica muito bem de azul?
Poderíamos nos encontrar qualquer dia desses.
Josh, você é perfeito!
Josh, eu gosto muito de você.
Josh, você gosta de mim? – maioria das mensagens de Emma são assim.
— A morte da bezerra foi mesmo muito interessante, não é? – diz Lisa, me surpreendendo.
Quando digo que me surpreendi, não é da boca pra fora. Lisa está completamente diferente da Lisa De Todos Os Dias. Ela está com os cabelos ruivos soltos até a altura dos ombros, e está usando uma blusa de renda branca com uma saia azul até um pouco acima dos joelhos. Usa uma sapatilha, também branca, que me lembro de tê-la visto usando no casamento da irmã. Só posso descrever Lisa com uma palavra: Uau.
— Oi, Lin...sa! – digo, tropeçando entre linda e Lisa. Que mancada.
— Ah, adoro meu nome... Linza... – brinca ela, se sentando. – Sabe, aqui também fazem bebidas quentes. Juro que não vou tomar um sorvete nesse frio.
Nada de gírias, porém naturalidade. Lisa Durona não é de verdade?
— Então, o que vão querer? – diz a garçonete, chegando a nossa mesa com um bloquinho de anotações. – Ah, oi Lisa!
— Oi, Kate! – diz Lisa. – Eu vou querer um chocolate bem quente.
— Eu também. – digo, quando Kate olha para mim. Ela sai e Lisa olha para mim.
— E então? – diz ela. – No que estava pensando?
— Cento e vinte mensagens no AddToon. – digo. – Cem de Emma Goodwin.
Pareço ter dado um soco no estômago de Lisa pela cara que ela faz. Legal. Ciúmes?
— Emma é meio louca. – diz ela, suspirando. – Mas não gosto de conversar sobre Emma. Tenho que dizer uma coisa.
Santo Deus. Por favor, não deixe que Lisa me peça em namoro. Me dê só mais um tempo, misericórdia!
- Minha mãe quer que você vá lá em casa amanhã a noite. Lasanha e Petit Gateau.
Valeu, Deus.
- Uau. Sua mãe cozinha bastante, não? – digo. Os chocolates quentes chegam, e eu fico feliz por eles estarem deliciosos e, bem... Quentes.
— Minha mãe só faz coisa boa.
— Tipo... Você. – digo sem pensar. Eu e Lisa gargalhamos.
— Você manda bem no flerte, não é? – diz ela.
— Acho que é perigoso flertar com Lisa Brandon.
— Você nem imagina.
*****
Depois de jogarmos rios de conversa fora, eu e Lisa estamos finalmente andando pela longa rua que dá na casa dela. Quando chegamos, ela se vira para mim.
— Sabe, eu gostei... de hoje. Foi diferente. – diz ela. O nariz está vermelho de frio.
— Sim. Eu também. – então eu abraço Lisa. O frio se extinguindo. O momento mais oportuno impossível para um beijo, mas então ouvimos um barulho de um galho se quebrando. Viramos-nos na direção do som. A silhueta de Emma Goodwin é revelada no escuro.
— Ah, Emma? – diz Lisa, tentando ser natural. A silhueta sai correndo. – Afe, de novo.
— Pois é. – digo. “Nada de ir embora, garotinho”, diz a Friendzone.
Notas finais
Muito frio.
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