Notas iniciais
Oi de novo =D

por Lisa Brandon

– Isso não é justo, Emily! – digo para minha irmã, me sentando bruscamente na cama do seu quarto. – A Emma Fanática apareceu de novo, de novo!

– Calma, Lisa! – diz ela. – Ela te bateu ou algo assim?

Suspiro.

– Não, Emily. Eu saí com o Josh, e aquela louca ficou observando a gente escondida atrás de uma árvore.

– E o que tem de errado nisso?

– O quê, Emily, o quê?! – elevo a voz. – Eu gosto do Josh, e a Emma... A Emma é louca! Ela poderia fazer qualquer coisa, e além disso como policial você com certeza sabe que isso é errado.

– Lisa, Lisa... – diz Emily, se levantando e me puxando para frente do espelho. – Olha só para você. Você é linda. Você é engraçada, interessante. Por que acha que perderia o Josh para uma lunática como a Emma?

Olho para meu reflexo. A percepção de algo que eu venho negando me atinge como uma pancada no estômago: todos esses anos eu estava por trás de uma máscara. Sempre sendo durona, nada de músicas, nada de vestidos ou de se preocupar com boas impressões. Essa não sou eu. Como pude por tanto tempo ser tão... Falsa? Acho que vendo Josh como ele é, um amigo, sei lá... Acho Josh é bom amigo demais para ser desperdiçado. Acho que depois de ficar negando meu eu acabei me acostumando com tudo isso e ficando numa zona de conforto em relação à insegurança. Mas Emily está certa: chega disso tudo.

– É... – digo. – Acho que você está certa.

– Ok. – diz ela, me abraçando. – Deixe de ser tão insegura e acredite em si mesma. Você pode não ser só um rostinho bonito pelas suas atitudes, Lisa.

– Obrigado, Emily. – aperto-a forte. – Você é a melhor irmã do mundo!

– Igualmente. Agora, pode me soltar, tenho de ir trabalhar. – continuo apertando-a cada vez mais forte. – Lisa, me solta!

– Nunca!

*****

Deito-me na cama e pego meu lápis e um caderno. Não são muitas das minhas amigas que apreciam isso em mim, mas, como Josh, eu adoro escrever. Uma vez nós eu e Josh tentamos escrever um livro juntos. Cada um escrevia um capítulo, enquanto escutávamos os resmungos do avô dele no andar de baixo. Foi nesse dia que caiu a ficha de que eu gostava de Josh mais do que como amigo.

Por mais que eu ache isso feio, planejo pedir Josh em namoro eu mesma. Depois do modo como ele ficou chocado hoje, parece que ele vai pensar no assunto a noite toda. Missão cumprida. Aliás, não são só os meninos que tem atitude.

O Josh conhece a Lisa Durona. Mas essa é um alter-ego bobão. Eu não sou ela, pelo menos não totalmente. Gosto de ser a Lisa Real, bonita nas melhores roupas. Mas também não me baseio nisso. Gosto de andar de bicicleta com Josh, assim como também gosto de quando ficamos rindo dos macacos no zoológico. Mas a partir de agora quero ser quem sou, não a Lisa Insegura que fica se modelando para ser aceita. Até porque Josh não é um ditador ou algo assim. Ele gosta de mim e vai continuar gostando. Vou ser a Lisa Real e Madura.

– Ei, Lisa! – ouço minha mãe gritando. – Chegou um email para você!

*****

por Josh Daniel

– Alô? – digo, quando meu telefone toca pela manhã do dia seguinte ao encontro.

– Josh, preciso que você venha aqui em casa. Neste. Momento. – ouço a voz de Lisa.

– Ah, Lisa! Mas por quê? Eu to dormindo e...

– Achei uma maneira de vivermos nossos livros.

– Duas coisas: não temos livro nenhum e não entendi.

– Foi exatamente por isso que eu disse para vir aqui. Até logo!

E então Lisa desliga. O que diabos ela quer dizer com “vivermos nossos livros” eu nem imagino. Levanto-me e coloco um moletom, saindo pela janela para despistar meu avô. Acho que não é só Emma a louca por aqui.

*****

Caminho com passos largos até a casa de Lisa, que fica a algumas quadras. Estou absorvido em pensamentos que nem noto um vulto saltar para cima de mim.

– Oi, Josh! – diz Emma, alegre. Droga.

– Ah, oi, Emma. – digo, mas continuo andando. Ela me segue.

– Então, onde está indo?

– A casa de Lisa. Ela pediu que eu fosse rápido, então me desculpe não parar. – digo, pensando freneticamente em ser gentil.

– Ah, a Lisa. – diz Emma, revirando os olhos. Em seguida, ela corre a minha frente, me fazendo parar. Ela se inclina para cada vez mais perto, até estarmos a milímetros um do outro. – Sinceramente, porque prefere aquela bobona ao invés de mim?

– Escute, Emma, eu e Lisa não estamos namorando. – digo, e o brilho nos olhos dela aumenta repentinamente.

– Então nós ainda temos chance?

– Emma. – digo, calmamente. – Desculpe, mas nós nunca tivemos uma. E, desculpe, mas eu não gosto de você assim. Sermos só colegas está muito bom, não? Espero que entenda. Agora tenho que ir. Bom dia!

– B-bom dia... – diz ela, com os olhos vazios. Mesmo quando continuo meu caminho, ela continua no mesmo lugar, olhando para a mesma direção. Meu Deus, Emma tem problemas.

*****

– Alô? – diz Lisa no interfone.

– É o Josh. – respondo. O portão se abre, e eu subo as escadas. A casa de Lisa fica acima da loja de móveis do pai.

– Oi, Josh! – diz Rosaleen, a mãe de Lisa. – Aceita uma fatia de bolo? Acabei de preparar.

– Oi, Senhora Brandon! – dou um abraço de leve nela. – Obrigado, mas estou cheio. E Lisa está... Urgente.

– Lisa, Lisa... Tudo bem. Já vou trabalhar, mas te vejo à noite.

– Josh?! – grita Lisa do seu quarto. Aceno para Rosaleen e vou em direção ao quarto de Lisa, encontrando-a sentada em frente ao computador.

– Oi. – digo.

– Oi, sente-se. – diz ela. Obedeço. – Josh, você não pode acreditar no que eu descobri. Então, nós dois temos o incrível e extraordinário dom de escrever...

– Não se empolgue... – interrompo. Ela continua falando.

–... E escrevemos coisas incríveis também. E você tem de admitir que tem vontade de poder ver e fazer o que escreve, não é?

– Sim, eu acho. – digo. – O que você está tramando?

– Gostaria de apresentar-lhe os sonhos lúcidos! – diz Lisa, animada. Em seguida, começa a ler o texto na tela do PC com voz de locutora de rádio. – “Ter um sonho lúcido é estar consciente de que está sonhando. Isso varia do simples reconhecimento a um momento intuitivamente amplificador. Isso acontece quando uma pessoa está sonhando e, subitamente, percebe esse fato. Um sonho lúcido iniciado externamente acontece quando se passa do estado de consciência diretamente para o onírico, sem lapso aparente em sua consciência. Uma vez que você perceba, terá a habilidade de controlar seus sonhos”. Entendeu?

– Meia parte. – respondo, mas penso melhor. – Não, na verdade não entendi parte nenhuma.

– Basicamente – diz ela, ainda animada, ainda num tom de professora. – O sonho lúcido é quando estamos sonhando e percebemos que estamos sonhando. Quando percebemos, podemos controlar nossos sonhos. Ou seja...

– Poderíamos fazer o que quiséssemos e dane-se o possível ou o impossível. – digo. – Lisa, isso é... Isso é demais! – e realmente era.

A possibilidade de fazer qualquer coisa era... Alucinante. – Poderíamos até mesmo... Voar?

– Qualquer. Coisa.

– Uau! E como provocamos um?

– Não é “provocar” – diz ela, feroz. – Hum, tem vários métodos. Aqui diz que ter sonhos lúcidos é muito difícil, e o método mais fácil é com ondas binaurais. São sons que ouvimos até adormecer, e que induzem os sonhos lúcidos. Mas é pago, e ainda não confirmamos, então vamos pelo segundo método mais fácil.

– E qual é? – pergunto, realmente interessado.

– Durante o dia, em vários momentos, se pergunte se isso é real e se belisque, checando a realidade. Se criar esse hábito, se lembrará de fazer isso no sonho, e aí ficará lúcido.

– Ou seja, nada de sonhos lúcidos hoje?

– Não, Josh. – diz Lisa, com ar de superioridade.

– Agora, quem te falou sobre isso? – pergunto.

– Estava no meu email ontem. Sabe, só eu clico nas propagandas. – diz ela. — Agora, mudando de assunto, eu queria conversar com você sobre uma coisa...

Meu corpo gela e eu fico nervoso. Desde o encontro de ontem, comecei a pensar em Lisa Brandon de outra forma. Não sei por que estou tão nervoso, afinal, isso... eu e Lisa... é mais óbvio do que tudo. E se Lisa chegou a se vestir daquele jeito (acredite, mesmo que Lisa estivesse se casando ela usaria um short), pode ser que ela já sabia daquilo há um bom tempo, e queria me dar um “empurrãozinho”. Em dez estressantes milissegundos, confirmo que estou amando Lisa Brandon.

– Não, Lisa. – digo, reunindo toda a coragem em mim e pegando a mão de Lisa. – Lisa, esse tempo todo acho que nós sabíamos que ia acabar nisso. – Ela dá uma risadinha, assim como eu. – Lisa Brandon... droga, não sei fazer isso. Vou resumir: eu acho que gosto muito de você. – ainda espero uma gargalhada, ou que Lisa me jogue pela janela, mas, ao invés disso, ela se inclina para frente e me dá um beijo. É um beijo curto, superficial, mas significa tudo. Exatamente tudo.

– Josh? – diz Lisa, quando nos afastamos.

– Oi?

– Minha irmã não me obrigou a usar aquela saia.

– Eu sabia.

*****

por Emma Goodwin

Não é justo. Nunca foi. Eu não sou Emma Goodwin, eu sou a garota que corre atrás do Josh Daniel. Sinceramente, eu já tentei esquecer o Josh, eu já tentei várias vezes parar de ser fissurada nesse garoto. Mas é impossível. Nem eu mesma sei o que vi nele. Sim, ele é bonito, mas existem outros melhores em Moony City. Mas há algo nele... Algo especial que eu não sei explicar. Deve ser assim. Parece que não houve um final feliz para mim, mas houve para Lisa e Josh. Eu não sou a garota escritora bonita e legal, sou a garota bonita e fanática e idiota. Eu e Josh temos tanto em comum... Ambos abandonados pelos pais. Ambos amam azul. E eu só vejo perfeição nessa relação dos meus sonhos. Naquele dia anos e anos atrás, enquanto Lisa e Josh brincavam juntos na escola, e eu os observava de longe, como sempre, a paixão me pegou de surpresa. Veio como um ladrão, um ladrão bem-sucedido. E continua sendo.

Eu fui com a minha melhor máscara de alegirs, e talvez bem-vestida demais para o horário em que as pessoas estão acordando. Me olhei no espelho por vários minutos antes de sair, poucos minutos antes havia ouvido a ligação de Lisa para Josh pela escuta que deixei em baixo da cama de Josh, quando me disfarcei de inspetora de saúde para o avô dele enquanto Josh estava fora. Desci as escadas num timer perfeito, e dei o meu melhor sorriso quando surpreendi Josh no caminho. Eu não ia sequestra-lo ou algo assim (a manchete no jornal seria: “garota é internada com graves hematomas depois de assustar garoto desejado”), eu só havia passado horas planejando a melhor conversa para leva-lo a pizzaria comigo. Nada demais. E quando ele me deixou ali, plantada, dizendo “Nós nunca tivemos nada, Emma.”, não houve como evitar. Todo o amor, o puro amor que eu sentia por Josh, foi transformado. Tão rápido como o ladrão amor chegou, ele foi nocauteado em cheio pelo musculoso ladrão ódio. Não dava mais. Se a única maneira de acabar com meus sentimentos por Josh era substituindo-os por outro sentimento – mesmo ódio – assim seria. Cansei de ser patética humilhando a minha imagem e a mim mesma. Não importa o que eu tenha de fazer, não vou mais ser uma personagem secundária na vida de Josh. Serei lembrada – nem que seja pelos meus maus atos.

Eu vou ter minha vingança.

Ouvi sobre os “sonhos lúcidos”, enquanto observava Josh na casa de Lisa do alto de uma árvore próxima, nos momentos que antecederam o beijo. Ouvi também sobre o método rápido, ondas “binaurais”. Caramba, eu escuto bastante.

Deslizo o dedo pela tela do celular até encontrar o site certo. Lisa é boba por achar que é caro. Até eu que não tenho dinheiro posso pagar por uma faixa.

E então eu adormeço as ouvindo.

*****

Notas finais
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