O Belo, e a Fera
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Gina estava tomando café enquanto seus pais a olhavam como se fosse de outro mundo, Juliana era a única que prestava mas a atenção em seu café. Ela sabia que não poderia fugir por muito tempo.
Fia..ocê ta se sentindo mior?– foi sua mãe que perguntou.
Ieu to bem mãe, deixe de preocupação.– Ela falou engolindo um pedaço de bolo, precisava fazer-se bem ocupada para não parecer suspeita, porém os olhos de seu pai ainda estavam sobre ela.
Ocê tem certeza que num viu a cara do desinfeliz? - foi ele a perguntar.
Ara! Ieu já num disse procês tudo que tinha de dizer? Ieu num me alembro, o que eu lembro ieu já contei.– Ela falou engolindo o resto do bolo e tomando o resto de seu café para descer mais rápido. — Agora ieu vou pra lida, ocê num vem pai? - ela tentou parecer totalmente tranquila. Levantou-se pegando seu machado e esperando o pai.
Não fia, ieu tenho que discutir as eleição com o amiguinho Ferdinando– ele disse parecendo que não tinha a minima desconfiança do rapaz, apenas o nome dele a fez tremer. — Hoje ieu num vo pra lida, mas num tem tanto serviço, ocê se vira suzinha num é mermo?– perguntou a fazendo voltar a si.
Mai é claro, entonse eu to indo, bons dias procês. — ela disse virando-se de encontro a porta comemorando mentalmente por o assunto ter encerrado, pelo menos era o que achava.
Gina– foi Juliana a chamar. — Espera, eu vou com você.
Então, você não vai mesmo me contar a verdade?– Juliana disse enquanto saiam da casa.
Ara! Que verdade Juliana, ieu já num contei tudo que tinha pra conta?– ela respondeu tentando desviar os olhos pra não se denunciar.
Gina, eu não sou boba, você não estava desmaiada como fingia estar– ela começou fazendo Gina arregalar os olhos, como ela tinha percebido? — eu não sou tão ingênua pra cair nessa como seus pais. Vamos, me conte a verdade, o que foi que aconteceu?– Ela perguntou fazendo Gina parar.
No mesmo momento, a ruiva pensou se deveria contar tudo a amiga, mas nem Juliana a entenderia, afinal, nem ela mesma se entendia. Ela olhou para baixo e viu que a professora carregava as chaves da escola, pelo menos isso, assim que acordou pela manhã, guardou a chave no meio dos livros da professora, ainda saberia de Ferdinando como ele havia pegado-as, já que a professora parecia não saber de nada.
Ara professora, num aconteceu nada, ieu só num queria que ocês desconfiassem de mim, assim como ocê ta fazendo agora– ela falou fazendo a cara mais inocente que conseguia.
Ninguém desconfiaria de você, se a senhorita contasse a verdade.– a professora falou a olhando para não deixar um resquício de mentira — Vamos Gina, eu sou sua amiga, você sabe que pode confiar em mim.
Gina pensou seriamente em contar tudo, mas a ideia foi embora na mesma rapidez com que veio, não poderia contar nada, nem a professora, eram amigas sim, mas não poderia dividir todos seus segredos com ela. Virou-se novamente para seu caminho até a lida e saiu pisando fundo, dizendo apenas..
Ieu vo pra lida, boa aula professora.– e seguiu o mais depressa possível.
Até Gina– a professora respondeu inconformada, seguindo seu caminho para a escola.
Ferdinando soltava fumaça pelas ventas de raiva, seu pai insistia que Zelão fosse seu "guarda-costas" sua sombra, e que fosse a todos os lugares junto para protege-lo já que ele era o candidato.
Ele não acreditava, ora se tinha cabimento uma coisa dessas, ficar com um marmanjo daquele a tira-colo, o seguindo para todos os lados, agora como faria para conversar a sós com Gina? Precisavam resolver a situação.
Tudo bem meu pai, ieu não vou mais discutir com o senhor, mas me deixe ir de uma vez, tenho que resolver muitas coisas, e amanhã logo cedo vou até a cidade das Antas ter uma prosa com aquele nosso prefeitinho. - dito isso, ele saiu porta a fora, sendo seguido por Zelão, era só o que faltava mesmo. Porém seria mais fácil aceitar de uma vez para não arranjar mais problemas, e também, sabia uma forma de distrair o capanga.
Foram o caminho todo até a venda de seu Giácomo sem conversa, Zelão andava um pouco a trás, o resguardando. Ao chegar a venda, depois de umas doses de cachaça para tomar coragem, Ferdinando resolveu seguir até a casa de seu Pedro, precisava sondar pra saber o que tinha acontecido ontem afinal.
Entonse ieu vo com o sinho, ordens do coronel.– O capanga começou assim que Ferdinando pôs os pés para fora da venda, mais essa, tinha que se livrar dele, mas tinha uma ideia pronta.
Ah não Zelão, nos dois sabemos que será bem mais..proveitoso procê ficar aqui, ocê sabe, daqui a pouco acaba a aula da professora– ele disse apontando com os olhos para a escola.- Acho que a dona Juliana, ia adorar que ocê a acompanhasse até a casa do seu Pedro.– ele terminou vendo os olhos do homem brilharem, sentia compaixão pelo amor do capanga pela professorinha.
Ieu fico, mas o sinhozinho tem que prometer que num vai conta pro coroner, o vo se mandado embora de novo se o seu pai ficar sabendo que ieu num acompanhei o sinho.– Ele dizia preocupado.
Ara! Não se preocupe meu caro, não contarei, agora se assossegue ai e espere pela sua professorinha.– ele falou fazendo graça, arrancando um sorriso daquele bronco. — Depois nos encontramos por lá. Até seu Giáco, Melita.– ele se despediu rumando para a cado dos Falcão, tinha um encontro marcado.
Então seu Pedro é isso, eu vou até as Antas amanhã e gostaria que sua filha me acompanhasse– Ferdinando dizia, a muito aliviado por nenhuma desconfiança de seu Pedro sobre a noite de ontem, via-se que Gina tinha se saído bem.
Óia fio, por mim ocê pode leva, alinhais a dona Juliana tem um cheque, e ieu num sei fazer dessas coisas, ocê podia aproveitá e desconta o tar do cheque pra inhela.– seu Pedro dizia enquanto fumava seu cachimbo tranquilamente. Só estavam os dois ali, Dona Tê estava na cozinha e Gina provavelmente na roça.
Farei com o maior gosto, agora seu Pedro, a Gina demora? quer dizer, ieu preciso saber se ela vai querer me acompanhar não é?– Ele disse levantando-se da cadeira, ao virar-se colidiu em algo, em algo não, em alguém. A ruiva estava ali, e tão perto novamente, mas não estavam sozinhos.
Óia fia, o amiguinho Ferdinando quer sabe se ocê acompanha ele até a cidade das anta amanhã cedo. Ieu já disse o que acho, ocê que decide agora.– Seu Pedro passou por eles indo até a sala, mas ainda ali.
Ara! Faze o que nas anta cocê?– ela disse passando as mãos nervosamente pelos cabelos, não poderia demonstrar pro pai que o motivo de sua aventura ontem estava ali, e não podia derreter-se toda para Ferdinando, durante a manhã toda que estava na lida, chegou a conclusão que aquilo era um erro, não poderia mais acontecer, tinha se arriscado demais e não aconteceria novamente.
Ele vai ter uma prosa com o ex-amigo prefeito, e quer que ocê va junto pra..- seu Pedro parou na explicação — pra que mermo fio?
Apenas pra me fazer companhia seu Pedro, acho que o prefeito ficará mais intimidado com sua filha junto, afinal, ele ainda não deve de ter e esquecido dos tiro que levo dela– ele disse gargalhando.
Ai iai! E num deve mermo, a mãe fico uma fera quando sorbe, mai ieu acho que foi bem feito, aquele um fingiu ser meu amiguinho pra ganhar as eleição.– Seu Pedro disse acompanhando Ferdinando. — Entonse fia, ocê vai?
Ela estava indecisa, adoraria ver a cara do prefeito quando a visse lá, mas ficar uma manhã inteira sozinha com Ferdinando, nunca dava certo quando ficavam sozinhos, já tinha se convencido disso. E no mais, tinha decidido que não ia mais dar brecha alguma pra ele, se fosse junto seria um pretexto, mas não podia negar que estava com vontade.
Ieu não saio daqui até ocê responder Gina - ele disse a tirando do transe, a olhava daquela forma que tirava seu folego — E ieu não aceito não como resposta.– ele terminou com aquele sorriso que parecia fazer com que ela flutuasse.
Ieu..ara! ta bão, ieu vo. — Ela disse finalmente arrancando mais sorrisos ainda dele, sua mãe já estava na sala no momento e dava pulinhos de alegria, ah mas se ela soubesse o que esse "bão moço" como o chamava, tinha feito ontem, ai sim ela queria ver o que a mãe diria.
Juliana estava descendo o morrinho direto para a venda de seu Giácomo, esperava encontrar Zelão por ali, mas ele não estava, sentiu-se estupidamente frustrada, só não entendia o porque, por que se importava tanto com a companhia daquele homem?
Bons dia professora– escutou aquela voz forte vindo por trás de si, não precisava virar-se pra saber de quem se tratava.
Bom dia Zelão– ela respondeu sem ao menos olha-lo — Você veio me acompanhar?– ela perguntou, esperava ansiosa por aquele momento do dia, por mais que não quisesse admitir.
Se a sinhora quinsé, o lhe acompanho– Ele dizia se aproximando, ela podia senti-lo, Zelão era o tipo de homem que não se passava despercebido, e quando chegava perto, ela sentia aquele cheiro cítrico, e ao mesmo tempo tão suave, cheiro de homem pensava ela.
Pois então vamos– ela finalizou esperando que ele viesse para estender-lhe o braço.
Foi o que ele fez, ela passou um dos braços por entre o dele, começando a caminhar em curtos passos. Ele assim tão perto, Juliana não sabia o que sentia ao certo, tinha pena do amor que o capanga dizia sentir por ela, e dizia a si mesma que não era reciproco, mesmo Gina afirmando a ela que era sim.
O cheiro dele foi levado pela leve brisa direto a suas narinas, ela inspirou fechando os olhos para senti-lo, era único, nenhum homem a fazia sentir aquelas sensações como ele fazia, e sem ao menos toca-la.
Ele começou a contar-lhe sobre as aulas com o menino Serelepe, e ela mostrava seu orgulho com o avanço do homem, arrancando sorrisos dele que a faziam perder o ar.
Zelão parecia calcular os mínimos movimentos, apenas para faze-la sentir-se presa, ela queria estar sempre ao lado dele, queria sentir sempre aquele cheiro tipico. Porém era irreal demais admitir qualquer sentimento que não fosse compaixão pelo capanga, não, ela não poderia gostar dele. Não mesmo.
Foi tirada desses pensamentos quando focou novamente na conversa do homem, e o que ele lhe contou, fez com que várias coisas começassem a trabalhar em sua cabeça, será que o que desconfiava era mesmo verdade, não podia acreditar.
Repita o que disse sobre ontem a noite Zelão– ela pediu quando estavam a poucos metros da casa de seu Pedro.
Entonse como lhe disse, ontem de noite ieu tava terminando de escova o quarta-feira, quando ouvi uns baruio, quando ieu fui vê, era o seu Ferdinando, inhele tava entrando na casa, ieu achei estranho causo de que todo mundo já devia de ta durmindo, e ele passeando, agora a sinhora me diz se num é estranho– ele dizia distraído, não fazia ideia do que passava em sua cabeça com aquele informação.
É, realmente muito estranho.– Ela afirmou, chegaram em fim a casa e antes de entrar a professora o olhou novamente, ela subiu três degraus da varanda ficando na mesma altura que ele. — Muito obrigada por me acompanhar Zelão, é sempre bom te-lo comigo.– ela terminou vendo aquele sorriso de canto aparecer no rosto do capanga, ele era naturalmente charmoso, ela não conteve seu ato a seguir.
Zelão sentiu por breves segundos, o que na verdade para ele foram décadas, os lábios da professora acalentar com um beijo seu rosto, ela havia lhe beijado a bochecha, tão delicadamente que parecia um sonho.
Ele não continha as lágrimas que começavam tímidas a escorrer pelo rosto, a cada dia que acompanhava a professora, era o dia mais feliz de sua vida, repetidas e seguidas vezes. E quando menos esperava, ganhou algo como aquilo.
Seu coração parecia querer saltar pela boca, parecia que iria explodir de tanta felicidade, ele tinha cada vez mais certeza que estava conquistando o coração de sua amada. Levantou o chapéu para ela se despedindo, quando depois de vários segundos ela continuava o olhando daquela forma terna, para depois seguir para dentro da casa, o acompanhando com os olhos.
Ferdinando saiu da casa logo em seguida e disse algo que ele realmente não prestou atenção, apenas começou a seguir seu patrãozinho por entre aqueles trilhos, seu coração dava pulos e refletia no sorriso estampado em seu rosto. Aos poucos iria ganhar aquela professorinha.
Logo após o almoço Gina subiu para seu quarto descansar, estava com a cabeça confusa, como faria com sua ida amanhã até as Antas com Ferdinando? Como faria para ficar ao lado dele sem fazer besteira.
A porta do quarto se abriu e era Juliana, ela não podia perder a chance de implicar com a professora.
Entonse já viro namoro é professora?– ela perguntou assim que Juliana sentou perto da janela.
Do que você está falando Gina?– Juliana respondeu sem realmente entender o que a ruiva lhe dizia.
Ara! Ocê acha que ieu so besta é? Ieu vi pela janela o beijo que ocê deu no Zelão, ara mai ieu sabia que aquele doutozinho não ganhava do Zelão - Gina dizia aos risos — Quero só vê quando ele fica sabendo que o Zelão te acompanhou de novo aqui pra casa, vamo vê se ele vai repia carrera dessa veiz.– ela terminou zombando. Mas Juliana não deixaria barato, sabia exatamente o que fazer.
Ora Gina, não sou eu que estou fazendo alguém de bobo não, ao contrário de você minha amiga, que está fazendo de 'besta' como diz, seu pai, sua mãe.– A professora viu que Gina tinha um semblante preocupada, claro, havia sido descoberta. — Porém, a mim a senhorita não faz. O Zelão me contou que o nosso amigo Ferdinando, chegou ontem tarde da noite, sabe o que eu achei estranho?– ela dizia caminhando pelo quarto — Foi que você também, não é uma bela coincidência?
Ara! Ieu num to gostando dessa conversa, donde a professora ta quereno chegar?– Gina disse levantando-se e indo até a janela. Tinha sido pega, sabia disso.
Você que tem que me dizer Gina, você estava com o Ferdinando ontem a noite?
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