O Belo, e a Fera
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O que fazemos agora? — foi a única coisa que soube dizer.
Gina estava colocando apressada a parte de cima de sua roupa, enquanto olhava tentando enxergar algo pela pequena janelinha da escola, olhou para trás e Ferdinando já estava pronto, ele parecia armar algum tipo de plano, mas para ela era simples, sabia o que devia fazer. Os gritos de seu pai estavam acompanhando, mais alto que os dele eram os de sua mão e dona Juliana, as duas pareciam chorosas, imaginou o tamanho da encrenca que arranjaria se encontrassem os dois ali, certamente haveria morte.
Ocê pula pela janela do quarto da professora, e ieu vo sai e fingir que fui atacada– ela disse a ele procurando algo na mesa da escola. — Cadê a chave?
Gina, ocê acha que teu pai vai engolir essa?– ele dizia preocupado entregando as chaves que estavam penduradas em seu bolso.
Ieu num sei, mai nóis tem que tenta, vai, vai de uma veiz que parece que eles tão perto.– ela pegou as chaves e já estava a ponto de abrir a porta quando sentiu as mãos de Ferdinando enlaçando sua cintura, as mãos dele puxaram seu cabelo para o lado para que pudesse sussurrar em seu ouvido, arrancando dela um suspiro.
Amanhã ieu vou lhe ver, durma bem minha fera.– ele terminou antes que ela pudesse responder, ouviu o barulho de algo colidir com o mato do lado de fora, e soube que ele se fora, agora era a vez dela pensar em algo.
Abriu a porta da escola tentando enxergar naquele escuro algo que a fizesse continuar, não havia ninguém ali, apesar de os gritos já estarem bem próximos, eles ainda não estava perto da escola, ela saiu pisando devagar para seus passos não a denunciarem, olhou por detrás de uma árvore morro a baixo, e viu a movimentação, a poucos metros dali.
Lá estavam eles, seu pai parecia dizer algo a Juliana, ela estava nervosa, viu que ela segurava algo nas mãos, o nervoso da moça não era apenas por ela, deduziu na hora que se o que estava na mão de Juliana era uma arma, certamente foi ela que atirou, agradeceu aos céus por uma amiga tão atrapalhada.
Ainda estava pensando no que fazer, não tinha como contornar o lugar para o caminho de sua casa sem ser vista, teria que agir, e o mais rápido possível pois agora eles estavam vindo em direção a escola, era seu fim.
Seus pais jamais poderiam imaginar o que tinha acontecido, não sabia como explicar o porque de estar a esta hora fora de casa, sabia menos ainda explicar o porque de ter deixado sua arma pra trás, só lembrou-se disso ao vê-la nas mãos de seu pai.
Eles estavam a poucos passos, quase em frente a escola, a única coisa que impedia que eles a vessem era a árvore, não tinha mais nada que pudesse fazer, foi de improviso que se fez tropeçar nos próprios pés, caindo ao chão num desmaio descaradamente falso, porém seus pais a encontrariam e teria um tempo a mais para inventar uma história.
Paaaaaaai, olha ali pai, num eé a nossa fia ali no chão?– Dona Tê passou seu Pedro indo em direção ao corpo de Gina que estava estendido ao chão.
Meu Deus, ela está bem?– Juliana se abaixava logo ao lado da mulher.
Parece que inhela ta desmaiada pai, o que aconteceu com a nossa fia!– ela olhava para o corpo de Gina, não continha mais as lágrimas agora.
Gina estava ouvindo tudo, sentia-se culpada por fazer a mãe pensar que ela era vítima, mas não tinha escolha. Sentiu ser suspensa deixando o chão quando seu pai a pegou no colo.
Vamo, vamo simborá, ieu vo leva a nossa fia e dispois eu chamo o douto Renato pra ve o que inhela tem.– Seu Pedro disse descendo o morro com a filha 'desacordado' nos braços.
Eu posso ir chama-lo seu Pedro, é o minimo que posso fazer.– Juliana dizia agora não contendo mais as lágrimas.
Não fia, ocê num vai andar por ai suzinha, vamo pra casa e despois eu acho o douto se a nossa fia num acordar, ocê sabe como essa aqui é forte.– ele dizia de costas pra elas, andando a frente, e parecia a todo custo tentar controlar as lágrimas, amava a filha mais que tudo, mesmo que tentasse ser durão para não deixar as outras desesperadas.
Gina sentiu finalmente o conforto de sua cama, havia sido colocada ali por seu pai, que agora estava sentado ao lado de dona Juliana na cama ao lado, estava com os olhos fechados mas escutava os dois sussurrarem algo.
Ouviu o barulho de passos na escada, e sua mão já estava ali, ela sentou-se ao seus pés na cama, ela decidiu que era o momento de "despertar", já sabia o que dizer. Começou a abrir os olhos devagar, para que parecesse acordar de um longo sono. Todos voltaram a atenção para ela, sabia que seria bombardeada de perguntas, mas estava pronta.
Fiaaaaa, ocordo. — Dona Tê a puxou para um abraço assim que ela sentou-se a cama. — Óia, toma um leitinho morno que eu trouxe procê, ocê vai ficar mió.– A mão disse passando para ela uma caneca de leite, não podia reclamar, estava faminta. Deu seu primeiro gole quando foi a vez de seu pai começar a falar, diferentemente de Juliana que se mantinha calada, apenas observando-a.
O que foi que aconteceu fia? Conte pra nóis o que ocê tava fazendo caída lá no chão da escola, como ocê foi para lá?– Seu pai parecia agora mais bravo do que preocupado como sentiu da primeira vez.
Ieu num lembro direito pai, só me alembro mermo de ter visto arguém pela janela, ai entonse eu desci levando a arma.– todos prestavam atenção, ela tinha medo que eles percebessem o tamanho de sua mentira. — Ai a despois eu só me alembro de arguém que arrastando pra longe da casa, e só. Agora ieu acordei aqui, só sei disso.– Ela terminou torcendo para que engolissem sua história.
Viu, eu disse que tinha algo que ela viu pela janela, eu disse.– Juliana parecia ter chegado a conclusão e estava radiante com a constatação dos fatos, parou rapidamente assim que recebeu um olhar reprovador de seu Pedro.
Entonse ocê um viu a cara do sujeito?– O pai dizia levantando-se da cama, coçava a barba enquanto caminhava de um lado para o outro dentro do pequeno quarto. Parecia tentar se convencer da história, e Gina torcia para que fosse convincente o bastante.
Não pai, ieu num lembro de te visto a cada de nenhum arguém, só me alembro disso que eu lhe contei e só.– Ela disse fingindo um bocejo, precisava se livrar daquelas perguntas por hora, caso contrário iria perder-se na própria mentira. — Agora será que ocês podiam dar licença? — Ela dizia deitando-se a cama. — Ieu to muito cansada, parece que uma boiada passo em cima deu. Ieu quero durmi e tenho certeza que a professora também, num é professora.– Ela disse olhando Juliana com um olhar que a fez entender tudo.
Ah sim, estou muito cansada também seu Pedro, gostaria de poder dormir agora, e a Gina precisa descansar do susto, não é mesmo Gina?– ela improvisou para depois fazer a pergunta ao que ela respondeu com um aceno, Juliana não era boba, ela desconfiava de algo.
Ta bão, a bão, nóis vai deixa ocês durmi– O pai disse parando a porta. — Mai amanhã, amanhã ocê vai me conta essa história direitinho.– Ele deu um ultimo olhar no quarto, parecia desconfiado mas preocupado ao mesmo tempo, já que verificava novamente se a janela estava bem fechada.
Ocês durmam com Deus– Dona Tê disse para as duas, ela parecia ser a única a não desconfiar de nada. — E ocês gritam causo qualquer coisa aconteça ta bão?– ela estava visivelmente preocupada — Fica com Deus fia.– ela disse para Gina, antes que fosse puxada de uma vez por seu Pedro para fora do quarto. Saiu fechando a porta, e de repente o silêncio estava lá, teria agora que se livrar de Juliana.
A senhorita pode enganar seus pais, mas não a mim.– A professora começou desfazendo-se da cara de sono que armou para despistar os pais de Gina. — Vamos, me conte o que aconteceu.
Ara Juliana, ieu num to enganando nenhum arguém não sô, o que aconteceu foi aquilo que ieu contei procês– Ela viu que Juliana cerrava os olhos num gesto de total desconfiança, mas não adiantaria, ela não iria contar nada, nem poderia. — E agora ieu vo durmi, causo de que ieu to que num aguento mai com os óio aberto, ocê devia fazer o mesmo professora. Boa noite.– ela terminou de dizer virando-se de costas para a professora e enfiando a cabeça no travesseiro, sabia que amanhã seria um dia longo, seu pai iria querer explicações mais plausíveis, e Juliana acabaria lhe arrancando a verdade, ela sabia.
Agora precisava descansar, só não sabia como já que seus pensamentos não saiam de um certo moço dos olhos azuis, aquele que quase a fez cometer um desatino. Ferdinando era sua perdição, não tinha o que ver, estar perto dele fazia com que todas as partes de seu corpo o desejasse de forma tão ardente que parecia pegar fogo.
As lembranças de pouco tempo atrás invadiram sua mente, tudo estava vivo novamente, os beijos, os toques, o enroscar das pernas, o roças de seus sexos um contra o outro, os suspiros tão altos devido ao lugar vazio, tudo parecia voltar diretamente a ela, fazendo com que praticamente sentisse, e logo ali estava as sensações, todo se resumia em arrepios que percorriam todo seu corpo, assim como as mãos de Ferdinando tinham feito. Ela não conteve um sorriso ao lembrar dos momentos. O queria tanto, e não estava mais conseguindo esconder. Foi assim que finalmente pegou no sono.
Ferdinando entrou em seu quarto jogando-se a cama, ninguém tinha o visto, pelo menos era o que achava. Ele fechou os olhos, não conteve uma risada ao lembrar da maneira que Gina tinha se livrado da história.
Ela não sabia, porém ele estava lá o tempo todo, escondendo-se na parede lateral da escola, logo atrás dela, vigiando-a para que nada de mal lhe acontecesse, só foi embora depois que seu Pedro Falcão já carregava a filha nos braços em direção a casa. Ela era mesmo uma maluca. Teve que levar as mãos a boca para não rir alto e acordar os que dormiam.
Tirou os sapatos e o casaco, estava muito cansado para colocar roupa para dormir, resolveu ficar daquela forma mesmo, deitou-se em baixo das cobertas tentando dormir, sabia que amanhã seria um dia longo, se Gina não conseguisse sair daquela situação sozinha, ele teria de dar suas explicações, tremeu a imaginar o que seu Pedro faria se soubesse o que realmente aconteceu.
O temor foi substituído pela lembrança do cheiro da ruiva, ela estava lá, entregue a ele, e sabe lá Deus o que teria acontecido se não tivessem sido interrompidos.
Passou a língua pelos lábios e podia jurar que sentia ainda em sua boca o gosto dela, podia sentir as pequenas mãos da ruiva passeando sem medo por seus braços, sorriu com a lembrança da visão de Gina sem a parte de cima da roupa, ela era tão linda, de arrancar suspiros, aqueles que ele havia deixado ecoar naquela escola. Seu corpo todo agora se agitava com as lembranças.
O que estava acontecendo com ele? Será que estava realmente apaixonado como sua amiga Juliana insistia em dizer-lhe em suas muitas conversas. Ele não lembrava-se de alguma vez sentir por alguém o que sentia quando estava com Gina, mas..será que era amor? Seu semblante ficou sério de repente, era visível para todos como eles eram completamente opostos, e como seu pai costumava a dizer "Dois bicudos não se bicam".
Gina era genuinamente uma força da natureza, mais geniosa que ela não havia, porém ele também não era fácil, por isso de tantas brigas. Mas será? será que seu coração havia lhe pregado uma peça e ele estava apaixonado? Deus, revirou-se na cama só de pensar o quão perdido estaria se isso fosse verdade. Mas agora não poderia pensar nisso, tinha que dormir para logo cedo ir até a casa dos Falcão, iria arranjar uma desculpa e fazer-se de desentendido, afinal tinha certeza que Gina não falaria nada.
Por hora, resolveu tirar os pensamentos ruins da cabeça, guardando apenas a visão da ruiva em seu pensamento, antes de pegar no sono profundo.
Fale com o autor