O Bardo
1 Prólogo
Notas iniciais
– Em breve eu irei voltar. – Ele disse olhando nos olhos da morena chorosa.
– Promete? – Ela duvidou com a voz fraca que procede ao choro.
– Eu lhe prometo. – Ele respondeu com a certeza de um homem que sabe o que diz e sorriu um sorriso que dá segurança ao que diz. Abraçou-a e lhe deu um beijo de despedida.
Voltemos cinco dias atrás, para entender melhor essa despedida, num reino chamado Cimério e em sua capital Káden. Cimério, o maior dos reinos a governar em Austera, sua cavalaria era conhecida por ser a melhor de todo o continente. Porém, alguns eventos estranhos aconteceram naquele dia.
Uma comitiva de trinta homens da cavalaria de Cimério foi a uma investigação no caso de uma fenda aberta em Ghör, terras lideradas pelo reino élfico à oeste de Cimério, terras vizinhas. Porém, da poderosa comitiva, apenas um cavaleiro voltou para contar história. O coronel Porthus Cordivan chegou montado em seu corcel negro, a armadura de Cimério com o emblema de verde e prateado com um dragão de prata desenhado estava incompleta, restando apenas a parte do tronco e as caneleiras. O rosto sujo apresentava uma expressão de pavor e não se dirigiu a ninguém até chegar ao enorme paço onde se encontrava o Rei Alonso Baxter. Não posso lhes dizer o que foi informado à família real, pois não fui informado disso. Enfim, o que posso lhes dizer foi a segunda coisa estranha daquele dia: Lá pelas quatro horas da tarde, na grande praça de Káden foi colocado um grande aviso. Rei Alonso Baxter estaria recrutando aventureiros para a missão que sua competente cavalaria falhara.
Aí está a situação mais estranha. Por que não mandar os cavaleiros competentes, ao invés de mandar aventureiros e moradores do reino que mal eram treinados para tais missões? Bom, vou tentar lhe explicar um pouco. Imagine que seu reino é o reino conhecido por ter a melhor cavalaria de toda Austera, cavalaria essa que é capaz de afugentar exércitos inimigos apenas com a sua aparição. Agora imagine essa cavalaria ser totalmente dizimada e, da missão que lhes foi dada, voltar só o velho e gordo coronel Porthus Cordivan com uma expressão que qualquer um notaria o pavor de um humano que pra sempre ficará marcado. O que Rei Baxter pensou foi o seguinte: se minha imponente cavalaria for novamente, só irei perder homens à toa e não seremos mais um reino temido por Austera. Então resolveu recrutar aventureiros como espécie de “cobaias” para tal missão. Você não faria o mesmo?
Agora iremos voltar à história linear.
Durante quatro dias, Rei Baxter recrutou aventureiros, mas não parecia ter a quantidade suficiente ainda. Foi então que um grupo, após o quinto dia do acontecido, bateu na porta de uma humilde casa na capital Káden.
– Quem ousa me acordar às dez da manhã? – Quem abriu a porta foi um homem, jovem até, de altura mediana e cara de sono. O cabelo bagunçado e o rosto sonolento mostravam que se não fosse por um bom motivo, pessoas ali sentiriam a raiva de um homem de mau humor.
– Bom dia, Arken! Achei que já estaria acordado a essa hora da manhã. – Sorriu outro homem, o que batera na porta. Era jovem também e vestia-se um pouco melhor do que o dono da casa, principalmente pelo fato do dono da casa ter acabado de acordar.
– Por que diabos um bardo acordaria às dez horas quando se tem uma cama confortável e uma esposa maravilhosa. Que, aliás, está me esperando enquanto estou aqui te encarando, Petter. Diga logo o que quer! – Percebia-se o mau humor reinando ali. Porém Petter se divertiu com aquilo.
– Ora, um bardo que já viveu tantas coisas pra contar histórias deveria se juntar ao seu grupo para mais uma não? – Tentou Petter ainda com um sorriso.
– Há tantos outros bardos que não tem nada pra fazer. Mas sabe? Eu tenho. E quero ir dormir logo se me permitir. – Arken iria fechar a porta na cara de Petter e seu grupo. – Tenham um bom dia, Petter.
A mão de Petter parou a ação.
– Mas nenhum deles tem tanto conhecimento quanto você, Arken.
– Todos os bardos possuem muito conhecimento ou dizem possuir...
– Nenhum outro sabe falar sete idiomas...
– Não vai precisar de alguém que saiba.
– Não sabemos o que vai nos esperar lá na frente. – E dessa vez Petter empurrou um pouco a porta e encarando o bardo disse firme: — Vai mesmo deixar seu grupo na mão?
– Não se deve confiar totalmente em um bardo. – Dessa vez, Arken virou as costas e fechou a porta. E Petter parou de sorrir e passou a pensar por segundos.
– Pago seis mil tokiens mais um sétimo do que o rei vai nos pagar... Se voltarmos. – E Petter viu mais uma vez a porta ser aberta e abriu novamente o sorriso. Havia chances de ter conquistado mais um membro pro grupo. Ouviu algo como “maldito”.
Tokiens é a moeda corrente de Austera. Pra se ter uma idéia, uma casa de tijolos custa em torno de três mil tokiens. Então já deu pra perceber porque um bardo que morava numa casinha humilde de madeira imediatamente abriu a porta ao ouvir que ganharia mais de seis mil tokiens se voltassem vivos.
– Quero três mil pra deixar com Helena, ou nada feito. – Disse o bardo deixando o grupo que estava com Petter entrar, menos Petter.
– Por que não? – O exorcista tirou uma saca média de moedas e jogou ao amigo difícil de ser persuadido. – Satisfeito? – Então entrou no aposento.
Arken verificou a saca e conferiu o valor. Quando se deu conta de que estava tudo certo voltou a virar-se a todos que estavam em sua sala. Fechou a porta e andou até seu quarto em silêncio. Ninguém nada falou e se mantiveram ali mesmo, esperando.
Agora podemos voltar àquele começo no qual não faria sentido sem um contexto, não é mesmo? Então vamos voltar assim que você quiser. Está pronto? Vamos então...
– Em breve eu irei voltar. – Ele disse olhando nos olhos da morena chorosa.
– Promete? – Ela duvidou com a voz fraca que procede ao choro.
– Eu lhe prometo. – Ele respondeu com a certeza de um homem que sabe o que diz e sorriu um sorriso que dá segurança ao que diz. Abraçou-a e lhe deu um beijo de despedida.
Abraçada a ele, Helena virou o rosto e pôs-se a chorar. Chorou, chorou, chorou. E chorou. A cada momento, Arken, passava a sentir culpa de ter que deixar Helena sozinha novamente, fazia tempo que isso não acontecia e estava feliz. Porém precisava do dinheiro para melhorar um pouquinho a vida humilde deles. O bardo percebeu que ela queria dizer algo mais a ele, mas ela não disse. Arken ficaria sem saber de uma informação importante. Se ele ao menos soubesse, mudaria de ideia sobre ir à viagem.
Fale com o autor