O Barco

20 Zamiel


Notas iniciais
Ponto de vista: Adel

O sujeito que estava diante de mim, em pé sobre uma rocha num declive próximo de onde eu estava, tinha cabelos num tom incomum azulado, lisos e compridos. Era mais velho que eu, talvez já tivesse uns trinta anos ou mais, e, apesar de ter estatura normal, lembrava um gnomo pelas roupas e capuz meio amarelados. Os olhos eram vermelhos como o de uma besta e, preso a ambos os braços, tinha uma espécie de arco que servia para disparar aquelas pequenas flechas negras, como as que trazia numa aljava junto ao corpo.

Parecia mesmo ser alguém perigoso, mas nunca tive medo de cara feia.

— Caçador Zamiel?... — repeti.

Ele sorriu como um louco:

— Isso! E quer saber? Já estava ficando monótono sempre jogar Gato & Rato com essas almas errantes, por isso gosto de atrair caças mais frescas sempre que há oportunidade... recém-chegados do outro mundo ainda mantêm as cores vívidas que dão muito mais prazer à caçada... será que você concorda?

Só então percebi que, atrás de onde ele estava, presa junto a uma árvore, havia uma espécie de jaula com alguém dentro. Uma garota, apavorada, tremia muito enquanto me encarava com grandes olhos. Seu braço esquerdo sangrava.

— Você... o que fez com ela?!

Mas ele, na mesma hora, ergueu a mão para mim, elevando também o tom da voz:

— Ooooopa, não venha dar uma de bom samaritano; o simples fato de ter vindo parar nesse mundo já implica que não possui uma mente tão pura assim...

O sarcasmo acentuado em cada palavra daquele sujeito já tava me tirando do sério.

— Onde está o Irwin?! Responda!

— Se fala do seu coleguinha carrancudo, não faço ideia — e começou a coçar a cabeça como se se sentisse confuso. — Eu até estava me divertindo caçando-o, mas alguma coisa estranha aconteceu e minhas flechas perderam seu foco... ahhh... lastimável, mas ok, ainda tenho VOCÊ!

Menos de um segundo depois, apontou para mim e disparou uma flecha do arco preso em seu antebraço direito. Consegui me esquivar, mas, ao ouvi-la sibilando próxima ao meu ouvido, tive a impressão que escapei por sorte, de novo.

Zamiel gostou disso:

— Ohh, bons reflexos... é disso que eu estava falando! Um conselho: não se deixe atingir. Me deixe entretido por mais tempo!

Mais flechas. Sem outra opção, corria numa direção qualquer para evitá-las. Odiei aquilo. Aquele desgraçado estava se divertindo às minhas custas. Queria fazê-lo pagar, mas não sabia como, já que não dava pra alcançá-lo ali no alto. Mas deveria haver algum jeito de ao menos tirar a garota dali... e Irwin... se o maldito parasse com essa mania de sumir por conta própria, talvez a situação estivesse menos complicada.

— AH!!

Tropecei e caí. As flechas não tinham me acertado, mas me desequilibrei ao tentar desviar de duas que vieram pelo outro lado. Zamiel agora tinha no rosto um misto de alegria com decepção.

— Já?... até que aguentou bastante, mas, por ser o Barqueiro, pensei que teria um desafio maior... se bem que já foi burrice suficiente ter sido tão facilmente atraído para uma Morphia.

— Morphia?

Ele riu mais ainda:

— Você não sabe nem isso?! Por toda Lucidia, existem locais especiais que criam um vínculo surreal com o mundo físico através das lembranças dos desavisados que por ali passarem... esta ilha é um deles, por isso a escolhi para minhas novas caçadas. Muito mais divertido caçar idiotas que estão presos em ilusões da própria mente, não acha?

Diante do meu silêncio, ele continuou:

— Só queria saber como você conseguiu sair de Morphia por conta própria. Mesmo o Barqueiro não deveria ser uma exceção... que seja!

— ARGH! O-o que...?

Ele começou a olhar fixamente pra mim. Seus olhos brilharam com um vermelho mais intenso ainda, e me senti paralisado.

— É assim que o verme se sente prestes a ser capturado pela ave de rapina. Agradável, não?

— PARE DE IMITAR ESSA VOZ, DESGRAÇADO!

Às vezes, ele se dirigia a mim usando a voz do meu irmão. Isso só aumentava a raiva que sentia... não sei se dele, ou de mim mesmo por ter caído nessa.

— Ah... desculpe — Zamiel voltou a rir. — Força do hábito. Eu costumo atrair e entorpecer a presa com coisas apropriadas pra isso. E nada mais apropriado pra você ser alvejado por mim graças à voz da única grande autoridade que conhece.

— Cala essa maldita boca!

— Hã?!

Consegui, de alguma forma, me livrar do aprisionamento hipnótico dele graças a um surto súbito de raiva. Aquele palhaço já estava merecendo levar mais que umas simples porradas, mas eu não podia ser tão irracional. No meu estado, seria alvo fácil e também tinha que me preocupar com a menina. O pior é que Zamiel não abria uma deixa pra que eu chegasse até ela.

Mesmo assim, não sei se conseguiria fazer algo por ela. O cansaço de ficar correndo de um lado pro outro durante a ilusão só aumentou a dor que eu sentia.

— Não consegue se mover? Não se preocupe — ele debochou, voltando a apontar a arma para mim. — Você logo poderá descansar, e por muito tempo...

— Droga!...

— Que decepção, Barqueiro...

— Que decepção mesmo! — falou alguém mais, interrompendo Zamiel quando ia atirar.

— Irwin!

Ele vinha pelo outro lado da colina, e o mais estranho é que estava acompanhado do garoto do bote, que tinha nos levado para aquela armadilha.

— Irmã! — bastou o pilantrinha dizer isso para a garota na jaula para que eu compreendesse melhor o que estava acontecendo.

— Vai deixar que zombem de você? — Irwin continuou. — Lutou contra a correnteza desse mar demoníaco e se levantou depois, então se levante de novo!

— Como se isso fosse possível! — ironizou o caçador. — Pelo estado lamentável desse rapaz, isso seria absurdo.

— É possível — Irwin voltou a dizer em voz mais baixa, olhando para mim e fazendo um gesto de afirmação com a cabeça.

Eu não disse nada. Naquele momento, ele tinha agido como os outros dois... meus grandes amigos... Lucy... sim, ela também gostava de dizer que as coisas eram possíveis e que podiam se realizar quando eu quisesse, mesmo eu discordando em silêncio depois.

— Sim. Eu lembro...

— Mas como?! — indagou Zamiel, agora surpreso.

Eu tinha me levantado.

Notas finais
Nota: a ordem de quem narrará cada capítulo será aleatória de agora em diante.