O Barco
21 Imperatriz
Notas iniciais
— É mesmo a presa mais insistente que já tive, voltando a ficar de pé — disse Zamiel, achando graça da situação.
— Uma pena, mas não ou cair, miserável — respondeu Adel. — ... pelo menos não enquanto tiver coisas a fazer, como acabar com lixos como você!
— Vejamos quanto tempo fica com essa língua afiada!
Desafiando-o, Adel inesperadamente começou a rir para depois correr para trás, na direção da luz do farol, em linha reta:
— Se é assim, por que não tenta me acertar com essa flecha patética?!
— Suicídio... — ironizou o caçador, preparando o ataque.
Eu também pensei assim:
— Adel!
Mas tudo pareceu mudar de figura quando ele olhou para mim, sem parar de correr, indicando a jaula. Acho que entendi seu plano.
— Vamos — sussurrei pro garoto ao meu lado.
— Adeus, amigo...
Zamiel atirou, e foi como se apertasse um gatilho para o plano de Adel dar certo. Passando pela luz, ele desviou da flecha saltando para o lado. Zamiel praguejou, mas antes que pudesse lançar uma nova, algo o alvejou.
— Ah...o...o quê...?...
Suas costas sangravam. A mesma flecha, vindo pelo outro lado, devido ao efeito da ilusão da Morphia, o acertou com a guarda baixa.
— A maldita ilusão... — grunhiu o caçador.
Ele ainda tentou levantar o braço de novo, aproveitando que Adel, exausto, voltou a ofegar, ajoelhando-se, mas já era tarde para Zamiel.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!
O caçador foi lançado brutalmente colina abaixo, rumo ao oceano, atingido pela jaula, agora vazia, que o menino e eu empurramos depois de libertar a garota.
Adel, que tinha desviado o olhar para o chão, pareceu confuso, depois, quando me viu à sua frente.
— ... Irwin?
— Anda, vamos sair daqui.
Estávamos agora de volta ao barco, já em alto mar. Os dois irmãos nos acompanhavam pelo seu bote. A garota estava ferida no braço e Adel ainda não estava totalmente recuperado, o que aumentava minha ansiedade.
— Quando ainda falta até a próxima ilha? — perguntei ao menino.
— Não é ilha, e sim o continente. Dessa vez, é o verdadeiro.
— Então já estamos tão perto assim?
Não foi preciso ouvir outra confirmação. Dentro de segundos, ele apareceu à nossa frente. O palácio da imperatriz no continente. Sim, agora era real. Era real, porque até a neblina estava se dissipando pela primeira vez desde que chegamos em Lucidia. O céu nublado e sem vida nunca tinha parecido tão nítido. Era o Arquipélago do Nevoeiro que ficava para trás.
O palácio conseguia ser ainda maior que na ilusão da ilha Morphia, mas nenhuma de suas torres emitia luz. Na costa, uma pequena multidão, uma parte dela composta por homens trajando armaduras prateadas, acenava para nós.
Mas tinha algo errado... era como se houvesse algo mais que me incomodasse. Eu deveria estar aliviado por ter chegado aonde queria, mas...
Virei para Adel. Ele estava mesmo muito cansado. Sequer tinha levantado o rosto para acompanhar a gritaria direcionada a nós. Até então estive preocupado com o que eu faria a partir daquele momento... mas e ele? Ficará realmente viajando por esse mundo tão surreal em busca de algo mais surreal ainda? Isso não estava me deixando muito bem.
— Adel, eu...
Não concluí a fala. Nem sabia direito o que eu tinha tentado dizer. Em vez disso, sacudi novamente a cabeça, dizendo a mim mesmo que não me interessava o que aconteceria com ele de agora em diante. Não, eu não tinha nada a ver com isso!
— ...falou comigo, Irwin?...
— Nada... era só pra você ver aquilo. Todos estão esperando por nós no continente. Você conseguiu.
— Legal — ele lançou um olhar abatido para o palácio, esforçando-se para sorrir. — ... então, já podemos nos separar, né?
— É... já podemos — murmurei, voltando a me sentir incomodado.
" Por que tenho que me sentir tão mal? Inferno... o que está acontecendo, agora?!"
Foi um tumulto sem igual quando descemos. Os caras de armadura, que mais pareciam guardas, lutavam para conter a população que tentava saltar sobre nós, como se fôssemos, respectivamente, celebridades, seus seguranças e seus fãs.
Quatro deles vieram até nós.
Eu ia pedir pra que ajudassem Adel, mas eles próprios perceberam que a situação dele e da garota não era das melhores. Dois dos guardas abriram caminho entre as pessoas levando a garota na direção do que devia ser uma cidade. Seu irmão menor a acompanhou. Os outros dois auxiliaram Adel e pediram para que nós os acompanhássemos ao palácio.
— Eu vou ficar por aqui mesmo — falei. — Por favor, cuidem do Adel porque ele não está bem. Nadou por muito tempo nesse oceano feito sei lá do quê e ainda teve que encarar um louco numa ilha Morpha.
— Não se preocupe — respondeu um deles. — Porém, Sr. Irwin, a imperatriz Lucidia faz questão de sua presença no palácio, onde um banquete foi preparado para celebrar a chegada dos dois até aqui.
"Inferno..."
Por mais fome que estivesse sentindo, não me agradava em nada almoços coletivos. Pus-me a pensar numa maneira apropriada de recusar sem parecer grosseiro.
— Por favor, Sr. Irwin — insistiu o outro guarda.
Olhei rapidamente para Adel, que fez um breve gesto de afirmação com a cabeça e concordei, suspirando.
— Certo...
O palácio era impressionante por dentro, com salões amplos, brilhantes, decorados com castiçais de todos os tamanhos, obras de arte, esculturas brancas, carpetes e outros artigos luxuosos. Fomos levados para uma sala de jantar tão larga quanto as anteriores. Continuava preocupado com a expressão abatida no rosto daquele meu companheiro temporário de viagem. Voltei a desejar que essa pessoa que governava aquele mundo estranho pudesse ajudá-lo de agora em diante.
"Tente esquecer isso!" ...voltava a ordenar para mim mesmo.
Mas não esqueci:
— Lembre-se de perguntar à imperatriz tudo que possa te ajudar na viagem a partir de agora. Não vá esquecer de nada, cara.
— Vou me lembrar... — ele disse tentando rir de novo. — Valeu pela preocupação.
—Humf...
Estávamos sentados um de frente para o outro, quando, pouco antes do banquete ser servido, alguém juntou-se a nós.
— Vossa Majestade, a imperatriz — anunciou outro sujeito de armadura.
A mulher dita como grande governante daquela nova terra, vestida duma forma simples, com um longo vestido branco feito de seda e algumas poucas joias pelo corpo, sentou-se na cadeira vazia ao nosso lado, na ponta da mesa.
— Os dois bravos Barqueiros — pronunciou, enquanto levantava, com calma, o véu que cobria a parte superior de seu rosto, como na imagem gravada nas cédulas daquele mundo.
Algo estranho havia acontecido antes, quando falou conosco. Notei que Adel franziu o rosto e a encarou com mais curiosidade. Essa curiosidade se converteu numa incomum cara de espanto que até então nunca tinha visto nele.
— Eu sou Lucidia — disse a mulher, agora com seu rosto descoberto, mostrando-se mais jovem e bela do que o esperado.
— L-lucy... — foi tudo que ele conseguiu murmurar.
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