O Barco
1 Tudo de Novo
Notas iniciais
A chuva continuava a cair lá fora... sem nem mesmo dar prévia de seu fim...
Eu dormia profundamente graças a uma pequena dose de um dos meus remédios. Os médicos receitavam remédios e mais remédios, tanto para mim quanto para a mulher do quarto acima... minha mãe... Os médicos acreditam que jamais recuperaríamos a nossa antiga vida.
A vida normal... aquela feita para qualquer pessoa... independente de como ela foi vivida e de quais foram as nossas escolhas.
O brilho dos raios adentrava pela janela e refletia no espelho perto da porta, fazendo-o brilhar ainda mais, até que eu comecei a suar e tudo começou a ficar quente... como eu estava dormindo, não havia como eu descobrir o porquê disso acontecer...
Mas eu estava certo de que aquilo não era normal. Era, novamente, uma peça de minha mente... um pesadelo sem fim... o mesmo pesadelo que tive há quatro anos atrás, no entanto, nesse dia, tudo foi real!
Eu ainda dormia, agonizando dentro daquele pesadelo, aquela forma distorcida de imaginar, contorcendo meu corpo, pedindo para sair...
Eu queria acordar! O remédio dessa vez fez um efeito prolongado, eu não esperava por isso, dormir, mas querer acordar...
Aquele sonho, digo, aquele pesadelo... de novo... me atormentava... Até que, subitamente, sem me segurar, acordei, jogando meu corpo para cima,
Sentando e, sem demora, eu já estava consciente de que estive, mais uma vez, preso em minhas memórias.
Lembranças que foram feitas para serem esquecidas... Mas eu sabia que não as esqueceria... eu sempre soube disso. Naquele momento, cai novamente com a cabeça no travesseiro, e suspirando:
— Foi apenas um pesadelo...
Coloquei a mão na testa enquanto ouvia a chuva cair... e mais raios e trovões... naquela hora da noite, eu raramente ouvia pessoas ou carros nas ruas, a não ser que tivesse algum desordeiro ou um viciado vagabundo vagando para o nada.
Eu me levantei novamente, mas dessa vez fiquei sentado na cama com os pés no chão frio... Eu acho que estava com um pouco de febre, pois estava quente e frio ao mesmo tempo. Como eu odiava suor, eu olhei para a porta entreaberta do banheiro que tinha ali no meu quarto. Terminei de me levantar e fui até ele, onde me debrucei sobre a pia, pensativo, olhando para o espelho pequeno diante de mim.
Me abaixei e lavei meu rosto. Jogava água fria nele pra ver se conseguia baixar aquela febre... Bem... o frio novamente voltou a me rodear... então, percebendo aquilo, levantei- me novamente, me deparando com uma imagem disforme e assustadora no espelho; a imagem estava seguida atrás de mim. Na minha mente, logo pensei que seria uma overdose do remédio, depois percebi que eu não tinha tomado tanto a ponto de ter ilusões... tive medo... até que aquele ser toma a forma de meu pai... meu amado pai... meu falecido pai!
Então, percebi novamente que aquilo não passava de mais um truque da minha mente...
— Que ódio... trazer assim à tona tudo o que um dia eu quase esqueci... eu odeio isso!
O ódio começou a encher minha mente; uma ação não recomendável pelos psiquiatras naquela hora da noite.
Deveria ser quase duas e quarenta, ou até um pouco mais. Eu nem reparei no relógio, pois a noite era o dia pra mim. Muitas vezes, é ela quem me completa. Não preciso me juntar aos outros em troca de falsos sorrisos e momentos desagradáveis que sempre tenho ao lado deles, sem contar que odeio o outro lado.
Humanos fúteis comprando e vendendo, consumidores em massa de produtos inúteis, produtos que nem teriam tanta utilidade se eles não dessem tanta bola assim. No entanto, quanto mais compram, mais querem!
Infelizmente, essa é a lei desse mundo medíocre!
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