O Barco
2 O Sol Frio
Notas iniciais
Um passo após o outro... quanto mais eu ainda teria de andar? Não, isso não importava, eu acho. Só o fato de estar me dirigindo àquele destino já representava, de certa forma, uma vitória.
Uma vitória sobre as pessoas idiotas com quem eu morava, que sempre negligenciaram minha doença, fingindo não saber ou julgando tratar-se de simples frescura. É isso que a depressão significa para a maioria deles: uma frescura. Afinal, quem se preocuparia com uma estúpida patologia mental, com tanta dengue, AIDS e câncer matando gente pelo mundo? Essas, sim, são doenças de verdade, não é o que costumam dizer? Em todo caso, diante de minhas notas cada vez mais baixas na faculdade, e o desespero só de pensar que estavam desperdiçando dinheiro (já que eu era bancado pelos meus pais enquanto estudava em outra cidade), concordaram em me arranjar um médico. Cheguei naquela universidade disposto a me focar só nos estudos, que eram a principal razão de estar ali, mas, com o tempo, não conseguia mais segurar a tristeza acumulada pouco a pouco no meu peito gerada pela solidão. Uma solidão que só existia pra mim.
Entretanto... e eu? Será que realmente acreditava que uma simples terapia aliada a medicamentos poderia me salvar, como costumava afirmar em casa durante as sérias discussões? Será que me faria voltar a enxergar as cores desse mundo? Passei a mão sobre minha testa. Estava suando com o forte calor. Odiava isso. O sol maldito que supostamente brilha de forma acolhedora aos outros, os humanos comuns, mas, pra mim, só o que tem reservado é uma luz pálida, sem vida, desesperadora. Uma luz pior que a própria escuridão.
Olho para o lado e o que vejo? Um monte deles, correndo em grupos de dois ou três de um lado para o outro, alegres e sorrindo, dando a entender que este mundo poderia até ser um lugar agradável, cobertos no que chamam de felicidade. Na verdade, eu nem deveria olhar. Não me fazia bem. A “felicidade” deles, verdadeira ou não, me revoltava. Tiveram mais sorte. Nasceram abençoados, ou, quem sabe, eu é que tenha sido amaldiçoado no instante do meu nascimento. Eu não tinha um lugar ali. Jamais poderia ser parte daquilo. Meus transtornos nunca me permitiram estabelecer um laço com alguém por muito tempo.
Estava acontecendo isso com a única pessoa a quem podia chamar de amigo. Os desentendimentos eram constantes, já que ele sempre foi alguém que vive do lado de lá, iluminado pela luz cheia de vida. A luz que deve ser tão forte que não o deixa notar as trevas à volta. Então, acho que cansei de acreditar nessas coisas.
Amor, ou amizade... isso não existe. Não para mim. A esperança que esforçadamente mantive viva dentro de mim ao longo de tantos anos estava se esgotando. Enfim, tudo que podia fazer era continuar andando rumo ao meu destino, sob aquela luz fria, desejando mais do que nunca que aquele desconhecido pudesse me ajudar, porque já sentia que não resistiria por muito mais tempo.
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