O Barco

3 Gravação


Notas iniciais
Ponto de vista: Adel

— Outra vez?! O que é que passa por essa sua cabeça? Acha que te mando pro colégio só pra tomar bomba?!

Aquelas palavras, depois de um tempo, foram deixando de soar naturais pra mim. Pareciam mais uma reprodução dum sermão gravado há muito tempo que insistia em tocar no meu ouvido sempre que um período qualquer de provas se aproximava. No começo, eu costumava revidar, e ainda acontece, mas até as forças que tinha pra isso foram se desgastando sem que eu percebesse.

— Pois é... — murmurei.

— Não tem Pois é! Você entendeu?! Olha pra mim quando eu estiver falando!

Quem dizia isso, e agora também segurava meu rosto com força, me forçando a encará-lo, não era meu pai, mas não devia ser isso o que passava pela sua mente. Desde aquele dia, quando meu verdadeiro pai deixou de estar aqui e minha mãe por sua vez deixou de ser como era, meu irmão mais velho passou a agir como um tipo de substituto dos dois, e seu alvo predileto era eu.

De certa forma, não posso me queixar tanto disso. Afinal, eu sei, ou pelo menos imagino que esteja mesmo dando muito trabalho. Minhas notas, que nunca foram exatamente ótimas, despencavam de vez. Parentes, vizinhos ou amigos da família vez ou outra comentavam que eu tinha mudado, e não para melhor. Mas e daí? Qual o significado disso? Por que eu devia me preocupar se estava agradando ou não a alguém? Por que me preocuparia em passar de ano? Só para depois me preocupar com vestibular, faculdade, emprego e outras mediocridades que eles criam pra preencherem o vazio de suas vidas mecânicas e sem sentido? De repente, eu até estou melhor assim, "problemático", como eles dizem, mas sem precisar ser um fantoche lamentável em meio a uma vida pré-programada.

— É... estou melhor assim... — voltei a murmurar sem me dar conta.

— Melhor assim?! — a indignação que eu gerava nele aumentou. — Você só pode estar ficando louco! E está mais louco ainda se acha que vou ficar sustentando um perdido feito você aqui dentro!

Normalmente, ele me obrigaria a sair de casa para falar tudo que queria longe dos ouvidos da minha mãe, já que nem mesmo seu distante quarto com a porta trancada era suficiente pra dissipar a voz de trovão do meu irmão, porém, como dessa vez parecia estar atrasado pra qualquer um de seus compromissos inadiáveis, ele se limitou a circular pelo meu quarto enquanto preparava um novo ultimato:

— Essa vai ser a última vez... quando tive que ir ao seu colégio me disseram que você precisava de novo acompanhamento médico, não era isso? Pois muito bem Adel, então você vai voltar pra mais um médico, ou dois, três, quantos forem! E pro seu próprio bem espero que funcione e pare de agir como criança!

Me senti um pouco mais aliviado quando a porta se fechou com fúria e ouvi o ronco de seu carro se afastando no mesmo ritmo. Não que esses desentendimentos me deixem pra baixo, porque, como disse, tornaram-se tão repetitivos que você logo aprende a receber certas coisas com um pouco mais de indiferença. Mas não posso dizer que não me incomodem em nada... aquilo ainda mexia comigo, e deve ser por isso que evito me lembrar dessas discussões. Então, ele quer me mandar aos médicos de novo? Os humanos que tentarão me tornar um deles me entupindo daqueles malditos remédios que causam alucinações? Isso me parece outra grande perda de tempo, mas não vou impor nenhuma barreira pra evitar mais tumulto.

Estava agora na escuridão do meu quarto. Normalmente era o que eu usava pra disfarçar o vazio que tomou conta de mim nos últimos anos. Na maioria das vezes, surtia efeito. Uma calmaria temporária me envolvia e, se tivesse sorte, às vezes também bloqueava meus impulsos de mutilação, me conduzindo diretamente ao sono. Era aí que aconteciam mais coisas sem nexo.

Comecei a ter sonhos estranhos. Nunca dei atenção a isso, afinal, sonhos incomuns eram uma das consequências que eu já esperava. Às vezes eram pesadelos clichês envolvendo coisas de rotina, em outros eu me via no alto duma montanha, torre ou qualquer tipo de lugar bem alto. Mas recentemente um novo tipo de sonho acontece com frequência.

Um mar... estou no que parece ser uma praia deserta de areia cinzenta e vejo um oceano sombrio e nevoento diante de mim. Nunca dá pra ver muito além disso, mas agora chego a sentir um vento frio batendo no meu rosto, o que antes não acontecia... Estava se repetindo tanto com o passar dos dias que já estava parecendo mais uma gravação irritante, como se não bastasse todo o passado que me persegue. De vez em quando tenho a impressão de ver um vulto se movendo nas águas, mas é impossível enxergar com clareza, e tampouco me interessava saber o que era.

Que importância pode ter um sonho? A realidade já é pior que qualquer tipo de pesadelo. E por ela eu continuo andando... e vivendo... afogado no meu próprio vazio.