O Barco
11 Privilégio
Notas iniciais
Eu nem me dei conta do que tinha acontecido. Quando dei por mim, assim que descemos do barco naquela nova e pequena ilha, já estava cercado por dezenas daquelas pessoas, todas me bajulando como se eu fosse uma espécie de deus, aproximando-se pela curiosidade e ao mesmo tempo se afastando, com algum receio. Era ainda mais constrangedor do que na ilha de antes... um monte de olhos desesperados fixos em mim.
"Inferno... espero que não seja assim em todo lugar"
— Pessoal... calma...
Mas não se acalmavam. Ficavam perguntando, perguntando, perguntando, e de vez em quando soltando exclamações, me chamando de "heroi" ou "salvador". Nem mesmo notei que Irwin não estava por ali. Quando me dei conta disso, olhando pros lados e não o vendo em parte alguma, perguntei a eles e alguém disse que ele tinha ido embora pelo outro lado, de onde todos surgiram:
— O rapaz que estava com você? Eu o vi indo pro nosso vilarejo...
Ainda pedindo licença, fui atrás dele, o que não precisou de muito esforço já que todos praticamente me carregaram no colo até lá. O tal vilarejo, que ficava ali próximo, era um conjunto de casebres de madeira ou de pedra, baixos e com telhados bastante largos. Achar o Irwin nesse finzinho de mundo não parecia um desafio muito grande, embora talvez ele preferisse ficar só. Sendo assim, meus pensamentos se voltaram pra outra coisa estranha que estava acontecendo:
— Vocês todos sabem o meu nome... — eu disse a eles, inclusive aos poucos que ainda estavam dentro de suas casas e saíam pra me cumprimentar.
— É claro! — exclamou o mesmo homem que me deu a informação sobre Irwin. — O nome do novo Barqueiro já é conhecido em toda Lucidia! Esperávamos sua vinda com ansiedade, e ontem as crianças disseram ter visto um barco solitário velejando na direção de outra ilha... ah... que privilégio poder te ver de tão perto...
"Velho maldito... isso o Sage não me falou"
Se fosse assim, acho que eu não tinha mesmo escolha a não ser responder logo a tudo que me perguntavam, apesar da dúvida que mais se repetia: "Você acha que chegará quando à Utopia?", era algo que nem sabia como iria responder.
Foi também pra tentar evitar o assunto que rapidamente voltei à questão anterior:
— Alguém viu pra onde o Irwin foi?
— Eu vi um menino que ainda tinha o brilho do outro mundo entrando na taverna... — disse uma velha senhora.
Fui para a tal taverna, que ela própria indicou onde ficava, ainda sendo seguido por algumas pessoas. Era um lugar bem amplo, que parecia maior ainda com as mesas e balcões totalmente vazios. Esse vazio foi preenchido pela pequena multidão que entrou comigo, e antes que continuassem me sufocando, andei a passos largos até alguém que dormitava numa mesa do fundo.
— Ow, como pode vir beber e nem me chamar? Hehe
— Acontece que tô liso — Irwin respondeu sem se mover um milímetro.
Sei que ele não parecia muito satisfeito com a minha companhia, mas pra escapar um pouco dos meus "fãs", que nunca tiravam os olhos de nós, sentei junto a ele e fiz um sinal pra um cara que surgiu por uma porta atrás do balcão e que devia ser o dono do local.
— Tudo bem — falei. — Acho que ainda tenho alguma grana aqui. Estava indo lanchar antes de vir parar nesse mundo... aliás... será que vão aceitar dinheiro brasileiro?
Mas essa pergunta deu lugar a outra quando tirei as notas que tinha no bolso. As cédulas, e até algumas moedas que tinha, estavam diferentes! Agora eram negras com alguns detalhes em dourado ou prateado nas bordas, e a estampa era o rosto de uma mulher com os olhos cobertos por um véu.
— Quando eu vou parar de me surpreender...?
Enquanto isso, aquele balconista grandão chegou até nós e me deu exageradas batidas nas costas:
— Ah, mas que grande prazer receber o próprio Barqueiro em meu humilde estabelecimento! Por favor, jovem, sinta-se em casa!
Ele deve ter notado que eu ainda estava bolado com as cédulas, então se encarregou de explicar:
— Quando se vem pra Lucidia, todo o dinheiro que estiver portando se converte ao equivalente em lucos, a moeda daqui
Meu sorriso irônico retornou:
— Parece que Lucidia não é tão diferente do outro mundo, já que há toda essa preocupação com o dinheiro.
— Hahahahaha, mas não ligue pra isso! — bradou o homem, voltando a me bater com força quando riu de meu comentário. — Aqui, você pode comer e beber o que quiser por minha conta!
"É... mas se isso me custasse ter a coluna judiada uma terceira vez, eu preferia pagar..."
— Poww... valeu, hehe. Então traz aí o que tiver de melhor pra nós dois.
— Não se incomode — murmurou Irwin.
— E acha que vou beber sozinho sendo que tem um amigo do meu lado?!
— Não somos amigos — ele disse, erguendo não só a cabeça desta vez, como também a voz. As pessoas ao redor também se agitaram e começaram a sussurrar umas com as outras.
— ... Tudo bem, eu só acho que...
Mas antes que eu terminasse de falar, um cara que tinha entrado comigo veio inesperadamente até a nossa mesma e derrubou Irwin com um soco.
— Ei, o que está fazendo?! — exclamei.
— Eu é que pergunto o que esse maldito pensa que está fazendo, recusando o privilégio que você lhe oferece! — o homem protestou, indignado a ponto de ter os olhos avermelhados.
E não era só ele. Logo estávamos rodeados por um aglomerado de gente furiosa, tentando partir pra cima dele.
— Mas que droga...
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