O Barco

12 Lenda Viva


Notas iniciais
Ponto de vista: Irwin

Foi tão rápido que mal consegui evitar. Um daqueles caras que entraram na taverna junto com Adel me derrubou num piscar de olhos. Quando fui parar pra ver se sentia dor, os outros também vinham em massa terminar o serviço, e só não o fizeram porque Adel se colocou na frente:

— O que pensam que tão fazendo?! Ficaram loucos?!

— É esse infeliz quem ficou louco por rejeitar a sua generosidade! — vociferou o homem.

— Como se atreve a esnobar a ajuda direta do Barqueiro?! Você devia ser lançado em alto mar! — sentenciou uma mulher.

E não se restringiram a exaltações verbais. Dentro de poucos instantes, voltaram a avançar contra mim, mas Adel os impediu de novo:

— Daqui vocês não passam!

— Adel... com todo respeito... não vê que o miserável está desonrando você?

— Esperamos muito por sua vinda... não podemos tolerar uma ofensa desse nível!

Continuaram argumentando com fúria, mas o suposto Barqueiro não se abalou.

— ... Eu disse que daqui vocês não passam — disse com a voz mais baixa, e, sem tirar os olhos deles, aproximou-se de mim. — Você tá legal?...

Acho que não foi uma boa ideia ficar quieto, visto que isso só piorou a reação deles:

— Adel te fez uma pergunta e você não vai responder?!

Dessa vez parecia que nem o seu idolatrado heroi conseguiria conter a ira de todos, mas o dono do bar, o grandalhão de antes, se posicionou na frente, atirando dois moradores com violência contra as mesas.

— Parem com isso vocês todos! — esbravejou com sua voz bastante condizente com o seu tamanho, e em seguida virou o rosto para nós, falando quase num sussurro. — Saiam pelos fundos e procurem uma porta azul.

Adel não raciocinou tão rápido:

— Mas...

— Rápido!

Como não seria uma boa ideia fazê-lo se enfurecer conosco também, levantamos, eu com alguma ajuda, e corremos até a porta do outro lado, saltando o balcão. Alguns moradores revoltados tentaram nos perseguir, mas o grandão, que já devia estar acostumado a lidar com fregueses problemáticos, interceptava os movimentos de todos como podia. Ainda assim, era claro que não conseguiria fazer isso por muito tempo.

— Vamos, cara — disse Adel, abrindo a porta e topando com uma ruela do lado oposto ao que entramos. — ... ele disse porta azul...

Não foi preciso procurar muito. Logo na primeira curva à esquerda encontramos uma casa com uma porta frontal dessa cor. Sem muita cerimônia, ele a abriu e trancou por dentro usando um ferrolho, logo depois.

— Estamos seguros aqui?

— Não se preocupe, ele não te fariam mal.

— E quer que eu me acalme com isso?! — Adel retrucou. — Você tá ferido?!

— Tô ótimo.

Antes que nova discussão se iniciasse, nos lembramos de que seria ideal fazer silêncio até as coisas lá fora se normalizarem. A casa não era muito grande, mas nos acomodamos em móveis parecidos com sofás recheados com palha, onde, sem perceber, caímos no sono.

Diga-se de passagem, um sono não muito profundo, se levar em conta que nos pusemos de pé com os nervos à flor da pele, ao ouvir batidas na porta.

— Meninos, sou eu — a voz do dono da taverna se fez ouvir. — Estão aí? Podem abrir, está tudo bem agora.

— Desculpe o abuso... acabamos dormindo — eu disse assim que ele entrou, para explicar a pequena bagunça sobre os dois móveis.

— Não se preocupe — ele disse sorridente. — O importante é que conseguiram achar a minha casa sem problemas.

Ele juntou-se a nós após se apresentar adequadamente, dizendo-se chamar Flint, e começou a contar o que tinha acontecido depois que escapamos, e de como tinha se preocupado com a possibilidade de nos atrapalharmos durante a fuga.

— Em nome de todos, quero pedir desculpas, em especial a você — disse Flint, dirigindo-se a mim. — As pessoas daqui não são más, mas a lenda do Barqueiro é algo que sempre teve lugar especial dentro de cada um, como um último brilho de esperança aqui nesse mundo onde não podemos esperar nada de milagroso em nossas vidas. Mesmo antes de conhecê-lo, Adel já é visto como o maior dos herois.

— Isso já deu pra perceber — murmurei.

Adel ouviu isso com um ar distante e pensativo, até que em algum momento voltou a falar:

— ... Esperam mesmo grandes feitos de mim... não gosto disso...

Flint voltou a bater exageradamente nas costas dele para animá-lo, embora pela sua reação ele estava mais pra irritado do que feliz.

— Ânimo, jovem! A lenda diz claramente que você é aquele que chegará à Utopia, então pra quê se preocupar?! Além disso, há até um segundo Barqueiro pra te ajudar.

— Só estou de carona até o primeiro continente que encontrar — eu disse, sentindo-me já farto de sempre fazerem questão de me incluirem naquela busca sem sentido. — Está mais do que claro que Adel é que é a peça-chave pra essa Utopia. Se ele quiser companhia, é só chamar qualquer um pra ir junto assim que eu desocupar a vaga.

— De qualquer forma, ainda vai ter que ter paciência — Flint me advertiu. — O continente é algo que ainda está muito distante.

Ele apontou para um tipo de mapa que estava na parede, que marcava um oceano com pequenas porções de terra.

— O que é isso? — perguntou Adel.

— O Arquipélago do Nevoeiro, uma das mais remotas regiões de Lucidia, que é onde vocês estão agora. Como conta-se que a Utopia fica numa ilha, muitos creem que esteja localizada aqui, embora a neblina densa que dá nome à região e a então inexistência do Barqueiro nos impeçam de alcançá-la.

— Parece que ainda temos muitas ilhas pela frente... — comentou Adel, voltando os olhos pra mim.

— ... Com licença, eu acho que já vou dormir — eu disse antes de voltar para um dos sofás que ele tinha nos oferecido, mas já sabia que não pegaria no sono tão cedo.

"Arquipélago... quando tudo isso termina? Já está começando a incomodar...”