O Barco
10 Má Ideia
Notas iniciais
Essa devia ter sido a coisa mais idiota que já fiz. E olha que eu já fiz muita coisa idiota... Ainda não era fácil acreditar que eu tive mesmo a ideia de pular naquele barco velho que era o pivô do maior sonho lúcido da história. O que falei praquelas pessoas não era mentira, eu não gostava mesmo do mar. Acho que aumentava muito minha sensação de insegurança, tanto era que evitava olhar muitos pros lados, mantendo a cabeça baixa, como de costume.
— Que estranho...
Só então lembrei que não estava sozinho:
— O quê?
— O barco parou de se mover — observou Adel, aproximando-se da lateral com uma cautela exagerada. Devia ser verdade que também não se sentia confortável naquela situação, então por que diabos aceitou isso?!
— ... Até agora, esteve velejando sozinho — ele continuou.
— Então é só usar os remos — falei, retirando um dos objetos enquanto ele fazia o mesmo poucos depois.
A velocidade, apenas contando com a nossa força, era um pouco inferior à de antes, mas servia pra diminuir a sensação de estar estático no meio do nada.
— Não tive a chance de agradecer por você ter vindo.
— Não tem que me agradecer — eu disse prontamente. — Considere isso uma carona até encontrar um lugar com muita terra, onde eu possa ficar.
— É mesmo o que você acha melhor?
— O velho deve ter contado que a tal lenda envolve só você, então não faria diferença.
— Se é o que você quer...
Eu estava adiante, então não dava pra ver sua expressão, mas algo me dizia que ele ainda queria insistir pra que eu mudasse de ideia, o que estava fora de cogitação. O problema era que o tempo foi passando e passando, sem que chegássemos a lugar algum.
— Será que estamos no rumo certo?! — perguntou Adel, já soltando um suspiro de nervosismo.
— Como é que eu vou saber?
— E nem deu pra eu preparar bagagem que nem você — ele comentou. —... estava de mudança? Essa mochila parece pesada.
— ... Mais ou menos.
— Não gosta muito de conversar, né? Hehe... somos meio parecidos, então.
"Será mesmo?", pensei, mas não disse. Em menos de uma hora, mostrou-se mais comunicativo do que já fui em quase vinte anos. O mesmo Adel que me disse coisas pesadas por mensagem virtual... será que ele estava exagerando em suas palavras naquele dia?
"Isso não me interessa..."
Voltei minha atenção pra pergunta feita por ele. Quanto tempo poderia levar até chegarmos à terra firme? Olhava pra um lado e pro outro e tudo que meus olhos avistavam eram os contornos diluídos formados pela camada de neblina. Estávamos literalmente procurando às cegas... maldita ideia...
Até que:
— Olha! Tem alguma coisa ali!
Ele parecia enxergar bem melhor que eu naquele ambiente. Mesmo focando na direção em que apontava, levou ainda um tempo pra que conseguisse ver o que o fez se agitar.
— Parece que temos terra à vista — disse Adel.
— E também é uma ilha, e ainda menor que a outra — bufei. — Droga...
— Por hora, você continua nesse barco — não quis conferir, mas ele devia estar com um sorrisinho desdenhoso no rosto.
Intensificamos as remadas, ele mais do que eu, e à medida que nos aproximávamos notei que algumas pessoas, no início poucas, depois várias, vinham correndo até a praia. Logo, logo tínhamos um pequeno comitê de boas-vindas improvisado naquela ilhota desconhecida.
Como já imaginava, sua conversa não era muito diferente que a do povo anterior:
— É o barco!
— Ele veio mesmo! A lenda era real!
— O Barqueiro Adel é você?!
Assim que eles identificaram quem procuravam, passaram por mim em ritmo eufórico e cercaram o meu colega de viagem, bombardeando-o com mais e mais perguntas repetidas. Pra não complicar as coisas, afastei-me da praia, caminhando na direção de onde mais algumas pessoas vinham.
— Você é Adel?! — perguntou uma mulher jovem, carregando uma pequena criança nos braços.
— Não — e apontei na direção do rebuliço em frente ao barco, o que a fez ir rapidamente se juntar aos outros.
Continuando em frente, cheguei ao que parecia um minúsculo vilarejo a cerca de quinhentos metros da praia. Um ou outro morador ainda me olhava com curiosidade, talvez por eu ser um rosto novo por ali, mas a notícia de que o Barqueiro estava na praia já tinha se alastrado, de modo que encontrei o local quase deserto.
Sem muitas opções, entrei numa espécie de bar ou taverna, que também estava tão vazia que seu dono, um homem grandalhão que lavava copos do outro lado do balcão, me dirigiu a palavra tão logo entrei:
— Que deseja, jovem?!
Cheguei a abrir a boca, mas só então lembrei que meus bolsos estavam vazios. O único dinheiro que tinha gastei com a passagem de ônibus que me levou pra bem mais longe de casa, aliás.
"Burro..."
— Er... nada, é que estou meio cansado... posso ficar aqui um pouco? — pedi,constrangido, pra disfarçar.
O homem virou o rosto e deu de ombros:
— Claro, não tem ninguém mesmo... ah, também queria ter ido ver a chegada de Adel, o rapaz da lenda, mas não é confiável deixar a taverna à mercê dos vagabundos...
Puxei uma cadeira qualquer e sentei. Era incrível, mas ao que tudo indicava, a tal lenda estava longe de ser mero conto de fadas pra gente desse lugar estranho. O velho, Sage, acho que era assim seu nome... ele disse que aqui era outro mundo. Como uma coisa dessas seria possível? De repente, não parecia mais tão fácil ignorar as palavras dele...
"Realmente... uma péssima ideia..."
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