O Barco

8 Lucidia


Notas iniciais
Ponto de vista: Irwin

Ele devia estar tão surpreso quanto eu, quando cheguei ali. Porém, pelo que pude perceber, parece que já tinha passado por essa praia antes, a julgar pela forma como correu revoltado até o oceano antes do velho chamá-lo. O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi o nome com que se dirigiu a ele. Alguém chamado Adel aparecer justo num momento desses... claro que podia ser simples coincidência, mas...

— Quer explicar isso direito, por favor? — ele indagou ao velho. Estava tão nervoso que podia ouvir sua voz sem problemas de onde estava. — Ou então é minha mente que não tá conseguindo entender tudo isso...

— Acalme-se jovem, eu vou explicar melhor. Antes de mais nada, é bom que saiba que não está mais no seu mundo.

— N-não?!...

— Bem — e alisou a barba. — ... pelo menos, não totalmente. Aqui ainda é a realidade de onde você veio... mas ao mesmo tempo não é. Uma sombra... é, acho que este é o termo adequado. Enfim, seja bem-vindo ao exílio do mundo dos homens, Lucidia.

— Lucidia... — ele repetiu, talvez ainda mais confuso.

O velhote lhe deu as costas e começou a andar em círculos, dando início ao mesmo discurso alucinado que tive de escutar horas antes:

— Lucidia é uma terra desolada e fantasmagórica, quase como se não houvesse vida, apesar dos muitos que aqui habitam. Talvez porque, assim como o seu mundo, sua maior parte é constituída apenas por água. Um subproduto que existe em função dos que foram rejeitados. Em suma, pra cá é enviado todo o lixo incompatível com o mundo.

— E está dizendo que faço parte desse lixo...

— Pelo contrário, meu rapaz! — exaltou-se o velho, virando para ele de repente. — Apesar de ter um perfil digno dos residentes daqui, você é diferente. É... especial — e voltou a apontar pra embarcação. — Não sei quando começaram a falar isso... mas há uma história que é passada de geração a geração.

— Que história?

— Não se sabe ao certo onde, mas, em Lucidia, há um lugar que costumamos chamar de Utopia. É descrito como um pequeno paraíso eterno onde o mais perturbado dos corações encontrará o seu santuário de paz. Dizem que de tempos em tempos, uma pessoa destinada a Lucidia será presenteada com um barco... e esse barco é, na verdade, um passaporte para a Utopia.

— ... Deixa ver, e por isso você quer que eu suba num bote velho e saia navegando por aí sem rumo?!

A garotinha que antes brincou de esconde-esconde inútil comigo aproximou-se de Adel e segurou a sua mão:

— Você não vai deixar a chance passar, não é?...

Ele não respondeu. Ficou um bom tempo quieto, imóvel, talvez tentando compreender todas aquelas maluquices, até que se abaixou para falar com ela:

— Qual o seu nome?...

— ... Belle.

— E por que quer tanto que eu vá? — Adel olhou pros outros antes de se levantar e continuar falando. — Quer dizer... mesmo se eu encontrasse esse tal lugar, isso não beneficiaria vocês... ou não?

O velho suspirou. Outras pessoas à volta também desviaram o olhar, como se não soubessem ao certo o que dizer.

— De fato, não sairíamos beneficiados — concluiu o ancião. — Mas... é difícil explicar... acho que só o fato de ter a certeza de que existe luz neste mundo, e que alguém a encontrou, renovaria nossos espíritos, e, quem sabe... poderíamos recuperar nosso lugar no outro mundo.

— Então por que vocês mesmos não fazem isso?! — perguntou Adel. — Olha quantas árvores... por que não constroem barcos e também vão embora?

— Somente aquele barco pode, um dia, chegar à Utopia — o outro explicou. — Ela é inalcançável pra qualquer outro barqueiro que não o mencionado na lenda — e adquiriu um ar melancólico. — ... mas, às vezes, alguns mais destemidos tentam desafiar essa lei e se aventuram pelos mares... como o pai de Belle.

Adel voltou a olhar para a garota, que agora lutava pra não acabar chorando bem ali, na sua frente.

— ... Esses nunca retornaram — concluiu o velho.

Adel fez novo silêncio. Desviei o olhar praquele céu sem cor, imaginando que só um desesperado ou algum lunático iludido acreditaria na historinha daquela gente. Lucidia... Utopia... livrar-se de toda a dor... não poderia haver nome melhor. Isso só devia existir na cabeça deles. Uma arma de auto-defesa do seu cérebro pra impedir que enlouquecessem e atentassem contra a própria vida, provavelmente.

— Só pode ser isso...

Estava tão entretido com meus pensamentos que não vi alguém se aproximar.

— Você é o cara dos emails, né? — Adel(que agora confirmou ser realmente Adel) me perguntou. — Depois de tudo isso, nem dá pra achar estranho uma coincidência assim...

— Isso quer dizer que acreditou nisso tudo?

— Sinceramente, não sei — e olhou de novo para as pessoas do outro lado, que ainda nos observavam atentamente. — Por um lado parece conto de fadas, mas por outro...

Dei de ombros:

— Então siga a sugestão deles, ora. Não deve ter nada a perder, porque imagino que você também não sinta a mínima vontade de voltar pra casa.

— Verdade... e você?

— Ficarei por aqui mesmo.

Ele reagiu com um pequeno espanto:

— Mas você ouviu o que disseram... quer dizer, não fui só eu... você também precisa ir.

— Até onde ouvi, não é obrigatório — eu falei. — Não gosto de ficar cercado por água, e essa historinha toda ainda não me desceu a garganta.

— Sei como é... também não gosto...

A maneira como Adel disse isso, pra dentro, e com um olhar fixo na direção das pessoas, me fez perceber que não devia estar tão decidido assim a partir. Não era da minha conta, mas tive um pequeno impulso de chamá-lo de volta quando pediu licença e se afastou a passos lentos.

Não... deixa pra lá. É ele quem sabe o melhor pra si próprio. Não devo dar palpites se quiser ir, mas eu jamais poderia fazer o mesmo. Era ridículo...

— Sim... ridículo — murmurei, fechando os olhos e pondo as mãos sobre a nuca, pra tentar pegar no sono.