O Barco
9 A Partida
Notas iniciais
O que até então pensava ser praia era, na verdade, uma minúscula ilha. Descobri isso quando cheguei ao outro lado depois de caminhar durante algum tempo, sem uma direção certa.
Precisei sentar numa pedra a poucos metros da areia. Eu tinha que parar em algum lugar... a mente me pedia pra parar pra ver se encontrava alguma solução... será que tava enlouquecendo de vez? ... Era o que estava parecendo. A coisa mais certa seria fazer como o Irwin, que nem deu atenção às coisas bizarras que escutei. Ele não parecia se deixar influenciar por isso... mas e eu? Por que também não mudei tudo pro inferno logo de cara?
— Hoho, acho que você já sabe a resposta!
Virei com o susto. Era o velho de antes. Aproximou-se e sentou ao meu lado com um sorrisinho que pessoalmente me incomodou.
— Você lê mentes agora? — perguntei.
— Não; você é que estava falando sozinho sem se dar conta.
Virei o rosto pro lado.
— ... Tudo indica que todos aqui fazem mesmo questão que eu vá.
— E o que acha disso?
Passei as mãos pelos cabelos:
— Nada... ou, se acho alguma coisa, não estou conseguindo me explicar bem...
O maldito sorriso de vitória no seu rosto ficou mais notável:
— Se há a dúvida, é porque, ainda que por um momento, você pensou em aceitar.
— Se que quer falar de dúvidas, então me diga logo o que exatamente é essa Utopia? — indaguei, erguendo um pouco a voz e entrando de vez no joguinho dele. — Em vez duma explicação decente, você só me deu mais dor de cabeça!
Felizmente, ele adquiriu um ar mais sério, agora:
— Eu não faço ideia do que te dizer, Adel... ninguém sabe com exatidão como é a Utopia.
— E ainda assim acreditam nela — murmurei, e foi minha vez de esboçar um sorriso. — ... Parece que essa Utopia é Deus, em Lucidia...
Como ele não disse nada, só suspirou e fechou os olhos, continuei:
— Talvez não tenha muita opção, já que parece que não dá pra voltar pra casa... mas ainda tenho uma dúvida.
— Diga.
Olhei para trás, para onde ficava a outra margem:
— Acho que Irwin não vai querer ir...
Ele voltou a alisar a barba:
— Irwin... na realidade, isso ainda é uma incógnita pra nós.
— Como assim?
— A lenda só cita um barqueiro, que é você — ele disse, pensativo. — ...mas, inesperadamente, o barco que foi atraído pela sua presença também reagiu a um segundo jovem vindo do outro mundo... realmente estranho...
— De qualquer forma, acho que ele não vai.
— Por que não fala com ele mais uma vez? — insistiu. — Digo... deve haver alguma razão, ainda que desconhecida para nós, para que ele também vá.
Não respondi. Ele devia ter razão, mas seria mesmo certo obrigar o Irwin a vir contra sua vontade? Eu não podia fazer isso... mas aí vem aquela outra questão, e se fosse verdade? E se fosse mesmo uma chance que não se deve deixar passar?
Ainda em silêncio, me levantei e fiz o caminho de volta. O velho me acompanhava com os olhos:
— E então?
Respondi com outra pergunta:
— Como você se chama?
— Sage.
— Sage... — repeti, sem parar de andar. — Acho que tô indo fazer o que você quer.
— Oh...
Fui encontrá-lo no mesmo lugar de antes.
— Sim? — Irwin perguntou tão logo cheguei mais perto.
— ... Vou embora daqui... no barco...
— Boa sorte.
— Na verdade, acho que você também devia ir.
— Motivo?
— Ah, não há nada pra se fazer nessa ilha... seria chato — tentei forçar outro sorriso.
— Agradeço, mas já disse que não tenho interesse. — e, pra evitar que aquilo se prolongasse, ele próprio se levantou e se afastou na direção da outra margem.
É... eu não posso mesmo obrigá-lo..., pensei, vendo-o se distanciar. Meu pensamento só foi quebrado pela chegada daquela garotinha, a Belle.
— ... Se decidiu?...
Desviei os olhos lentamente até ela, encarando seu olhar que era diferente de todos os outros ali, um olhar cheio duma coisa que não sabia mais como definir. Uma coisa que eu tinha perdido há muito tempo.
— Eu vou — murmurei.
Mais tarde, na praia, todo mundo, incluindo Sage e Belle, formaram duas filas frente a frente, abrindo um caminho até o barco por onde passei não só um pouco constrangido como também agitado. Aquelas pessoas não eram como as marionetes fúteis com quem sempre convivi. Eu seria capaz de corresponder a tantas expectativas?
Mas não havia mais tempo pra divagações. Eu já estava no barco. Fui olhar uma última vez para a praia, pra dizer um adeus silencioso a eles, e então vi alguma coisa pesada sendo arremessada na minha direção, caindo dentro do barco.
— ... Essa mochila... hã?
Sem que eu percebesse, o dono dela pos os pés na embarcação.
— Você...
— Uma pena, mas isto é mesmo uma ilha — disse Irwin, sentando do outro lado. — De um jeito ou de outro, eu ficaria cercado por água...
Realmente, não era um dia muito comum, porque acho que sorri já pela terceira vez, embora ele não tenha dito mais nada.
Minutos depois, quando ia pegar um remo, o barco por conta própria já se afastava da pequena ilha, cada vez mais difícil de enxergar com a neblina que se formava ao redor. Logo tudo que restavam eram as vozes de todos nos desejando sorte.
Lucidia... quão grande seria esse lugar? E se fosse do mesmo tamanho do nosso... do mundo dos outros? Quanto tempo poderia levar até isso chegar a um fim?
Mesmo lutando contra os pensamentos, eles insistiam em ficar.
E foi assim que a nossa sina começou.
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