O Barco

18 Ilusões


Notas iniciais
Ponto de vista: Irwin

Depois de deixar Adel se entendendo com seus súditos, eu caminhei pela vastidão daquela praia de areias brancas, longe da agitação em torno do grandioso palácio mais ao lado, até que encontrei uma pedra onde aproveitei para me sentar e reaver o resto das energias que ainda não tinham voltado depois da última confusão em alto mar.

Olhei para o céu nublado por um instante. A luz incômoda da torre do meio refletia bem onde estava, o que não era nada confortável. A verdade era que ainda não sabia bem o que fazer. Fiquei tão ansioso por chegar ao continente, mas isso era mais para me afastar da presença de Adel, que podia se tornar um problema maior. Para onde seguir agora? Eu realmente passaria o resto dos meus dias naquele mundo ainda estranho? Mais importante: como faria pra sobreviver se estava sem um tostão no bolso?

Pensei que ficaria autistando nesse tipo de pensamento por alguns bons minutos ou mais que isso, mas aconteceu o inesperado naquele momento. Repentinamente, tive a impressão que a luz do farol ficou mais forte. Cheguei a fechar os olhos, perturbado, e, quando voltei a abri-los, um barulho estranho podia ser ouvido vindo de baixo dos meus pés. Algo como um motor. O cenário também era diferente.

— Sua passagem, por favor?

Era o condutor de ônibus, velho amigo da minha mãe, que estava ao meu lado aguardando.

— ...Impossível...

Estava de volta ao ônibus, rumo à minha cidadezinha natal. Mas por que? E Lucida? E o barco?... por acaso foi tudo um sonho louco?

O cara ao lado voltou a insistir. Ele me conhecia e sempre fazia piadinhas chatas de como a minha mãe coruja sempre dava um jeito de me arrastar pra casa nos feriados prolongados. Dessa vez, ela não teria mais que se preocupar em me ter por perto...

Pus a mão no bolso já sabendo que não encontraria mais a minha passagem de ônibus, que no mínimo devia ter desaparecido depois da queda no oceano, mas, para minha surpresa, lá estava ela, dobrada como eu havia deixado depois de comprar. Só então notei que a minha mochila, que também tinha perdido no tumulto, estava presa às minhas costas. Era a confirmação.

— Foi mesmo um sonho...

Isso deveria ter sido uma boa notícia. Não... no fundo, acho que eu já sabia que era tudo fruto da minha imaginação. Um mundo paralelo, só para os que eram como eu... que absurdo. Como alguém como eu pode aceitar aquilo?

O certo a ser feito seria esquecer todas essas coisas ridículas e voltar a me focar no problema real, que começaria quando chegasse em casa e anunciasse que fugi da faculdade, mas continuei pensando em Lucidia durante todo o trajeto. Adel... eu sabia que ele era real. Será que também teve o mesmo sonho, lá onde morava? Não... estou pensando bobagens de novo.

O ônibus chegou onde eu morava. Parou onde eu sempre costumava descer, em frente à Secretaria de Saúde, antes da rodoviária, uma parada ainda mais próxima da minha casa. Sentindo um desânimo maior do que o de quando tinha entrado nele, desci e dei meus primeiros passos em direção de casa.

"Mas... foi mesmo imaginação?..."

VSSSSSSHHHHHHH!

Senti alguma coisa passando por mim a poucos milímetros, a ponto de notar o deslocamento do ar. Olhei para o lado e vi uma espécie de dardo, mais como uma flecha negra, cravada num poste. De onde teria vindo?

Mais ruídos!

Instintivamente, saí correndo, a rua estava estranhamente deserta, e, ao olhar para trás, havia dois novos objetos cravados no chão. Quando é que as coisas anormais iam acabar? Eu já tava cheio disso. Pra completar, havia outra maluquice acontecendo; à medida que corria, as casas iam se repetindo! Era como se eu vagasse eternamente por uma rua minúscula e circular, ou como se dançasse sobre a palma de uma mão gigante.

As flechas misteriosas também continuavam. Agora pareciam vir por outras direções. Sentindo-me cansado, diminuí o ritmo, já pronto pra ser alvejado, até que...

Ouvi o som de duas ou mais flechas ricocheteando em algo. Olhei para cima e só tive tempo de ver o barco passando por cima de mim e caindo com força no chão, formando uma espécie de escudo para mim.

— O barco de Adel?... Mas como?... Ah, o quê?!

Tudo tinha voltado ao normal... o mesmo lugar onde o deixamos... o continente em Lucidia... mas não, estava diferente... onde estava o palácio da imperatriz? Só havia uma grande colina onde ele estava, mas a luz do que antes era a torre do meio continuava brilhando.

— Uma ilusão! — adivinhei, certo de que havia algo estranho com aquele lugar desde o começo.

Olhei ao redor e logo vi uma coisa interessante. Era o menino de antes, que passou ao lado do nosso barco. O mesmo que nos enganou e nos trouxe até ali. Pensei que ele também tinha sido uma ilusão, mas estava bem diante de mim, preparando para sair no seu bote de novo. Nunca fui muito impulsivo, mas naquela hora não me contive e corri na sua direção antes que se tornasse inalcançável em meio àquele oceano anormal.

— Ei, você!

Ele tentou acelerar o passo assustado quando me viu, mas não teve tempo suficiente. O garoto, que era bem menor que eu, começou a gritar pedindo desculpas assim que o levantei pela camisa.

— Eu não tive culpa!

— Diga o que está havendo por aqui! — ordenei no mesmo tom. — Que raio de ilusão foi essa e o que fez com Adel?!

— Não tenho culpa! Juro que não...

Ele só queria saber de repetir aquilo de novo e de novo, o que, devo dizer, só aumentava ainda mais meu nervosismo.

— Garoto, se não falar o que eu quero vou te jogar no meio desse mar.

O desespero no seu rosto quadruplicou:

— NÃO! TUDO MENOS ISSO! E-ele me obrigou a trazer mais vítimas...

— Do que está falando?

— Zamiel... ele está com a minha irmã e me obrigou a trazer mais gente pra essa ilha...

— Quem é esse? — indaguei.

— Um lunático que gosta de torturar os outros — ele disse, e então começou a se debater para que eu o soltasse. — Me deixa ir, se não fizer o que me manda, ele vai matar a minha irmã!

Eu me virei, mas, sem largá-lo, o obriguei a me acompanhar de volta ao interior da ilha bizarra.

— O-o que está fazendo?!

— Resolvendo as coisas — retruquei. — Leve-me até onde Adel e sua irmã estão. E rápido.