O Barco
19 Apenas a Verdade
Notas iniciais
Ainda não estava entendendo... por que eu estava de volta? Não pode ter sido tudo um sonho ou ilusão... não, com certeza não foi! Ilusão devia ser o que estava acontecendo agora. Sim, era isso mesmo. Uma ilusão... mas, maldição, por que aquele olhar típico do meu irmão tinha que parecer tão real?!
— Por que ainda está aí, parado? Vá logo se arrumar.
Como sempre, obedeci mecanicamente. Passando pela sala, no entanto, o telefone tocou e parei pra atender.
— Oii, estou ligando pra saber como você está.
Essa voz... então não podia ser uma ilusão... uma ilusão não chegaria a tanto. Aquela voz era uma das poucas coisas ou talvez a única que reduzia o meu desespero. Mais que qualquer remédio pesado ou qualquer outro tipo de coisa. Ela pertencia a uma das poucas pessoas à minha volta que ainda valiam a pena... "à minha volta" era só modo de dizer, já que, infelizmente, nunca nos vimos ao vivo.
— Lucy... eu tô bem sim... só meio atordoado, hehehe.
Ela deve ter rido, como de costume.
— Com o quê?
— Maluquices da minha mente. Nenhuma novidade.
— Sei... espero não ter te ligado numa má hora.
— Não, não, só o meu irmão me apressando pra sair e ter outra conversa porque não sabe fazer isso dentro de casa. Nenhuma novidade também aushauhashah
— Hmm... então eu falo com você outra hora. Não quero dar mais motivo pra brigarem.
— Mas...
— Depois, Adel.
Ela parecia tão decidida que só me fez sentir ainda mais raiva do dom do meu irmão de só escolher a hora errada pra vir com seus sermões.
— ... Você falou com ele?
— Humm? Ele quem?
— O menino que disse que ia se suicidar — Lucy explicou. — Ele não tinha te pedido ajuda?
— Ah... eu não sei... nós perdemos contato, mas espero que esteja melhor.
— Eu também... bem, ligo depois, melhor você ir logo.
— Tudo bem...
— Só uma coisa — a voz dela mudou um pouco. — Por favor, não deixe que te enganem. Te peço pra que veja somente a verdade.
— Como assim?
— Nada... beijo.
Desligou. Eu poderia ficar bolado com aquilo, mas já tava acostumado a ouvir coisas estranhas dela vez ou outra. Deve ter sido até um dos motivos que não me fez colocar seu nome na mesma prateleira fútil onde estavam todas as menininhas medíocres que às vezes me perseguiam.
Enquanto tomava banho e trocava de roupa, ainda me perguntava qual o significado de tudo aquilo. Então, eu voltei mesmo? Aquilo tudo foi sonho? Era o que tava parecendo... mas por que o vazio dentro de mim parecia aumentar mais?
O fato era que meia hora depois eu já estava seguindo para qualquer lugar dentro do carro do meu irmão. Realmente, aquilo não era novidade alguma. Era procedimento básico e periódico pra tentar por juízo na minha cabeça, de acordo com ele. Desse jeito, é fácil imaginar como eu estava entusiasmado com aquilo, tanto que mantive a cabeça baixa durante todo o trajeto enquanto ele despejava diálogos repetidos.
Eu só consegui esboçar alguma reação numa hora em que, repentinamente, o vidro da porta ao meu lado sofreu uma rachadura.
— O que é isso?! Estão atirando?!
Sem pensar duas vezes, me livrei do cinto de segurança e olhei em todas as direções, mas, ao meu lado, meu irmão continuava dirigindo e falando como se nada estivesse acontecendo.
Outro disparo. Dessa vez pude ver, era uma flecha negra, pequena, que veio pelo vidro da frente e se cravou no encosto da poltrona de trás. Nem isso despertou a atenção do motorista.
— Cara, não tá vendo o que tá acontecendo?! — gritei.
— Do que está falando? — perguntou sem muita emoção.
— Você é cego?! Tem alguma coisa atirando na gente!!
— E daí? É mais que natural que Zamiel queira jogar um pouco com o Barqueiro.
A minha mente deu um giro.
— Como é que é?! Como é que você...
Mas ele me interrompeu e, estacionando o carro, esticou o braço para abrir a porta do meu lado. Logo depois, simplesmente me empurrou para fora:
— Anda, comece logo a correr, senão não vai durar muito. Boa sorte.
— Que?...
O carro arrancou no mesmo instante, deixando-me sozinho no meio da rua. Os sonhos ainda não tinham acabado?!
Mais flechas! Vieram por trás de mim, no sentido de onde tínhamos vindo, e, sem saber o que fazer, muito menos entendendo tudo aquilo, saí correndo. Outra coisa, eu ainda estava na minha rua. Pior... o lugar que meu irmão me deixou era a própria frente da minha casa! Andamos em círculos aquele tempo todo?
— Só pode ser outro pesadelo bizarro...
Trinta segundos depois, torno a passar pela minha casa. Ouvia o som das flechas, mas não conseguia mais vê-las. Passei várias vezes pelos mesmos lugares enquanto corria.
Exausto, caí sobre o chão com a odiosa sensação de que algo ou alguém brincava comigo. Pensei que as flechas tinham parado, mas elas continuavam sendo disparadas lentamente contra o chão, aproximando-se mais e mais de mim. Não sei se conseguiria evitar aquilo por mais tempo. A dor por causa do mergulho violento durante a tempestade ainda me castigava.
— Droga...
Te peço pra que veja somente a verdade.
Abri os olhos. Por que as palavras dela voltaram a ecoar na minha mente?... Lucy disse que eu devia ver a verdade... que verdade?... Poderia ser...
Mais uma vez, encarei a cidade ao meu redor. Sim... estava claro que aquilo não poderia ser real.
— Isso tudo é falso... eu... eu ainda estou em Lucidia...
Outro forte ruído de vitrais se despedaçando. Este, porém, vinha de todas as direções. O céu, o chão, as casas... tudo se espatifava diante de mim, caindo como paredes falsas e revelando o que exisitia de fato. Eu estava num lugar bem alto, com uma pilastra emanando luz em todos os sentidos. Era uma ilha. O oceano negro e nevoento a rodeava por completo. A mesma ilha onde Irwin e eu paramos, mas o palácio da imperatriz não estava mais ali. Aliás, só pude dizer que era a mesma ilha por causa do farol, que antes era uma torre de castelo disfarçada.
— Ilusão... uma maldita ilusão — murmurei, sentindo raiva de mim por me deixar enganar desse jeito.
— Não se sinta tão mal! Qualquer um poderia ser tapeado pelo poder deste lugar — pronunciou-se uma voz.
Virei para o lado, encontrando o dono daquela voz estranha e sarcástica.
— Quem é você?
Ele sorriu de um jeito insano:
— Eu?... Eu sou Zamiel, o caçador.
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