Notas iniciais
/// Recado no S.Spirit /// Ooi, gente ♡ Perdão pelo atraso ao postar esse capítulo, normalmente eu posto pela manhã / o que não foi o caso hoje TuT Enfim, pra quem gosta de Prince, estou quase terminando o próximo lançamento / que vai ser dele / e também vou fazer umas atualizaçõezinhas na listinha de futuros lançamentos no meu perfil, então fiquem ligados ♡ Vamos ver o que Anelise vai aprontar dessa vez kkkk Boa leitura ♡ ♡ ♡

Quando abriu os olhinhos, Anelise se viu em um belíssimo — embora gasto — quarto rosa de espelhos.

Haviam barras por todos os lados. Ela não as alcançava, era pequena demais. Puxou alguns livros para perto de si e montou-os como uma escadinha. Subiu e, enfim, conseguiu alcançar os apoios.

— Une, deux… une, deux…

Murmurava baixinho, enquanto sua perna esticava e encolhia em um exercício de alongamento. Apenas nesse momento, percebeu que estava usando lindas meias brancas e sapatilhas rosa. Percebeu, também, que suas pernas eram mais curtas do que lembrava, e, enfim, olhou-se no espelho e teve a plena visão de si mesma.

Nesse momento… acordou.

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Quarto de Anelise, Casa dos Marlborough – 08:46 hrs

Naquele dia, Anelise acordou com um desejo estranho.

Lentamente saiu da cama e começou a se aprontar, não quis esperar a empregada para lhe auxiliar, detestava não poder fazer as coisas sozinha. Vestiu um vestidinho florido de cor verde água e babados brancos, com a saia um pouco mais curta que o comum, a tocar o joelho. Logo após, ajoelhou-se e buscou, embaixo da cama, aquela caixinha velha de cor desbotada que guardara por todos esses anos: lá estavam os seus sapatinhos de dança.

— É, velha amiga… Olá novamente. Espero que ainda caiba em mim.

Anelise colocou as sapatilhas e amarrou os lacinhos na perna, levantou-se e deu uma boa olhada no espelho. De repente, sentiu seu coração palpitar mais forte, as energias da noite anterior pareciam ter retornado. Ela mordeu os lábios, sabia que era um perigo guardar aqueles sentimentos, mas não podia negar, aquele homem era o responsável por tudo o que estava sentindo. A vontade de dançar, de reaver o seu passado, estava ainda mais enraizada em seu coração.

Correu até a pequena vitrolinha que tinha e colocou um disco para tocar. Colocou em som bem baixinho, não podia perturbar os seus pais com isso, conde Herder jamais aceitaria uma filha artista.

Logo após, um, dois, um, dois, e Anelise estava no mundo da lua. Ainda enferrujada, os pezinhos não estavam mais acostumados com a ponta do sapatinho, mas a perseverança é um dos primeiros atributos que uma bailarina aprende a exercitar.

No meio do treinamento, Sofia adentrou ao quarto sem bater à porta.

— Irmãzona, me ajude a abrir os presentes! São mui… tos…

Ela arregalou os seus belos olhinhos verdes.

— Uau… Lise, você desenterrou essas coisas mesmo, hein?

— Não é? Eu… tive vontade de dançar. Acho que você estava certa sobre o "bailarino misterioso" no fim das contas.

A ruiva gargalhou e foi acompanhada pela irmã, que fechou a porta e se acomodou em qualquer cantinho ali para vê-la dançar mais um pouco.

— Você dança tão bem… Por que não volta a fazer isso?

— Não posso, você sabe… Papai quer que eu me case, não que eu vá para um bordel.

— Papai é exagerado às vezes, bailarinas não vão para bordéis, elas se apresentam em grandes espetáculos!

— Às vezes, sim…

Anelise suspirou e pausou o seu treino. A música continuou a rodar, sem esperar pelo seu retorno, mas ela estava pensativa e não voltaria tão cedo, estava inquieta. Sofia não reparou, ainda estava admirando as belíssimas sapatilhas cor de rosa pérola em seus pés, não notou como sua irmã parecia batalhar em seus próprios pensamentos, perguntando-se se devia contar tudo o que vivenciou na noite passada ou se guardaria aquelas sensações para sempre.

Sem pensar muito, Anelise resolveu ceder. Era perigoso, mas, de todos, Sofia era sua maior confidente, sabia que protegeria um segredo em seu coração.

— Preciso te confessar uma coisa… mas não pode contar a ninguém, Sofia, ninguém. Ninguém mesmo!

Correu para desligar a vitrola. Sofia abriu os olhinhos novamente, estava mais atenta a cada palavra.

— Conte-me! Não irei falar a ninguém…

— Promete? De "xizinho"?

Sofia se levantou e prontamente assumiu uma postura ereta. Fez um "xis" imaginário no peito direito e assentiu com a cabeça.

— Prometo!

Anelise sorriu, em seguida foi se acomodar ao lado da irmã. Enquanto isso, passou a desatar os lacinhos e remover os sapatos.

— Eu… vi o bailarino ontem.

— Eu sei, todas vimos!

— Não, mas… eu o vi nos corredores.

Sofia a olhou com surpresa.

— Depois ele perambulou pela casa??

— Não sei… enfim… eu o vi nos corredores dos quartos. Conversamos um pouco… quer dizer… eu tentei, ele não é muito de falar. Saímos para os jardins… ele me convidou para dançar. Eu…

A ruiva suspirou, essa seria a parte mais difícil de revelar.

— Sofia… não pode contar a ninguém, isso não só vai prejudicar a mim, vai prejudicar a ele também.

— Irmã… não me diga que vocês…

— Não! Não, não foi isso… não isso… bom, foi quase. Nós… Eu toquei no corpo dele!

Anelise puxou um travesseiro e cobriu o rosto, queimando em vergonha. Sofia arqueou as duas sobrancelhas.

— Como assim?

— Eu toquei num corpo de um homem, Sofia! Foi… foi mágico! Eu nunca tinha tocado em um antes! Os ombros fortes, o peitoral liso, os músculos definidos… a pele quente, tão quente, a vontade era de me enrolar naqueles braços! E a… a cintura larga, os quadris, as pernas…

Ela mordeu os lábios.

— Eu quase tocava… quase, bem quase… mas a mamãe chegou e atrapalhou tudo!

— Ela pegou vocês??

— Não… ela não nos viu, mas ele fugiu quando a ouviu me chamar. Ah, Sofia…

A ruiva suspirou.

— Acho que estou apaixonada.

Ao ouvir exatamente aquelas palavras, Sofia abriu um sorriso largo e extravagante, um tanto provocativo, seguido de um olhar cúmplice.

— Humm, tá apaixonada!

— Shh, quieta!

— Você não é a mulher livre de maridos, que quer viver a vida longe da sombra de um homem?

— Eu sei! Mas ele é diferente, Sofi, ele é rebelde! Ele é um transgressor de regras, rebelde. Ele perambulou por uma casa que não é dele, me levou aos jardins… Eu disse que era solteira e sabe o que ele fez? Segurou minhas mãos… olhou nos meus olhos… deixou que eu tocasse o seu corpo. Ele fez de propósito, ele é mau… Sofia, eu quero vê-lo de novo.

— Mas, Lise… e se ele for velho demais pra você? Você não se importa mais com isso?

Anelise arqueou a sobrancelha.

— Como assim?

— Papai me disse, uma vez, que foi a uma das primeiras apresentações desse bailarino quando eu tinha apenas quatro aninhos!

— Hum… bom, então acho que a possibilidade de ele ter quinze anos, como você, é bem pequena — brincou, rindo baixinho em seguida. — Ele não deve ser tão velho, Sofi, eu o vi de perto. Tenho dezessete anos, ele deve ter uns… não sei…

— Eu acho que deve ter, pelo menos, uns trinta!

— Hum… não que eu goste muito, mas relevaria.

— Ou quarenta…

— Não joga praga, ele não pode ser tão velho assim, ele é bem conservado.

Sofia gargalhou.

— Ah, irmã, é tão fofinho te ver o defendendo! Mas papai ficaria louco, ele quer te casar no mínimo com um general. Se souber que você quer um dançarino…

— Eu sei, eu sei, é um amor proibido…

Anelise suspirou.

— … como Romeu e Julieta. Só que eu não vou morrer, não! Eu vou dar o meu jeito… mas preciso de ajuda.

Sofia revirou os olhos.

— Ai, ai, de novo esses teus planos…

— Eu preciso que me ajude, Sofia! Papai e mamãe jamais negariam um pedido seu! Você precisa chamar o bailarino novamente… não sei… Qual a próxima festa?

A menor moveu os ombros.

— Não sei… o aniversário da mamãe?

— Mamãe odeia extravagâncias, jamais chamaria ele.

Respondeu, melancólica. Sofia pensou por alguns instantes.

— E se… Ah! E se eu dissesse pra mamãe que é melhor ter os adultos em um salão e os jovens em outro?

— Eles iam pensar que nós iríamos fazer imoralidades uns com os outros, eu sei o que os velhos acham dos mais novos.

— Com os empregados monitorando?

Anelise piscou os olhinhos azuis por alguns instantes, em seguida sorriu.

— Isso… Fantástico! Agora, preciso que consiga convencê-la…

— E você acha que eu vou te ajudar assim, sem mais nem menos, depois de ter tentado me empurrar para aquele vagabundo do Thomas??

A ruiva arregalou os olhos.

— Thomas! Ah, pastel! Eu o deixei esperando no corredor!

Sofia se levantou e levou as mãos à cintura.

— É! Eu me encontrei com ele, depois. Eu pensei que ele não iria!

— Me perdoa, Sofi… É que o Thomas é meu amigo, você sabe. Além do mais, eu não confio nos pretendentes que o papai e a mamãe arrumam, você é muito nova e eles são uns pervertidos! Eu confio mais no Thomas para cuidar de você, eu sei que ele não te machucaria.

Sofia negou com um balançar de cabeça, não pôde segurar um sorriso.

— Obrigada por cuidar de mim, irmãzona. Eu só… não quero forçar nada com o Thomas, tá bom? Você entende isso?

Anelise assentiu.

— Sim… não vou fazer mais, prometo.

Sofia manteve o sorriso.

— Okay, eu espero que hoje a mamãe esteja livre, vou falar com ela.

Ao ouvir aquelas palavras, os olhos da ruiva se iluminaram.

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Sala de estar – 10:34 hrs

As semanas se passaram e Anelise não conseguia tirar a tão aguardada festa dos pensamentos.

Ainda teria que aguardar alguns poucos meses, mas sua ansiedade trouxe consigo algumas ideias que não saiam da sua cabeça. Vestiu-se para sair, pôs o seu chapéu com flores, as botinhas e buscou a mãe com o olhar. A encontrou na sala de estar, tocando um pouco de seu piano enquanto seu marido degustava uma bebida, num sofá próximo, antes do almoço.

— Bom dia, mamãe. Bom dia, papai.

— Bom dia, meu amor.

Respondeu Matilda, com um sorriso no rosto. Anelise parecia diferente. Não correu, não falou alto, não estava com a barra do vestido suja. A ruiva acariciou discretamente a cesta de bambu que carregava, parecia apreensiva, mas buscou se manter calma.

— Posso sair hoje? Quero comprar alguns tecidos para costurar uns vestidos.

Quando ouviu aquele pedido, os olhos da mulher cintilaram.

— O que disse?

— Hum… quero comprar tecidos.

— Você quer costurar?!

— Querida, ela quer comprar tecidos para costurar, foi exatamente o que você ouviu.

Disse o mais velho, rindo em seguida.

— É que… é uma surpresa. Anelise, você nunca…

— Eu sei, eu sei, não costumo me interessar por atividades de mulher, mas estou amadurecendo, mamãe, estou ficando mais velha. E no dia que eu tiver o meu filho? E se o meu futuro e querido marido quiser sapatinhos cor de pêssego para o bebê e as lojas só tiverem cor-de-rosa? Como farei? Preciso saber costurar!

Aquelas palavras deixaram os adultos sem voz. Eles se entreolharam, ora desconfiados, ora surpreendidos.

— Anelise…

— Pois bem, meu amor! Vá, vá! Leve a senhora Everglow com você, ela vai orientá-la…

— Não, não, mamãe! Eu vou sozinha, tudo bem? Eu quero mostrar como sei escolher lindos tecidos sozinha!

A mulher sorriu.

— Pois bem, vá, meu amor. Volte antes do almoço.

Anelise sorriu e se retirou sem comemorações. Por um segundo teve medo de que não funcionasse, mas a conversa sobre maturidade e deveres de uma mulher não tinha como falhar. Com a permissão concedida, tomou a bicicleta do pai, prendeu a cesta no suporte frontal e seguiu em direção à cidade.

O tempo estava deprimentemente nublado, como todos os dias daquele mês, mas nem aquele pequeno detalhe lhe tiraria a concentração, pois ela já sabia o que iria comprar: vermelho, vermelho e mais vermelho, tecidos vermelhos de cores intensas e fechadas. Ela odiava trajes extravagantes, mas, pela primeira vez, queria se sentir uma mulher, não uma menina. Atrelado a esse desejo, iria fazer o seu próprio traje de gala para a tão esperada noite. Nada dos gostos da sua mãe em seu corpo. Agora, ela ditaria as regras.

— Mas olha só quem é…

Murmurou a garota. Ao longe, também olhando os tecidos à venda, estava Thomas Garth.

Ela lentamente se aproximou.

— Ei, Thomas! O que está fazendo?

O garoto cruzou os braços.

— Ué, estou escolhendo o tecido do meu terno para a próxima vez que for convidado. Assim não precisarei ficar plantado num corredor, aguardando por um.

O tiro foi certeiro. Anelise engoliu seco e aquiesceu.

— Ora… eu ia te dar um de graça, seu mané! Não consegui achar o terno naquela noite, mas você pôde aproveitar a festa, pelo menos, e não perdeu nada!

— Perdi uma valsa com a lady Sofia. Ela realmente não gostou das minhas roupas.

— Tem certeza que foram as roupas o problema?

Ela o encarou com um ar de deboche, em seguida deixou escapar um sorrisinho sapeca e começou a olhar distraidamente os tecidos.

— E você, veio fazer o quê?

— Escolher os tecidos do vestido que irei usar na festa da mamãe. Ah, você está convidado.

— De novo? É melhor eu conseguir um emprego logo, então. Me recuso a ir com o meu terno surrado.

— Toma. Isso é pra ajudar, tudo bem?

O menino arqueou as duas sobrancelhas, surpreendido ao segurar um saquinho de notas e moedas cedido por ela. Contou-as freneticamente e notou que não era todo o valor para um terno, mas já lhe deixava meio caminho andado.

— Eu queria poder ajudar com mais, mas papai vai perceber…

— Que é isso? Fica tranquila! Isso aqui já é um bom começo!

Anelise sorriu.

— Pois bem. Agora vou voltar a ver os tecidos, eu não posso errar agora ou mamãe nunca mais vai me deixar comprar pano sozinha.

Thomas gargalhou.

— Au revoir, senhorita! Estarei no baile com outro semblante, você verá!

A garota se afastou, sorrindo, e tornou a buscar os tons de vermelho em sua mente. Estava feliz por ajudar alguém mais uma vez, porém, era uma outra coisa que inundava os seus pensamentos naquele momento: na noite do baile, precisaria arquitetar outro plano. A surpresa que estava guardando não poderia ser contemplada pelos olhos de mais ninguém… só pelos daquele homem.

Notas finais
Próximo capítulo: E, como num passe de mágica, as luzes se acenderam mais uma vez. Ela ansiosamente virou o rosto para a pista, porém, não, ele não estava lá. Estava nas mesas, sobre as mesas, reafirmando a sua ousadia. Sua postura era dominante: as pernas posicionadas, o peito estufado, os ombros firmes, os trajes justos em preto e prata, a cabeça erguida, os cachos a cair sobre os ombros, os lábios pintados de vermelho, a pele pálida e uma máscara carnavalesca de coloração fúnebre a cobrir os olhos brilhantes como pedras de quartzo negro. Os jovens pareciam perplexos com sua entrada repentina, e era com esse sentimento que ele estava contando. Aquela noite seria de surpresas.