O Bailarino
5 Primeiro Beijo - Parte I
Notas iniciais
Salão principal, Casa dos Marlborough – 19:25 hrs
Finalmente, a noite.
Ao contrário da euforia alimentada pelos anseios de Sofia e pela rebeldia de Anelise na última comemoração, esta estava até então bastante calma e confortável. O salão principal estava cheio de adultos educados e elegantes, muitas mulheres de cores neutras, muitos homens de ternos escuros. Condessa Matilda estava ao lado de seu amado marido, conde Herder, recebendo os convidados com a elegância e sutileza de uma dama.
O homem anunciou.
— Sejam bem-vindos. Neste ano, estamos fazendo algo diferente. Está acontecendo um baile de debutante no salão de festas, os rapazes e as moças podem passear por lá se desejarem.
— Deixamos muitos empregados os supervisionando.
Complementou a mulher. A marquesa Millieth vascolejou o leque verde esmeralda que tinha em mãos.
— Veja, querido, que excelente oportunidade para o nosso Aaron conhecer uma moça de família.
— É uma decisão ousada deixar os empregados encarregados dos jovens, mas isso me parece interessante.
Comentou o marquês. Barão Ortega, um homem carrancudo e de poucos amigos, resmungou, contrariado.
— Hunf! Deixar os jovens longe dos pais só os deixará mais à vontade para fazer as sacanagens deles! Meu filho ficará comigo.
Disse, rispidamente, enquanto puxava uma criança de mais ou menos cinco anos para perto de si. O menininho de grandes e belíssimos olhos verdes, trajado de um suntuoso terno de linho e colete de veludo, tinha as bochechas vermelhas e os olhos lacrimejantes. Embora não estivesse chorando, parecia tê-lo feito mais cedo.
— Que assim seja. Fique à vontade, barão.
O homem se afastou com sua criança, sem se despedir. O marquês discretamente suspirou.
— Tem sido assim desde a morte de sua esposa, não?
— Acredito que sim, mas não nos diz respeito. Aproveitem a festa…
Em poucos instantes, a condessa conseguiu alcançar sua filha mais velha com o olhar, estava atravessando os corredores.
— Lady Millieth, já lhes apresentei minha primogênita?
— Anelise, venha cá!
O pai a chamou. Anelise estava trajando um lindo e coberto vestido branco de cetim, que deixava os seus ombros nus e lhe dava um decote discreto. As mangas eram compridas e sutilmente bufantes, a saia era longa e alastrava-se pelo ambiente.
— Sim, papai?
— Cumprimente o marquês Simon de Montebelo e sua esposa, marquesa Millieth.
— É um prazer conhecê-la, querida Anelise.
A ruiva deu uma boa olhada no casal e logo entendeu do que se tratava tudo aquilo. Ela encarou a mãe, que apenas lhe desferiu um olhar assassino, como se suplicasse em tons de ameaça para não constrangê-la. Seus pais nunca desistiriam de tentar lhe arrumar um marido, e, até o momento, ela não podia negar os seus pedidos, apenas talvez esquivar-se deles.
— O prazer é meu. Acredito que verei o filho de vocês no baile...
— Anelise…
Murmurou a condessa. Millieth deu um sorriso casual.
— Sim, ele estará lá. É um homem alto e de belo porte. Espero que possamos nos ver mais vezes em outras condições, querida Anelise.
Ao ouvir aquelas palavras, Matilda quase esbanjou uma expressão maravilhada. Millieth estava demonstrando interesse em sua filha, embora não fosse tão difícil conseguir pretendentes para a menina. Anelise era uma linda garota ruiva de pele rosada, olhos cristalinos, traços finos e de olhar dócil, o que costumava encantar os homens e suas matriarcas, mas o único detalhe a ofuscar a beleza da ruiva era justamente o que sua mãe não conseguia controlar ou disfarçar: seu vocabulário afiado.
— Estou ansiosíssima.
Ela murmurou, tentando segurar uma microexpressão de desprezo.
— Com licença, senhores, damas, mamãe…
Com um leve inclinar de cabeça, despediu-se dos mais velhos e foi em direção ao salão onde estavam os jovens, o espetáculo que aguardara por todos esses meses estava prestes a começar.
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Salão de festas – 19:54 hrs
— Demorei muito? Ele chegou?
— Eu não o vi ainda, mas mamãe jurou que o contratou!
A ruiva suspirou e assentiu, em seguida buscou o seu lugar junto à sua irmã.
— Eu vi o Thomas umas duas vezes… Você não cansa de chamá-lo, não?
— Menos, Sofi, ele é plebeu. Ele não pode ir a festas assim, com frequência.
Sofia suspirou.
— Espero que ele não coloque minhocas na cabeça.
De repente, as luzes se apagaram. Normalmente as meninas ficariam em alerta, mas Anelise sabia do que se tratava aquilo.
Sorriu. No fundo, ela sabia o que a aguardava.
E, como num passe de mágica, as luzes se acenderam mais uma vez. Ela ansiosamente virou o rosto para a pista, porém, não, ele não estava lá. Estava nas mesas, sobre as mesas, reafirmando a sua ousadia. Sua postura era dominante: as pernas posicionadas, o peito estufado, os ombros firmes, os trajes justos em preto e prata, a cabeça erguida, os cachos a cair sobre os ombros, os lábios pintados de vermelho, a pele pálida e uma máscara carnavalesca de coloração fúnebre a cobrir os olhos brilhantes como pedras de quartzo negro. Os jovens pareciam perplexos com sua entrada repentina, e era com esse sentimento que ele estava contando.
Aquela noite seria de surpresas.
— É ele…
Murmurou Sofia, mas as palavras já haviam fugido da boca de Anelise, que apenas o observava em silêncio.
A música teve início: a Quinta Sinfonia de Beethoven, uma decisão audaciosa. A melodia dramática e frenética inundou o salão e despertou o desejo jovial dos ali presentes por um pouco de diversão naquele ambiente frio e disciplinado.
O bailarino desceu em um pulo performático e seguiu os passos conduzidos pelo seu corpo e pelos seus sentimentos. Tal como na última apresentação, a música era novamente o seu marionetista, e Anelise estava presenciando mais uma vez esse detalhe em sua arte.
— Um, double tour… dois, double tour… Oh!
Assim como a ruiva lhe guardava um segredo, ele também tinha os seus.
A cada conjunto de notas dramáticas, uma pirueta, uma chuva de prata e, então, ele desaparecia. Assim como era um exímio dançarino, tinha também interesse no ilusionismo. O público o buscou com o olhar, pela primeira vez ele testou propositalmente quebrar o transe de suas performances e reavê-lo instantes depois… e conseguiu. O homem reapareceu antes que a próxima nota dramática iniciasse, por trás das cortinas esvoaçantes de musseline vermelha, e mais uma vez tinha a atenção de todos para si.
— Magnífico…
Anelise deixou escapar, não sabia se de admiração pelo espetáculo ou se de paixão pelo artista, mas as palavras tornaram a travar em sua mente quando aquele homem tornou a bailar com a melodia. Ao se aproximar das notas finais, ele estava pronto para finalizar os passos, todavia, não sem antes presentear as filhas dos patrões com seu agrado.
Uma chuva de prata. Ele desapareceu. As luzes baixas do salão auxiliaram na magia. Anelise o buscou com o olhar mais uma vez, porém, estagnou ao sentir uma respiração quente e confortável aquecer-lhe a nuca, ele estava atrás de si.
De trás das irmãs, que estavam uma ao lado da outra, as mãos do homem cobertas por luvas negras invadiram seus campos de visão, com graça e delicadeza, e presentearam as meninas com uma rosa para cada. A de Sofia era cor-de-rosa, uma homenagem ao seu aniversário que ocorreu meses atrás, e a de Anelise, como era de se esperar, vermelha. Aquela era a reciprocidade que ela no fundo almejava, uma cor tão intensa quanto o desejo que tinha pela sua companhia, pelos seus encantos, pelo seu eu e para descobrir-se com ele.
Tomou a rosa em mãos com cuidado, como se a tal fosse frágil e quebradiça. Notou que não era falsa, as pétalas eram frescas e exalavam um doce perfume. Notou como ele teve o cuidado de retirar espinho por espinho, como o seu caule parecia liso e macio.
E então, suspirou, tomou coragem e virou o rosto para contemplá-lo de perto…
… mas ele não estava lá. A chuva de prata ainda caía por sobre suas cabeças, e o misterioso bailarino retornou para o centro do salão após a exata última nota sinfônica.
Os convidados, mais uma vez, custaram a reagir. Foram instigados instantes depois, quando um deles conseguiu quebrar o transe que o artista naturalmente provocava e ovacionar com veemência. Sofia aplaudiu de pé, mas Anelise novamente tendeu a ficar em seu lugar.
As luzes retornaram em todo o seu brilhantismo, os jovens aos poucos voltaram a socializar dentro de seus limites morais, e a ruiva, como se estivesse buscando água no deserto, prontamente se levantou e caçou o seu alvo com o olhar, precisava alcançá-lo antes que ele desaparecesse do seu campo de visão.
Todavia, o misterioso bailarino já havia partido.
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