O Azar dos Heróis
4 O primeiro passo
Notas iniciais
Acordei bem cedo, cerca de meio-dia e meia, liguei para Noah que disse já estar a caminho da minha casa. Tentei explicar que o hospital ficava perto de sua casa, mas ele não quis me ouvir, não podia fazer absolutamente nada. Peguei a primeira roupa que eu encontrei na bagunça que eu chamo de armário e então desci até a cozinha.
–Mãe, vou sair com o Noah.
–Por mim, tudo bem. Mas quando você voltar vai ter que ficar com a sua irmã para mim.
–A Anne? Porra, tudo menos isso.
Ela não falou nada, soube que não haveria mudança no nosso contrato verbal. Então fui andando até encontrar o espantado e perdido, Noah Meyer. Ele estava com aparência de cansado e de quem correra uns cinco quilômetros. Seus olhos estavam arregalados e o seu nariz vermelho.
–Cara, o que houve?
–Isso não é importante. Vamos?
Fiquei tentando imaginar o que tinha acontecido, juntei coragem e segurei a vontade de rir e comecei a falar.
–Noah... ham... o hospital fica perto da sua casa.
–Oi? –ele disse me encarando. –Por que você não disse antes? Você me fez andar até aqui...
–Eu tentei. Eu juro, mas você não para de falar nem quando está dormindo.
Fomos andando até o hospital, com o Noah falando o tempo todo, não prestava em suas palavras, mas sim em seus paços apressados que diziam quanto tempo faltava para chegarmos. Seus olhos expressavam medo e dúvida, assim como os meus. Não sabia o que esperar de tudo aquilo. Existem bilhões de pessoas no mundo, como iria acha-la, nem sabia se ao menos ela estava viva.
Desde que nasci, só voltei naquele hospital uma vez, Noah ficou observando os lugares ao seu redor, acompanhei o seu olhar, como as salas tinham pouca cor, tinha crianças por todo lado, nascendo, morrendo, chorando. Uma enfermeira chegou ao meu lado, começou a falar, Noah foi seguindo a senhora e eu fui atrás. Então pedi as fichas, ou sei lá o que era aquilo, de nascimento do ano que eu nasci, apenas de meninas.
–De qual dia? –ela perguntou olhando fundo nos meus olhos, com um ar de cansada.
–Quatorze de junho. –disse olhando em sua direção, mas um olhar sem foco exatamente.
Começamos a olhar, Noah parecia concentrado, olhando cada nome até que achou um cartão com nome e sobrenome que procurávamos. Ele veio correndo até mim, mais agitado e curioso do que eu. Olhei cada dado, tudo, nome, sobrenome, grupo sanguíneo, era exatamente igual ao meu. Não sabia se estava assustado ou feliz, esse era o meu primeiro passo para conhecê-la. Depois disso realmente não fazia a menor ideia do que fazer em seguida. Olhei para cara do Noah e ele olhou para mim.
–E aí cara, o que fazemos em seguida?
–Não sei Noah, não sei.
Com toda certeza que eu tenho, achar uma pessoa perdida em um mundo com sete bilhões de pessoas é a coisa mais difícil que um garoto sedentário já fez. Porém existe sim um lado bom nessa história, o melhor amigo desse garoto sedentário, que sou eu, é um incrível hacker do ensino médio. Liguei para ele, não ouvi sua voz, ele não atendera, deitei na minha cama e esperei o sono chegar até mim.
Minha mãe me chamou para começar o dia, trabalhar era o pior castigo que o homem podia inventar, acordar cedo não era melhor nem pior do que isso, simplesmente era tão horrível quanto. Não consegui tirar esse certo assunto da minha cabeça, minha irmã poderia ser qualquer menina por aí. Por um minuto consegui tirar Isabelle do primeiro plano nas minhas prioridades, não quero dizer que a esqueci, porque eu ainda lutaria por ela. Apenas coloquei meu uniforme, andei calmo, não queria chegar à lanchonete, meti a mão no bolso e achei aquela foto minha com a minha irmã, não tirei dali porque gostava de olhar, me sentia feliz de saber que eu tinha uma irmã, mesmo que não aguentasse mais pessoas naquela casa. Desde ontem, como queria vê-la passando do meu lado e saber que era ela, nesse, momento esbarrei na Emily, que estava com o Jake Banks, seu melhor amigo desde a infância, ele tinha cabelos pretos e olhos claros, todos achavam que ele e Emily se... pegavam, eu não fazia a menor ideia e nem queria saber, simplesmente não era da minha conta e eu tinha coisa melhor para refletir.
Entrei na lanchonete e estava completamente vazia, apenas os funcionários, sentados, alguns chorando, outros em pé, mas com a cabeça baixa, não sabia o que estava acontecendo, então uma garota que estava lá, uma que eu não conhecia, chegou perto de mim e me falou o que havia acontecido. Grace morrera, não a conhecia direito, porém a morte de uma pessoa sempre afeta as outras a sua volta. Fiquei um tempo lá com o pessoal e com a sua filha também, porém não aguentei ficar naquele clima por muito tempo então fui para casa.
No caminho fui pensando em várias possibilidades de achar Megan, ou seja lá qual for o seu nome agora, o problema é que nada veio a minha cabeça, nenhum plano de mestre, nenhuma ideia brilhante, simplesmente nada.
Quando cheguei Anne estava deitada no sofá, assistindo um daqueles programas infantis que ela adora, corri para o meu quarto, sentei na minha cadeira e apoiei minha cabeça em minhas mãos, enquanto meus cotovelos encostavam-se à madeira dura da minha mesa. Fechei os olhos por um pequeno espaço de tempo, e então o meu telefone tocou me despertando daquela passagem para o mundo do meu subconsciente, apenas atendi com uma voz de cansado.
–Noah? –perguntei pelo simples motivo dele não ter dito nada.
–Desculpa por não atendido ontem, é que eu estava com a Lisa. –ele disse enquanto sentia que ele sorria para o telefone.
–Sério? –perguntei abismado com a notícia.
–Não, eu estava apenas dormindo. –ele deu um pequeno espaço de tempo antes de continuar. –Travis Walker –ele parou para respirar e continuou. -eu tive uma ideia para começar a procura-la, não é uma ideia muito inteligente, mas pode funcionar.
–Qual ideia?
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