O Azar dos Heróis
3 A primeira ideia
Notas iniciais
Não podia acreditar que em breve teria mais uma criança morando naquela casa, já não basta a Anne? A resposta para os meus pais era de fato um não. Jurava com todas as minhas crenças que eu seria o filho caçula naquela casa, até Anne nascer, e depois eu tinha certeza absoluta que Anne seria a última, mas pelo visto, não.
Quando minha mãe estava com dezessete anos, ela ficou grávida do Taylor que rezou com toda a sua fé, para parar por ali, porém três anos depois veio eu, e aí foi a minha vez de rezar para parar com a quantidade de filhos, e parou, quer dizer, até cinco anos atrás, quando Anne veio.
Fui para o meu quarto, sentei na minha cadeira e fiquei um bom tempo sentado, sem fazer absolutamente nada, então comecei a vasculhar o meu armário, sem saber o que eu queria achar, talvez um caminho para Nárnia, ou qualquer coisa do tipo, então achei uma pasta que quando fui mexer, caiu com toda voracidade em mim, vi algumas fotos de quando eu era pequeno, vi fotos do Taylor, então fui atraído pela enorme vontade de mexer e descobrir o que de tão especial tinha naquela pasta que me atraiu.
Fotos. Apenas fotos, minhas, do Taylor, da Anne, dos meus pais, nada demais, não até eu começar a guardá-las. Tinha uma que eu não havia visto. Uma que realmente me encheu de curiosidade e dúvida. Era apenas uma foto comum em uma maternidade, minha mãe me segurando, no dia do meu nascimento, mas, ela estava segurando um outro... um outro bebê.
Sabia que devia falar com os meus pais, estava morrendo de curiosidade, mas tinha uma hora certa e com toda a certeza essa hora não era agora. Tentaria descobrir sozinho, se não conseguisse, falaria com eles. Liguei imediatamente para Noah, ele era completamente bom em... em tudo. Ajudaria-me de alguma forma, não sabia como, porém ele saberia.
Inventei que ia dormir na casa dele, o que não era completamente mentira, afinal eu ia dormir lá, então fui o mais rápido possível, ele apenas abriu a janela e eu pulei para o quarto dele.
–Não acorde os meus pais, caramba! –ele disse enquanto sussurrava.
–Cara, são 8:30 da noite!
–Eu sei disso, você sabe disso, mas eles não, dormir cedo para eles é tão importante quanto o computador para você.
–Então a parada é séria. –disse rindo.
–Vamos para o real assunto que te trouxe aqui. –ele disse fazendo sinal para eu parar de rir.
Apenas mostrei a foto, estava um pouco amassada e com aquele aroma de velha, ele apenas olhou por um bom tempo, em torno de dois a cinco minutos, analisando cada detalhe crucial na foto, quando achei que ele ia falar alguma coisa inteligente, ou que ele tinha bolado um plano de mestre, por fim ele apenas olhou para a minha cara.
–Sim, uma foto.
–Cara, para uma pessoa tão inteligente você algumas vezes é tão burro. Olha direito para foto, anta.
Então ele voltou a olhar a foto e ficou calado por mais um bom tempo, até que as palavras voltaram a sair.
–Cara, esse aqui é você? –ele disse enquanto tentava conter o riso.
–Sim, mas não é isso... –disse aflito e já com raiva quando fui interrompido
–Você era tão fofinho. –ele disse já não conseguindo se conter, e por fim riu. –Tá agora é serio, desde quando você tem uma irmã?
–Eu não sei, mas pelo visto desde sempre.
–E o que você quer fazer a respeito?
Era uma boa pergunta, não fazia a menor ideia do que ia fazer, não fazia a menor ideia se tinha alguma coisa que eu poderia fazer, como ia resolver o caso, eu ainda não sabia, porém não era o tipo de pessoa que descobria algum segredo e deixava por isso mesmo, talvez esse fora o tão grande segredo escondido pelos seus pais, então eu, Travis Walker tinha uma irmã... uma irmã gêmea. Noah me encarava enquanto franzia o cenho, eu olhava para todos os lugares, mas não para um ponto fixo, no meio de todo aquele assunto serio que perturbava minha cabeça, mexia com a minhas lembranças e bagunçava minhas memórias, o cara mais boboca que por coincidência estava sentado ao meu lado começou a falar, e quando isso acontecia, não era sinal de boa coisa.
–Será que sua irmã é gata? Quero dizer, nos dias de hoje? –ele disse enquanto fazia cara pensativa, então a única coisa que fiz foi tacar o travesseiro na cara dele. -Porra cara. Vai dar uma de irmão superprotetor agora? –ele disse enquanto ria das suas próprias piadas, se ele não fizesse isso, quero dizer, rir, ninguém mais fazia.
–Se ela é minha irmã gêmea, ela deve ser linda. –disse enquanto ele balançava a cabeça em sinal de negação.
O fato era, eu tinha uma irmã gêmea. Queria descobrir o que acontecera com ela, quem era. Resolvi que devia falar com os meus pais. Tentaria esperar até amanhã, Noah já estava dormindo enquanto eu ficava parado ali, perdido em meus pensamentos, tentando achar um caminho, para algum lugar, onde pudesse encontrá-la. Acabei caindo no sono, sentado naquela cadeira desconfortável que de fato acabou com a minha coluna.
Quando levantei vi que Noah ainda estava dormindo, então apenas peguei meu notebook e fui andando, pulei a janela como fizera antes e corri para casa.
Cheguei em casa, parecia até uma reunião de família, Taylor, Kate, Anne, Jennifer, mamãe, papai, não sabia o real motivo de todos estarem lá reunidos, depois lembrei da gravidez idiota da minha mãe.
–Já chegou? Pensei que ia ficar mais tempo sem você.
–Cala boca, Anne. –disse enquanto a fuzilava com o olhar. –Mãe, preciso falar com você.
–É sobre “aquela” conversa não é Travis? –Taylor falava enquanto ria, ele só pensava besteira.
–Não. Não é porque você teve filho com dezoito anos que eu vou querer seguir os seus paços.
–Nossa que foi? Idiota. Por isso não tem uma namorada, ninguém te aguenta. Aí você fica pegando o Noah. –ele disse já com um tom de bravo, com uma pitada de cinismo.
Deixei Taylor sem uma resposta, podia não ser pegador, mas de fato não era gay, e se eu fosse, não escolheria o Noah. Apenas subimos para o meu quarto, minha mão estava suando frio, não sabia como ia contar que descobrira o que tinha uma irmã. Minha mãe provavelmente iria surtar e meu pai ia ficar com aquela cara de espanto que ele fazia constantemente.
–Mãe... –comecei, entretanto, não consegui continuar a minha fala. Peguei a foto que guardara em meu bolso e mostrei com total certeza do que eu estava fazendo.
Minha mãe não falou nada, meu pai muito menos. Apenas ficamos lá sentados, um olhando para a cara do outro, no puro silêncio que completava aquela chocante cena. Até meu pai quebrar aquele silêncio que praticamente me deixava com dor de cabeça.
–Devíamos ter te contado.
–Deviam.
Então meu pai começou a falar os enormes motivos para esconder-me aquilo, ele começou a contar que quando minha irmã foi sequestrada na maternidade, uma névoa de tristeza e decepção invadiu a casa, e que a minha mãe entrou em uma forte depressão, e que eles haviam combinado que não me contariam para que eu não sofresse como eles haviam sofrido, Taylor mal se lembrava de Megan, era o nome escolheram para ela, pelo menos por algumas horas. Não sabia o que pensar, não sabia o que fazer, apenas fiquei olhando para minha mãe que relembrava os momentos do qual ela vivera.
–Como você descobriu? -ela perguntou incrédula.
–Bom, deixar essa foto no meu armário não é uma ideia muito inteligente para esconder isso de mim.
Acordei no meio da noite, depois de um horrível pesadelo. Acordei suando frio, como queria ir para o quarto dos meus pais, como fazia quando era menor. Como temia, o que estava por trás do que eu não podia ver, por trás do tão enorme escuro que cobria o meu quarto. Liguei o abajur que estava ao lado da minha cama. Não havia nada além de mim, uma cama e muita bagunça espalhada pelo quarto. Voltei a dormir, foi uma tentativa fracassada, fiquei rodando de um lado para o outro na minha cama.
Peguei um livro que comprara há três anos, abri na primeira página, porém não li nem o primeiro parágrafo, não gostava de ler, não suportava parar no meio do dia e abrir um livro, ficar parado lendo, era um completo desperdício de tempo. Então fiz o que eu fazia de melhor depois do incrível nada, liguei o computador e comecei a jogar com algumas pessoas de todas as partes do mundo.
Minha mãe entrara no meu quarto, gritando que era para eu acordar, estava atrasado para a aula, meu cérebro não estava funcionando direito, ele nunca funcionava quando eu acordava antes do meio-dia.
Minha mãe, quando eu levantei, começara a rir na minha cara, perguntei várias vezes o motivo do riso, mas toda vez que ela tentava falar, era interrompida pelo seu riso escandaloso. Então tudo começou a fazer sentido, estava de férias. Hoje não tinha que ir trabalhar, então ficaria de bobeira enquanto tentaria bolar um plano, tinha que descobrir quem Megan era. Noah provavelmente ainda não estaria acordado, então tentei voltar a dormir.
–Então cara, hoje quando acordei, antes de você chegar, procurei várias garotas com sobrenome Walker, porém depois quando eu pensei direito, percebi que ela não estaria registrada com esse sobrenome, óbvio. –ele parou para respirar, notava como ele era genial. –Então pensei que poderíamos visitar o hospital que você nasceu e olhar as fichas. O que você acha?
Fiz que sim com a minha cabeça, então seria isso. Aí que nós começaríamos. Era aí que daríamos o primeiro passo. Se eu estava ansioso? Tenho que admitir, sim.
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