O Arquivo Secreto - Chave de Sangue
3 Entre guerra e paz
Esconderijo subterrâneo...
Após o fracasso da missão, restou a Nymeria ir para seu lugar secreto e apenas cuidar de seus sérios ferimentos antes mesmo de pegar uma infecção. Logo, ao sair por aquela porta dos fundos da simpática doceria, a garota recebera uma ligação do chefe, o tom de voz do mesmo não era nem um pouco agradável e parecia não estar disposto a aceitar as perdas daquela tarde conturbada. Nymeria seguia ferida e completamente açucarada, com os cabelos e roupas totalmente sujos de glacê, dentre outras coberturas deliciosas. Sorte ter um lugar para ir. Uma casa não seria conveniente a uma pessoa fugitiva, muito menos um apartamento, por isto, optou por permanecer em um buraco imundo, desorganizado e com pessoas de pouca confiança. Ainda com uma dor excruciante na perna atingida, com muito esforço, esgueirando-se através dos becos da cidade, a garota encontrara o que mais desejava: Uma enorme e redonda tampa de ferro para o esgoto da cidade, onde rapidamente abriu-a e jogou-se para dentro.
O mau cheiro era torturante, como se estivesse mergulhada num rio de fezes, mas para sua sorte, onde caíra estava apenas húmido e ainda corria uma pequena corrente de ar por ali. Qualquer pessoa que estivesse naquele lugar, precisaria respirar devagar e ordenadamente, o local abafado poderia proporcionar um bloqueio de ar exageradamente intenso. Por todas as cidades há bueiros e esgotos subterrâneos, mas este em especial, abrigava alguns dos melhores contrabandistas de todo o mundo, Nymeria seria um deles, porém, fazia bastante tempo que não voltara ali. Uma porta logo à frente sugeria que a garota já estivesse no lugar correto, onde cravada nela havia um aviso de ''Proibida a entrada sem permissão''. Ao chegar próximo, uma expressão de alívio tomou conta de todo o rosto da moça, e então batera na porta até seu punho começar a doer.
— Apenas pessoas com autorização! Não leu o aviso? Idiota. — Dissera uma voz rouca e familiar do lado interior da porta, fazendo um sorriso delinear-se nos lábios de Nymeria.
— Logan, sou eu! Abre logo esta porcaria ou arranco sua mão. — Disse, logo encostando-se ao lado da porta.
— Impossível não reconhecer esta simpatia só pela voz! — Respondeu-a, logo abrindo as enormes fechaduras de aço que haviam do lado interior, e ao ver o estado deplorável da moça, espantou-se. — Mas que diabos aconteceu com você? — Gargalhou da situação e então continuou. — Parece que brigou com a fada madrinha do açúcar e com o papai Noel do glacê! Mas acho que este da perna vai precisar mais de um curativo do que do açúcar. — Brincou.
— HA HA HA! Engraçadinho, merece o Oscar pela bela representação de idiota. — Rebateu. — Se não estivesse cansada demais, arrancaria seus olhos e dava para as crianças do orfanato brincarem. — Um sorriso tomara conta de seus lábios. — Me ajuda? — Indagou. O homem não pôde conter a gargalhada, achava as ironias de Nymeria as maiores piadas.
— Claro que faria isso, eu sei que faria. Não tenho dúvidas sobre isto! — Respondeu-a, olhando fixamente seus olhos claros. — Sim! Vem, vou te ajudar. — Disse, segurando em seu ombro e guiando-a até uma sala confortável, feita especialmente como um ambulatório.
O ambiente era completamente bem iluminado com lâmpadas super fortes, nenhuma janela, apenas a porta como saída. Todas as paredes pintadas de branco, no chão, azulejo na cor branca também. Lá, continham algumas prateleiras de madeira pura portando vários remédios, gases, dentre outros equipamentos importantes. No canto esquerdo, uma maca grande com um colchão um pouco mais confortável do que os normais em hospitais, e também um pouco menos calorento que o mesmo, pois era climatizado para proteger os antibióticos do calor excessivo. O homem abrira ligeiramente a porta para Nymeria entrar.
— Entra, pode sentar, vou cuidar disto para você. — Dissera para a garota.
— Tudo bem, eu espero, não posso correr mesmo... — Ao citar tais palavras a moça não conteve uma pequena risada. Fazia tempo o bastante que não aparecia naquele local, gostava de aparecer na pior das situações, assim, não podendo ser encontrada por quaisquer pessoas. Nymeria sorriu ao examinar o local, logo em seguida sentando na confortável maca. — Nossa! Nunca percebi o quão confortável este lugar era. — Disse em um tom surpreso. O rapaz examinava as gavetas à procura de pequenas faixas de pano e um pequeno vidrinho de antisséptico para limpar a ferida da moça.
— Pois é, faz muito tempo que você não vem aqui, sumiu. — Dissera. — É que fizemos algumas mudanças para melhor, ou algo parecido. — Acabara de achar os equipamentos e então fora de encontro à garota, puxando uma cadeira de lado, logo examinando o ferimento de sua perna. — Isso tá feio. O que foi que você aprontou desta vez, garota? — Sorriu para a mesma e então, de imediato, começara a limpar a ferida de Nymeria. Para ela, tudo estava totalmente mudado.
— Me desculpe não ter aparecido com o vinho e o queijo para o Natal! — Sorriu e então continuou. — Tenho a absoluta certeza de que fora para melhor. — Respondeu-o. Agora, ela olhava fixamente para os traços do rapaz. Ele era alto, pálido, loiro e bastante forte, além dos olhos extremamente verdes e chamativos e com detalhes que ela adorava em qualquer um, as tatuagens. — Sabe que não te interessa, não é? — Disse. — Mas sou legal demais para não te contar. — Sorriu e deu um longo suspiro. — Comprei briga com uma agente especial, não sei... Ela era tão devagar que chego a desconfiar de que realmente era especial. — Largou esta piada no ar e esperava o rapaz esboçar qualquer reação, qualquer uma. Ele sorria como se as piadas da garota fossem a coisa mais engraçada do mundo, o que não era verdade.
— Sei... Você é generosa demais. — Agora, olhava fixamente para os olhos da moça. — Não é novidade que compre briga com uma pessoa desconhecida, e ainda mais se esta for perigosa. — Dissera-lhe.
— Ela não é perigosa. — Falou, pausando para um suspiro longo quando Logan apertou uns gases limpos sobre a ferida. — Eu que sou. — Terminou, observando o garoto enfaixar sua perna, terminando também o curativo.
Logan levantou-se para poder repor os objetos no lugar devido, mas antes, sentando-se ao lado da maca um pouco mais perto de Nymeria, onde poderia enfim matar a saudade. Antes que a moça pudesse esboçar qualquer reação, ou até dizer algo, o rapaz selou seus lábios nos da garota com um beijo, afagando seus cabelos ainda sujos de bolo e bastante açúcar.
— Tome mais cuidado. — Ordenou, levantando-se e logo em seguida saindo da sala bem iluminada.
Rua Foret-Nöire, apartamento cinquenta e quatro...
Chegou ao apartamento completamente fadado por conta do dia longo, cansativo e nada produtivo, mas tudo fora recompensado pelo tecido que encontrara da tal garota ruiva que desferiu-lhe um tiro. Avalon estava sentado e pensativo, neste momento, descalço, despido de seu terno e sua camisa alinhada. Esperava a máquina escanear o pano que trouxe consigo, com alguma sorte, aquela análise sairia mais rápido que o normal. Ao bipe da máquina, levantou-se e foi de encontro ao objeto, estava ansioso para ver quem era a tal mulher corajosa. Surpreendeu-se ao saber que também tratava-se de uma outra agente especial, e Avalon agora estava sabido de que, certamente, o pacote que a mesma estava carregando era o arquivo que foi lhe dado o trabalho de busca. E ao julgar pelos pequenos cortes e por toda sujeira, outra pessoa também estaria interessado no mesmo. Mais pessoas envolvidas, mais trabalho, mais cuidado.
O homem pôs-se a pensar e a circular por toda a extensão do apartamento aconchegante, tentando finalmente ligar os pontos: "Garanto que a garota que atacou a agente também era uma... Ou não. Claro que outras pessoas saberiam que alguém sairia com o arquivo naquele dia, mas nenhuma fora ousada o bastante para atacar... Nenhuma pessoa normal conseguiria quase parar aquela garota, por que... Já que foi dado a ela o trabalho de transportar o arquivo, ela deve ser muito boa no que faz, ou não, pois quase fora pega. E a pessoa que a parou, também... Só pode ser mais um de nós. Mas... Porque estamos lutando entre si? O que será que as agências pretendem?" Parou, finalmente, entendendo por sua vez, o que estava oculto... Até agora. Querem nos apagar dos registros!
Avalon nunca se sentira tão traído quanto naquele momento. O que fazer? Talvez fingir, ou até roubar a pasta e deixar que os prédios virassem uns contra os outros, travando uma guerra inacabável entre si. Aquilo estava começando a ficar muito mais complicado do que o normal de todas as outras tarefas. O homem ainda não se decidira sobre o que realmente faria, quando o bipe irritante do celular atrapalhou sua decisão. Deixou o scanner fazer o que tinha de ser feito, e ao ser redirecionado a seu chefe, agiu como se nada tivesse acontecido.
— Avalon! Soube que falhou na missão. Como deixou isso acontecer? — Escutou o homem do outro lado resmungar, e só se irritou mais ao perceber o tom de indiferença na voz do mesmo.
— Não pude evitar. Haviam mais pessoas envolvidas. — Rebateu, sem deixar transparecer sua irritação.
— Não deixe que isso se repita! Quero este arquivo na minha mesa, amanhã! — Ordenou o homem, logo encerrando a chamada.
Por quanto tempo conseguirá trabalhar para o homem que deseja lhe ver morto? Perguntou-se ao jogar o celular para longe. Avalon com certeza não iria deixar isso barato. Deve ter um motivo, e talvez a mulher saiba... Levantou-se, indo novamente de encontro à máquina, onde a foto da moça já estava aberta. Com alguns programas e códigos, Avalon conseguira algumas informações extras sobre a mesma.
— Maggie... Você vai me revelar algumas coisas... — Sem mais demoras, vestiu-se adequadamente e seguiu para as torres schlange, mais precisamente para a torre dois. Não tinha ideia do que iria fazer lá, mas com certeza iria fazer umas boas descobertas.
Hotel do outro lado da rua, avenida principal...
Maggie finalmente estava acordada, totalmente descansada e recuperada, mas com algumas manchas roxas que surgiram em seu corpo por conta das pancadas que havia tomado, obrigou-se a se levantar da cama e ir tomar uma ducha. Não queria deixar aquele quarto luxuoso, pois teria adorado a cama macia e a ótima comida. Com seus trajes imundos e totalmente rasgados. decidira não usar as roupas do dia anterior, então pegou uma das cortinas vermelhas que enfeitavam as janelas do quarto e manipulou-a até se tornar um vestido. Decididamente, pegou a pasta preta que continha o arquivo e saiu para devolve-la diretamente ao seu chefe, não iria cometer a loucura de tomar conta, poderia ser perigoso demais e não gostaria de sujar seu cabelo ou ganhar novas manchas em sua pele. Saiu do hotel e seguiu caminho até sua corporação.
Ao chegar à frente da torre, atravessou a porta de vidro que dava acesso para o lado interior e, como de costume, cumprimentou a garota que tomava conta da recepção. Reparou num homem sentado, lendo um jornal e passou para o corredor com o arquivo ainda em mãos. Maggie odiava andar por aquele corredor, era comprido demais e pouco largo, continuou a andar de cabeça erguida, quando foi surpreendida com uma larga mão tampando sua boca, e automaticamente, sua respiração.
— Não grita, por favor. Eu não vou te machucar. — A voz de um homem sussurrou em seu ouvido. — Tenho assuntos importantes para tratar com você. — Terminou, logo soltando-a.
— O que você quer? — Disse, virando-se para olhar bem o rosto do homem, achando-o um tanto familiar, porém, nunca deixando a desconfiança de lado.
— Não posso falar aqui. Vem comigo. — Disse o homem virando-se para sair do local.
— Não vou ate saber do que se trata.
— Você quem sabe... Se não vai por bem, vai por mal.
Maggie gritava, se debatendo nas costas do homem e dando socos para tentar soltar-se, e quando cruzaram o saguão de entrada, observaram as pessoas trocando olhares curiosos postos sobre eles. Muitos até assustando-se e logo se pondo de pé.
— ME LARGA! AJUDEM-ME, NÃO FIQUEM OLHANDO AÍ PARADOS, IDIOTAS. — Gritava a moça para as pessoas.
— Desculpem! Às vezes os maridos têm que decorrer a certos tipos de atitudes extremas. — Disse o homem, dando um sorriso extremamente falso e logo saindo da torre com a garota posta nos ombros, deixando os que estavam ali, boquiabertos.
Em algum estabelecimento abandonado no centro da cidade...
Maggie finalmente havia parado de lutar para soltar-se dos braços do homem, quando ele a pôs no chão. O local estava totalmente decadente e escuro, era ainda maior do que a doceria que havia destruído com a ajuda da outra mulher alta e loira, porém, bastante quente e abafado. A garota encostou-se numa parede e ficou a fitar o homem de terno preto, era incrivelmente familiar e isso poderia significar que Maggie estivesse em perigo total, ou não. Onde fui me meter...
Avalon não a teria levado a força se o assunto não fosse tão importante, mas era óbvio que Maggie não sabia, por isto o escândalo da recepção. Neutro, esta era a expressão do homem diante a moça. Maggie lutava para controlar a língua, ou para não ataca-lo com socos ou palavras agressivas e que não pertenciam ao vocabulário de uma dama. Ela estava prestes a perguntar o motivo de ser arrancada de onde estava de tal maneira bruta, quando Avalon quebrou o silêncio.
— Eu sei que é estranho, mas temos problemas em comum. — Disse, puxando um caixote e logo em seguida sentando sobre o mesmo.
— PROBLEMAS CONJUNTOS? — Gritava a moça, impaciente e sem saber o que estaria fazendo naquele local. — EU NÃO TENHO PROBLEMA ALGUM COM VOCÊ! SE QUER SABER... EU NEM TE CONHEÇO, SEU CARECA ESQUISITO! — Terminou.
Avalon estava começando a aborrecer-se com a garota, pelo visto ela não estava disposta a escutar ou a colaborar.
— Eu sei que você está transportando o arquivo... — Neste momento, Avalon levantou-se e ficara o mais próximo possível da moça, que logo esboçara uma expressão de susto, e então continuou: — Sei também que levou um tiro e que supostamente fora atacada por outra pessoa interessada neste. — Concluiu, logo afastando-se um pouco. — Agora... Se for burra o suficiente para não acreditar em mim, pode ir embora. Tenho certeza de que o FBI vai adorar saber seu nome! — Neste momento, um sorriso maldoso formou-se nos lábios do homem.
As cartas estavam na mesa, bastava que Maggie concordasse em escuta-lo. Ambos corriam risco de vida, mas talvez Avalon apenas estivesse preocupado em ferrar com quem tivesse armado tudo aquilo. Depois de tantos anos de serviços prestados, como poderiam eliminar dois agentes com um plano totalmente falho e vagaroso? Absolutamente nada fazia sentido naquele momento.
Ela ouvira todas as palavras com bastante atenção, mas Maggie tinha seus princípios, e não iria cair na lábia de um sujeito qualquer. A moça sabia se cuidar bem, mas não sabia onde ele pretendia chegar com aquela conversa muito pouco convincente. Talvez fazer algumas perguntas antes de entrar no assunto, talvez aquilo fizesse parte de um plano para roubar o arquivo, então logo resolvera entrar na conversa com ele.
— É mesmo? E se eu disser que não estou com a pasta? O que vai fazer, bonitão? — Disse, cruzando os braços em seguida.
— Eu direi que está mentindo! — Afirmou. — Pergunte-me como sei disto.
— Como? — Indagou.
— Por que eu te baleei naquele dia! — Agora, ele sorria diretamente para ela.
— Então... FOI VOCÊ! — Maggie apontara para ele. — Você que mandou aquela vadia me perseguir!
A raiva da moça aumentara ainda mais, desde que fora tirada a força de onde estava, mas Avalon apenas sorria, o que a fazia ficar muito mais furiosa do que já estava.
— Não. Eu não mandei ninguém te perseguir. E se realmente tivesse mandado... Com certeza não estaria aqui. — Aquelas palavras eram as mais sinceras de Avalon.
— E quem seria? — Indagou.
— Nossas agências!
— Como? Você só pode estar ficando louco, não é? Espera mesmo que eu caia nessa conversinha?
— PUTA MERDA! — Avalon não conseguira controlar-se, levantou-se e pôs Maggie contra a parede. — EU ESTOU TENTANDO SALVAR A SUA VIDA! SERIA LEGAL SE COLABORASSE UM POUCO!
O tom de voz assustara a moça, que não teve nenhuma reação ao ser colocada contra a parede, a não ser olhar nos olhos de Avalon.
— TÁ LEGAL! Tudo bem, estou disposta a escutar! — Dissera em meio ao desespero do homem. Ela não tinha opção alguma.
— Ótimo... — Disse, dando um longo suspiro. — Senta aí! — Ordenou.
Estar sem opção não era legal para ninguém, principalmente para Maggie, que fora um tanto descuidada em aparecer na própria agência, ainda levando consigo o arquivo mais importante de todos os tempos.
Avalon novamente tornou a sentar-se no caixote velho e empoeirado, enquanto aguardava Maggie fazer a mesma coisa, e quando feito, ele deu início a conversa.
— Bom... — Começou. — Não sei como isso tudo foi planejado, mas as agências com certeza pensavam que seria muito fácil colocar-nos uns contra os outros, para que nós mesmos nos matássemos. Você foi designada para transportar e eu para impedir que você transportasse. Mas o que eu não entendo é... Quando te vi correndo, você já estava machucada, o que me faz concluir que mais alguém está envolvido nisso, estou certo?
Finalmente Maggie começada a concordar com tudo o que Avalon tinha dito. Mas ainda não concordava fielmente, então preferiu sonda-lo.
— AH! NÃO É VOCÊ O SABE TUDO?! PENSEI QUE SABIA QUEM ESTAVA ME ATACANDO. — Resmungou a garota e continuou. — Mas como você não sabe... Não me serve de nada. — Sorriu para o homem. — Então é isso, voltamos para a questão: Quem mais está envolvido nisso?
— É isso que iremos descobrir...
Esconderijo subterrâneo...
A locomoção de Nymeria era difícil, o garoto que cuidara dela havia feito um bom trabalho, mas era o tempo que teria de esperar para que cicatrizasse a ferida que incomodava a ladra. E depois de Logan tanto pedir para que ficasse por lá, a moça finalmente resolveu aceitar. Fazia anos que não ficava em um lugar por muito tempo, e tudo já estava agoniando-a, queria voltar para as ruas o mais rápido que podia, mas não podia... Por enquanto.
Ficou sentada em alguma maca, sem nenhuma ação, ou algo que poderia fazer para que seu tédio passasse, quando finalmente resolveu acabar com tudo aquilo. Precisava ver o que se passava fora daquele buraco. Decididamente, pediu para uma pessoa qualquer abrir a grande trava que fechava a porta principal, e logo ao sentir o odor do túnel, uma náusea absurda tomou conta da garota. Pensou um pouco, e finalmente mergulhou na escuridão, escutando a porta trancar-se atrás de si. Foi andando e procurando alguma tampa de bueiro para sair daquele lugar, e quando encontrou, não hesitou em pular fora. Foi bom respirar ar livre, esperou sua visão se acostumar com a claridade. Já caminhando pelas calçadas e observando atentamente a seu redor encontrou o que estava louca para reencontrar.
A garota ruiva estava sentada numa das cadeiras da praça, e sozinha, como de costume. Nymeria resolveu confrontá-la, se esgueirou para trás da moça e enrolou seu braço no pescoço da mesma, apertando-o para não haver chance da mulher se esvair.
— Agora eu vou te matar, e que se dane a missão. — Disse, apertando ainda mais o pescoço da outra.
— Espera aí, você disse “missão”? — Se assustou Maggie, já sem ar.
— Disse, e daí? Ou você acha que é a única agente envolvida nisso? — Antes que pudesse acabar logo com a vida da moça, uma voz masculina surgiu atrás de Nymeria, juntamente ao barulho de gatilho.
— Ela não acha nada. Eu que acho que você vai ter que nos acompanhar. — Ameaçou, logo enfiando uma agulha no pescoço da garota, fazendo-a cair.
— POR QUE DEMOROU TANTO ASSIM? AQUELA DOIDA IA ME MATAR! — Gritou a ruiva.
— Cala a boca e me ajuda a colocar ela dentro da mala do carro. — Ordenou Avalon.
— E por que eu faria isso?
— Porque senão vai acabar como ela, só que num caixão. Só para deixar claro.
Foi o suficiente para que Maggie obedecesse, pegou pelas pernas da garota e ajudou o homem colocá-la na mala do carro, seguindo caminho para o apartamento de Avalon.
Rua Foret-Nöire, apartamento cinquenta e quatro...
Nymeria foi despertando durante a trajetória, mas ainda grogue demais para fazer algo, então só deixou-se cair no sono novamente. Ao chegar ao apartamento, Avalon e Maggie amarraram a garota na cama, Maggie por sua vez ficou esperando a menina acordar, enquanto Avalon fora concluir algumas outras coisas. A garota ruiva só comemorou por não ficar sobre a pressão das ameaças de Avalon pelo menos por um momento, roubou uma das bebidas do homem, e se largou na poltrona para ter algo para fazer enquanto a outra não acordava.
Não demorou muito para Nymeria despertar, Maggie ainda estava na primeira garrafa de uísque. A moça loira se assustara ao perceber que estava amarrada, mas não fez nada para tentar se livrar das cordas, ainda estava cansada demais.
— Você tem uma cara de sapatão. Você é sapatão? — Perguntou Maggie.
— Sapatão é a sua mãe!
— Veremos... — Maggie levantou-se, se livrando da garrafa vazia e também de seus trajes. Subiu em cima da cama que a outra estava amarrada. — Vai dizer que você não gosta disso? — Pôs-se a dançar em cima da garota.
Quando tudo estava ficando mais interessante, Avalon rompeu a porta do apartamento.
— O que diabos você está fazendo? — Perguntou, observando a ridícula dança que Maggie estava fazendo. — Você bebeu o meu uísque? — Olhou a garrafa jogada no chão, e voltou para a garota ruiva. — Sai daí.
— Não.
— SAI LOGO DAÍ! — Gritou.
— Quem vai tirar?
— Gente eu to esperando. — Interrompeu Nymeria.
— Cala a boca! — Ordenou os dois ao mesmo instante.
Sem esperar muito, Avalon arrancou Maggie de cima da outra garota.
— Vai colocar uma roupa.
Maggie estava cansada demais pra revidar, então só fez o que lhe foi ordenado. Correu totalmente rabugenta para o closet do homem, pegando uma de suas camisas logo se vestindo. Voltou para junto dos outros, queria saber o que Avalon pretendia fazer com a garota.
— Mas o que... Eu desisto de você. — Falou o homem. Virou-se para Nymeria, que agora estava mordiscando as cordas. — E você, para com isso! — Falou, fazendo a garota se assustar.
— O que vocês querem? — Perguntou Nymeria.
— Eu quero te ver morta. — Provocou Maggie, sentando-se no chão com as pernas cruzadas.
— Sua opinião não conta, cala a boca e deixa que eu falo!
— Nossa! Como você é ranzinza. — Dissera-lhe Maggie.
— Bom... Deixa-me ir direto ao assunto. É o seguinte... As agências estão tentando nos matar. — Concluiu Avalon.
— É mesmo? E o que eu tenho a ver com isso? — Nymeria estava totalmente indiferente e perguntava-se o que ela teria a ver com as merdas dos outros dois.
— Isso inclui você na lista de morte também. — Respondera o homem.
— Ah! Entendo. Continua, por favor. Ta interessante.
— Nós precisamos saber o que está acontecendo, eu tenho certeza que NINGUÉM aqui nesse quarto deseja morrer.
— Então porque não me solta daqui?
— Sabe que eu não sei?!
— E se eu concordar com vocês... Vai me soltar, careca?
— Seria uma boa ideia, mas vou te soltar sim. — Decididamente, cortou a corda que a prendia à cama fazendo-a desfazer os nós por si própria. Avalon se dirigiu a porta, virando-se para dar um último aviso. — Irei dormir na sala, dividam bem a cama. E a propósito, quando eu voltar pela manhã, não quero penas voando pelo meu quarto.
— Só vai voar se você voltar aqui, frango. — Devolveu Maggie, fazendo Nymeria gargalhar.
No dia seguinte...
Avalon acordou-se mais cedo, como de costume, e ao perceber que as duas garotas ainda estavam dormindo, resolveu se vingar do insulto que recebera da garota ruiva no dia anterior. Pegou um pote e o encheu com água fria e mais alguns cubículos de gelo, entrou no quarto mais silencioso que nunca, despejando toda a água nas duas garotas.
— Acordem logo. — Falou, saindo do quarto para esperá-las na sala.
Não demorou muito para as duas levantarem-se, se reuniram para discutir como iriam foder as agências.
— Espero que seja um assunto muito importante para me acordar desse jeito uma hora dessas da manhã. — Resmungou Nymeria.
— Sua vida, que tal. — O homem soltou um risinho para a moça loira.
— Até porque nem é tão importante assim. — Intrometeu-se Maggie. — Você é tão cabuloso com essa história de vida ou morte. — Dirigiu-se a Avalon.
— Por onde começamos? Não sou de ficar muito tempo parada. — Disse Nymeria, sentando-se. — Eu odeio estragar a felicidade de todos, mas vamos precisar do arquivo, que por um acaso está com ela. — Apontou para Maggie.
— Maggie, me da o arquivo! — Ordenou Avalon.
— Não!
— Por quê? Diz logo onde o arquivo está!
— O que eu vou ganhar em troca? — Ergueu uma das sobrancelhas, fazendo o homem erguer a pequena faca que carregava.
— Ou diz, ou vou arrancar seu olho. — Ameaçou.
— Assim nunca saberá onde está o arquivo, mas como sou uma boa pessoa irei dizer. — Sorriu de canto. — O arquivo ficou na agência, quando você me trouxe a força. Agora vai lá pegar. Joguei dentro de uma sala, que você por acaso, não tem a chave.
— E você tem? — Perguntou Nymeria.
— Não. — Virou-se para Nymeria. — Mas posso pedir para que abram, o que não vou fazer.
— COLABORA GAROTA! — Gritou Nymeria, totalmente esgotada.
— Não até o Cavalon parar de me ameaçar! — Fez uma careta para o homem.
— Quem tava te ameaçando? — Perguntou Avalon, com a cara de desconfiado.
— Foi o que eu pensei. — Abriu um sorriso absurdamente grande, que jurou poder tocar as orelhas.
Torres Schlange...
Maggie entrou na agência ainda com uma das blusas de Avalon, havia pedido para que os outros a esperassem lá fora, pois poderiam desconfiar de algo, ou apenas olhar para a cara do Avalon e saírem correndo. Como sempre, acenou para a garota da recepção, e pediu para que um cara que viu andando no corredor abrisse a porta da sala que havia jogando o arquivo. Ao ver a porta aberta, logo entrou para procurar onde estava a pasta.
— O que está procurando? — Perguntou o rapaz, curioso.
— Nada demais. — Disse, logo achando a pasta embaixo de uma bancada. Pegou o arquivo, saindo da sala e também do prédio.
Adentrou o carro que estavam os outros, e seguiram caminho de volta para o apartamento. Maggie e Nymeria se jogaram nas poltronas, enquanto Avalon resolvera ir tomar um banho, e ao voltar para junto das garotas aparentava ser menos sério sem seus trajes habituais. O homem se apresentava com uma calça jeans, uma camisa regata branca e os pés descalços.
— Olha só, parece até gente, Cavalon. — Brincou Maggie.
— Eu conheço essa tatuagem... — Falou Nymeria, mostrando seu antebraço com o desenho da cobra tatuado.
— Eu também. — Disse Maggie, mostrando sua perna com o mesmo desenho dos outros.
— Tá aí algo interessante... Que tal nós abrirmos o arquivo logo? — Sugeriu, sentando-se junto as duas.
Maggie respirou, logo abrindo a pasta preta que dava acesso ao arquivo, fazendo Avalon e Nymeria se aproximarem para ver melhor. Não fazia sentido o que estava ali, mas poderia ajudá-los em alguma coisa. Apenas uma frase estava impressa no papel...
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