O Arquivo Secreto - Chave de Sangue
2 A emboscada
Dezesseis de janeiro, quarta-feira, 3035.
Interior de Königreich, hotel comodità.
Avalon residia por apenas alguns dias, em um hotel com pouquíssimos recursos no interior da cidade. Estava sentando sobre um enorme baú que havia logo à frente da cama que dormira na noite anterior. Pensativo, parecia aguardar algo ou alguma situação. Uma garrafa de uísque estava pousada sobre o pé da cama, segurava um copo meio cheio do líquido asqueroso, enquanto a outra mão alisava sua cabeça. O ambiente estava levemente aerado, se tivesse tempo, poderia passar mais alguns dias naquela demência e mansidão de lugar, muito embora estivesse odiando a decoração dali. As paredes tinham um tom de verde desbotado, com alguns pedaços de papel de parede rasgados, ou até caídos no chão, sob seus pés. Suas expressões eram pouco manifestadas na maior parte do tempo. Avalon tem a preferência de parecer neutro sobre qualquer situação. Entrar em algum ambiente fechado na maioria das vezes era desconfortável, pessoas o olhavam de cima á baixo e quase sempre fingiam não ouvi-lo fazendo com que o mesmo resolvesse deixar o ambiente.
Permanecia em sua diversão interior, quando levantara a cabeça e escutara o bipe do celular, provavelmente seria mais um chamado. Ergueu-se vagarosamente de onde antes repousava, pegou o aparelho e levou o mesmo até a altura de um de seus braços, onde tinha uma tatuagem na forma de uma serpente que enrolava-se desde o dedo do meio de sua mão direita até a altura do ombro, o aparelho escaneou o relevo sobre sua pele e automaticamente respondeu a chamada sem hesitar.
— Chamada de emergência... — Era apenas uma voz robótica, aguardou a chamada ser encaminhada ao seu chefe. O áudio estava péssimo, sendo interrompido por chiados agudos. — Gebürtig... Bomba... IMPEÇA! — Ordenava a voz do outro lado.
Isto bastou para que Avalon decididamente desligasse o aparelho e seguisse destino a sua missão. O agente desfez-se de sua simples camiseta branca e em seguida vestiu-se de coisas mais apresentáveis. Virou-se em direção a cama e pegou sua mochila, que por um acaso já estava pronta com seus objetos de trabalho e saiu do hotel em que estava hospedado, sempre mantendo sua discrição. Não se dava ao trabalho de olhar para ninguém, apenas acenava levantando um dos dedos da mão direita. Após algum tempo de caminhada pelas ruas da região deserta, dirigiu-se a um terreno baldio um pouco afastado do local que acabara de sair, e escondida ali em meio a uma vasta vegetação, encontrava-se sua moto de modelo clássico. Arrumou seus objetos em cima da mesma e seguiu viagem para Gebürtig, que não ficava tão longe de onde já estava, porém, muito mais populosa.
O sol já estava se pondo, quando finalmente conseguira chegar ao endereço desejado. Era simples, executar a tarefa e partir para sei lá onde, mais uma vez. Desta vez, fodam-se os hotéis baratos. Escutou novamente o bipe irritante do celular e afastou-se da multidão. Correu para um beco imundo e escuro, tinha um odor terrível de urina, mas tinha de atender o mais rápido possível, aquele lugar lhe parecia o mais seguro para atender aquela chamada. Deixou mais uma vez que o scanner fizesse seu trabalho e então escutou com atenção ás ordens.
— Mudança de planos! — Desta vez o sinal estava muito bom, quase impecável. Ouvira todas as palavras e logo em seguida franziu o cenho. — Agente cinquenta e quatro, quero que volte imediatamente.
— Em nome de Lúcifer, mas que diabos aconteceu agora?! — Não era de se expressar de tal forma, mas Avalon tentava entender o motivo da tão inesperada mudança na missão. Quem iria cuidar daquilo? Não era de questionar, mas sair de uma tarefa para outra... Não parecia seguro. Resolveu não questionar a ordem, ou poderia sofrer consequências. — Onde? — Indagou.
— Preciso que volte para a cede, agora! — O tom da voz no telefone transmitia um nervosismo incomum. — Só basta saber que é sobre o arquivo Z. Nada mais te interessa. Apenas volte e mantenha a discrição. — Concluiu a voz, logo encerrando a chamada.
— Era só o que me faltava! — Revirou os olhos e saiu daquele ambiente imundo, provavelmente algum bêbado havia defecado naquele local mais cedo.
O homem não precisou de muito tempo para pegar seu rumo de volta a cede. Parava em alguns locais para abastecer e comer, ou até desligar os pensamentos uma vez ou outra, porém, nunca permanecia por tanto tempo em cada um destes lugares. Discrição era uma qualidade, mas pelo porte alto, era meio difícil não chamar tanta atenção e isto lhe causava uma certa raiva de si mesmo, apenas por ser do jeito que é, pela sua aparência física.
...
Em algum lugar do litoral de Vollmond...
Maggie mais uma vez estava no meio de uma força tarefa, estava disfarçada de stripper em um bar luxuoso. Mas não era tão legal quanto a moça pensara que iria vir a ser. Seu trabalho era levar um perigoso ex-militar, que nos dias atuais viera a ser um grande contrabandista de armas de uso exclusivo para guerra. Não fora tão difícil chamar a atenção do alvo quando se é alta, esguia, ruiva e ter na área da perna uma serpente tatuada, o relevo mais perfeito que ele poderia enxergar.
A moça estava com toda a atenção que poderia esperar. Aproveitou-se da vantagem, o homem estava completamente enfeitiçado, a queria de todas as formas. Graciosamente, retirou-se do palco e conduziu o homem para os fundos da boate, onde havia um pequeno quarto, composto apenas por uma cama velha de casal e uma iluminação completamente decadente. Sem muitas palavras, jogou-o no resto de cama que estava logo á sua frente, retirou da mesinha de canto uma algema enfeitada com pelinhos e glitter. Se tudo viesse a dar certo, não precisaria tirar nenhuma peça da lingerie que estava usando, mas ela não se importava tanto com isso, ao contrário, aquelas roupas a faziam se sentir extremamente confortável. Sem mais demora, esticou um dos braços do homem por conta própria e o algemou na cama velha, empurrou-o mais uma vez para que continuasse calado e deixou escapar um sorriso de canto um pouco malicioso.
— Você é sempre tão quente assim?! — Ele a observava como um gato pronto para pegar o peixinho do aquário.
— Sim! Tão quente quanto a bala que eu vou enfiar nessa sua cara de porco se não calar essa boca imunda! — Levantou-se da cama e ficou de pé ao lado do ex-militar, observando-o, ele pôde ver um sorriso sádico formando-se nos lábios da moça. Fora interrompida com o bipe do celular. — Aguarda só um momentinho? — Sorriu ironicamente e completou. — Ops! Você não tem escolha. — Ligeiramente, deixou que o aparelho escaneasse sua tatuagem, então automaticamente a chamada foi atendida.
— Agente 315, volte imediatamente para a cede! — Disse, sem deixar transparecer o quão era importante o chamado.
A moça queria mais alguns minutos de liberdade, viver, talvez até sair para dançar ou embebedar-se até desmaiar e acordar na casa de algum desconhecido da cidade. Mas só conseguiu pensar em como aquilo poderia ser importante e acabar não obedecendo a um chamado que poderia lhe render muito mais respeito do que já tinha na empresa.
— Não precisa nem pedir um cafézinho, estarei na sua frente em questão de segundos. — Respondeu, logo encerrando a chamada. Girou o corpo novamente em direção á mesinha de cabeceira e de lá sacou uma colt 45 de ouro. — Gostou? — Perguntou para o homem algemado, mostrando a arma. — Presente por ser a melhor da agência, mas sabe... Acho que quem me presenteou com esta belezinha só queria me levar para cama, e sabe o que aconteceu com ele? Não? — A garota mirou no crânio do alvo e logo executou-o. — Que pena, acho que nunca saberá. Mas como eu sou muito boa eu irei te contar. — Deixou escapar um sorriso e levou os lábios até um dos ouvidos do homem morto. — Ele provavelmente está casado, fazendo churrasco num quintalzinho de uma casa minúscula e cuidando de dois filhos pequenos! — Jogou o cabelo para trás e saiu.
O som do ambiente estava suficientemente alto para despistar o som dos disparos, dando tempo suficiente para a fuga da moça. Saiu despercebidamente pela porta de entrada, não iria fazer a desfeita de sair pelos fundos. Nunca! Já vestida de seu sobretudo preto para esconder o corpo esbelto, retirou de um dos bolsos uma escuta e levou o objeto até a altura dos lábios.
— Está feito! — Seguiu apressadamente para a cede.
...
Königreich Wölfe, centro da cidade...
O movimento nas ruas era intenso e, como em toda cidade muito populosa, as pessoas eram descuidadas. Nymeria tomava proveito disto, roubando ou furtando pessoas, dependendo de seu descuido. O nome da ladra ecoava pelos departamentos de policia. A cada dia com mais um boletim de ocorrência para sua ficha criminal, estava se tornando cada vez mais difícil andar pelas ruas de Königreich. Com seus cúmplices infiltrados em todos os locais da cidade, não era difícil ficar sabendo de acontecimentos diários de agências adversárias. Nymeria era vantajosa sobre todas as coisas, inclusive em saber que as torres Schlange são três empresas adversárias, que tem como dever primordial esconder do resto das pessoas informações sobre um arquivo que eles denominavam "Z". A ladra só não sabia o que continha no arquivo, por hora...
Por alguns instantes, Nymeria aguardava um de seus informantes para a confirmação do vazamento sobre o arquivo Z. Seria muito perigoso encontrar-se pessoalmente com um deles, mas no momento a única coisa que lhe importava era a informação. Nunca saberia se de fato esta seria verdadeira, mas como nunca teria garantia disto, seria obrigada a arriscar seu disfarce. Um tiro no escuro. Para um agente especial, tudo é arriscado, mas para uma ladra de arquivos secretos que trabalha ás cegas para o mercado negro, tudo é questão de vida ou morte.
A garota já observara a alguns minutos uma figura misteriosa ao longe. Um homem alto de pele escura, estava com metade de sua face coberta por um capuz, mas ainda poderiam reconhece-lo se quisessem, mas talvez não quisesse se esconder. Tirou da bolsa sua câmera e disfarçadamente fotografou o homem por medidas de precaução. Esperava que aquela pessoa realmente trouxesse alguma informação de valor, caso contrário, não hesitaria em enviar as fotos para um outro assassino de aluguel. Notou que o homem a encarava de modo suspeito, agora, poderia apenas sair daquele local e sumir ou arriscar. Nymeria foi aproximando-se vagarosamente, até chegar a uma distância aceitável. Ambos encaravam-se.
— Você é Merynia? — Indagou o rapaz em um tom de sussurro. Aparentava estar nervoso o bastante para sair corrento a qualquer instante.
A ladra ficara surpresa com a pergunta. — Sim! O que tem a me oferecer, agente? — A garota ficou abismada com aquela situação, afinal, faria muito tempo em que um alguém a chamara pelo antigo codinome. Merynia é a mistura das letras do nome Nymeria.
— Tenho importantes informações sobre o vazamento do arquivo Z. — Dissera-lhe, mas sabia que não iria ser tão fácil convence-la a acreditar em poucas palavras jogadas ao vento.
Nymeria, uma pessoa incrivelmente esperta, temerosa e cabeça dura. Teriam uma conversa fácil e objetiva, caso contrário, ele acabaria em um caixão.
— O que impede que suas informações sejam falsas? Como posso saber se isto não é mais um truque daqueles agentes estúpidos? — A garota aproximou-se ainda mais. — Sabe... Este meu rostinho não combina naquele uniforme laranja. Eu não gostaria de gastar meu tempo jogando conversa fora com lésbicas. — Deixou escapar um sorriso irônico que logo se dissipou.
— Não poderei garantir, apenas estou aqui para trazer a informação. Acredite se quiser, esta é a verdade. — Sem mais nem menos, o homem retirou o capuz. Fazendo com que revelasse todo o resto de sua face que estava oculta. — Fontes seguras me alertaram de que o arquivo Z esconde a localização de algum objeto que pode mudar todo o destino da humanidade. Não fui informado do que era, mas também fiquei muito surpreso. O que poderia ser? Mais uma bomba? Acho que estes agentes incompetentes não estão mais dando conta do serviço. Por volta das 3 horas da manhã, irão transferir o arquivo para uma sala de total segurança, não é só você que quer pôr as mãos no documento.
Ouvira tudo atentamente, como sempre, todas as informações tinham algo de perturbador, mas esta... Era crucial saber onde estava se metendo, ou poderia se dar muito mal. Ficara inquieta pelo fato do homem não saber qual objeto mudaria a humanidade inteira. — Como pode não saber? — Lançou-lhe um olhar raivoso. — Esquece! Como sempre, terei de resolver tudo sozinha. Mas, obrigada! Estarei deixando você viver por mais algum tempinho. Adiós! — Antes de virar-se e sumir no mundo, Nymeria levou a mão nos lábios e logo em seguida soprou um beijinho para o moreno. — É bom começar a andar olhando para os lados, meu bem. — Sorriu e então desapareceu em meio ás sombras.
5 horas mais tarde, torres Schlange...
Nymeria estava confusa entre as sombras das torres Schlange. Não sabia ao certo onde ficar, decidira que ficar no meio delas seria mais fácil e rápido. A medida em que o tempo passava, o frio aumentava. Esperava por um descuido dos agentes que transfeririam o arquivo, e que a informação que lhe foi dada estivesse certa.
Depois de um bom tempo de espera, o primeiro agente havia saído da primeira torre, segundos depois um da segunda torre. Quando deu o primeiro passo em direção ao segundo agente, mais um havia aparecido, e pior, seu rosto era familiar a Nymeria. O terceiro agente, era de sua torre.
— Mas que merda é essa? — sussurrou para si. Nymeria agora sabia, já havia um plano para roubar o arquivo, e pior, se sentira traída por não ter sido convidada para aquilo. Só não entendia porque não a tinham dito. — Vão se foderem. — Resmungou, logo indo sorrateiramente atrás dos agentes.
A garota estava completamente por conta própria, mas como de costume, Nymeria sempre tinha um plano B em mente. Era orgulhosa demais para que deixasse aquelas pessoas levarem a informação sem ela ao menos dar uma olhadas. Se não agisse rápido, veria tudo aquilo indo embora, e sabia lá como iria recuperar. Aqueles agentes poderiam resistir, mas nunca iriam ser tão espertos a ponto de se safar da garota. Ela roubaria a informação de uma forma ou de outra. Não deixaria que alguém ficasse rico, podendo ela mesma vender e fazer sua própria fortuna através da desgraça dos outros. O que fazer? Várias formas de livrar-se dos agentes lhe vinham à tona.
Os três andavam alinhados, um após o outro, formando uma pequena fileira. Nymeria foi sorrateiramente aproximando-se do último dos homens na fila, com bastante cuidado, sempre prestando atenção onde pisava. Eles tinham um ponto fraco, a retaguarda estava completamente desprotegida. A garota possuía uma pequena adaga em mãos, suficientemente grande para atravessar um pescoço, e foi exatamente o que fez. O terceiro homem foi golpeado de surpresa, não teve a chance de se defender, nem ao menos conseguir olhar para trás. Antes mesmo que o corpo do homem encostasse ao chão, a ladra o segurou, logo arrastando-o para o interior de um beco imundo, jogando o corpo ao lado de um lixeiro. Sem pensar duas vezes, a garota retirou a roupa do homem e vestiu-a. Enrolou o cabelo em um coque e colocou também o chapéu que o mesmo usara antes de ser abatido por ela. Rapidamente se pôs atrás do segundo homem da fileira e, com um movimento imperceptível, torceu-lhe o pescoço. Levou o corpo sem vida do rapaz para junto do outro morto. Revistou a roupa do primeiro e do segundo, e não demorou muito para concluir que não estavam com o arquivo. A essa hora o que ainda restava já deveria ter descoberto que estava sozinho e que alguém estava atrás do arquivo, Nymeria deveria tomar mais cuidado. Foi ao encontro do que ainda restava e percebeu que o mesmo ainda se mantinha em formação, ficou atrás do agente, seguindo-o. Até que o homem virou-se, e logo percebeu que era uma impostora.
— VOCÊ?! — O homem se surpreendera e logo sacou uma arma de dentro do blazer. Nymeria já deveria esperar por aquela situação, e pelo espanto do agente, ele deveria estar com o documento.
— Esperava que fosse quem? O príncipe Encantado? — Em um ato de auto-defesa, chutou a mão do homem com a intenção de fazer a arma cair, e foi o que aconteceu. Chutou-o novamente na direção das costelas, e ao ver cair, correu para pegar a arma. Sem hesitar, disparou contra o crânio do mesmo. Revistou-o e achou um papel com uma mensagem impressa em letras grandes: "Tente outra vez." Praguejou alto o suficiente, Nymeria não aceitava ser enganada.
— FILHOS DE UMA PUTA! — Gritou.
...
Torres Schlange, corporação Mörder...
Avalon havia voltado o mais depressa que pôde, ainda estava aborrecido por ter abandonado sua missão em Gebürtig. Ainda não sabia o que era tão importante sobre o arquivo Z, mas já ouvira rumores sobre o arquivo ter sido transportado para algum lugar desconhecido. Como isso é estranho. Não esperou ser chamado, foi diretamente à Sala do Chefe. A sala tinha no lugar da porta uma grande cabine de reconhecimento, que ao entrar um scanner era ativado, reconhecendo cada um que ali adentrasse.
O homem adentrou a cabine, e jurou ter ficado enjoado de tantas voltas que deu para finalmente, ser reconhecido e ter a permissão de entrar. A Sala tinha pouca iluminação, e uma grande parede de vidro estava posta no meio dela. Se via apenas a silhueta do que se dizia seu chefe, todavia, podia-se ver perfeitamente do outro lado. Uma luz de piso estava encostada à parede de vidro, e uma cadeira de ferro estava virada para a sombra de seu chefe.
— Demorou para ser reconhecido, agente 54. Acho que se ainda tivesse cabelo, a máquina te reconheceria mais rápido. — Brincou o Chefe, gargalhando em seguida.
— Muito engraçado. Eu também poderia fazer uma piadinha idiota se pudesse ver como você é de verdade. — Deixou escapar um sorriso irônico, que rapidamente de dissipou.
— Oh! Porque será que eu não consigo sentir dó de você? — Questionou. — Vamos logo ao assunto. É o seguinte, tivemos noticias de que o arquivo Z estaria sendo transportado para melhor segurança. Mas a verdade é que os documentos irão ficar nas mãos de algum agente muito importante. O problema é que não sabemos de qual agência e nem que agente será. Traga o arquivo e a pessoa que está transportando-o. E o mais importante, em hipótese alguma, deixe que alguém veja o que está dentro da pasta.
— Entendido. Só vou precisar de uma coisinha...
...
Torre dois, corporação Löwen, duas horas da tarde, ou sabe-se lá...
A garota voltara correndo quando soube que o chefe a desejava de volta na corporação o mais rápido possível para resolver assuntos pendentes, ou sabe-se lá o que. Maggie estava indo o mais rápido que podia ir, estava a pé. Para sua decepção, toda vez que pensara em comprar um carro, alguém aparecia para alguma tarefa de última hora. Mas não ligava muito, acabara acostumando-se á caminhadas longas, aquilo queimava todas as calorias de cachorros-quentes que comia.
Quando enfim chegara em frente ás torres schlange, adentrou na torre dois. Gostou de sentir o ar frio do climatizador do prédio, bom... Era ótimo estar em algum lugar luxuoso para variar dos lugares caindo aos pedaços que era obrigada a ir. O primeiro lugar que queria ir era a recepção, onde não demorou para chegar, cumprimentou a moça que estava ali e roubou um pirulito de cereja que ficavam dispostos para os mais importantes. A moça poderia abrir a boca para questionar o ato de Maggie, mas também poderia levar um soco e ir para casa mais cedo. A garota saiu saltitando até o elevador e subiu até o último andar da torre.
O último andar é o mais luxuoso dentre todos os outros. O piso completamente de cerâmica de mármore branca, com pilares no estilo da Grécia antiga, lustres enormes, feitos de cristal puro pendurados logo acima da cabeça de todos e janelas de vidro completamente transparentes, dando toda a visão para as outras duas torres. A sala que lhe era dada as missões ficava logo á sua frente. Dois seguranças ficavam dispostos em frente a porta, para garantir que nenhuma pessoa que se fizesse de esperto demais entrasse, mas para a sorte de Maggie, a maioria das pessoas ali dentro conheciam-na.
— Olá rapazes! — Largou um sorriso de canto altamente sedutor e entrou na sala á sua frente, mas não antes de ser reconhecida pelo scanner que tinha antes da porta.
Perto da porta continha um dispositivo que reconhecia todos os agentes, infelizmente até ela teria que passar por aquilo. Ficara de lado para o scanner, que logo veio a reconhece-la quando passou suas luzes de LED pelo relevo de serpente em sua perna. A garota não aguentava mais aquela sala, só naquele ano, teria visitado-a umas mil vezes ou mais. Para ela, era como a escola, divertida no começo, mas depois você não suporta mais todas aquelas pessoas com cara de idiota.
Sentou-se na cadeira de frente para o espelho e aguardou. Após alguns minutos, uma silhueta misteriosa foi se formando através de seus olhos. Sempre teve curiosiddade em saber quem era e como era. Talvez, por algum motivo, quisesse casar com o dono da corporação.
— O que achou de seduzir mais um criminoso, agente 315? — Disse a silhueta.
Ela se inclinou mais um pouco para frente. — Gostaria de também seduzir você se me der a honra. — Sorriu, olhando fixamente para o espelho.
— Acho que dispenso a oferta. — Disse. — Sua missão é transportar o arquivo Z. — Terminou.
A garota ficara um tempo calada, pensava no por quê daquilo. — Isso pode ser perigoso. O arquivo Z. — Respondeu.
— Sim, mas te renderá um bônus especial. — Ele esperava que a moça aceitasse sem mais perguntas, e foi exatamente o que aconteceu.
A garota sorriu e respondeu. — Foda-se, eu aceito. — Cruzou as penas e ficou esperando mais algumas informações.
— Você sairá daqui carregando o pacote, tome o máximo de precaução possível. Tenho certeza de que muitos iram querer te machucar, não sei... — Continuou. — Use roupas mais comportadas da próxima vez. Tente chamar menos atenção. — Disse.
— Eu faço o serviço e decido minhas roupas, você só cala a boca e me paga. — Levantou-se.
— A pasta está com um dos seguranças do lado de fora da porta, após pega-lo, não deixe que ninguém veja seu interior. — A silhueta foi desmanchando-se diante de seus olhos.
— Tudo bem, chefão. — Sorriu e levantou-se, de imediato, indo pegar seu pacote e depois desaparecendo com ele.
...
No dia seguinte...
Na espreita de uma ruela estava Nymeria. Já fazia algum tempo em que a moça estaria lá, aguardando algum movimento suspeito. Observava tudo o que acontecia em frente dali, pessoas, carros, motos, até crianças, tudo era exagero, mas não poderia cometer um descuido. Tudo parecia suspeito, absolutamente tudo. Desta vez teria de agir sem armas, não poderia simplesmente matar alguém, isto poderia complicar ainda mais a sua situação diante da polícia local e diante outras pessoas que queriam elimina-la. Encostada em um muro, a garota já estava ficando um pouco entediada, resolvera que seria muito melhor rondar o quarteirão, um pouco arriscado mas faria aquilo.
Alto de um prédio qualquer...
Se estivesse no lugar certo, tudo iria conspirar a favor de Avalon. O homem acabara de ficar a posto no alto de um prédio, mas não tão alto quanto as torres schlange. Montara rapidamente sua sniper no parapeito e olhava as pessoas no meio da rua através da mira na arma. Sua virtude era ser um pouco paciente, com este resto de paciência, poderia aproveitar para esperar porque com certeza aquilo demoraria um bom tempo, e não seria fácil de achar um alvo em menos de meia hora. O calor estava insuportável, mas Avalon nunca deixara de usar seus ternos caros e sua gravata preferida, na cor vermelha. Em apenas alguns minutos, o homem já estava bocejando de tanto tédio. Nada aparecera e tudo indicava que iria demorar muito mais.
Ruas de Königreich...
No dia anterior Maggie passara a noite em uma pensão escondida de tudo e de todos. Aproveitara para dar uma passada em algumas lojas locais e parecia ter acatado as ordens do chefe, vestida de uma calça jeans com lavagem escura, um salto alto na cor preta, uma camiseta branca e uma jaqueta preta com uma fivela de prata no meio, muito embora não precisasse da fivela para fechar a jaqueta, o sol estava muito quente.
A moça desfilava pelas ruas com o pacote em mãos, achava que se andasse escondendo-o, chamaria muito mais atenção do que ficar por aí com ele á mostra. Fazia pequenas paradas para olhar algumas vitrines, as tendências do verão, vezes ou outras entrando em lanchonetes ou bares. Algumas pessoas curiosas, na maioria das vezes, velhos bêbados a perguntava o que seria aquilo que carregava, mas nunca prestava atenção no que diziam, apenas saía do local e começava novamente a caminhar.
Os olhos de Maggie eram fixos em qualquer coisa que viesse em sua direção e tivesse cara de psicopata. A garota pensava em como poderia aceitar um trabalho tão complicado e de alto risco, mas estava começando a desconfiar de que naquela pasta não continha nada. A tentação de espiar as folhas era enorme, mas continha-se para não cometer tal besteira. Ao longe, avistou uma moça alta, com cachos loiros, aparência delicada e traços perfeitos, como uma boneca. Maggie não se assustaria se não visse a garota seguindo-a desde o final da rua. Fingiu não vê-la e continuou andando em sua direção. Ao chegar o mais perto possível da loira, Maggie inusitadamente parou de andar e ficou parada, de lado, em frente á outra garota.
— O que você quer? — Indagou a ruiva para a garota loira e estranha, porém, não olhou-a nos olhos, continuou olhando para frente sem demonstrar quaisquer emoção.
A loira deixou transparecer um sorriso irônico. — Eu? Não quero nada. Por quê? Você tem alguma coisa a me oferecer? — Disse, rodeando a ruiva, que permanecia paralisada.
Maggie não sabia o que fazer, então apenas olhou-a nos olhos. — Não, eu não tenho nada. Então por que não faz o favor de sair do meu caminho e parar de me seguir? O que acha? — A garota deu um primeiro passo para continuar andando normalmente, quando a loira impediu-a colocando uma adaga á mostra, quase encostando-a na pele de Maggie.
— Está brincando comigo? Por que eu não estou brincando com você. — Sussurrou em um dos ouvidos da ruiva. — Posso te matar e pegar este pacote quando eu quiser. — Disse.
Maggie sorriu ao escutar as palavras ameaçadoras da loira. — É? — Voltou a fitar os olhos claros da moça, então aproximou seus lábios o máximo que pôde da boca da outra.— Quero ver você tentar! — Sorriu e colocou a pasta dentro da jaqueta.
Podia-se ver Nymeria estreitando os olhos com a raiva que surgia-lhe. — TÁ BRINCANDO COMIGO? — A loira gritou, despertando a atenção de alguns curiosos. Antes que Maggie pudesse reagir, Nymeria desferiu-lhe um soco do lado esquerdo da face, fazendo com que a ruiva virasse o rosto para outro lado.
Agora estavam do jeito que o diabo as queriam, se matando em plena avenida principal, dois quarteirões depois das torres schlange. Maggie endireitou-se e jogou seu corpo contra o de Nymeria, fazendo com que as duas atravessassem a vitrine de uma discreta loja de doces. Pode-se dizer que agora estavam açucaradas, com os cabelos sujos de uma mistura docemente cortante, cacos de vidro e glacê. A ruiva estava em vantagem no momento em que caíra sobre o corpo da loira, ambas com ferimentos leves. Instintivamente, Maggie tomou em suas mãos um pedaço de estilhaço de vidro e tentou empurra-lo contra a face da loira. Nymeria em auto-defesa segurava as mãos da ruiva, para que não houvesse chances de terminar retaliada naquele local, tentava empurrar a garota que estava sobre seu corpo para o lado, mas sem sucesso. Com aquela força seria impossível Maggie acertar o rosto da loira, então espetou-o na perna direita da garota, empurrando-o com mais força para penetrar na carne da outra, logo levantando-se e correndo para o exterior da loja, pedindo desculpas pela bagunça e sumindo, correndo em meio a multidão, enquanto as chances de Nymeria de roubar o arquivo se esvaíam em meio aos cacos de vidros.
...
Avalon ainda aguardava algum sinal de movimento, olhava no relógio á cada cinco minutos. Com a frequência da polícia ligada do seu lado, era mais fácil de conseguir algum sinal. A vontade de desmontar o equipamento e ir embora vinha á tona, mas continha-se para não colocar tudo a perder. O sol estava escaldante, o calor só aumentava a cada segundo. Se ficasse mais duas horas no mesmo lugar, poderia ter uma queda de pressão e desmaiar a qualquer momento. Observava com bastante atenção através da mira de sua arma.
— Vamos, vamos, apareça! — Sussurrava para si mesmo.
Um começo de ruídos na frequência policial indicava que algo estaria acontecendo, e quando ele menos esperava um policial deu início a sua caça.
— Código 274, depredação de uma loja na... Aveni... — Ouve uma interferência e Avalon deu um tapa no rádio. — Avenida principal! — Então concluiu-se o chamado.
O homem rezava para que fosse um sinal, estava quase distribuindo tiros para os cidadãos que passavam na sua mira. Avalon alisou a cabeça em desespero e quando deu um suspiro, que indicava sua perda do resto da paciência que continha, uma garota maluca, uma ruiva, vinha em disparada desde o começo da avenida. Ela carregava uma pasta com enormes letras vermelhas na capa. O que poderia ser? Bom, poderia ser qualquer coisa, desde um trabalho para faculdade ou até um contrato para uma empresa importante... Ou, a pasta do arquivo que Avalon estava tentando ter em mãos. A moça parecia bem desesperada na fuga. Ela tinha pequenos cortes na face, a blusa estava suja e o cabelo ruivo estava com algum tipo de sujeira que ele não conseguia identificar. Lembrou-se da frequência da polícia e resolveu arriscar, quem sabe aquela não seria a maluca que teria destruído a loja, e quem sabe aquilo que ela carregava não era mesmo importante.
Avalon esperava que ela parasse em algum ponto para descansar, o que não aconteceu de fato. A moça seguia correndo, sem nem olhar para trás. Avalon voltou a mirar na rua lá embaixo e colocara um dos dedos no gatilho, esperava que ela passasse bem na sua frente. Quando a moça aproximou-se do ponto em que o homem desejava, ele disparou contra a mesma, mas como a moça corria bastante, apenas conseguira com que o disparo passasse de raspão pelo ombro direito da mulher, e em seguida fazendo com que a mesma abaixasse, então, algo inesperado aconteceu. A mulher ergueu a cabeça até o ponto onde Avalon estava, como se tivesse adivinhado onde ele esteve por todo aquele tempo, então, surpreso retirou o rosto de trás da arma e encarou-a de onde estava, agora de pé. Sem hesitar, Maggie pôs uma das mãos atrás da cintura e de lá retirou uma arma, que logo disparou contra o parapeito do prédio onde Avalon estava, fazendo com que ele abaixasse com um dos braços protegendo sua face. Quando o homem voltou a olhar, a mulher já tinha desaparecido com a pasta.
...
Loja de doces, avenida principal...
Nymeria estava jogada no chão, ainda com aquele caco de vidro cravado em sua perna. O sangue começava a espalhar-se pelo chão, então, quando escutara o barulho das sirenes policiais, forçadamente teve de levantar-se. Arrumou os cachos loiros e sem pensar duas vezes, puxou o estilhaço que estava cravado em sua perna, fazendo mais sangue jorrar pelo chão.
— Vagabunda, você me paga! — Praguejou e saiu mancando através da porta dos fundos da loja destruída.
...
Naquela altura do campeonato, Avalon já tinha desmontado todo seu equipamento que estava no alto do prédio. Percorreu depressa as escadas e atravessou a avenida correndo com uma mala pendurada nas costas, e então chegou até a calçada onde atingira a mulher ruiva. Ele agachou-se e procurava qualquer sinal de DNA, talvez um fio de cabelo, uma gota sangue, um pedaço de unha, ou até pertences que teriam caído durante a fuga desesperada da mulher. Não sabia se tinha pego a pessoa certa, mas a forma que aquela mulher corria era totalmente desnecessária se não estivesse com algo de total importância. Com certeza ela era a pessoa que teria destruído aquela loja e desde então, estava fugindo da polícia.
Depois de algum tempo procurando, Avalon achara um pedaço de tecido bem minúsculo que poderia ser da blusa que ela estaria usando na hora que fora atingida, ou não. Muitas pessoas passaram por aquele local até ele descer do alto do prédio, mas arriscar era necessário, caso contrário, nunca acharia aquela mulher novamente. Por sua reação, era mais que óbvio que ela estaria carregando algo de muito valor e importância, não só para ela, como para outras pessoas também.
Sem manifestar algum tipo de reação ao encontrar o tecido, levantou-se de onde estava e tirou do bolso interno do paletó, um frasquinho transparente e jogou-o dentro. Arrumou a mala em suas costas e rapidamente entrou num táxi que estava logo á sua frente.
— Rua Forêt-Noire. — Ordenou, e então o táxi seguiu.
...
Assustada, essa era a palavra que descreveria Maggie naquele exato momento. Correndo desorientada pelas ruas da cidade, como se soubesse para onde ir. Onde passar a noite? Perguntava-se. Lembrou que ainda tinha o cartão da empresa com seu nome falso. Segurava em seu próprio ombro, que estava machucado pelo tiro que acabara de levar. Mas quem é aquele homem? E aquela mulher? Questionava-se, incrível como uma pessoa poderia ser surpreendida em uma tarde só.
A ruiva estava suja, com fome, sede e precisava proteger aquela pasta a todo custo. Mas onde? Sentou-se em um banco de madeira na beira da avenida para recuperar o fôlego. Estava nervosa e queria respostas. Não sabia o que continha naquele pacote, mas com certeza seria muito mais importante do que imaginara em todo este tempo. Enquanto estava descansando, correu os olhos por todos os lados de onde estava, certificou-se de que nem o homem, nem a mulher loira estavam correndo atrás dela. Foi quando avistou no lado oposto da rua, um hotel, bom e que parecia servir café da manhã. Não iria aguentar mais nenhum segundo correndo e com o ombro ferido, precisava cuidar daquilo, ou iria ganhar de presente uma bela infecção no local. Levantou-se e atravessou a avenida ás pressas, sem nem prestar atenção ao semáforo.
Ao adentrar no ambiente bem decorado, foi diretamente até a recepção, em que a moça olhou-a dos pés á cabeça. Como se fosse muito melhor do que a ruiva.
— Não estamos distribuindo jantar grátis! — Disse a recepcionista com um tom de superioridade.
— Escuta aqui! — Maggie lançou-lhe um olhar furioso e puxou a moça pela gola da camisa branca que estava vestindo, até que ficasse próxima o suficiente de sua face arranhada. — Eu aceitei um trabalho que parecia ser fácil demais, fui seguida, uma loira de farmácia me atacou em plena avenida principal, caí em um monte de caco de vidros e quando eu pensei que não podia piorar, levei um tiro de um idiota que nem conheço! — Maggie deu um longo suspiro e continuou. — Você ainda me olha desse jeito nojento e me diz que hoje não tem jantar grátis. — A ruiva encostou sua testa com a da recepcionista. — EU TENHO CARA DE QUEM PEDE JANTARZINHO GRÁTIS POR AÍ? — Esperava respostas, mas a recepcionista apenas balançou a cabeça em negação. — Você vai sorrir, dar boa noite e vai me dizer que a melhor suíte do hotel está disponível para a cliente mais especial de todo o mundo! — Terminou, logo soltando a farda da moça.
A garota estava assustada, mal conseguia digitar no computador á sua frente. — Boa noite. A suíte presidencial está disponível... — Ela deu uma longa pausa, suspirou e então continuou. — Para a melhor cliente do nosso hotel. — Completou. — Quantas chaves vai querer? — Perguntou, com a voz visivelmente trêmula.
— Olá! Boa noite, apenas uma chave por favor. — Sorriu e tomou a chave da mão da recepcionista. — Ah! Queime todas as outras, não se preocupe, eu pago o prejuízo. — Jogou o cabelo sujo para trás e pegou o elevador até o último andar, onde adentrou em seu quarto e jogou-se na cama junto a pasta do arquivo.
Diamanten
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